Hipocrisia: um câncer para quem julga?

31
out
13h17

hipocrisia Hipocrisia: um câncer para quem julga?Existe uma diferença entre o que é "discurso institucional" e o que são "ações práticas" na vida da gente. É aquela velha história do "faça o que eu digo mas não faça o que eu faço". Quem tem filhos sabe bem disso: nem sempre o que se ensina na teoria é o que os próprios pais conseguem fazer, executar, na prática. É do ser humano tentar ser "politicamente correto" o tempo todo.

O ex-presidente Lula vive hoje exatamente este contraponto de idéias sobre o tratamento de seu câncer na laringe, diagnosticado este fim de semana. Fazer o que disse quando era presidente ou fazer o que todos fazem?

Lembro-me bem que, quando ainda era "paciente" do Palácio do Planalto, Lula disse para o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que o tratamento de câncer no Brasil é o melhor do mundo. Mal poderia ele imaginar que seria personagem de uma história onde ele é o protagonista. O câncer na laringe do ex-presidente da república é mais que um problema perto das cordas vocais. É um problema que vira "calacanhar de Aquiles" para um homem público, acostumado a ser cobrado por tudo o que diz. O torneiro mecânico que se tornou presidente deveria voltar as origens e se tratar na saúde pública brasileira ou deveria seguir se tratando no hospital particular mais conhecido e mais caro do Brasil? Não demorou muito e a discussão foi parar na internet.

No dicionário a explicação é bem simples: a palavra hipócrita - vindo de hypocrisis, no latin - define aquele que finge ter crenças, virtudes, idéias e sentimentos que a pessoa na verdade não possui. E foi esse termo o mais usado para descrever o presidente Lula depois desse caso em fóruns, salas de bate-papo e redes de relacionamento.

Lula hospital Hipocrisia: um câncer para quem julga?

Lula chega ao hospital particular, em São Paulo, para sessão de quimioterapia. / Foto: R7.

É interessante como o juízo do que é ou não hipocrisia nos outros, acaba revelando a nossa hipocrisia. O ex-presidente Lula não mentiu: o tratamento público para câncer, no nosso país, apesar de todas as mazelas que enfrenta, ainda consegue ser referência mundial. Percebi isso, na prática, quando em Brasília fui diretor voluntário da Abrace, instituição que apoia pacientes infanto-juvenis e familiares destes menores, quando submetidos a quimioterapia, por exemplo. Só que ter o melhor tratamento para um mal não significa que o acesso a ele seja fácil. Um país pode ser larga referência no combate ao câncer sem necessariamente ter portas tão "largas" para quem precisa entrar nessa realidade de se tratar sem gastar nada. O presidente Lula sabe disso e, claro, não lembrou desse "pequeno detalhe" na conversa co o colega norte-americano.

Não acho que Lula tenha que por "obrigação moral" se tratar pelo SUS. E não estou dizendo isso apenas pelo prestígio alcançado em sua trajetória política: prestígio não regride tumor de ninguém. Mas é público e notório que, quem tem condições, não se submete a essa porta - tão estreita - de entrada na saúde pública em nosso país. Quem tem dinheiro procura sempre o "melhor", mesmo que o melhor, nesse caso do ex-presidente, não seja o tratamento e sim o conforto de um hospital de luxo. Duvido que se fosse caso terminal, como aconteceu com o ex-presidente Tancredo Neves, Lula já não estaria no Hospital das Clínicas - onde Tancredo morreu - e não no Sírio Libanês. Você faria escolha diferente apenas para reerguer bandeira levantada na época em que era presidente? Cobrar algo do contrário é que me parece sim hipocrisia.

Tancredo Neves Hipocrisia: um câncer para quem julga?

Tancredo Neves: tratamento "politicamente correto" em hospital público? / Foto: internet.

Nossa saúde pública não funciona. Vivemos um gargalo - físico e moral - que afugenta quem pode pagar um plano de saúde. Mas nem sempre podemos fazer escolhas apenas levando em conta o critério financeiro. Constantemente digo à colegas e amigos: houve um acidente, caso de politraumatismo, me levem direto para um hospital como o Souza Aguiar, no Rio de Janeiro. Talvez não morra na fila por ser apresentador de televisão (outra hipocrisia, diga-se de passagem, num país em que trabalhar em televisão cria o imaginário popular de que somos cidadãos merecedores de privilégios), mas é fato que o melhor centro cirúrgico para este tipo de caso está na rede oficial e não apenas onde aceitam minha carteirinha da Unimed.

A escolha de Lula não é nenhuma "Escolha de Sofia". A hipocrisia talvez seja mais nossa. Uma espécie de sentimento em catarse, legítimo de quem busca saúde igualitária para todos, mas que faz com que o câncer de um ex-presidente, vire motivo para uma cruxifcação do mesmo, ainda vivo.  Essa hipocrisia talvez não seja o câncer dele, e sim o nosso.

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