Conta Santa

O governo quando compra uma hidroelétrica, ou uma estrada, ou um prédio e paga o valor combinado. Nem a mais, nem a menos. É o que se espera. Quando compra serviços ele se recusa a pagar o valor combinado. Assim, quando compra atendimento para os pacientes do SUS nos hospitais filantrópicos, como nas Santas Casas, o governo só paga 65 por cento do valor da conta. De cada cem reais, paga 65.  E quem paga a diferença? A entidade ou pede dinheiro emprestado em banco ou pede esmola para fechar a conta. É por isso que muitas Santas Casas estão ameaçadas de fechar, ou deixar de atender o SUS. Certamente o ministro da saúde sabe disso. De tudo isso se deduz que ou o governo acha melhor construir os seus próprios hospitais, ou pressupõe que as entidades filantrópicas  superfaturam as despesas e pedem mais do que realmente gastam. Mas para isso, o mínimo que o contribuinte tem direito de saber, afinal é ele quem paga a conta, se esses hospitais são auditados. Onde está o trilhão de reais que pagamos de impostos no ano passado?

Por que o governo não faz o mesmo com as empreiteiras encarregadas de grandes obras? Qual  seria a reação do empresário se soubesse que o governo iria dar um calote de 35% do valor do contrato? Certamente pararia imediatamente as obras, ou então entregaria a ponte, ou a estrada, ou a transposição de águas do São Francisco com apenas 65% concluídos. Isto não acontece, não só porque as empreiteiras tem um poder de pressão imenso, mas contam com o lobby dos deputados e senadores que ajudaram a eleger com dinheiro de campanha. Pelo contrário, o que se noticia é que a maioria das obras recebem aditivos contratuais e seu valor é elevado pelos motivos mais diversos. Tudo é assegurado para que a empresa não perca um tostão e se possível recupere a grana que canalizou para as campanhas.

As Santas Casas não tem poder de lobby nenhum, a não ser a mídia que entende a importância do trabalho de pessoas dedicadas e honestas. Veja se aparece alguma excelência em público para por a boca no trombone e divulgar a malandragem que o governo faz com um programa que é  considerado um avanço no atendimento de saúde. Suas excelências não se tratam na Santa Casa, nunca vi nenhum carro oficial, com motorista e gasolina pagos por nós, na porta do hospital que fica no meu caminho. Só ambulâncias e vans que trazem doentes do interior do Brasil. Viajam horas em macas ou mal acomodados, mas são recebidos na Santa Casa. É chegada a hora de se fazer um embate aberto, transparente, decisivo entre o governo e as entidades filantrópicas e se resolver de uma vez por todas o que se quer para o atendimento dos doentes. Ou se abandonam as Santas Casas a sua própria sorte, ou se faz  um sistema de pagamento compatível com os gastos do atendimento. Também aqui não há o milagre da multiplicação do esparadrapo e da seringa.