Era uma vez um sofá...

Sabe, hoje a vida me sorri e, diante das minhas, conquistas posso comprar  tudo o que eu quero. Mas diante de tanto luxo eu guardo em minha casa uma “herança” que deixarei para meu filho, um sofá. Isso mesmo, esta pequena poltrona velha, reflete aquilo que sou de verdade.

Essa pequena poltrona velha foi o “primeiro sofá” que tivemos em casa. Já tinha meus 16 anos e ainda não tinha tido um sofá em minha casa. Todos tinham, eu não.

Lembro-me quando ia fazer lição na casa de amigos e sentava naqueles belos sofás, ou simplesmente passava na frente das lojas e via tudo aquilo. É verdade, morávamos eu e minha mãe, Dona Olga, naquilo que chamávamos de casa, Rua Senador Vergueiro 112, Centro, Limeira.

A casa era vizinha a uma zona de prostituição. Por obrigação, colocamos uma placa na porta de casa: “Casa de Família”, mas não adiantava, sempre tinha um que batia lá e perguntava quanto era o programa.

Era uma sala que não tinha nada e uma casa que chovia muito dentro. Não tenho vergonha de dizer que dormi muitas vezes dentro do guarda-roupas, e que usava o banheiro com guarda chuvas, isso mesmo! Só eu sei, o mundo pode e deve duvidar...

Algumas almofadas espalhadas pelos cantos, a velha estante e a TV... ah, e um vaso de plantas no canto do hidrômetro d’água que tinha lá. A pobreza e a doença de minha mãe na época nos impediam, embora eu trabalhasse muito, de termos algumas regalias.

Cada vez que o tempo fechava sabíamos o que vinha. Me recordo que, antes de irmos obrigados a esta casa, chegamos a morar nos fundos da casa de uma tia minha. Lá a casa era pequena, não tinha forro e chovia em alguns pontos.

Nas madrugadas de chuva, lembro de, junto com minha mãe, cruzar o quintal de terra  e ir bater na porta da casa dela, para lá dormirmos na sala até que a chuva passasse. Muitas vezes a porta demorava para abrir...

 Era uma vez um sofá...

Bem, voltemos ao sofá. Gente, como eu esperei ter esta poltrona. Até que um dia uma senhora que muito nos ajudou, chamada Dona Izabel, falou para minha mãe que tinha lá uma poltrona e que ia jogar fora. Meu Deus, me lembro carregando esta poltrona na cabeça numa rua de descida, e às vezes minha mãe me ajudava.

Que festa! Eu tinha um “sofáaaaaá!”. Lá estava ela, no canto da parede e de frente pra TV, linda. Parecia que era o móvel mais importante da sala e era... Brigávamos eu e a Olga para sentarmos nela, e como eu era feliz e não sabia. Quando vinha visita, era a visita no chão e “nóis” na poltrona que era o nosso sofá, e ponto!

Quando vinha a chuva, retirava a poltrona da sala e jogava um plástico em cima. Como eu era feliz em ver minha mãe lá sentada, e eu no chão com as almofadas estampadas com a cara da “Léssi”.

O tempo passou, as coisas melhoraram e muito. Jesus só me abençoou e provou seu amor por mim como teu filho pecador. Sofá mesmo eu tive quando trabalhava em uma gráfica e a Dona Cenyra Guelles Pfeifer me deu um sofá que estava nos fundos de sua fábrica.

Foi o máximo, fiz o sofá minha cama, pois camas só tivemos tempos depois e usadas, a qual compramos em uma casa de móveis usados.

Essa poltrona deixarei como herança ao meu filho. Para que ele dê valor nas coisas reais da vida, e que algumas delas a gente não pode esquecer ou ser ingrato. Esta poltrona é parte da minha referência humana, do meu crescimento.

Veja  agora o sofá que eu tenho.

 Era uma vez um sofá...

Bem, como viram as coisas mudaram, mas eu não. O valor moral e humano faz para mim esta poltrona ser mais cara e valer mais que esta bela peça que hoje é um dos cinco jogos de sofá que tenho. Mas isso já não tem mais valor, o que vale é saber que os móveis mudaram, minha casa hoje não chove mais dentro, e que eu não mudei, jamais mudarei, sou igualzinho a poltrona, fico velho mas não perco meus valores. Assim é a vida, a vida dá para você o que você dá para ela, sempre!

Geraldo

Muita paz!

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