Deus, não sei se vou conseguir escrever sobre ela, me ajude... Não te sinto morta, mãe querida, você está cada vez mais viva dentro de mim, a morte não existe para alguém que sente tanto seu amor.

Dona Olga, como tantas brasileiras, era mais uma que lutou para criar seu único filho, largada pelo marido. Eu tinha quatro anos quando meu pai foi embora, era um dia 24 de dezembro do ano de 1975 e ele nunca mais voltou. Trocou uma família por uma aventura, trocou uma mulher por um desejo mais ardente, me deixou orfão e minha mãe uma quase "viúva".

Olga foi uma lutadora, lutou contra a solidão, lutou contra o medo de criar um filho sozinha, lutou contra a pobreza, lutou contra um câncer, lutou contra a solidão e por fim lutou até os últimos dias contra a morte... Olga saiu cedo de casa, se tornou uma digna faxineira e por onde passou não teve patroas, ganhou amigas. Trabalhou a vida inteira, foi cortadora de cana, apanhou algodão e café na região de Catanduva e Ibirá. De lá veio para Limeira, onde trabalhou como doméstica em muitas casas e hotéis, limpou vidraçaria e de tão honesta ganhamos uma casa para morar sem pagar aluguel, nos fundos de uma fábrica de peças.

Olga nunca mais casou, se dedicou a mim como se dedicasse a si mesma. Foi uma gravidez difícil e quase que eu não nasci, me contou ela ainda em vida. Olga foi humilhada. Uma vez estava com ela em uma casa em que ela trabalhou e a patroa a mandou limpar a privada três vezes. No canto do corredor ouvi tudo aquilo, mas não podia fazer nada, eu era apenas uma criança.

Me lembro de minha mãe saindo de casa ainda de madrugada, e me deixando na creche São Vicente de Paula onde passava o dia todo. Guerreira, Olga nunca soube o que era tirar férias, chegou a ter dois empregos no dia. Foi uma grande companheira, amiga e protetora em todas as horas. Olga tinha sonhos, sonhava em ter seu próprio sitio e fazer suas plantações, sonhava em ganhar na "Tele Sena" e comprar uma rádio para mim. Logo após sua morte, ao remexer em suas coisinhas, encontrei um saco de tele senas antigas, ehh Olga...

Uma vez fui chamado às pressas em um bar da área central. Lá estava minha mãe junto com outras mulheres detidas por estarem fazendo "jogo do bicho", ela adorava essas coisas pois queria sair da pobreza, era isso e mais nada! Olga não tinha "papas na língua", era briguenta mas tinha um coração gigante, conheceu a dor da fome e da humilhação de ter que pedir. Olga adorava a vida, mas passou boa parte dela fumando feito uma doida, morreu por causa do maldito cigarro.

Olga tinha uma coragem que poucas têm. Durante o tratamento do câncer não parou de trabalhar e lutar. Nos últimos meses de vida fez cinco cirurgias, uma delas na cabeça e saiu delas lúcida e mais alegre que nunca. Olga pouco sorriu na vida, poucas vezes a vi sorrir de verdade, a vida foi dura com ela. Ela era meio rabujenta, mas era a minha mãe, brigamos e nos amamos muito. Ao seu lado, aprendi tudo que a vida exige de um ser humano de verdade.

Olga foi uma bíblia para mim, e ela ditou alguns de seus mandamentos ao seu filho único.

- Respeitar para ser respeitado;
- Ajudar sempre aos mais necessitados;
- Jamais desistir;
- Nunca invejar para não ser invejado;
- Amar a Deus e aos outros;
- Estar sempre ao lado dos mais sofridos.

Me lembro de Olga correndo comigo pra me curar da minha bronquite que quase me matou. Quando mais precisei, lá estava ela, às vezes nem parecia mãe...

Olga se matou como mulher pra viver apenas como mãe, entregou-se em seu amor maior a mim, e assim viveu longos anos. Antes de morrer, fizemos coisas legais. Viajou de avião, conheceu o Cristo Redentor, viajamos muito e lutamos muito.

Por Olga estaria no colo dela até hoje, me amou em excesso legítimo de maternidade, me pariu muitas vezes em sua forma de vida. Há quatro anos fundei a Casa da Sopa de Limeira, uma instituição que serve mais de 8.000 refeições por mês para moradores de rua e cuida de crianças carentes e suas famílias. Minha mãe viu esta Casa nascer, e era um sonho dela ver todas aqueles pobres comendo sem parar. Passamos muita fome, e esta dor ninguém jamais esquece, mas confesso a todos que hoje não estou preparado para contar esta fase de minha vida... Um dia quem sabe.

Hoje não tenho mais a companhia da Olga, ela morreu dois dias depois da minha estreia aqui na Record em dezembro de 2007.

Tenho saudade das coisas da Olga, do torresmo que só ela fazia, do nhoque com molho vermelho e hoje meu telefone não toca mais dizendo: "Gê, é a mãe".

A morte não dói, pois ela não existe, o que mata é a saudade, essa é danada no coração da gente. Logo após sua morte, tudo que era dela foi doado para instituições de caridade, dela só restou um chinelinho Havainas rosa que guardei como lembrança, nada mais.

Duas semanas antes da Olga falecer, senti que ela ia embora, então resolvi gravar uma entrevista com ela, veja um trecho deste momento único em minha vida.

Entrevista com Olga

Incrível né, parece que ela esta logo ali...

Minha mãe foi uma provação de amor em minha vida, era uma grande amiga e companheira. Hoje caminho sozinho sem o escudo de proteção chamado Olga Moreira, a Lola. Foi uma mulher que se tornou amarga pela dor que a vida lhe impôs, era pra ter sido amada como mulher mas foi abandonada como tal.

Morreu sem ganhar na Tele Sena e comprar seu sítio em Ibirá, terra das águas poderosas e quentes.

Essa era a Olga:

Morávamos na rua Senador Vergueiro 112, centro. Uma casa velha e ao lado da zona de prostituição. Foi uma época que nos marcou muito pela doença e pobreza. De repente, minha mãe, afastada do serviço pelo câncer, começou a sair de casa me dizendo que ia no hospital, e voltava só no fim das tardes. Um belo dia uma prostituta bateu à minha porta e perguntou sobre minha mãe, me assustei com a visita que trazia nas mãos duas grandes sacolas de roupa. Descobri que minha mãe era lavadeira de roupa dessas mulheres. Tudo para trazer dinheiro pra casa e comprar alimentos. Fez isto escondido de mim durante muito tempo. Isto é amor, amor de mãe!

Antes de partir, Olga já tinha empregadas, máquina de lavar roupas e já não morava mais naquele local horrível, o qual traz traumas até hoje em minha vida.

Olga, a "Mulher Maravilha" da minha história em quadrinhos. A mulher que sozinha lutou contra as dores da vida e venceu, sem tomar nada que é dos outros. Hoje sinto ela ao meu lado, inclusive agora que estou escrevendo tudo isto pra vocês lerem.

Olga1 Carta para Deus

Filhos e filhas, acordem, elas nunca morrem!

Mãe não morre, renasce em algum outro lugar, quem sabe em seu coração!

Olga2 Carta para Deus

Olga e seus irmãos. Ela ao lado de Luís Divino e das irmãs Nair (morta há 4 meses) e da caçula Emilia.

Vou lhe dar uma dica: se a tua mãe ainda esta aí do seu lado, faça tudo o que ainda você não fez, amanhã pode ser tarde, tire muitas, mas muitas fotos, só restarão elas no seu futuro de lembranças, a beije muito e se possível faça uma bela viagem, entregue mais tempo a quem deu muito tempo a você.

Olga3 Carta para Deus

Olga e o neto no Guarujá

Como filho único que sou, minha única mãe se foi, mas deixou um exemplo de vida que me segue até hoje. Mãe é como sol, brilha todos os dias dentro da gente.

Essa é a história de Olga, ela não tem nada de mais, mas conta a vida de uma grande mulher que lutou muito para me criar. Até gostaria de escrever mais, mas não consigo, me perdoem a fraqueza humana de um homem que ainda sente muita saudade, e isso me impede de continuar escrevendo.

Olga4 Carta para Deus

Eu e a Olga pegando um sol, oh saudades...

Para você que me lê agora e já não tem mais tua mãe, não chore, vá hoje mesmo a um asilo, leprosário ou hospitais, há muitas dessas mães abandonadas só esperando um abraço teu para te chamar de filho(a).

Olga5 Carta para Deus

Publicações em jornais que eu fazia pra ela no dia das mães!

Olga6 Carta para Deus

Dona Olga

Mãe, amor eterno da minha vida, quanta saudade!

Me lembro de seu amor ainda criança, das casas velhas pela qual passamos.

Me lembro da infância pobre, e das pessoas boas que Deus colocou entre nós.

Me lembro de você faxineira, e eu na creche o dia todo.

Me lembro da fome que juntos passamos, e da humilhação de pedir. Como num filme, me lembro da solidão a dois que vivemos sem o pai, sem uma casa.

Me lembro da grande mulher chorando escondida, e eu criança sem entender nada.

Me lembro de ti, Olga, como se lembrasse de mim mesmo.

Me lembro como filho único teu, o sofrimento por cuidar de mim. Vivemos longos anos sós. Só nós dois sobrevivemos mãe, e hoje, sem você, nada é igual. Hoje tenho tudo e não tenho mais nada…

Me lembro quanta chuvas tomamos dentro de casa. Bem, aquilo não era casa. As goteiras dessas casas viravam cachoeiras, dormíamos dentro do guarda-roupas. Dormíamos muitas vezes também na casa dos outros; sentíamos o cheiro da comida que muitas vezes era negada para nós, lembra?

Me lembro de você lutando ao meu lado. A infância que me foi roubada me envelheceu demais mãe; você perdeu o filho e ganhou um companheiro dentro de casa. Fui testemunha da sua dor. Cresci vendo uma mulher morrer aos poucos, e por mim.

Me lembro de você como lavadeira das “prostitutas” para trazer comida pra casa.

Me lembro que em meio a pobreza existia a minha felicidade.

Me lembro do meu trabalho como engraxate, e depois como garçom. O primeiro dinheiro da minha vida!

Me lembro que você foi minha mãe e meu pai, e eu teu grande amor.

Me lembro da casa que não tinha sofá nem camas, mas tinha esperança.

Por fim me lembro que a vida melhorou, mas que o céu te chamou. É mãe, foi bom a senhora ter ido e eu ficado aqui.

Assim me lembro que a morte não existe, é apenas uma “breve” ausência e a certeza que ainda nos veremos. Mãe, para não chorar, resolvi escrever essas poucas e ricas palavras para dizer ao mundo inteiro: “Eu sou filho da Olga!!!”

Olga7 Carta para Deus

Dona Olga e seu neto João Pedro


Mais fotos do meu acervo pessoal

 

Olga8 Carta para Deus

Olga aos 23 anos de idade

 

 

Olga9 Carta para Deus

Olga durante faxina em mercado

Olga10 Carta para Deus

Eu e minha mãe no mercado onde ela trabalhava

Olga11 Carta para Deus

Dia de formatura: Dona Olga e Geraldo Luís

Olga12 Carta para Deus

Ficha para dona Olga receber cesta básica

 

Geraldo Luís
O filho da Olga
O amor jamais te esquece...

Veja mais:

+ Homenagem do apresentador nos dois anos da morte de sua mãe
+ Geraldo Luís fica emocionado ao lembrar da mãe
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