A cerimônia de posse de Raquel Dodge no comando da Procuradoria Geral da República (PGR) foi marcada por alguns simbolismos, a começar pela composição da mesa principal montada no auditório da PGR.

Entre as cinco personalidades que nela se sentaram voltadas para a plateia, somente a presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministra Carmen Lúcia, e a própria anfitriã, não são investigadas.

Já as outras três que as ladearam são todas suspeitas e alvos de investigação, sendo o presidente Michel Temer (PMDB), o mais ilustre dos denunciados ali presentes. Na quinta-feira (14), ele foi novamente denunciado ao STF pelo antecessor de Doddge na PGR, Rodrigo Janot, pelos crimes de obstrução da Justiça e de formação de organização criminosa.

Os presidentes da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Senado, Eunício Oliveira (PMDB-CE), que completaram a mesa, são acusados de receber propinas da Odebrecht no âmbito da Operação Lava Jato.

(Detalhe: apesar da gravidade das denúncias que pesam contra os três, não se notou, porém, nenhum tipo de constrangimento entre eles durante o evento. Ao contrário: eles cantaram o hino nacional, posaram para fotos e, no mais, fizeram cara de paisagem o tempo todo, como se as denúncias fossem peça de alguma obra de ficção ou fruto da imaginação de quem as formalizou.)

Um outro simbolismo presente na posse foi a ausência do agora ex-PGR, Rodrigo Janot, que na véspera divulgou carta de despedida alegando motivos protocolares para não comparecer à cerimônia e transmitir o cargo à sua sucessora. (Na carta, Janot aproveita para lamentar que "larápios egoístas e escroques ousados ainda ocupam vistosos cargos em nossa República". Para bom entendedor...)

Por fim, completando a série de simbolismos, a nova procuradora-geral da República em seu discurso de posse não foi taxativa, mas deixou transparecer que, na sua gestão iniciada nesta segunda-feira (18), a Lava Jato poderá perder status de prioridade para a PGR.

Mesmo ressaltando que "ninguém pode estar acima ou abaixo da lei", com certeza, uma fala sem ênfase na Lava Jato era tudo o que os seus três companheiros de mesa mais queriam ouvir.

Clique no link a seguir para ler na íntegra o discurso da nova procuradora-geral: Discurso - Raquel Dodge