piscina geraldo2 Uma fonte que era piscina, ou uma piscina que era fonte?

Não vou me lembrar precisamente da data, mas creio que era o ano de 1984. Minha mãe e eu sempre tivemos uma vida pra lá de difícil, e eternizo em minha mente que as coisas mais simples sempre são as mais valiosas e marcantes em nossas vidas. Espero que ao escrever mais esse capítulo de minha vida, eu consiga despertar em você o desejo de estar atento também às simplicidades do nosso dia a dia, pois diariamente somos agraciados com milhares de “coisinhas” simples e que geralmente nem nos damos conta.
 
Minha mãe era faxineira no antigo Supermercado Brasil, que ficava na Rua 25 de Março, ao lado da Igreja São Sebastião na Boa Vista, em Limeira. Eu estudava no SESI 05 e depois ia trabalhar no mercado com minha mãe, ajudava na faxina e algumas vezes no balcão da padaria. O gerente, seu Marcos, fazia vistas grossas, afinal eu tinha meus 14 anos e não poderia estar lá. Morávamos na Rua Augusto Jorge – nº 274, pertinho dali. Aquela casa, nos fundos de uma empresa chamada Magda S/A, tinha sido emprestada para nós por uma mulher chamada Dona Lucia Olivieri, para a qual minha mãe trabalhou durante anos. Como não tínhamos para onde ir depois que meu pai foi embora, ela nos “deu” essa casa e lá ficamos por longos anos. Apesar de tantas dificuldades e pobreza, nunca deixei de sonhar e sempre que podia tentava escapar do trabalho e corria para brincar.

Logo ao lado do mercado havia uma pracinha onde tinha uma fonte; era nessa fonte que eu e alguns amigos de escola íamos “nadar”. Nadar é modo de dizer, porque nem para isso dava, mas para os garotos pobres como eu, a mini fonte era um atraente piscinão em meio ao calor do dia. Isso quando não apareciam as funcionárias da igreja para nos expulsar de lá, aí era uma correria total.
 
Aquela fonte para mim era tudo, me sentia nadando em uma piscina que naquela época só gente muito rica tinha, e olha lá. Pra mim era uma festa só, escapava do serviço do mercado e ia para a fonte me refrescar, até que um dia…

Do nada, minha mãe apareceu trajada com o uniforme do serviço e aos berros entrou na fonte da praça e com toda a força do mundo me puxou pelas orelhas. “Você não é filho de rico para ficar brincando essas horas, vai trabalhar!” – disse ela. E fui levado até em casa aos puxões de orelha que me doeram muito.

Para Dona Olga foi uma vergonha me ver lá na fonte da igreja, todo molhado e de short. Eu só trabalhava, e ainda fazia a limpeza da nossa casa, pelo menos duas vezes na semana. O chão era de vermelhão, e a cera era “Parketina” lembra? Tinha um escovão de ferro e lá ia eu na limpeza!
 
Filho único com responsabilidade de adulto. Comecei a trabalhar com nove anos de idade e não me arrependo disto, de forma alguma, hoje isto é chamado de “escravidão”. Sou a favor de que os filhos comecem o quanto antes a trabalhar; a vida e eles próprios vão nos agradecer um dia, podem acreditar!

Tentei explicar para minha mãe que todo mundo nadava lá, mas ela não se convenceu e eu… apanhei de novo! Eu tinha um amigo que tinha piscina em casa, mas ele não me deixava ir porque eu tinha uma mancha branca no pescoço e ele achava que aquilo era doença, e não era. Ouvia as vozes de meus amigos gritando nos mergulhos, e eu sempre do lado de fora. Então eu fiz da fonte minha piscina, “piscina” que eu dividia com outros “excluídos” da escola. A gente levava até toalhas para a praça, é mole? Até hoje tento saber quem foi a laza… que dedurou para a minha mãe que eu nadava lá. Deu um bochicho gigante. Minha mãe foi falar com o padre, reclamou na escola, foi na casa de um de meus amigos falar com a mãe dele, ihhh a situação foi feia! 

 
piscina geraldo11 Uma fonte que era piscina, ou uma piscina que era fonte?

26 anos depois...
 
Chegava em Limeira, vindo de São Paulo, quando fechou o semáforo e meu carro para em frente a uma praça, e que praça era? A mesma que em tempos passados era o meu clube, meu refúgio nos dias quentes. Não resisti, desci do carro e fui ver como estava minha antiga piscina. Intacta, com a mesma cor, no mesmo lugar e vazia, com aquele ar de abandono público. Encontrei alguns andarilhos que me reconheceram e vieram me pedir dinheiro, eu dei e eles foram embora, era o que eu precisava. Pedi licença a meus funcionários e lá fiquei sentado na borda da fonte. Muitos pensamentos me vieram à mente, muitas lembranças.
 
Lembrei que era feliz e não sabia.
Lembrei que as mais belas coisas da vida são as mais simples.
Lembrei que como eu era rico sendo um pobre.
Lembrei que o tempo não é nada.
Lembrei que aquele mesmo Geraldo ainda vive dentro do Geraldo Luís.
Lembrei que eu fiz bem em ter nadado lá quando criança, mas que minha mãe estava correta.
Lembrei do puxão de orelha, e acreditem! A dor parecia ter voltado de novo, ai ai...
Lembrei do meu passado que está mais presente que nunca.
Lembrei que ainda sou o filho da Olga.
Lembrei da minha pobreza, que se tornou nobreza de alma.
Lembrei sentado ali, que perdi algumas coisas quando comecei a ganhar dinheiro.  Coisas que o dinheiro não traz.
Lembrei que muita coisa pequena nos torna gigantes.
Lembrei da Olga, parecia que ela estava ali, me olhando...

Lembrei por fim que a minha vida mudou, minha casa mudou, mas eu não. Lembrei da praça e de minha experiência como filho, hoje os pais não dão puxões de orelha, nem comandam mais seus filhos. Crianças hoje em dia não cometem mais um delito infantil como o que eu cometi, hoje usam as praças para se drogarem, esconderem drogas. Nas fontes de hoje, andarilhos tomam banho, traficantes guardam armas. As fontes já não estão mais cheias de água ou luzes, tudo está acabando...
 
Você vai ver que se acordar para a vida com o passar do tempo, alguns valores tolos, banais, já não farão mais importância em sua vida. Mas nós só aprendemos isto com a dor, não pelo amor. As coisas mais simples sempre me cercaram e eu as aproveitei até o fim. São elas que me fizeram ser o que sou, mas sinto muita falta de algumas delas que não voltam mais. Quanto mais sofisticado você ficar, e quanto mais dinheiro ganhar, ter e ter cada vez mais, verá no saldo final de sua vida que algumas coisas vão lhe faltar, e tem muita coisa que a grana não compra. E como o dinheiro cega as pessoas, passamos boa parte da vida nos abastecendo de coisas idiotas. Este ano será muito importante para nós que moramos neste planeta, muita coisa vai começar a mudar, mas poucos estarão preparados para este novo mundo que virá. Não percamos tempo, vamos atrás daquilo que pode nos mudar para melhor como seres humanos. Resgate como eu os valores simples da vida, e viva melhor, você verá. Hoje já não tem mais graças as piscinas que tenho, mas ter nadado naquela fonte, me abasteceu para sempre em saber que a simplicidade move os bons corações humanos. Para quem tem olhos para ver, as "joias" da vida são outras, não as que brilham escondidas em cofres ou penduradas nos pescoços daqueles que só vão acordar quando a "dor" da alma vier, e ela vem, seja para mim, para você ou para qualquer pessoa. O universo se encarrega disto, pode ficar tranquilo aí na sua casa, que o que for para você virá, dentro de seu merecimento...

Como eu era feliz! Guarde suas coisas simples da vida como as mais ricas, pois elas vão te perseguir e te ajudar para o resto da vida, quando se sentir só, lembre-se delas e elas vão te preencher pra caramba. Veja como é a vida, Jesus me abençoou e com meu esforço e trabalho tenho três casas com três belas piscinas, uma delas é essa:

piscina geraldo3 Uma fonte que era piscina, ou uma piscina que era fonte? 
Sabe quantas vezes eu nadei nela? Uma. Apenas uma única vez. Na outra não vou há muito tempo. E a vida é assim mesmo, você vai ganhando outros valores e vai entendo o que realmente te faz feliz de verdade. Vai lá, remexa o baú da felicidade do seu passado, não sei se você vai encontrar uma fonte como a minha, mas deve ter uma bela história que vai te trazer ótimas lembranças por tê-la vivido.

Não se esqueçam, gosto muito de todos vocês!
Em breve nos veremos na tela da Record. Tô curtindo minhas férias aqui na fazenda e logo, logo estaremos juntos!
 
Lembrem-se: “O amor jamais te esquece”.
 
Geraldo
O filho da Olga

Veja mais:

+ Geraldo 2010 vem aí!
+ Era uma vez um sofá...
+ Todos os blogueiros do R7

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • del.icio.us
  • Twitter
  • Digg
  • Netvibes
  • Facebook
  • Google Bookmarks

Ir para a home do site
Todos os direitos reservados - 2009-2011 Rádio e Televisão Record S/A