andarilho 1 Afinal, quem era aquele homem, meu Deus?

Cuidado! As aparências enganam...

Essa é uma das mais belas histórias que vivenciei e que jamais esquecerei.

Era uma manhã de inverno no mês de julho, e se não me engano, o ano era 2003. Eu estava a caminho da emissora de rádio na cidade de Cordeirópolis (SP), onde fazia meu programa policial das 06h30 às 08h00 da manhã, quando vi na Rodovia Washington Luís um velho andarilho caminhando em meio à neblina que tomava conta do local. Chamou-me a atenção seu jeito. Ele parecia um velho guerreiro viking, daqueles da época medieval: tinha sacos plásticos por todo o corpo, sem dentes, um cabelo amarelado e pele nordestina. Como eu sempre andava com meu gravador portátil no carro, dei meia volta e fui atrás dele achando que ia gravar uma matéria sobre o frio e a vida dos andarilhos, coisa, aliás, que sempre fiz em minha carreira como radialista, sempre estive ao lado dos mais humildes.

Meu Deus, afinal quem era aquele homem?

Que essa história te traga algum aprendizado, assim como trouxe pra mim. Percebi que não sou nada, que tem muita gente melhor que eu... Inclusive aquele homem!

Ao me aproximar dele, senti sua energia, era algo que transcendia àquela imagem desgastada pela sua situação de andarilho, era algo mais, algo que meu coração começava a sentir. Ele não era apenas um andarilho, um pobre sem lenço e sem documento, era um filho de Deus, e que filho! Sem pedir, já desci do carro como sempre fazia, já com meu gravador ligado e falando “bem, ouvintes, estou aqui na rodovia perto de um homem...” e assim foi. Minha surpresa começou quando esse andarilho começou a falar. Como somos ignorantes de nós mesmos, achei que ele ia falar com aquele linguajar rasteiro, analfabeto.

Meu Deus quem era aquele homem? De repente ele me questiona com sua voz que me lembro, era fina e rápida: “Você veio aqui para falar do frio? Por que você não usa esse seu microfone para falar dessa economia ruim ou desse médico, o Shintcovsk? (pediatra que abusava de crianças na época), e continuou: “Na época de Juscelino eu tinha esperança e os gringos querendo mandar. O dólar, essa moeda estrangeira manda em você, em mim, e o Bush vem aí com tudo, né... E essa nossa dívida externa? O PIB precisa aumentar rapaz, se não a economia vai derrapar ainda mais, e para esse país ser nação vai demorar muito ainda, o povo não sabe a força que tem”. E finalizou me perguntando o que eu achava de tudo isso!

Enquanto ele falava, eu estava lá, absurdamente surpreso, paralisado com sua inteligência e interação, me vi como um aluno e ele como o professor. Como podia um andarilho se expressar daquele jeito, saber de tudo aquilo? Meu Deus, quem era aquele homem? Diante de quem eu estava? Quem era eu naquele momento?

Mesmo sendo um repórter experiente na época, fiquei mudo. E não pensem que ele parou. Me fez outra pergunta: “O que você acha deste ministro da economia? A ex-ministra Zélia, aquela que era casada com Chico Anísio, sabia que eu gostava dela, tinha pulso, pena que se vendeu para o Collor que agora sofreu o primeiro impeachment e se tornou uma vergonha, tá tudo errado”. Sobre o Lula ele falou também. “Quero ver agora o Lula, eu queria falar com ele, não sei se vão deixar ele governar não” concluiu.
Senti vergonha naquele momento. Por isso nunca devemos subestimar as pessoas, e infelizmente a roupa que vestimos ou a casa onde moramos é o que importa à sociedade. Quem é que olha essas fotos e diz que ele tem toda essa inteligência? Vai me responda, veja as fotos de novo e me responda!

Claro que não, somos cegos da moralidade, vivemos onde os pobres se tornaram invisíveis aos olhos de uma sociedade cada vez mais longe de Jesus. Frente a ele me perguntei: como esse homem sabe ler, falar deste jeito tão nobre diante de meu analfabetismo moral? Foi aí que ele me explicou...

Foi criado na roça, perdeu cedo a família e cursou apenas a metade do primeiro ano, depois disso nunca mais leu. Porém, quando decidiu seguir a vida de andarilho aprendeu a fugir do frio cobrindo-se com jornais. A curiosidade sobre o conteúdo do seu ‘cobertor de letras’ começou a despertar, e com a ajuda de frentistas e outros bons corações estradeiros, esse homem recomeçou a aprender a ler. “Isso já faz mais de 20 anos”, me revelou na época.

andarilho 2 Afinal, quem era aquele homem, meu Deus?

Em cada posto ou ponte que dorme, pede jornais e os lê para se interar com o que está acontecendo no mundo. Incrível, meu Deus, quem era aquele homem?

A essa altura da história, minha entrevista já nem era mais sobre o frio, que, aliás, eu já nem conseguia mais sentir. A entrevista então era sobre ele próprio, pois eu já sabia que estava em frente a um grande homem.

E gente, ele me dirigiu essas palavras: “Vocês, jornalistas, têm o dever da escrita, o dever de cobrar. Cobre do FHC, o pai do real; o que é melhor: socialismo ou capitalismo? Fala aí, repórter”. E sussurrou no meu ouvido, como é seu nome mesmo? Meu nome já não tinha importância, minha faculdade era pré-primário diante da dele, eu aluno, ele professor. Gravei mais de meia hora de entrevista, e prometo a vocês que vou achar a fita (áudio), pois meu arquivo radiofônico de 17 anos é grande, e vou colocar aqui para todos ouvirem. Ele me surpreendeu, sua inteligência era superior à minha, pois eu tive escola e ele não. Fiquei fascinado por aquele velho de pernas finas, cabelos amarelados e absurdamente capaz e envolvido em pensamentos que muitos jovens universitários sequer se esforçam a ter.

Vai me responda rápido, o que é capitalismo?

Quem era a ministra no período Collor?

O que é nação?

Perguntas aparentemente simples, mas confesso que nem eu lembrava naquele momento as respostas com exatidão, mas esse andarilho sabia, e sabia muito mais. Então, meus amores, cuidado, as aparências enganam! Quando virem alguém mal vestido, não deixem seus olhos julgarem, vejam com seus corações!

Os olhos da sociedade são cegos e ignorantes; já os olhos do homem que ainda é humano, esses sim enxergam mais do que uma conta bancária, não discrimina se você é rico ou pobre.

A vida não te pedirá nada disso, esqueça. O que vai valer mesmo é ter vivido suas boas ações; teu caixão não terá gaveta e depois de três meses ninguém mais vai lembrar do seu cadáver. Agora, do outro lado desta vida, muita coisa nos aguarda, pois a vida dará para você o que você dará a ela, lembre-se sempre. Falo tudo isso porque gosto demais de todos vocês que acompanham minhas histórias aqui e quero passar um pouco do que aprendi a todos, só isso.

A única diferença dos ricos são as privadas deles, que são de bordas quadradas, e as nossas redondas. Mas o que cai lá é igual, tudo igual. Então que aprendamos a nos respeitar, e este andarilho me ensinou isso meu caro internauta “geraldiano”.

andarilho 3 Afinal, quem era aquele homem, meu Deus?

Quando acabou a entrevista, me senti pequeno diante de um grande cara que eu mal sabia quem era, e não sei até hoje. Aprendi com ele as seguintes regras básicas de um humano e sua sobrevivência:

- Regra um: tua gravata não te faz melhor que minha camiseta velha;
- Regra dois: tomar muito banho ou não, não vai me fazer deixar de caminhar, ando igual ou melhor que você e ainda não fico doente;
- Regra três: teu camarão, não é melhor que meu feijão que acabei de ganhar neste posto e
- Regra quatro: até para dormir você paga, eu não. Qualquer ponte me serve.

Ouvi tudo isso, e calei minha boca. Ele estava errado?

Terminei minha entrevista, ele me pediu dois reais para um café e eu dei. Sobre a água ele disse que não sentia falta: “Muita água no corpo, a doença chega” explicou. Na verdade eu não queria que ele fosse embora, queria tê-lo mais perto de mim, sentia uma energia linda vinda dele. O homem sem dentes, de sacos nas costas e de rosto sofrido foi ficando mais longe, e sumiu em meio à neblina daquele início de dia. E eu fui correndo para a rádio de Cordeiro e coloquei a matéria no ar, e é claro, os ouvintes não acreditaram no que ouviram.

Na semana seguinte eu e minha antiga produtora, a Lia Maura Rodriguês Sorg, a “fia” da Lauri, fomos viajar para tentar encontrar aquele homem. Rodei mais de 1.500 km com a foto dele e nada, e de posto em posto ninguém jamais tinha visto aquele homem.
Não quero aqui obrigar ninguém sentir o que meu coração sente até hoje, mas eu te pergunto: quem era aquele homem?

Eu já sei quem era...

O amor jamais te esquece.

Geraldo,
O filho da Olga

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • del.icio.us
  • Twitter
  • Digg
  • Netvibes
  • Facebook
  • Google Bookmarks

Ir para a home do site
Todos os direitos reservados - 2009-2011 Rádio e Televisão Record S/A