02 mai as 13h27

O Reino Unido vai eleger dia 7, quinta-feira, um novo Parlamento e é até possível que venha a cair a coligação que juntou conservadores e liberais–democratas e que governa o país há cinco anos.

Mas quem é que se importa com isso? Todas as conversas familiares em torno do chá das 5 ou as discussões nos pubs à frente de um pint de cerveja tépida se voltam desde a manhã de hoje, sábado, para um único e tormentoso tema: afinal, como é que vai se chamar a menina a que a duquesa de Cambridge, aliás Kate Middleton, acaba de dar à luz? Alice, como indicam as casas de apostas. Ou Elizabeth, em homenagem à bisavó, a rainha?

The royal baby número 2, afinal das contas, passa a ser – tenha o nome que quiser – a quarta na linha de sucessão do trono, depois do avó Charles, do pai William e do irmãozinho George.

George, aliás, aos dois anos de idade, já deve ter se dado conta de suas responsabilidades. Ao chegar com o pai à maternidade para conhecer sua recém-nascida irmãzinha, acenou para as câmeras com aquele aceno típico da realeza.

O nascimento da royal baby é mais um lucrativo negócio dessa bem gerida firma que é a monarquia britânica. Gadgets serão vendidos à profusão, a indústria dos souvenires se regala, legiões de turistas irão movimentar as artérias onde a nobreza desfila suas tradições, até a maternidade londrina onde Alice (ou Elizabeth) nasceu irá com certeza virar um point de visitações. (A maternidade particular que abriga Kate cobra perto de 25 mil reais, a diária. Não há notícia de que os ingleses, sempre muitos respeitosos, tenham ensaiado às portas da instituição um coro “vai pra SUS”)

Eventos como este avivam a chama do carisma que envolve a família real dos Windsor e cimentam a perenidade da monarquia no Reino Unido. Nada é por acaso. Os rituais servem para reiterar a vocação dos Windsor – e seus castelos, e seus casamentos, e seus rebentos – de serem a paisagem mais lucrativa da nação britânica.

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12 abr as 18h44

Convocado pela Rede Globo, insuflado pela manchete marota da Folha de S. Paulo e legitimado por aquelas PMs que só baixam o cacete quando os manifestantes têm cheiro de povo, os protestos deste domingo foram constrangedoramente minguados pela expectativa de seus organizadores-negociantes.

Ficou claro que muita gente que foi à manifestação anterior, do dia 15 de março, movida por um sentimento até que sincero de revolta e de esperança, tratou de debandar.

Quem estava lá, desta vez, eram os convictamente antidemocráticos – os lambe-botas dos militares – e os tolinhos desinformados, fora os coxinhas do selfie, loucos para extravasar em qualquer evento público, seja velório ou show de rock, o seu despolitizado exibicionismo.

A mídia da oligarquia, do privilégio, abriu as câmeras e as páginas para tentar reanimar o cadáver do impeachment. Acordou cedo no domingo. Mobilizou helicópteros estridentes. Torceu e distorceu.

A Globo quer o impeachment, a Folha também (não cito o Estadão porque, como se sabe, o Estadão faleceu, que descanse em paz). Mas fica difícil convencer o país a tirar a Dilma para botar no lugar um vice – e é a Datafolha quem tem de admitir, ainda que contrariadíssima – o qual ninguém conhece.

Os antidemocratas e os patetas com certeza voltarão às ruas, incentivados pela mídia dos fariseus e acobertados pelos policiais que, nas outras horas, agridem os verdadeiros revoltosos, os que genuinamente têm sede de justiça.

Mas que o golpe ficou mais difícil, isso ficou.

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10 abr as 16h16

Já que o governo Dilma foi sequestrado pelo esfomeado PMDB, faz todo sentido que ela tenha escolhido o vice-presidente Michel Temer para negociar com os sequestradores.

Temer fala a língua dos velhacos e conhece os códigos do submundo do PMDB.

Conseguirá ele o resgate de Dilma?

Difícil prever.

A vice-presidência da República (ainda) tem um valor simbólico, investe seu ocupante de certo prestígio institucional e peso político.

O problema é que – e Temer é o primeiro a saber – não existe um PMDB, há vários. O partido do vice é um confederação confusa, caótica. O PMDB de Eduardo Cunha e de Renan Calheiros é um, o PMDB nordestino é outro, o PMDB do Sul, completamente diferente.

Só para um ponto as ideias e os interesses convergem: o PMDB é um fanático da Lei de Gerson.

Aquela que recomenda tirar vantagem em tudo.

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07 abr as 13h02

“Não ponha a mão em mim”, disse ele para o PM agressivo e abusado que suspeitou dele porque ele é negro.

“Não ponha a mão em mim”.

O indomável Mano Brown produziu a frase do ano, da década, do século. Uma frase que refuta o eterno império da truculência, que desafia velhas injustiças, que ecoa o grito sufocado da senzala e da humilhação da cor.

“Não ponha a mão em mim”, era o que a gente devia berrar, se possível com a mesma altivez de Brown, cada vez que uma pseudo-autoridade trajando farda ou toga vier investir contra a dignidade de um cidadão.

‘Não ponha a mão em mim”.

Os falsos poderes alegam: “desacato à autoridade”.

Em nome dessa mentira, no Brasil da Casa Grande os funcionários do privilégio desacatam o tempo todo o cidadão acuado.

Desacato ao cidadão devia ser, esse sim, crime hediondo. Mas taí o tipo de coisa que os gorilinhas da Bancada da Bala no Congresso não querem enxergar, recusam-se a ouvir, resistem em discutir.

Mais fortes são os poderes do Mano Brown, cidadão sem medo.

“Na muralha, em pé, mais um cidadão José.

Servindo o Estado, um PM bom.

Passa fome, metido a Charles Bronson”.

(Diário de um detento – Racionais MC)

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07 abr as 13h00

Pena de morte, será que precisa? E redução da maioridade penal pra que?

No Brasil, o clamor popular – que pesquisas confirmam – pelas soluções fáceis e truculentas do tipo olho-por-olho é tolo e inútil.

Já existe pena de morte – para os pobres, os negros, os favelados. Ela está instaurada abertamente desde o mais profundo de nossa história colonial.

No Complexo do Alemão, um garoto de 10 anos sucumbiu tragicamente à sina dos desgraçados. Sendo quem era, Eduardo não mereceu a consternação dos privilegiados – nem da mídia oligarca que os mimetiza.

Eduardo não há de merecer nenhum cartaz nas manifestações dos indignados de cashmere. Afinal, o menino era um anônimo da ralé. “Alguma ele fez”, há de dizer, em timbre barítono de arrogância, o paneleiro de plantão.

A redução da maioridade penal é apenas a bandeira hipócrita apropriada pelos xerifes da falsa moralidade. Menor infrator, no Brasil, a gente mata. Se não for infrator, a gente mata igualmente.

A meritocracia da, hum, elite não admite conviver com o pecado da pobreza. Todo pobre é suspeito. Nenhum pobre é inocente.

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02 abr as 22h30

Thomaz Rodriguez Alckmin, o filho caçula do governador de São Paulo – que morreu esta tarde num desastre de helicóptero em Carapicuíba –, se por um lado respondia ao estilo reservado da família não deixava de ter certa vocação para aventuras arriscadas.

Adorava motos possantes e chegou a sonhar em ser delegado de polícia.

No ano passado, ao lado da filha de 9 anos, teve seu carro abordado por assaltantes nas vizinhanças do Palácio do Morumbi. A escolta policial o salvou mas ele – assim como o próprio pai – continuaram dispensando o veículo blindado que a PM recomendava.

Ao contrário da irmã mais velha, Sophia, não era de frequentar festas, recepções e as lentes dos paparazzi, embora fosse dono de uma alegria fluente e de paixão pelo rock.

Tinha 31 anos.

Toda vez que um acidente mata um garoto de 31 anos – seja ele quem for – fica para todos, e não só para a família, o sabor de uma cruel injustiça.

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02 abr as 09h41

brunocovas Bruno Covas é a vergonha de Mario Covas

Bruno Covas

Senti a tal vergonha alheia ao ver o deputado Bruno Covas, com seu sorriso bovino, comemorar a inútil e indecorosa decisão da Comissão de Justiça da Câmara de legitimar a prisão de adolescentes menores de 18 anos.

Sei que o PSDB em peso apoiou a decisão, o PSDB que nasceu moderninho, intelectualizado, progressista, por obra de figuras como Mario Covas e o ex-FHC (e hoje o PSDB do Aloysio Nunes e do Álvaro Dias).

Bruno Covas apenas seguiu a manada.

Mas fico pensando o que Mario Covas, um homem de bem, avesso à truculência e à demagogia, pensaria de seu neto bobinho.

Talvez lhe desse umas boas palmadas.

Bruno Covas se elegeu deputado federal com um monte de votos do califado tucano de São Paulo. Ele e seus eleitores se merecem. O legado democrático do avô é que não merecia mais essa.

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01 abr as 12h14

Passei por três diferentes encarnações, nos anos 80 e depois em meados dos 90s, na Playboy.

Era uma revista que fazia do nu explícito um exercício de bom gosto.

Os fotógrafos eram do primeiro time, tipo Bob Wolfenson e JR Duran, as produções, primorosas, em locações caríssimas, que iam da Sicília (Maytê Proença) a Santorini (Adriane Galisteu).

O nu sem disfarce era do cânone da Playboy-mãe, aquela do Hugh Heffner. Mas a edição brasileira – reconhecida como a mais requintada entre mais de uma dúzia de edições internacionais – era muito mais do que isso.

Havia, porém, uma barulhenta minoria de leitores sempre disposta a resmungar: falta ousadia nos ensaios fotográficos, vocês têm que mostrar mais.

A redação ouvia a queixa, discutia, mas a gente sempre chegava a um consenso: mesmo que os ensaios fossem mais grosseiros, ainda que as fotos descambassem para a mais ostensiva ginecologia, esse tipo de leitor jamais ficaria satisfeito, haveria sempre de reclamar: mais, mais...

A pornográfica decisão da Comissão de Justiça da Câmara de considerar legítima a redução da maioridade penal me fez lembrar a revista Playboy. Os truculentos xerifes do Parlamento sempre hão de pedir… mais, mais...

Agora, 16 anos. Daqui a pouco, 14 anos. Se um pivete de 13 anos apontar um estilete para alguém na Praça da Sé – basta um pivete, um episódio – no dia seguinte o Congresso estará mobilizado para mandar para as masmorras qualquer criança em idade escolar.

Responder a violência com mais violência: infelizmente, este é o projeto “civilizador” de uma sociedade sem noção, que desistiu de pensar com a cabeça e com o coração para pensar com o fígado e com o intestino.

Me contam que é assim no Texas. Que lá se pune até bebê de colo. O Texas compete com a Arábia Saudita e o Irã no campeonato mundial de pena de morte.

Grande exemplo em que se espelhar: o Brasil como um imenso Texas.

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31 mar as 11h32

O Estadão de ontem, domingo, publicou – certamente por descuido – uma excelente reportagem que exuma as raízes históricas do “panelaço”.

Elas remontam ao Chile de 1971. O socialista – hoje, o Estadão e seus furibundos leitores diriam “bolivariano” – Salvador Allende havia sido legitimamente escolhido pelo voto popular mas a elite branca não se conformava com esse excesso de democracia.

Aí, umas dondocas desocupadas, de robusto pedigree estancieiro, começaram a bater panelas clamando por um golpe militar que acabou vindo, dois anos depois, com farto banho de sangue.

É ao que muitos dos nossos paneleiros e paneleiras de hoje aspiram, convictamente.

À época, o clamor ditatorial das cororocas – obrigado, Stanislau Ponte-Preta – foi chamado de “cazarolazo”. “

A História faz entender o “panelaço” de hoje, ao qual aliás o Estadão – que também apoiou entusiasticamente o golpe e a barbárie no Chile – aderiu, com barulho de frigideiras e impropérios impublicáveis.

A América Latina continua sendo o quintal dos oligarcas.

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27 mar as 12h34

Cada vez que acontece um desastre inexplicável, um acidente enigmático, sempre aparece uma autoridade para dizer: “a hipótese de terrorismo não está descartada”.

Foi o que ocorreu de novo, pela voz do ministro do Interior, Manuel Vals, ante o mistério inicial da queda do avião da Germanwings nos Alpes franceses.

O que bastou para que surgisse no imaginário popular perplexo com a tragédia o imediato espectro de jihadistas encapuçados, de cimitarra em punho, bradando vivas ao Profeta, prontos para dizimar vítimas inocentes em prol de sua fé sanguinária.

Não há tragédia que aconteça no mundo de hoje sem que alguém se apresse em engrossar o caldo da islamofobia.

A gente sabe que é um lucrativo negócio esse, o da cultura do medo ao Islã, que tem tão extraordinariamente prosperado após o 11 de setembro.

Há jihadistas bárbaros e inclementes, sim, mas daí a fazer dos muçulmanos os bodes expiatórios por todas as selvagerias do universo já vai uma grande distância. As guerras “civilizatórias” do Ocidente matam muito mais inocentes do que o Islã.

Há indícios de que o copiloto que derrubou propositalmente o Airbus, o miserável Andreas Lubitz, estava deprimido, sofrendo de mal de amor.

O amor é um enigma complicado: uma chama deliciosa que enleva e redime, mas que também é capaz de destruir.

O Camões lírico foi quem entendeu tudo de corações partidos:

“Amor é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói, e não se sente, é um contentamento descontente, é dor que desatina sem doer”.

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