PF Cunha 150x150 Cunha: por muito menos, outros políticos e empresários já foram levados para Curitiba

Agentes da Polícia Federal cumprem mandado de busca e apreensão na casa de Eduardo Cunha em Brasília

Apesar de o presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (PMDB-RJ) sempre fazer cara de paisagem quando questionado a respeito das acusações que pesam contra ele, e de negar todas elas, alguém se surpreenderia hoje se ele fosse levado para passar uma temporada na carceragem da Polícia Federal (PF) em Curitiba?

Provavelmente poucos estranhariam se isso de fato viesse a acontecer, seja na Esplanada dos Ministérios, na Praça dos Três Poderes, no Ministério Público Federal (MPF) ou na PF.

Poucos têm dúvidas de que sua prisão seria apenas uma questão de tempo.

Ainda mais quando se sabe que, por muito menos, outros parlamentares e empresários já foram capturados e encontram-se presos há meses nas celas frias e nada confortáveis da PF, que nem de longe lembram as mordomias e o ambiente luxuoso de Brasília.

Há denúncias graves e indícios fortes de que Cunha teria cometido crimes de corrupção e de lavagem de dinheiro no âmbito da Operação Lava Jato.

A Procuradoria Geral da República (PGR) já o denunciou ao Supremo Tribunal Federal (STF), acusando-o de ter recebido o equivalente a pelo menos US$ 5 milhões (aproximadamente R$ 20 milhões) por contratos de aluguel de navios-sonda pela Petrobras.

No entanto, passados quase quatro meses da denúncia feita em 20 de agosto pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, o STF ainda não decidiu se irá acata-la ou não.

Enquanto o STF não se pronuncia a respeito, Cunha vai sofrendo outras acusações, como a de que mantém quatro contas secretas na Suíça, e de mentir sobre o assunto perante uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), na Câmara dos Deputados.

A propósito dessa última, o Conselho de Ética decidiu nesta terça-feira (15/12) que a ação por quebra de decoro que poderá resultar na cassação de seu mandato será, finalmente, levada adiante.

Cunha fez de tudo para impedir a abertura da investigação pelos parlamentares. Sabotou o quanto pode os trabalhos do Conselho, mas somente hoje, passados 10 meses e meio desde que assumiu a presidência da Câmara, conheceu a sua primeira derrota política. 

Casas vasculhadas e cofre arrombado

Não bastasse tudo isso, também na manhã desta terça-feira as casas de Eduardo Cunha, em Brasília e no Rio de Janeiro, foram alvos de nova operação da PF, que cumpriu mandado de busca e apreensão. Um cofre de uma de suas propriedades foi arrombado e o conteúdo apreendido pelos policiais.

A ação solicitada por Rodrigo Janot, no âmbito da Operação Lava Jato, teve o aval do ministro Teori Zavascki, do STF, e foi batizada pela PF de Operação Catilinárias.

Ela envolveu um total de 53 mandados de busca e apreensão e teve Cunha como alvo principal.

Além dos imóveis de Cunha, a PF cumpriu mandados também na diretoria-geral da Câmara dos Deputados, em residências e escritórios dos ministros do Turismo, Henrique Alves (PMDB-RN), e de Ciência e Tecnologia, Celso Pansera (PMDB-RJ); dos senadores Édson Lobão (PMDB-MA) e Fernando Bezerra (PSB-PE); do deputado Aníbal Gomes (PMDB-CE) e em escritórios de advocacia.

Pode ser que com tudo o que aconteceu hoje, com a ação da PF e o vexame de ter suas casas vasculhadas e documentos apreendidos; com o prosseguimento da ação por quebra de decoro; com o nítido isolamento político; e com a eventual perda de mandato, seja pela renúncia ou pela cassação, se transformando numa possibilidade real, Cunha já esteja vendo Curitiba, como uma cidade cada vez mais bem próxima do que a do Rio de Janeiro, a sua terra natal.

Catilinárias
O nome Catilinárias dado pela PF à sua mais nova operação, se refere a quatro discursos célebres proferidos pelo cônsul romano Marco Túlio Cícero contra o senador Catilina, que planejava tomar o poder e derrubar o governo republicano.

Em um dos trechos mais famosos do seu discurso Cícero questiona:

"Até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência?
Por quanto tempo a tua loucura há de zombar de nós?
A que extremos se há de precipitar a tua desenfreada audácia?
Nem a guarda do Palatino, nem a ronda noturna da cidade,
nem o temor do povo, nem a afluência de todos os homens de bem,
nem este local tão bem protegido para a reunião do Senado,
nem a expressão do voto destas pessoas, nada disto conseguiu perturbar-te?
Não te dás conta que os teus planos foram descobertos?
Não vês que a tua conspiração a têm já dominada todos estes que a conhecem?
Quem, dentre nós, pensas tu que ignora o que fizeste na noite passada e na precedente, onde estiveste, com quem te encontraste, que decisão tomaste?
Oh tempos, oh costumes!"