Quem precisa de polícia assim?
A polícia carioca não tem do que se evergonhar. Não tem porque simplesmente não sabe mais o que é isso. A definição de ter "vergonha" dispensa a ajuda do dicionário. O simples ato de se "envergonhar" está atrelado a fazer algo que seja amoral, imoral ou repreensível. Então como cobrar que alguém esteja envergonhado se não há o conceito que é mola-mestra para isso? Imoral, amoral e repreensível são palavras que não estão mais no conjunto universo dessas instituições. É como tentar convencer uma criança de que colocar o dedo no ventilador machuca, sendo que ela nem sabe o que é um ventilador.
O episódio que vergonhosamente tivemos que repercutir nesta quarta-feira não mostra desmantelamento. Mostra total degeneração do conceito de "ser policial". Quando homens da nossa suposta "segurança pública" - que segurança? - se vendem para tirar traficantes de uma favela de um lado, enquanto seus próprios colegas, fardados ou não, estão subindo a comunidade do outro, é porque não existe mais nem amor próprio.
Não vou fazer o discurso do politicamente correto. Generalizar, por mais que pareça injusto, talvez seja um remédio, sabia? O sentimento coletivo de injustiça talvez fizesse uma limpeza de dentro pra fora, quando quem é "trigo" começaria a expulsar o que é "joio" dessas polícias. E por favor, me ajude a continuar acreditando que há "trigo" dentro da nossa segurança pública que dê para se fazer bem mais que meia dúzia de pãezinhos franceses, sim?
Se você for policial, seja militar ou civil - e for honesto - por favor concorde comigo. Talvez seja preciso chegar ao fundo do poço em nossa auto-estima para em seguida voltar a subir. Acredite: nesse momento é preciso escrever exatamente assim, de forma dura e inflexível, mesmo sendo sobre instituições que respeito tanto. Tenho colegas, amigos, pessoas da família; gente honrada e honesta que faz parte desse mesmo aparelho de segurança píublica. Cresci vendo meu tio, policial militar aposentado, honrando e ensinando a honrar sua farda. Tarefa feita com tanto afinco, mas tanto afinco, que fez de um dos filhos dele outro policial militar na família. Portanto não se sinta melindrado: também dói em mim. Mas a terapia que sugiro agora já tem que ser de choque mesmo.
Talvez o pecado da generalização seja o purgatório para uma polícia que está desmoralizada.










