Bem, hoje tô aqui pra contar uma história da minha vida que pouca gente sabe, a época em que fui repórter policial de rádio lá no interior de São Paulo. Nunca pensei, na minha vida, que um dia ia lavar defuntos e contar histórias policiais. Quando criança, queria ser "artista". Fiz teatro infantil com a peça Maria Minhoca, de Maria Machado, fazia teatro na escola Sesi 05, imitava o "Painho", um antigo personagem de Chico Anysio, que era meu ídolo. Sempre fui um bom imitador de vozes das estrelas da TV.
Aqui segue meu intenso currículo infantil.
Aos 9, trabalhei no antigo Mercado Brasil, minha mãe era faxineira e eu ajudante de padaria.
Aos 10, fui para uma farmácia na Boa Vista. Denunciaram e o gerente Rubens me mandou embora, eu era pequeno demais.
Aos 11, fui para o clube dos "escovinhas", na antiga CME, era horrível engraxar sapatos, fiquei pouco tempo.
Aos 12, virei puxa-saco de padre, quase fui parar em um seminário (putz, nunca achei que iria contar isso a alguém...)
Aos 14, trabalhei no antigo Restaurante Bolonhesa, comecei lavando pratos e terminei servindo as pessoas.
Aos 16, ia com minha mãe trabalhar na fábrica de lanternas GF, mas apenas nas férias.
Com minha primeira grana comprei uma TV colorida junto com minha mãe, que alegria!
Bem, o tempo passou e eu ainda sonhava, como sonhava...
Ao me mudar para o local onde mais sofri com minha mãe, rua Senador Vergueiro, 112, ao lado da zona de prostituição de Limeira, as coisas começaram a se desenhar na minha vida.
Ano de 1988, minha mãe foi pega por um câncer nas mamas e as coisas pioraram muito. Pouco antes sofri uma cirurgia toráxica, pois de tão magro, meu peito era "para dentro", o chamado "peito de sapateiro" (ou péctus escavatus, deve ser assim que se escreve… ). Em nossa casa chovia mais dentro do que fora. Foram muitas as vezes que eu dormi dentro de um guarda-roupas, mas deixo essa história pra depois, quando estiver preparado para fazer esta "regressão" moral da minha vida.
Como estava sem grana, resolvi fazer silk-screen ou estampa de camisetas.
Tinha uma lousa de futebol de botão, e um amigo meu, o Fracarroli, que trabalhava com letreiros, pintou a lousa e escreveu "Geraus Screm", e aí pendurei a tal lousa em cima da porta e os clientes aos poucos chegavam.
A máquina eu comprei e paguei depois de três meses. Um dia, sem ter o que comer em casa, fui andando de loja em loja, e nada, até que fui parar em um antigo posto da rede Texaco, onde parei pra lavar o rosto e deixei minha pasta em cima da bomba de gasolina. Foi quando veio o dono do posto me perguntando quem era o dono da Geraus Screm. Começou aí meu primeiro grande negócio, fechei 5000 mil camisas de futebol com a marca do posto.
Nessa época, minha mãe estava internada, fui lá e mostrei o cheque pra ela, no dinheiro de hoje devia ser 3 mil reais. Na esquina de casa tinha uma auto-escola, e o dono era um famoso repórter policial da época, o Sr. Rubens Pinheiro Alves. Fui até ele e ofereci meus serviços de estampa, e foi aí que ele disse:
- Você tem uma boa voz, nunca trabalhou em rádio?
Eu falei que não e ele me disse:
- Então tá, te espero amanhã cedo no meu programa na Rádio Educadora AM 1020!
Nem acreditei no que tinha acabado de ouvir, e no dia seguinte lá estava eu do lado do famoso Pinheiro Alves, o "Homem da Verdade", bordão usado por ele naquela época.
Pensei muito em fazer isto, mas como todos vocês são importantes para mim, confiram algumas fotos da minha carreira de repórter policial, e um vídeo de uma das inúmeras matérias que eu fazia na rua. Apresentava o programa policial e ia pra rua gravar ! Bons tempos, aprendi muito...
Já no primeiro programa eu falei, ele me deu um jornal, riscou uma notícia e eu li, foi demais, isso foi no mês de novembro do ano de 1988. E de lá pra cá muita coisa mudou. Fui auxliar dele durante anos, ia nas delegacias, pegava as notícias e Pinheiro as lia no ar, em seu programa das 7h às 8h.
Na época conheci o Vicente Metitier, o "Vicentinho", auxiliar de necrópsia do Instituo Médico Legal Edson Pereira. Quando eu ia nos locais de crime, pegava uma carona na antiga perua Kombi marrom da funerária e transportava o morto até lá, no IML. Acompanhava as necrópsias de madrugada, e com isso fui ganhando experiência que nenhum repórter tinha. Com a ajuda de Vicente, outros agentes funerários me ajudavam quando eu ajudava a lavar os defuntos, ganhava meu trocado e tinha os "furos", pois eu já tinha o resultado do laudo.
Cansei de ver mortos e de todos os tipos. Carbonizados, atropelados por trem, enforcados, assassinados, tudo e outras coisas que nem vale a pena hoje revelar! Em pouco tempo ganhei meu próprio programa de rádio. Fazia três programas por dia, um pela manhã na Rádio Jornal, outro em Americana às 11h e à noite na Jornal de Limeira. Logo depois veio a Gazeta de Limeira, onde escrevia a página policial. Ao Dr. Roberto Lucatto, minha gratidão pelo aprendizado. Lá fiquei bons quatro anos, até que de lá fui pra faculdade. Era uma cobrança anormal em cima de mim. Eu escrevia mesmo sem faculdade, e os que tinham voltavam seus "olhos" em cima de mim, entenderam? A MERDA DA INVEJA... Mas tudo bem, já passou.
Fui repórter policial durante 17 anos. Até me acidentei com uma viatura da PM, com a qual trabalhei muito tempo, devo muita gratidão aos irmãos PMs do interior. Se hoje estou aqui devo isso também a eles. Eu fui o único repórter do Brasil a andar de viatura, me tornei um "morcego de viatura", até que um dia, em uma perseguição, a viatura capotou e caiu em um barranco de 15 metros, e depois em um rio. Era madrugada e chovia, fiquei preso nas ferragens e isto me custou meses sem andar, fazia meu programa de radio por uma "lp" de fone.
Um corpo no chão. Área de prostituição e Geraldo "clica" o flagrante para o jornal (a mulher em destaque era a antiga traficante, também está morta)
Com um gravador nas mãos, eu era chamado a todo instante, se alguém fosse preso ou morto na madrugada, lá estava eu. Com isso arrumei muitos, mas muitos inimigos. Batia de frente, denunciava e ajudei a botar muito malandro na cadeia. Um dia metralharam a rádio onde eu trabalhava, mas Deus sempre esteve ao meu lado.
Abaixo vídeo do meu acervo pessoal mostrando como eram meus dias de repórter policial.
Minha grande formação foi o rádio, e ainda sinto falta dele, quem sabe um dia volto a fazer um programa. Quem veio do rádio não passa vergonha na TV, mas o rádio de hoje mudou muito, só tem besteiras e um monte de gente que não entende nada falando o dia todo. Ouço rádio AM nas madrugadas, é bom demais.
Se eu não tivesse sido repórter policial, eu não estaria aqui. Perdi muito o sono. Hoje troco o dia pela noite, guardo traumas de muita coisa que vi e testemunhei, mas foi o rádio que me deu, foi o rádio que me fez.
Em 2000 fui trabalhar na TV Jornal de Limeira, onde fiz um grande programa policial, e aí a Record me achou e aqui estou eu. Hoje repórter policial não existe mais, nenhum recém-formado quer editoria de polícia nem em jornal ou TV. O desgaste é muito grande e pouca gente tem coragem de fazer. As delegacias eram as minhas "casas", e a rua minha redação, sempre foi assim.
Meus programas de rádio sempre serviram a ajudar ao próximo. A Campanha de Natal, que hoje serve mais de quatro mil refeições, começou no rádio; a campanha do pão e do leite de graça, também no rádio. Foi a reportagem policial que me "doutorou" na linguagem rápida, no improviso da entrevista, na boa visão que o repórter tem que ter na rua.
Missão cumprida, hoje estou à frente de um programa que vai voltar agora em maio, o Balanço Geral, e eu te convido pra ser meu telespectador da hora do almoço, em breve.
Para você que leu mais um pedaço da minha vida, lute sempre, jamais desista de seus sonhos. Muitas vezes achei que não chegaria aqui, mas se doe ao trabalho, tem gente lá em cima cuidando de você e tua hora chegará.
Obrigado por suas opiniões aqui no blog, estou adorando, leio todas e fico feliz em ve-lôs aqui.
Do amigo de sempre.
Geraldo Luís
O filho da Olga
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