Mc extorsão… sem catchup, por favor!
Pergunta o homem com uniforme da guarda municipal, já debruçando os braços sobre o balcão da lanchonete estilo “fast-food” na Avenida Suburbana, zona norte carioca. A atendente, simpática e sorridente, responde:
- Sim, sou eu mesma. Posso ajudar?
O homem, com um bloco de multas saindo para fora de um dos bolsos, quase que como alguém que quer intimidar, responde muito seguro de si:
- Na verdade pode sim. A senhora sabe que sou guarda municipal, certo? E sabe também que para entrar aqui e comer, muitos clientes acabam deixando o carro lá fora, estacionado em lugar proibido, coisa passível de uma multa, né?
A gerente olha com cara de quem já viu aquele filme e diz:
- Sim, acredito que isso muitas vezes deva realmente acontecer. A lanchonete fica cheia e não há lugar para parar.
O suposto homem "pago para manter a ordem e a moral" dá o tiro certeiro:
- O que eu gostaria de saber é se a senhora não poderia...
Antes mesmo que ele consiga concluir a frase derradeira, ela responde já quase levantando a voz:
- Olha, eu sei exatamente o que o senhor está querendo e vou logo dizendo que eu não estou autorizada a te dar nada. Não é bagunçado assim não!
Ele ainda se sente no direito de retrucar e afronta a moça com uma autoridade ímpar:
- Mas a PM ganha, né?
A gerente, que não é boba nem nada, dispara rápido:
- A PM ganha porque se acontece algum problema aqui dentro da loja, como um mal comportamento de algum cliente ou mesmo um assalto, vai ser a Polícia Militar quem vai resolver o problema e encaminhar o caso para a delegacia. A Guarda Municipal não!
Nessa hora o gole que eu dava no refrigerante "zero" pesou-me como se essa única golada tivesse, sozinha, todas as 2500 calorias diárias recomendadas para uma alimentação sadia. E desceu rasgando ao ouvir o restante da moça:
- O patrão já avisou: lanche só para policiais militares que vem aqui pedir!
Pronto! Como se não bastasse o soco na boca do estômago que parecia ter levado, eu ainda tive que levar uma rasteira extra. Então aquela prática era muito mais comum do que eu imaginava inclusive trocando apenas os personagens e as suas fardas?
- Mas espera aí, eu...
Tentou ele mais uma vez inutilmente concluir. Ela não baixou guarda para o guarda:
- Não tem mais nem menos! Vocês já sabem, poxa! Guarda Municipal só pode pedir em dia de jogo, porque aí todas as redondezas ficam lotadas por causa do estádio aqui perto. Mas não sendo jogo... não adianta!”
A partir desse momento o Guarda Municipal parece se lembrar do peso de sua farda. Rapidamente olha para todo o balcão. Há clientes, funcionários, crianças: todos olhando e ouvindo o surreal diálogo. Alguns perplexos como eu, outros nem tanto. Daí para frente não sei mais o que é conversado. Motivo? Ele baixa a voz e fala como quem sussurra palavras de amor no ouvido da amada. Só vejo quando a gerente - revoltada com a situação - pega nervosamente uma embalagem pequena de batatas fritas e um copo de refrigerante. Ela entrega tudo ao tal homem que, a essa altura do campeonato, não tinha moral que valesse mais que as murchas batatinhas no pacote.
Mas murchas e caídas só mesmo as batatas, viu? Ele não! Inflado por um sentimento inexplicável de “me dei bem hoje”, ele segura seu lanche, caminha em direção à porta e segue sua vida.
Ninguém que estava no balcão sequer se olhou. Nenhum músculo se moveu no semblante de qualquer um dos outros funcionários. Repito que ficou muito claro que esse tipo de extorsão era mais comum do que jamais se poderia imaginar. Sem medo, sem olhar envergonhado e com refrigerante sabor "impunidade" na mão, o que vi foi apenas um suposto Guarda Municipal que, com uma mão no pacote “delivery” e a boca cheia de batatas, ainda saiu sorrindo.
Eu que pago impostos e fui obrigado a assistir tudo isso de camarote, fiquei sem reação. Me senti exatamente que nem o garoto propaganda da deliciosa rede: um verdadeiro palhaço.












