O disparo certo na hora certa
Quem conhece pelo menos um pouco de fotografia já deve ter ouvido falar de Henri Cartier Bresson. Foi ele o pai do conceito que virou premissa máxima do registro fotográfico no jornalismo: o “instante decisivo”. A expressão, criada por ele mesmo, define o momento exato em que o dedo tem que apertar o botão da câmera para registrar um momento único, do tipo que não se repete nem um segundo antes nem um segundo depois. É a foto perfeita.
Se o fotógrafo francês fosse vivo, talvez tivesse que admitir que a sua teoria para registros históricos e singulares, também fez discípulos em áreas que dificilmente poderiam ser comparadas com o trabalho delicado e sutil de uma fotografia. O secretário de segurança pública do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, certamente seria um Cartier Bresson “pós-moderno”. Mas o nosso “Bresson” da Guanabara não tira fotos. Apenas propicia os momentos certos para as fotos serem tiradas, as imagens serem captadas, e as impressões transmitidas.

O instante decisivo: nem um segundo antes, nem um segundo depois para a foto "perfeita". / Foto: Cartier Bresson.
A invasão da Rocinha foi mais um espetáculo de rara beleza que o carioca já estava há um ano sem ver. Depois do Complexo do Alemão, o povo queria de novo. Beltrame deu ao público o espetáculo esperado em grande estilo: caveirões, tanques do exércitos, helicópteros e todo o aparato que uma grande operação merece. Quase um filme de guerra com personagens e locações reais. A polícia já sabia que a Rocinha era um mato de onde não sairia mais coelho. Desde o momento em que a prisão do “Nem” foi o grade destaque - que fez até a gente esquecer que horas antes policiais foram presos ajudando traficantes a escaparem da comunidade - tudo foi muito bem administrado. A exaltação da honestidade dos policias que não aceitaram suborno para deixá-lo escapar; a sagacidade da Polícia Federal na ação; e a expectativa dos moradores de São Conrado com a ocupação: tudo foi um roteiro cinematográfico bem amarradinho, completo, que fez o carioca bater as mãos no peito e dizer o quanto tem orgulho de morar aqui.
Tenho que admitir: até aqui eu não faria nada diferente. O secretário Beltrame descobriu a pólvora quando percebeu que a grande sacada da UPP não é simplesmente a polícia entrar e ficar na comunidade, como eu mesmo acreditava no começo da empreitada. Hoje vejo que a entrada da Unidade de Polícia Pacificadora é mais: é quase um aviso de despejo dado com antecedência, avisando que os dias do tráfico na favela já estão contados.
Fazer isso frustrou uma minoria. Gente que - assim como eu - deduziu erroneamente que polícia entrar sem tiros em comunidade era sinônimo de “serviço dado”. Motivo? Reflexo talvez de uma realidade tão sovada que já fez de nós jornalistas quase que seres paranóicos em pensar que tudo dando certo demais é motivo para se ficar de orelha em pé. Em outras palavras, sintomas de que algo de suspeito poderia estar acontecendo para a polícia subir morro e não puxar sequer um gatilho.
O “secretário-Bresson” conseguiu fazer a coisa certa e com requintes de marqueteiro profissional. Soube orquestrar todo seu aparato para que invasões, como a do Alemão e da Rocinha, virassem um show para se ver na manhã de domingo comendo pipoca. Foi mais que simplesmente ver uma comunidade sendo tomada: foi fazer o “ufanismo” gritar em nossas veias, com lágrimas e aplausos. Um sentimento de orgulho de ser carioca quando a bandeira do Brasil foi erguida no alto do morro.
Toda essa análise que faço hoje não é só para o secretário ou para o governador se vangloriarem. Ela também serve para aguçarmos nosso senso crítico. É bom olhar para a Rocinha com orgulho. Mas também é bom olharmos para ela sem perdermos nossas referências do passado nem nossas ambições do futuro. Já ouvi deduções políticas de que Brizola também teria conseguido uma época de tranqüilidade no Rio de Janeiro fazendo uma espécie de “acordo informal” com o tráfico do tipo: “eu não subo o morro com a polícia, mas vocês também não descem”. Especulações políticas e criações à parte, a história mostra que, de fato, o Rio teve seus dias de paz exatamente como tem hoje. Por isso lhe pergunto: entende agora porque jornalista desconfia de tudo, por mais que o feito atual seja praticamente incontestável?
Voltando ao governo Cabral, o trabalho foi feito e "bem feito", eu diria. Mas não quer dizer que esteja concluído. Longe de querer parecer o pessimista de plantão, a “limpeza” feita aqui, não necessariamente significa a tranqüilidade de lá, da zona norte, da Baixada e dos outros municípios que ficam do outro lado da ponte “Rio-Niterói”. A bandidagem se move, migra e muda. E muda também seu jeito de agir. Acredito que o comércio de drogas pode ganhar novas facetas, novos mercados, até menos violência! Mas acho que dificilmente vai deixar de existir. Os países ditos “mais ricos” do mundo que o digam. Mas para se combater esse problema da migração da bandidagem no Rio, tenho que lamentar: ainda não vi nada efetivo ser apresentado até agora.
Se Henri Cartier Bresson fosse vivo essa seria a hora certa de se perguntar a ele: perder o instante decisivo também nessas áreas vizinhas é perder a chance de ficar bem na foto para sempre?











