O entrevistado do programa Opinião Nacional era um oriental de origem japonesa, e aparentava ter  uns sessenta anos. A entrevista com o senhor Shimada parou quando ele começou a chorar no ar. Olhou-me firme nos olhos e me disse: "Vocês arruinaram minha vida". Dali em diante escutei um longo desabafo, certamente deve estar nos arquivos da TV Cultura, quando disse que não podia sair na rua, nem ir a padaria ou a uma feira livre. Pessoas gritavam ofensas contra ele, e chegavam a chamá-lo de  "o japonês que come criancinha". Contou que mesmo  tendo passado dez anos (não me lembro bem da data da entrevista) nada tinha recebido de indenização. Dizia que o que mais preservava, sua reputação, estava liquidada. Acusou diretamente os veículos e jornalistas sobre a desgraça que se abatera sobre ele e sua família. Lamentou que seus netos ficassem sabendo de inverdades jamais praticadas pelo avô.

O Jornal 60 Minutos cobria o caso Escola Base. Eu era o comentarista de economia popular e ia a TV Cultura todos os dias na hora do almoço. Findo meu trabalho sentei-me na sala de maquiagem para ver o resto do jornal. Chegou o repórter Florestan Fernandes e ficamos vendo juntos. Entrou uma reportagem dele e mais uma vez o  delegado do caso Escola Base dava declarações sobre o caso. Terminada a matéria olhei para o Florestan e perguntei: “Você já imaginou se esse cara não estiver dizendo a verdade? Estaremos perdidos...".  Florestan me disse, como assim se não estiver dizendo a verdade? Voltei a repetir que tudo o que se publicara até então estava sobre um único pilar: o delegado. E se tivesse mentindo, o prédio todo viria abaixo.

O repórter Florestan Fernandes, ao invés de ir para casa, seu período de trabalho tinha terminado, juntou uma equipe da TV Cultura e saiu novamente. Voltou com a notícia que o delegado tinha mentido. O jornalista foi o responsável pela descoberta que tudo o que se sabia era uma deslavada mentira. O mundo jornalístico veio abaixo. A Escola Base virou case nos livros de ética jornalística e tomado como um exemplo. Os jornalistas cometeram um ato contra mais importante degrau do código de ética: não checaram a notícia antes de divulgar.

As feridas provocadas pela Escola Base ainda estão  abertas, prova disso é o trabalho do Emílio Portugal. Ele recupera os fatos em 1994, contextualiza e parte para o que sucedeu depois. Faz uma revisitação aos personagens que nos ensina, pelo que passaram, a entender que as pessoas são inocentes até prova ao contrário.

ET. Logo depois da Escola Base cometemos o mesmo erro quando jovens foram forçados a admitir que assaltaram o Bar Bodega, em Moema, e morreu uma frequentadora. Eram inocentes.