23 mar as 16h49

Chico Anysio FabioMottaAE g 20090927 Chico Anysio era muito mais que este que se foi

Um Chico Anysio morreu hoje, sexta, no Rio. Os outros, resultado de sua múltiplo talento e de sua generosa versatilidade, continuarão na nossa memória.

Um Chico se foi, ficam os outros. Ninguém teve a capacidade dele de se reproduzir em mil personagens, todos tão originais, todos tão diferentes e, no entanto, todos tão dependentes do talento histriônico de seu criador.

De Alberto Roberto ridiculamente autosuficiente ao Azambuja, malandro carioca; de Bento Carneiro, o tristonho vampiro brasileiro, ao Bozó, o subalterno a quem o crachá sobe à cabeça – Chico e seus alteregos declinaram todas as letras do alfabeto.

Até este consolo o gênio de Chico nos deixou. Podemos chorar a morte de um mas haveremos de ter todos os outros para sempre juntos a nós.

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21 mar as 16h56

110511FP2231 José Serra tem um problema sério com papel

Será que Freud explica? O ex-tudo (ex-deputado, ex-ministro, ex-prefeito, ex-governador) e eterno candidato a tudo diz que “é apenas um papelzinho” o documento por ele assinado, na campanha de 2004, prometendo não deixar a Prefeitura de São Paulo para se candidatar ao Governo – coisa que acabou fazendo, dois anos depois, deixando o mandato no meio e entregando à cidade de SP esse presentão chamado Gilberto Kassab.

Serra, em 2004, jurou que cumpriria o mandato até o fim. Como o que ele habitualmente diz não merece maior crédito, tratou de assinar, durante entrevista à Folha, o documento que hoje renega. Disse que registraria o papel em cartório. Claro que não fez nada disso.

A questão do “papelzinho” volta à tona porque ninguém acredita que, mais uma vez, Serra vá cumprir o mandato de prefeito – na agora complicada hipótese de vencer a eleição de novembro. Ele próprio insinua que o sonho presidencial está apenas “adormecido”. Todo mundo sabe que Serra vai tentar atropelar de novo seus companheiros de PSDB e, não importa onde esteja, insistir em ser de novo candidato à Presidência. Ele não se emenda. É capaz de assinar agora outro “papelzinho” e esquecer olimpicamente o que prometeu.

O problema freudiano de Serra com papéis atingiu o auge durante a campanha presidencial de 2010, vocês se lembram. Uma bolinha de papel quicou na sua luzidia cabeça durante périplo eleitoral na Baixada Fluminense. Serra e comitiva continuaram caminhando. De repente, recebeu uma chamada no celular e encerrou dramaticamente a caminhada, internando-se num hospital do Rio. Ali, um médico camarada, Jacob Kligerman, sem pudor de botar em risco sua credibilidade, alardeou que o candidato se submeteria a uma tomografia por suspeita de traumatismo craniano.

A candidatura de Serra revelou ali uma de suas facetas: a farsa. O Jornal Nacional, alinhado com o PSDB, sugeriu um atentado. Virou piada mundial o episódio da bolinha do papel. O compositor Tantinho da Mangueira compôs o partido alto Bolinha de Papel, em parceria com Sergio Procópio.

Diz a letra: “Deixa de ser enganador/Pois bolinha de papel/ Não fere, nem causa dor./A bola de papel/Quando bate a gente nem sente/Agora vem esse cara querendo enganar a gente. Ele quer enganar a gente, cumpade/ Na bolinha de guerra/ Deixa de ser enganador/ Olha só o cumpade Serra. Deixa de ser enganador/Pois a bolinha de papel/ Não fere, nem causa dor”.

Agora, mais uma vez, Serra quer presentear o eleitor com o papel de bobo.

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17 mar as 06h00

Deve ser sinal de civilização uma sociedade destinar preciosos minutos de seu tempo à discussão de assuntos radicalmente irrelevantes.

Certa vez, numa viagem à Itália, percebi que o que moviam as mais acaloradas discussões de rua não era o calcio, nem a política – e, sim, a qualidade das trufas brancas daquele ano.

Idem, idem, na França, quando se trata de avaliar determinada safra dos bordeaux e dos bourgognes.

Aqui neste Brasil da opulência o Congresso Nacional se distrai de temas menores como a saúde, a educação e a segurança pública e passa a semana debatendo intensamente, com empenho de batalha moral, se a cervejinha deve ou não ser liberada nos estádios da Copa de 2014.

Não se fala em outra coisa.

Sou dos que acreditam que esse tipo de coisa deva ser entregue ao arbítrio de cada um. Me incomoda muito quando a esfera privada é invadida por medidas arbitrárias, policialescas do Estado. Odeio ver o ser humano maduto ser tutelado como uma criancinha.

Vão dizer que o alcoolismo é um problema da sociedade e digo: é, sim. Mas não estamos falando do alcoolismo, que é fenômeno isolado, felizmente; o que se debate agora é o direito da maioria de tomar um traguinho durante o jogo (já que nossa habitual hipocrisia não se incomoda com o que se passa antes, nem depois).

Mas não é nessa discussão que pretendo entrar. Só me pergunto se não têm nada mais sério a fazer as altas, altíssimas autoridades – a começar pelos nossos ilustres representantes no Parlamento.

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24 jan as 07h39

Tenho um amigo que batizou de Claudia – lindo nome – sua filhinha nascida em junho de 2011. Ela é um encanto de menina, risonha e doce. No entanto, tem padecido recentemente daquele mal-estar típico que os pais extremosos pensam ser o fim do mundo e o pediatra, já escolado, tranqüiliza com um – “não é nada, fiquem tranqüilos”.

O fato é que Claudia tem tido noites inquietas, chorosas.

O pai, naquela ansiedade de primeira viagem, faz o que pode, compressas, chupetas, suquinhos. O efeito é aleatório. Às vezes, o mal-estar passa e Claudia volta a dormir como um anjo. Às vezes, ela contempla as madrugadas com gritos lancinantes de bicho ferido.

Repito: Claudia é um amor e a gente sabe que isso passa. Mas meu amigo, no tormento da madrugada insone, ainda não sabe.

Uma noite dessas, descabelado em sua impotência de dar conforto aquela coisinha linda, ele radicalizou, em desespero de antipedagogia:

– Se você não calar, vou chamar a Polícia do governador Alckmin.

Desde então, a suave Cláudia não dá um pio.

(Este blog é uma homenagem aos resistentes do Pinheiro, em São José dos Campos – famílias e famílias desalojadas pela impoluta Justiça estadual e pela brutalidade da PM do Alckmin para reintegração de posse que favorece o escroque Naji Nahas)

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19 jan as 13h29

elis regina nirlando O povão me ensinou o que eu não sabia da Elis

Elis era uma encrenqueira. Não por acaso a chamavam de Pimentinha. Desaforada, era do tipo que brigava com garçom em restaurante. Mais de uma vez assisti a cenas dela. Me constrangia.

Fui acordado naquele 19 de janeiro de 1982 por um telefonema da Regina Echeverría – acho que foi a Regina, sim. Regina era superamiga da Elis e acabaria por escrever a definitiva biografia dela, Furacão Elis, que já deve estar aí pela décima edição.

Foi com a Regina que conheci pessoalmente a Elis, quando ela ainda morava na casa da Cantareira. Não seu dizer se já separada do César Camargo Mariano ou ainda com ele. Minha precaríssima memória registrou, de todo modo, a presença de uma garotinha esperta, de quatro anos, chamada Maria Rita.

Quando a Regina me ligou, não acreditei no que ouvia. Foi um baque. Corri para a redação da IstoÉ, onde o Geraldo Mayrink, editor de Cultura, já coordenava a cobertura com seu time de repórteres-gatas, em que a inteligência competia com a beleza. Também acabei escrevendo um texto modesto na edição daquela semana.

Até então eu acreditava que Elis era uma cantora cult, por causa da irreverência dela e da escolha do repertório, sempre cheio de alusões politizadas no escuro da ditadura militar que já se esvaía.

O enterro dela me desmentiu. A explosiva Elis era um ícone do povo, querida de todos. O cortejo passou pelas ruas do centro de São Paulo e os prédios deixavam cair lágrimas, pétalas de rosas e papel picado. Foi emocionante.

Antes dela, imagino que só Carmem Miranda deva ter provocado tal comoção. Depois dela, Ayrton Senna.

Elis morreu muito nova, aos 36 anos. A consternação popular aumenta quando se constata a injustiça de uma morte tão prematura.

O fato é que o povão sabia quem – e o quê – estava perdendo. Elis era única e continua sendo incomparável.

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19 jan as 06h00

Vejo foto da ministra Mario do Rosário, dos Direitos Humanos, sentadinha numa das carteiras da Escola Pública de Trânsito do Distrito Federal, assistindo aulas na tentativa de recuperar sua carteira de habilitação.

Dias atrás, foi a vez do ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, se submeter ao suplício do cursinho de direção defensiva – seja lá o que isso signifique.

É simbólico que as vítimas sejam, uma, responsável pelas Comunicações no governo federal e, a outra, guardiã do respeito à dignidade da pessoa.

Pois não vejo nada mais desrespeitoso a nós, cidadãos brasileiros, do que a forma como as autoridades (?) de trânsito nos tratam – sendo que o que passa para a opinião pública é que somos nós os cruéis infratores e eles, os zelosos apóstolos da lei. Terrível erro de comunicação, né não?

Antecipando-se ao noticiário, sabidamente carregado daquela linguagem policialesca dos jornalões anti-PT, tanto Paulo Bernardo quanto Maria do Rosário trataram de ser explicar: nem sempre são eles que dirigem seus veículos.

Percorro de novo as fotos e não consigo imaginar Maria do Rosário nem Paulo Bernardo no papel de sinistros delinqüentes do volante. As pessoas que os cercam, na sala de aula, tampouco parecem ser figuras de quem a sociedade, assustada, deva se proteger.

Conheço uma enorme – sem exagero – quantidade de pessoas de bem que perderam sua habilitação por uma única e exclusiva razão: a sanha arrecadadora do Estado.

A vigilância insana dos radares não existe para proteger a vida e propiciar a segurança do cidadão e, sim, apenas e tão somente, para converter em penalidade – quer dizer, em dinheiro – eventuais pecadilhos de trânsito.

Vocês podem dizer: e os assassinos do trânsito? Os que matam, nos cruzamentos loucos, encharcados de bebida? Existem, sim – e devem ser punidos exemplarmente. Mas são minoria. Governar é atender a maioria. Não é nos transformando a todos nós em suspeitos que a circulação caótica das grandes cidades e das rodovias há de melhorar.

A ansiedade punitiva disfarça a falta de idéias para o tráfego. Volto às fotos, vejo aquelas pessoas sendo humilhadas na sala de aula do Professor Detran e me pergunto se os verdadeiros criminosos não serão aqueles que se omitem ao lidar com essa questão gravíssima. As tais – e sempre anônimas – autoridades.

Quando não se omitem o que fazem é meter a mão no nosso bolso.

Em tempo: até hoje ainda não perdi minha habilitação. Deve haver algo de errado comigo.

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18 jan as 08h13

A gente sabe, faz tempo, que o personagem mais expressivo daquele amontoado de pit bulls e saradonas que atende pelo nome de BBB é o edredom.

É, de longe, o elemento mais sensível e com maior senso de dramaturgia em meio àquela agarração descerebrada, frenética maratona de amassos.

Sem o edredom, o Big Brother Brasil não é nada. O BBB pode passar sem o Pedro Bial, mas não sem o edredom. O edredom encobre a cupidez dos personagens, mas, sobretudo, aguça a fantasia dos espectadores.

O BBB 12 reitera agora a vocação do edredom de verdadeiro protagonista da farsa. O esfrega-esfrega de um dos brothers com a sister aparentemente embriagada – e talvez ferrada no sono – se passa, claro, por baixo do pano.

O brother – cujos 15 minutos de fama mal duraram uma semana – foi expulso da casa por conduta “inapropriada”. O edredom continua lá, imune a qualquer punição.

Brothers e sisters se calam. Bial perdeu a piada. O edredom apenas espera a hora de voltar à cena, presidindo aquele festival infantiloide de vulgaridade e de exibicionismo.

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10 jan as 17h43

É maluquice o que a Polícia Militar de São Paulo está fazendo, a pretexto de higienizar o centro da capital da nefasta presença dos traficantes e viciados em crack e similares.

Já se sabe que a PM tomou iniciativa sem avisar as instâncias superiores, transformando, assim, o que é um grave problema social numa questão meramente repressiva.

Lembrou os piores tempos da ditadura.

Nem o governador Alckmin nem o prefeito Kassab foram avisados de ação de tal envergadura e de tamanha visibilidade.

Aliás, a impressão que fica – vide Cracolândia, vide invasão da USP – é que o comandante da PM manda mais em São Paulo do que o omisso governador do Estado.

É preciso, sim, acabar com a chaga urbana que é a Cracolândia. Mas que junto com a polícia – aliás, antes dela – as autoridades mandem os assistentes sociais e os experts em saúde pública.

Pancadaria, balas de borracha, bombas de gás não resolvem; só aguçam ainda mais o problema.

Os viciados em crack e similares, meio que desalojados de seus redutos, vagam hoje por São Paulo como aquelas hordas infectadas pela peste do filme O Sétimo Selo, de Bergman. Ou reproduzindo sinistramente a alegoria medieval da Nau dos Descontentes.

Além do mais a PM agiu de má fé. Sabia que o governo federal preparava um programa de amplo espectro para combater o mal do crack e do tráfico. Não só em São Paulo – em todo o país. O Estadão de hoje traz essa informação, cristalinamente documentada.

A PM se antecipou, desastradamente, com a óbvia intenção de bajular o governador a quem deve obediência, de olho nos supostos dividendos políticos de um ano eleitoral.

Até nisso o resultado é um desastre. A ação só aumenta a insegurança da população.

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09 jan as 06h44

Há um lugar do Brasil em que A Privataria Tucana não é o livro mais vendido.

Líder absoluto em todas as listas de best sellers, até mesmo naquela da Folha de S. Paulo – jornal que, no entanto, achou irrelevante discutir o que está ali escrito –, o livro do Amaury Ribeiro Jr. está em quinto entre as obras de não ficção.

Na mesma bancada, lado a lado, em quarto lugar, desponta A Soma e o Resto, assinado ironicamente por um dos personagens mais insistentemente falados no bojo das denúncias de A Privataria: o ex-presidente Fernando Henrique.

Nem naquilo que diz respeito ao “Resto”, FHC sequer resvala no explosivo tema das privatizações. O livro é um passeio biográfico por 80 anos de vida de FHC. Mas as privatizações, a gente sabe, são uma incômoda pedra no sapato do ex-presidente.

O best seller número 1 da lista de não-ficção ajuda a explicar que misterioso lugar é este onde as pessoas fingem não ouvir o petardo detonado pelo Amaury Jr., repórter aqui da Record.

Lidera a lista A Parisiense, guia de estilo assinado por Inès Marie Laetitia Eglantine Isabelle de Seignard de la Fressange (no mundinho fashion, a ex-modelo Inés de la Fressange), em parceria com Sophie Gachet.

É, vocês adivinharam: o lugar é uma livraria de Higienópolis, a Versalhes brasuca. A Livraria da Vila do Pátio Higienópolis.

Higienópolis é aquele bairro cujos moradores gostariam de exigir passaporte de outros brasileiros digamos assim banais.

Sendo Higienópolis também o poleiro do tucanato, é até de se surpreender que A Privataria Tucana tenha galgado uma posição tão honrosa.

Desconfio que as pessoas comprem para não deixar as outras – realmente interessadas no assunto – lerem.

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05 jan as 19h20

A gente vive, na virada do ano, a fantasia de notáveis propósitos, como se o Ano-Novo (ou Ano Bom, como dizem os franceses, num otimismo incompatível com sua habitual índole) fosse purificar a humanidade com a aragem de uma Mega-sena espiritual.

Aí, começa o Big Brother e não há como não amargar a impressão de que nada irá mudar, em 2012, nem mesmo o repertório de piadas constrangedoras do Pedro Bial.

Bial, o BBB, as tragédias do verão tropical, a mediocridade das primárias do Partido Republicano onde cada pateta tenta dizer que é mais conservador e mais insensível do que o outro – e, para completar o quadro de desolação, o anúncio da aposentadoria do Marcão, goleiro do Palmeiras e da seleção.

Marcão aprontou várias contra o meu time, mas ele é o tipo de sujeito pelo qual ninguém – repito, ninguém – deixa de ter respeito, quando não admiração.

Na sua espontaneidade simulada de capiau, ele é dono de uma profunda sabedoria. Ao contrário de outros chatos que andam por aí, pavões enfatuados sob as traves, o Marcão se despede na hora certa e sai de cabeça erguida.

A julgar pela amostra dos seis primeiros dias, teremos aí um 2012 pra lá de chocho. Confesso que custei a buscar certa energia para recomeçar o ano aqui neste blog.

Nem daquelas mortandades gratuitas que alimentam a gana dos americanos e de seus aliados o ano será bem servido. As ameaças contra o Irã são jogo de cena e mera guerra de nervos para requentar o calendário eleitoral.

Os brucutus belicosos terão de se contentar, em 2012, com as pancadarias do Ultimate Fight.

E a principal novidade do cenário internacional, sou obrigado a dizer, deve ser a reeleição de Barack Obama.

Ruim com ele, pior sem ele.

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