Cinegrafista morto: até onde a reportagem deve ir?

7
nov
18h51

bala fuzil 150x150 Cinegrafista morto: até onde a reportagem deve ir?Lembro-me bem daquele rosto fino e com ar de compenetrado atrás da câmera. Gelson Domingos estava aflito naquele dia. E não era preocupação apenas em fazer a melhor imagem no estúdio. Por causa de problemas na coluna, Gelson havia recebido orientação médica para que se afastasse das ruas por alguns dias. Dentro do nosso cenário, o peso da câmera era responsabilidade do tripé e não apenas do ombro experiente do cinegrafista. Lá se vão 5 anos desde que conheci Gelson assim, no estúdio, quando o “RJ Record” ainda dava seus primeiros passos.

Gelson passou a vida inteira capturando imagens. Ironia do destino, a sua própria, gravada com a câmera que segurava quando caiu no chão, registrou seus últimos minutos de vida. A polícia julgava que a situação na comunidade já estava contida depois de um intenso confronto com traficantes. De posse dessa informação, policias autorizaram a entrada da imprensa. Meu colega entrou na favela para nunca mais sair. Mas a culpa não é da PM. Gelson não dependia de um “câmbio-positivo-operante” para buscar suas melhores imagens. O que o impulsionava era um revestimento psicológico inconsciente de que a melhor imagem vale certos sacrifícios. O profissional só não imaginou que esse custo, desta vez, seria sua própria vida.

Gelson Domingos Cinegrafista morto: até onde a reportagem deve ir?

Gelson Domingos: um herói morto em cobate motivado por quem? / Foto: R7.

A morte dele, com um tiro de fuzil no peito, quando acompanhava uma operação policial na comunidade de Antares, zona oeste do Rio de Janeiro, deixa mais que saudades: deixa a polêmica sobre até onde se deve ir em situações extremas de coberturas jornalísticas.

Durante o velório de Gelson ouvi idéias diversas. Desde um movimento em massa contra a TV Bandeirantes, até um manifesto para que repórteres e cinegrafistas que transitem em áreas de conflito possam usar coletes mas seguros, que resistam à tiros de fuzil, como os que só são autorizados para integrantes das forças armadas. Mas a culpa também não é da falta do “colete certo na hora certa”. Fortalecer “escudos” faz somente com que bandidos também fortaleçam seus ataques. É como aquela velha e retórica discussão sobre a mudança da maioridade penal: tornar um adolescente de 16 anos responsável criminalmente por seus atos, não faria com que traficantes procurassem novos “súditos” em idades ainda mais tenras? Acredito que o mesmo vale para acreditar que direito a usar colete a prova de fuzil vai resolver alguma coisa. Daí traficante passa a atacar, não mais com fuzil, mas sim com bazuca. É o cachorro correndo atrás do próprio rabo...

A mudança não está na lei. Ela está nas nossas cabeças. Jornalistas e cinegrafistas não são pressionados por redações e chefia para tirarem suas vidas. Não há quem em “sã” consciência prefira morrer como herói da televisão do que ser um covarde vivo. Isso é lenda urbana. Na Record, por exemplo, a entrada ou não em locais de risco é facultada a equipe de externa, embora a orientação seja sempre não arriscar quando o risco for iminente. E isso não é uma forma de deixar a responsabilidade na mão de quem está lá, “in- loco”, para se ver livre do problema não! É uma forma de se assumir que essa é uma avaliação única e exclusiva de quem esta vendo o conflito de perto. Conheço repórteres da casa que dizem simplesmente "não" e são respeitados.

Choro repórter Cinegrafista morto: até onde a reportagem deve ir?

Repórter da Bandeirantes chora ao ver companheiro morto. / Foto: "O Dia".

O que moveu o Gelson não foi apenas "paixão pelo ofício". O risco não depende dessa relação afetuosa pelo trabalho. Ele também aparece quando nós, repórteres que estamos na chamada “hora do vamos ver”, nos sentirmos mais encorajados em busca de um reconhecimento profissional por bravura. Quem já fez reportagem de rua sabe que temos colegas “kamikazes” que, por conta de seu perfil destemido, “forçam” uma entrada em massa de repórteres em locais que deveriam ser evitados. Eu já vi isso acontecer. É o retrato de uma competição tão predatória, que vale o risco ao bem mais precioso que é a vida. “Se eu não entrar, o cinegrafista da outra emissora entra e grava tudo.” - ouvi certa vez de um repórter cinematográfico com quem trabalhei. A culpa está mais em nossas cabeças do que em supostas determinações ou diretrizes editoriais. Redação alguma prefere ter a melhor imagem em troca da pior notícia de um integrante da equipe baleado. A concorrência nada sadia em busca do melhor furo e a competição pelo melhor ângulo, é que faz com que os fins justifiquem os meios.

O Gelson foi vítima de arma muito mais mortífera e perfurante que uma bala de fuzil: a disputa devastadora e agressiva que existe entre nós mesmos, nas ruas. Minhas conclusões terminam com um “até logo” aos demagogos de plantão que vão garantir que sem esses “heróis” jamais saberíamos o que acontece lá dentro de uma comunidade. Desculpe, mas não consigo concordar. Não quero um “Gelson-herói” morto. O que não protege e nem trás o querido e amado Gelson de volta é blindagem da demagogia.

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Samba suor e… tiros

4
nov
12h32

pandeiro 2 Samba suor e... tirosNossa cidade é realmente uma teia de contrastes. Coisa que sambista faz virar poesia na passarela. Mas hoje, nem precisou da Marques de Sapucaí para se perceber isso. Não era no samba-enredo: era na tela da televisão mesmo.

O mestre Ciça, da Grande Rio foi o primeiro a perceber, enquanto ainda encerrávamos o programa de hoje com muita música. Logo que entrou o Balanço Geral, na sequência, com meu amigo Wagner Montes, o sambista - medalhão na escola, diga-se de passagem - logo comentou: "Enquanto a gente está aqui, cantando, o caveirão está 'comendo' em Bangu".

E era exatamente isso o que víamos: o programa acabou e assistíamos pela televisão, quase que incrédulos, o caso de bandidos que fugiam da polícia e invadiram uma escola pública na Vila Aliança, em Bangu, Zona Oeste da cidade.

 

bateria Samba suor e... tiros

Bateria da "Grande Rio": superação depois de carnaval prejudicado por incêndio. / Foto: R7.

O Rio é assim, uma mistura, uma mescla de samba e choro, alegria e tensão. Trocadilho que os sambistas não perderam, aproveitando o enredo da escola deste ano que diz "Eu Acredito Em Você. E você?"

A pergunta que fica é: e você? Acredita no Rio de Janeiro com menos desse tipo de confronto?

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Ao pó em 5 segundos

3
nov
00h42

Brasília definitivamente deve ter problemas com seus hotéis. Só os abandonados, embargados ou falidos, diga-se de passagem. A demolição de dois dos mais antigos da cidade, neste feriado, elevou para quatro o número de hotéis que agora, só existem em fotografias da capital federal.

O Hotel das Nações e o Hotel Alvorada eram alguns "últimos" dos "primeiros" construídos em Brasília, ainda na década de 60, pouco depois da inauguração da cidade. Agora, eles foram destruídos como parte das obras de ampliação e modernização do parque hoteleiro de Brasília. Tudo visando a Copa de 2014.

Mas fazendo uma cronologia inversa, não faz muito tempo que o brasiliense viu um outro hotel também desaparecer. O esqueleto do que seria o "Hotel Phenicia", - segundo hotel de uma mesma empresa brasiliense - deixava o Setor Hoteleiro Norte da cidade feio há 17 anos. Era um mostro abandonado por causa de brigas entre herdeiros do prédio.

O último deles - ou primeiro - foi implodido em 2007. Tratava-se de outro hotel que nunca foi terminado. Ele ficava na margem do Lago Paranoá e - de acordo com as informações da época - estava totalmente fora do gabarito de construções em Brasília, desde sua altura até localização, que não permitia prédios para esta finalidade. Foram 20 anos de confusão na justiça para que tudo fosse derrubado em poucos segundos.

No meio dos condenados uma redenção: o "Brasília Palace Hotel" teve um destino diferente. Ele foi o primeiro hotel de Brasília, construído em 1958, e teve suas atividades suspensas em 1978 depois de um incêndio. Só escapou da dinamite em seus alicerces porque recentemente foi comprado por uma das maiores redes hoteleiras do Distrito Federal. Foi novamente inaugurado e hoje é um dos mais modernos de Brasília.

Esse vídeo abaixo, da década de 90, mostra bem para quais finalidades o prédio abandonado acabou sendo útil para os jovens brasilienses.

O curioso é pensar: para uma cidade que tem apenas 51 de idade, não é confusão demais com hotéis que acabam virando pó?

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