8 dez 15h21

Ele é proprietário de um bar na região sul de São Paulo. É uma área da cidade onde predomina o crime organizado e os moradores sabem quem são os representantes do PCC. Ele compra motos roubadas e despacha para o Maranhão nos porões dos ônibus clandestinos que saem da Praça Princesa Isabel, bem no centrão da cidade.

Para levar uma moto o preço é de uma passagem. Gente ou moto roubada custam a mesma coisa. Da mesma praça partem outros clandestinos para o norte e o nordeste do país. A moto chega ao destino, é vendida e o comprador se acidenta. A polícia do Maranhão descobre o esquema e liga para o dono do bar.

Ela quer R$ 8 mil para deixar tudo limpo. Há negociação e a mordida cai para R$ 6 mil, afinal, ele tem que dar também alguma coisa para a polícia civil paulista. Parece ficção, mas não é.

A corrupção está capilarizada no país, e não são apensos os colarinhos brancos que se envolvem em negociatas para encher o bolso. A maracutaia está democratizada, sofisticada, e atende parte da população que não tem condições de comprar produtos legais. Misturam-se ladrões, receptadores, policiais corruptos, motoristas piratas, e outros personagens não identificados.

Sou, mas quem não é, dizia o personagem mau caráter e corrupto criado pelo genial Chico Anísio. É um tapa na cara daqueles que acreditam que a sociedade só será justa e tranquila quando todos se limitarem a agir no campo da ética. Mas os exemplos são os piores possíveis. Parece que o refrão do samba “se gritar pega ladrão, não fica um meu irmão”, não é apenas um poema musicado. É a mais pura realidade.

O cidadão toma consciência que não se pode investigar nada porque se descobre sujeira, antes restrita aos políticos, agora também no judiciário, graças a ação do Conselho Nacional de Justiça e de sua corregedora Eliana Calmon. Não dá mais para comparar o cofre público com um queijo suíço, não cabe tanto rato, é melhor comparar com uma madeira atacada.

Além do assalto direto ao cofre, abastecido com o pagamento de impostos pelo distinto público, eles recebem “pagamentos” contra a prestação de serviços da “consultoria” que nunca fizeram. Usam os mais ardilosos artifícios, como criar um micro empresa que recebe de pagamento de um único cliente mais do que fatura o ano inteiro e contrata um deles como “assessor”. Esta central de propinas que mantém vivo o tráfico de influências sai sempre do bolso do contribuinte. Seja através de superfaturamentos, seja de entidades que também recebem verbas públicas. O povo paga sempre.

A mídia descobre e divulga um verdadeiro bacanal, que se desenrola atrás de um biombo, que vez ou outra cai e mostra o que se passa lá trás. Todo mundo pego no flagra. Não há biombo que resista a uma investigação seja de um órgão controlador, ou da mídia jornalística. Os escândalos se sucedem e ninguém tem o monopólio da sacanagem, está disseminada.

O verso do Lupicínio ficou totalmente démodé “e vergonha foi a herança maior que meu pai me deixou”. Afinal, sou, mas quem não é?

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