As recepções do Itamaraty no governo Dilma Rousseff
Já estamos no segundo mês do novo governo e a presidente Dilma Rousseff ainda não conseguiu tempo em sua agenda para se reunir com seu staff e decidir o formato da primeira recepção de seu mandato a um visitante estrangeiro, o presidente Barack Obama.
Entra em seu gabinete o ministro Samuel Pinheiro Guimarães, das Relações Exteriores, acompanhado de vários embaixadores, pois em governo petista opinam muitos. Estão o secretário-geral, embaixador Antonio Patriota (mantido no cargo), o novo porta-voz, embaixador Cesário Mellantonio, o embaixador Sergio Danese, chefe do cerimonial do Itamaraty, o embaixador Tony Souza e Silva, que veio de Moçambique para assumir a chefia do cerimonial da Presidência, o secretário-geral para a América do Norte, embaixador Antonio José Ferreira Simões (ex-América do Sul), e o novo embaixador do Brasil em Washington, Valter Pecly Moreira (designado para o cargo nos EUA, depois de uma queda de braço de uma corrente forte do governo, que fazia mais gosto no Jorge Lamazière).
São oito horas da manhã e já é a segunda reunião da agenda da presidente, sempre cumprida rigorosamente e no horário. O ministro coloca o assunto:
“Presidente, a senhora tem alguma sugestão a fazer quanto à recepção para o presidente dos Estados Unidos?”.
“Ministro Samuel, o especialista no assunto é o senhor. Sou pela meritocracia e o senhor está em seu cargo exclusivamente pelo grande mérito. Peço ao senhor que exponha suas sugestões”, diz a presidente.
E o ministro começa sua explanação dizendo que, no governo Lula, foram abolidas as recepções a rigor, dada a grande alergia do então presidente aos smokings e às formalidades, e que cabe à presidente definir sua preferência. Dilma decide rapidamente: “Vamos manter como no governo passado. Se eu usasse smoking, ainda vá lá. Mas como a roupa para mim seria o longo e eu não tenho tempo pra ficar provando vestido, vamos fazer de preferência almoços, em que eu possa usar conjuntos de calças compridas ou tailleurs, que me caem muito melhor do que saia comprida. Pelo menos foi o que a minha assessoria de moda disse”.
“Almoço? - replica Samuel - Certo, presidente, faremos um almoço para Obama. E a disposição das mesas?”
“Como?”, ela pergunta meio intrigada. “É que, tradicionalmente, em todos os governos anteriores ao de Lula, o presidente, os homenageados e principais autoridades ficavam na mesa longa de banquete, todos de frente para o salão, olhando para os convidados dispostos nas demais mesas. E o serviço era à francesa. Mas o presidente Lula mudou isso. Acabou com a mesa longa e as autoridades passaram a se sentar, como os demais, em mesas no centro do salão. E, em vez de serviço à francesa, ele adotou o buffet. Assim, todo mundo entra na fila para se servir no buffet, inclusive presidente e homenageado, e todos confraternizam”.
A presidente Dilma não pensa duas vezes e já se levanta, enquanto informa sua decisão: “Vamos manter como fazia o presidente Lula, é muito mais democrático e menos complicado. Obrigada, embaixador”, ela diz, já estendendo a mão e dando por encerrada a audiência. Samuel e os demais embaixadores se retiram. Entra o Ministro da Cultura, Francisco Buarque de Holanda...
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