18 jul as 14h42

ok1 João Ubaldo levava a literatura a sério. Ele mesmo, nem um pouco

João Ubaldo era um sujeito que tinha a virtude de não se levar a sério. A literatura, sim – ele a fazia com labor minucioso de tecelão, simulando uma facilidade debochada e desbocada de folhetim popular que, no entanto, tinha muito de conhecimento e de erudição por trás de cada frase, de cada parágrafo.

Ele lia Goethe e Thomas Mann no original.

Ironizava, com carinho, a síndrome palavrosa dos baianos, aquela vocação bacharelesca que, de repente, assoma até mesmo em talentos privilegiados (e aqui penso no Caetano e no Gil).

João Ubaldo foi um escritor tão grande que às vezes me perguntava – e ele próprio, com certeza, devia se perguntar – o que fazia ali aquele cenáculo de nulidades literárias que é a Academia Brasileira de Letras.

Um homem de paixões – na vida, na escrita, na política.

Lembro aqui um episódio que define o tamanho de seu coração. Ele e o jornalista Tarso de Castro, que também já se foi, almoçavam num restaurante bem frequentado dos Jardins, em São Paulo, quando receberam a notícia da morte de Glauber Rocha, em Portugal.

Jogaram-se nos braços um do outro, aos prantos. Ficaram horas ali se acariciando, consolando a perda irreparável do gênio do Cinema Novo.

Um freguês se levantou indignado, recolheu a família e partiu, reclamando aos berros que não frequentava redutos de maricas e de homossexuais.

Do choro, a dupla abriu-se em gargalhada estrepitosa. Pena que eu não acredite, mas de todo modo fico aqui na torcida de que João Ubaldo possa se encontrar agora com o Gláuber e com o Tarso para muitas gargalhadas e muitos carinhos.

 

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • del.icio.us
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes
18 jul as 03h00

O anunciado apagão aéreo – aquele que iria transformar os nossos aeroportos em míseras rodoviárias, voos atrasados, filas quilométricas, guichês entupidos, passageiros dormindo pelos cantos como se estivessem num campo de refugiados do Oriente Médio – bem, o caos que as hienas agourentas alegremente alardeavam não aconteceu.

O editor da Folha, que vaticinou em manchete a vitória no campo e a derota fora dele, comporta-se agora com a mesma cara-dura da CBF. Não quer pagar o preço de seu próprio fracasso.

Eu me apego ao tema aeroporto e me pergunto por que é que, na hora de maior fluxo de passageiros, o sistema funcionou excepcionalmente bem. Por que é que na normalidade é que dá errado?

O milhão de turistas, nativos e estrangeiros, que se deslocou pelo país durante a Copa não fazia parte, aposto eu, daquela turma do Tiffany & Burberry. Eram seres humanos razoavelmente normais, desses que respeitam a fila e não se entreolham com aquele desdém superior de quem está pensando: "O que esta ralé vem fazer no meu avião?"

A bagunça, a balbúrdia, a confusão – está agora explicado – não vem da galera do futebol ou do andar de baixo da sociedade e, sim, daquela gente espaçosa e mal humorada que tenta viajar com quinze valises e quatro malas de mão, a garotada mimosa e mimada que atropela os demais passageiros com aqueles descomunais bichos de pelúcia comprados em Orlando e Miami, enfim, o tropel arrogante dos privilegiados sempre tão irritados em ver que seu privilégio vale cada vez menos.

Essa elitizinha indigente que foi aos estádios fazer selfies e promover grosserias tentou insistentemente convencer – e a mídia pressurosa, servil, logo acatou o argumento – que são os pobres que causam o colapso dos aeroportos. Por vontade deles, as autoridades competentes teriam de impor de imediato um apartheid social.

A Copa provou que os ricos e os que simulam ser ricos é que são os pais da mixórdia e da desordem.

Veja mais:
+ R7 BANDA LARGA: provedor grátis!
+ Curta o R7 no Facebook

+ Siga o R7 no Twitter

+ Veja os destaques do dia
+ Todos os blogs do R7

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • del.icio.us
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes
16 jul as 12h50

É hora de trocar, e olhem que eu não falo aqui nem do Felipão – que já vai tarde – nem da clique da CDF.

Quero sugerir outra troca. Explico já.

O Datafolha, a quem não se pode acusar de simpatia pela Copa (a nave-mãe, o jornal, comandou o coro das hienas agourentas), diz que 83% dos estrangeiros que vieram para a Copa acharam a organização ótima e boa. Somamos os 12% para quem a organização foi classificada de regular, dá 95% de visão positiva da Copa.

Outros ítens para açular ainda mais o rancor do cri-cris:

Conforto nos estádios – 92% de ótimo e bom; mais 5% de regular.

Segurança nos estádios – 92% de ótimo e bom; 5% regular.

Mas os estádios não iam ruir no embalo da primeira hola? Como é que os visitantes não perceberam as tais vigas e os vergalhões que iriam empalar – insistiam os jornalões – os distraídos torcedores? Onde estavam os sinistros assaltantes que, ocultos nos cruzamento escuros, iriam assaltar, roubar, estuprar, trucidar os turistas desavisados?

A tragédia perseverantemente manufaturada, com fins eleitorais, pela mídia do privilégio, não aconteceu. Quem queria guerra, encontrou amor.

Muita gente chegou a acreditar na uruca apregoada pelas cassandras midiáticas. Volto ao Datafolha pré-Copa. Publicado no dia 24 de março, menos de três meses antes do pontapé inicial da Copa. O resultado é altamente didático.

Com base na pesquisa, a Folha festejava que 54% dos brasileiros faziam "alguma ressalva" em relação ao que iria acontecer nos estádios e nos entornos. 24% acreditavam que a organização da Copa seria ruim ou péssima; e 30% acreditavam que ele seria regular.

Os confiantes do bom eram 33% e os otimistas do ótimo,13%.

turistas Troco os brasileiros cri cris pelos estrangeiros que vieram para a Copa

Com a malícia de eterna rabugenta, a Folha fazia questão que os crentes de boa fé se situavam basicamente entre os mais pobres, os menos escolarizados e moravam no Norte, Nordeste e no Centro-Oeste.

Os mais céticos eram os com-dinheiro e, eventualmente, com-jatinho do Sudeste. Quando convidados a declinar seu simpatia partidária, confessavam – surpresa! – votar no PSDB.

A Copa não correspondeu aos terríveis presságios dos coxinhas. A torcida deles não era pelo futebol, era pelo desastre fora do gramado.

Os estrangeiros, dispensados de tomar partido na eleição de outubro, vieram se divertir e, aparentemente, pelo que diz o Datafolha, divertiram-se mais do que se podia imaginar.

Alguém pode dizer: é, mas não tiveram de entrar na fila do SUS, pegar o Penha-Lapa na hora do rush. Os cri-cris – como atesta o revelador Datafolha – também não.

Os que reclamam são os que não têm nada a reclamar. Os que têm a reclamar reclamam no guichê certo. A Copa convidava à diversão. Divertiram-se, dentro do possível (a ressalva tem a ver com o Felipão, vocês sabem). Era para ser um entretenimento, como um show de música, o churrasco na laje, a pelada entre amigos.

Volto ao meu tema: a troca.

Poponho que a gente mande para Miami e para Orlando todos aqueles brasileiros de maus bofes, a turma azeda do Datafolha, e traga de volta a alegria dos estrangeiros que souberam adorar um espetáculo realmente adorável.

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • del.icio.us
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes
14 jul as 14h56

daniel Enquanto a Seleção era humilhada, eu pensava no Daniel, carpinteiro

Na semana em que o futebol brasileiro trafegou da euforia cega à mais abissal das melancolias, tentei me consolar lembrando do Daniel de Assis.

Ele é carpinteiro, apresentou-se assim, com orgulho do ofício, no dia em que o conheci no Itaquerão.

Daniel não há de se lembrar de mim. Mas eu não esqueço dele.

As obras do estádio estavam no início e eu fui lá, numa hora matinal em que o céu começava a despertar em tiras de tintas escandalosas, na companhia do fotógrafo-craque Cristiano Mascaro.

Chegamos cedo, o suficiente para assistir à sessão que rotineiramente precedia o início do turno, meio informação, meio motivação.

Percebi como a questão da segurança do trabalho era fundamental ali, em contraposição à torcida do contra, dos adversários de olho gordo, contorcendo-se pela expectativa de um desastre.

Foi aí que Daniel de Assis, carpinteiro, se adiantou e leu uma pequena mensagem escrita em caligrafia firme de letras maiúsculas. Tenho aqui comigo o bilhete. Dizia:

"Você é do tamanho de seu sonho e jamais é necessário apagar a estrela do próximo para a sua brilhar".

Gostei tanto daquela lição de sábia candura que lhe pedi o papel.

Tenho certeza que o Daniel guarda um extraordinário orgulho pela obra que – apesar do vodu de muitos – ele ajudou a botar de pé. Não acredito que o Daniel e aqueles que trabalharam ao lado dele estivessem lá na abertura da Copa, no coro grosseiro dos baderneiros com-jatinho.

Depois do vexame, pensei no Daniel de Assis e candidamente, num desvario de ilusão enganosa, imagino o dia em que o estádio, todos os estádios serão dos carpinteiros, dos marceneiros, dos vidraceiros, dos motoristas, dos trabalhadores braçais, e não daqueles cujo prazer na vida é o de se retratar a si mesmos, em deleite masturbatório, enquanto a bola rola no gramado.

A derrota não é do Daniel de Assis nem de tantos Danieis que labutam por aí. A derrota é do Brasil do selfie, da insensibilidade, da estupidez e do privilégio.

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • del.icio.us
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes
11 jul as 13h00

O editor do Estadão tenta empurrar para Dilma “o fracasso da seleção”, como diz sua manchete, e, como um baderneiro de arrabalde, sugere que a presidente seja vaiada no Maracanã. Muito elegante, o editor do Estadão.

As pessoas clamam por mudança, mas fiquem tranquilos: o Estadão não vai mudar. Nunca.

Continua lutando a guerra paulista de 1932, aquela que queria livrar São Paulo do peso incômodo de se situar no Brasil, vestido com as polainas e o fraque da República Velha.

Continua achando que direitos sociais e trabalhistas são excessivos, estimulam a preguiça e cerceiam os lucros.

Tem desprezo pelo pobre e acha que o brasileiro bacana é aquele, vencedor, com casa em Miami, a metrópole da América Latina.

O editor que culpa a Dilma não deve se dar ao trabalho de abrir o seu próprio Caderno da Copa. Lá prolifera uma conversa velhíssima., Gao improdutiva quanto o futebol da seleção que fracassou por culpa da Dilma.

Discute-se se o melhor para a seleção humilhada seria substituir o esgarçado Felipão pelo Tite ou pelo Joel Santana.

Pelo amor de Deus, gente!

Devo ao Tite um dos melhores deleites da minha vida, aquele título lá em Tóquio, mas peraí: será ele capaz da revolução tática que o futebol brasileira precisa? Ele, ou o Mano, ou o Cuca, ou o Luxemburgo, ou o Joel Santana?

O besteirol que se viu no gramado reflete a estupidez que viceja fora dele. O Estadão está aí para oferecer sua sólida contribuição.

Ah, já a Folha, retomando sua toada cri-cri de “A Copa como ela é”, reclama que donos de empresas de jatinhos e helicópteros tiveram prejuízo durante o Mundial.

É o caso de dizer, junto com o editor agourento da Folha: olhai, eu não disse? Não tinha de ter Copa.

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • del.icio.us
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes
09 jul as 10h11

ok Se o orgulho é barulhento, a vergonha tem de ser silenciosa

O que vou fazer aqui é uma contradição. Quero pedir, por escrito: é hora de ficar calado.

O vexame moeu a alma nacional de um jeito que não adianta culpar o Fred, o Felipão, o apagão dos seis minutos, a CDB, a Fifa, seja lá o que for (ah, e a Dilma, a culpada de tudo, ia me esquecendo).

Abri os jornalões esta manhã e os cadernos de Esporte saíram ainda maiores, mais tinta e papel desperdiçados para explicar o inexplicável.

O orgulho é ruidoso, a vergonha tem de ser silenciosa.

O orgulho fazia barulho, cantava o hino a capela, gritava a euforia de uma Copa que, ao contrário do que apregoavam as hienas da urucubaca, estava muito bem fora do campo (esquecemos que tínhamos de ganhar o título dentro dele).

O Brasil fala muito e fala muita besteira. Mas não vê o óbvio. O Brasil está cego de tanto falar.

Ontem, antes do jogo, meu taxista, que acredita ter mais informação de bastidor do que um araponga do Obama, assegurava: a Copa estava comprada, o Brasil já era campeão.

Dizia essa coisa com a certeza de um herói da antiguidade.

Ainda me dei o trabalho de perguntar:

- Mas por que a Fifa acertou com o Brasil e não com a Alemanha, com a França, com a Inglaterra, com os Estados Unidos, com o Japão, que são países mais ricos? Por que não com eles?

Meu amigo italiano reiterava: o juiz mexicano, aquele que não expulsou o Luís Suarez contra Itália, estava comprado. Ia botar o Brasil na final (ele se esquecia que o Luisito tem uma técnica de canibalismo tão dissimulada que nenhum juiz jamais o expulsou, nem nas outras vezes em que usou seus afiados dentes).

Se houve acerto com a Fifa, não combinaram com os alemães. Que vieram para a Copa para jogar futebol e se divertir.

Palavras, palavras, palavras, dizia Hamlet a Polônio, lorde camareiro. É hora de pensar mais antes de dizê-las. E isso vale também para mim.

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • del.icio.us
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes
08 jul as 10h27

Estamos sem o Neymar? Eis que alguém invade o campo e surrupia a camisa. Ei, acho que conheço a criatura. Será ele mesmo? Um superpenetra? Dá para acreditar? Mas não é que é ele mesmo? Desperado de ciúme, o ministro Joaquim Barbosa entra na área. Ele quer ser o dono da bola.

Não admite, mesmo na Copa, que ele não seja o campeão das manchetes. Tem inveja do Neymar, pobre criança, abraçada pelo carinho de toda uma nação. O dr. Joaquim não se conforma. Inventa um pretexto para voltar à berlinda. Tinha anunciado a aposentadoria, tinha convocado as câmeras sempre tāo solícitas (ele nāo sabe viver sem elas), despediu-se do tribunal, mas meia dúzia de dias de anonimato foi suficiente para mostrar: o meritíssimo nāo agüenta o ostracismo. É doente, o ministro Barbosa. Padece da doença dos holofotes.

A gente estava começando a respirar o alivio de dispensar a grosseria dele, sua carranca de justiceiro promocional. Mas nāo, Joaquim Barbosa teve uma recaida e, cruzado da ética e da verdade, deixa o dito pelo não dito, desconversa, diz que aquilo que disse nāo é bem assim. Quer embaraçar seus pares com sua presença desagradavelmente sádica. Quer competir com o Braail em campo, roendo as unhas em desespero pueril: olhem pra mim, esqueçam a bola, a alegria do gol, olhem só pra mim.

 Joaquim Barbosa se escala no lugar de Neymar

Até tweeter o homem agora tem, ele que prometeu se retirar do olhar do público. Decidiu ensinar o Felipão como se escala a Seleção. Temo alguma ururcubaca. Não chegou a se escalar, ele próprio. Não seja tão modesto, dr. Joaquim.

E depois da Copa? Aonde a síndrome midiática vai levar o dr. Joaquim? Já vejo-o no auditório do Silvio Santos, nas mesas redondas do futebol, improvisando um stand up com o Marcelo Tas, fazendo sapateado solo na Cinelândia ou na Avenida Paulista (não acredito que ele passasse, por mais que quisesse, pelo crivo do Aprendiz). Que o Fabiano Augusto, o garoto da Casas Bahia, se cuide. O dr. Joaquim deve estar de olho no emprego dele.

O primeiro magistrado precisa desesperadamente de audiência. Por favor, não o contrariem. Digam a ele: para que Neymar quando o Brasil tem Joaquim Barbosa?

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • del.icio.us
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes
07 jul as 11h48

Torço para queimar a língua mas, aqui pra nós, a Seleção do Felipão bateu no teto, chegou ao seu limite.

Semifinais – está de bom tamanho.

Com Neymar ou sem ele, ir além seria um milagre (ok, eu sei: milagres acontecem).

Minha maior torcida, amanhã, é outra: espero fervorosamente que meus conterrâneos mineiros de Beagá não repitam o papelão da partida contra o Chile.

O Mineirão vaiou o hino chileno.

Não sou fanático por símbolos nacionais, os hinos costumam ser bravatas viris e guerreiras a estimular em campo pontapés e cotoveladas, mas um mínimo de respeito é aconselhável.

Somos os anfitriões, temos de – paixão à parte – nos comportar à altura das mínimas regras de cordialidade.

Hino, não, gente. Por favor, não.

Estranhei porque conheço a minha gente. Mineiro tem a ternura e a delicadeza na alma, não é de desaforo e grosseria, o que não quer dizer que não tenha suas convicções e não esteja disposto a lutar por elas.

Quem era, então, aquela gente que vaiou o hino chileno no Mineirão? Arrisco a dizer que é a turma do selfie e do telão, que tem desprezo solene pelo futebol. Gente que acredita que, ao pagar (caro) o ingresso, pode deixar (barato) seus bons modos de lado.

O Mineirão protagonizou um show de estupidez. Espero que não nos envergonhe de novo amanhã.

 

 

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • del.icio.us
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes
04 jul as 09h34

Desde cedo, senti no Facebook os primeiros clamores da euforia: Caiu um viaduto em Belo Horizonte.Pessoas morreram. Muitos feridos. O viaduto fazia parte das obras da Copa. Estava atrasado.

Os catastrofistas se rejubilaram com as mortes e com a tragédia. Nunca vi tamanha felicidade. Tinham, enfim, um pretexto para voltar à velha toada: a Copa vai ser um desastre.

Não assisti – em obediência ao meu detox mental – ao Jornal Nacional da Globo, mas imagino, no canto da boca do William Bonner, um esgar de contentamento: eu não disse?

Esta manhã, fui checar as manchetes do jornalões. Era o esperado. É o que chamo de manchete-oba. Tipo: “O crescimento do PIB vai ser pífio”. Oba! “O desemprego para de cair”. Oba! “O viaduto da Copa cai e mata”. Oba! Só faltaram os pontos de exclamação.

Imagina na Copa – insistia o agourento editor da Folha. Nos gramados, e fora dele, a Copa está impecável. O editor da Folha roía as unhas no desespero da urucubaca que não vinha: “Me arranjem uma tragédia”. Conseguiram uma tragédia. Podem voltar à toada do vira-lata: somos incompetentes. Só um alemão, um sueco seria capaz de fazer um evento com tal envergadura. O viaduto de Beagá é o emblema de nosso fracasso.

Imagino eu se o desastre tivesse acontecido numa prefeitura do PT e não sob a responsabilidade do Márcio Lacerda, do PSB do Eduardo Campo, em Minas aliado histórico do PSDB. Imagino o estardalhaço da mídia, sempre tão isenta, tão imparcial. Se é para politizar a Copa, por que não politizam agora?

Disfarcem seu contentamento, aves do infortúnio, hienas da desgraça.

As vítimas da minha Beagá merecem respeito.

 

 

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • del.icio.us
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes
03 jul as 16h01

Marcos Azambuja foi embaixador do Brasil na Argentina quando Carlos Menem era o presidente. Jogavam golfe juntos na quinta de Los Olivos e o embaixador conta que, noblesse oblige, fazia de tudo para perder.

Uma vez eu o cutuquei sobre o histórico e lendário tema da rivalidade entre nosotros y los hermanos.

"É cosmética", me disse Azambuja. Circunscrita ao futebol. Apaixonado pelo país onde serviu cinco anos e meio, diz que"nada me dá mais prazer que ganhar um jogo da Argentina. A sensação de prazer é indescritível". Fora daí, a Argentina e o Brasil são sócios na História, compartilham o mesmo destino, assegura o ex-embaixador.

Azambuja lembra: a Europa, sim, curtiu por séculos inimizades viscerais. "Ao encontrar um alemão, um francês pode se perguntar: 'será que o avô desse cara foi o quem estuprou minha avó na guerra?'" E, no entanto, a Europa superou as feridas do passado e  conseguiu promover um fantástico entendimento político, financeiro, cultural, espiritual.

A Argentina é digna de admiração. Gosto dos cafés de Buenos Aires, com suas medialunas, seus sandwuiches de miga, seu ambiente de tranquilidade européia. Gosto de suas parrilas, do asado de tira, do ojo de bife, do bife ancho. Admiro a literartura de Borges, Cortázar, Sábato, de tantos outros. Lembro a piscanálise argentina que, condenada à diáspora pela brutalidade da ditadura fardada, ajuda aqui a promover a saúde mental de muitos de nós, brasileiros.

O cinema argentino tem uma energia criativa que ajuda a lhe cultivar a esquecida arte de contar uma boa história. Adoro o tango, "um pensamento triste que se baila", como disse Enrique Discépolo, o compositor de Uno e de Cambalache. Respeito os ícones locais: Evita, o Che, Carlos Gardel, o Maradona. Ah, e agora tem o Papa Francisco, que anda desafiando, lá no Vaticano sagrados estereótipos e pomposos preconceitos.

É bonito ver como os argentinos fazem da paixão o combustível não só dos estádios – mas também de sua arte, de sua cultura e de sua política. Saíram de um regime militar sanguinária e tiveram a coragem de ir cobrar dos algozes e de seus comandantes a merecida punição por seus crimes hediondos e imprescritíveis. Até presidentes-ditadores foram trancafiados nas cadeias. A Justiça lá se mostrou... bem, justa. Olhou para a lei, não para o holofote.

Gosto da Argentina e dos argentinos. Mas que a gente os derrote dentro do gramado.

Veja mais:
+ R7 BANDA LARGA: provedor grátis!
+ Curta o R7 no Facebook

+ Siga o R7 no Twitter

+ Veja os destaques do dia
+ Todos os blogs do R7

 

 

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • del.icio.us
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes