24 out as 07h46

Quem se surpreendeu com o nível de ódio, rancor e bílis destilado pelos pitbulls das redes sociais durante esta campanha presidencial é porque não costuma andar de táxi na cidade de São Paulo.

É o q ue costumo fazer com frequência, imbuído da ilusória convicção de que deixar o carro em casa é um ato cidadão – ainda que reconhecendo que recorrer a um taxi não deixa de configurar certo privilégio.

Os taxistas paulistanos andam crispados. Uns mais intensos, outros mais sutis, uns visivelmente alterados, outros dissimulando, o fato é que a eleição lhes subiu à cabeça e não havia corrida que não impusesse ao passageiro a exposição sempre truculenta de certezas definitivas, incontestáveis, categóricas.

Sequer o silêncio defensivo do passageiro é respeitado. O sujeito, com insistência doentia, convoca você a entrar no debate, a declinar seu candidato, a expor suas preferências políticas e eleitorais.

Um abuso, uma chatice.

Lembro que Luís Fernando Veríssimo escreveu, certa vez, que havia um erro de casting em relação aos motoristas de táxi. Eles parecem tão mobilizados com a coinjuntura nacional que deveria caber a eles, e não aos políticos, o governo da nação.

Na era do Facebook e do Instagram, eles formam uma rede social informal, ainda que poderosíssima, transmitindo indiscriminadamente o que ouvem nas boboseiras do jornalismo radiofônico politicamente enviezado e, pior ainda, o que escutam de clientes pilantras e mal intencionados.

Aquelas reiteradas histórias: o filho do Lula é dono da Friboi (e ouse você lembrar que o Júnior Friboi declarou apoio ao Aécio), o filho do Lula é dono da OI, o filho do Lula tem uma fazenda no Paraguai e conseguiu que o governo Dilma atapetasse de asfalto o caminho dele, da fronteira até a casa-grande (ou seja, o governo do PT faz obras rodoviárias... no Paraguai).

Fico pensando quanto talento empresarial tem esse "filho do Lula" em se multiplicar em atividades tão versáteis e tão lucrativas. Um Richard Branson dos trópicos, certamente. Nunca ousei perguntar quem é esse excepcional "filho do Lula" (ao que me consta, há mais de um, uns dois ou três). Se perguntar, o taxista há de ficar furioso diante de qualquer ceticismo.

A lógica do taxista não é a de difundir histórias banais e versões verossímeis. Isso o colocaria numa posição não muito diferente da de um mero jornalista, de um cidadão mediamente instruído.

O taxista tem certeza de que é dono de informações exclusivas, confidenciais, até mesmo secretas. Quem lhe contou foi um sujeito que tem uma prima no BNDES ou aquele cliente cuja namorada é ex de um alto funcionário da Polícia Federal.

Se são fábulas venais ou se são fatos comprovados, isso é o que menos importa ao taxista. Ali ao volante de seu carro, no tédio cotidiano de horas e horas de trânsito diabólico, resta-lhe o consolo de ser o dono da verdade.

Ontem, um desses dedicados profissionais quis me provar que a Globo está vendida ao PT. Que o noticiário do jornal O Globo favorece o governo.

Simpatizo com a categoria. tenho vários amigos taxistas. Por isso mesmo é que torço para que ninguém queira inventar, algum dia, uma versão de bafômetro que, em vez de medir o teor alcoólico dos motoristas, sirva para avaliar seu nível de desconfiômetro.

 

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16 out as 07h31

esse 1 Debate eleitoral na TV virou luta de circo romano

Perdi a vontade de assistir debates presidenciais. Dou uma olhada, e basta.

Sou um cidadão consciente, ou procuro ser, e adoraria acreditar que – como afirmam enfaticamente os apresentadores – ali a gente irá se informar sobre as plataformas de governo de cada um, o que os candidatos verdadeiramente pensam, de onde vêm e para onde vão.

Os debates são hoje como o circo romano. E sinto nos espectadores o mesmo clamor sádico da audiência dos embates de gladiadores no Coliseu.

A gente vai pra frente da TV esperando uma gafe monumental, uma derrapada fatal, uma cutilada que verta sangue.

A gente quer apenas, com deleite de dedo para baixo, ver a desgraça definitiva de nosso adversário, exposta aos olhos cruéis de toda a nação.

Percebo isso nessa categoria nova dos narradores via Facebook.

Comemoram: eba, pegamos o cara (ou a cara); veja como ele( ela) ficou desconcertado/a.

Como se fosse um combate de MMA, uma luta de muay thai, não que estivesse em jogo o futuro de 200 milhões de pessoas.

Debates hoje são para avaliar a performance teatral do candidato, na artimanha das aparências, sabendo-se de antemão que eles vão mentir solenemente ou, como fizeram dois dos falecidos nanicos, o Eduardo Jorge e o Levy Fidelix, comportar-se como bufões de folhetim.

Para mim, chega.

De mais a mais fico pensando no que iria pensar o dr. Tancredo, que, como ministro da Justiça, defendeu Getúlio até o fim da cólera patológica da UDN do Lacerda, ao ouvir seu neto querido usando publicamente aquele argumento do “mar de lama”– senha dos golpistas de ontem e de sempre.

Se mar de lama há, seria bom que o Aécio, em respeito pelo avô e pela História, usasse outro jargão.

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06 out as 14h14

O mantra de todos os candidatos é sempre este: mudança, mudança, precisamos mudar, é hora de mudar.

O eleitor finge que se importa, vai à urna e vota para que tudo fique como está. No máximo, uma ou outra troca de comando, aqui ou ali, nada realmente significativo.

A volta do Fla-Flu entre PT e PSDB demonstra isso com clareza.

Aí, a gente se pergunta: mas e a onda de protestos de 2013? Onde foi parar aquela energia política que parecia ter sacudido o país, em espontânea unanimidade? Cadê o efeito insurrecional, supostamente revolucionário, da Primavera de Junho?

O voto de domingo foi um voto na contramão dos protestos.

Revelou que as demandas radicais podem até provocar certa coceirinha na cabeça do eleitor mas só isso.

Eu me pergunto: afinal, o eleitor não quer mudar ou não sabe como mudar?

Pelo voto é que ele acha que não irá acontecer mudança alguma. Esta é a triste constatação deste 5 de outubro de 2014.

O esgarçamento do prestígio das instituições democráticas, em especial do Parlamento, propositalmente arquitetado por uma mídia que tem o sentimento antidemocrático no seu DNA oligárquico, leva o eleitor a desvalorizar aquela que é a sua principal arma de protesto: o voto.

O eleitor vota em qualquer um, em qualquer coisa, num escandaloso deixa-pra-lá.

Depois passa os quatro anos seguintes deleitando-se em reclamar, em resmungar, feliz da vida em mergulhar de novo em seu repousante complexo de vira-lata.

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04 out as 06h00

Minha escolha… Bem, podem desistir: não vou revelar o nome.

Sou como a Folha, a Veja, a Globo – pratico um jornalismo estritamente imparcial e isento, não puxo jamais a sardinha pro meu candidato, não minto, não trapaceio o leitor, não manipulo informações segundo as minhas conveniências e meus interesses.

Nunca, sou um jornalista seríssimo como o Bonner, o William Waak, a Miriam Leitão e o Boris Casoy.

Se disserem que não sou sério, vou gritar: “é censura”. Gosto de criticar os outros, mas não admito que me critiquem.

Sou talvez um radical de centro, como diz um amigo meu, que era de esquerda e que, agora, escreve nesse templo do sentimento democrático que é o Estadão.

Só que, na hora de votar, me assaltam alguns sentimentos débeis, idiotas.

Sucumbo a um surto de populismo. Chego a temer que me chamem de boliviano (bolivariano é a palavra da moda, até o sinistro Levy Fidelix a usa, embora não saiba distinguir entre bolivariano e boliviano, entre Bolívar e Bolívia).

Na hora de votar, prefiro pensar na dona Arlinda, minha diarista (quatro filhos, um neto, quatro horas de transporte coletivo por dia), do que no João Doria ou no Jorge Bornhausen.

Prefiro imaginar o que seria melhor para o sr. Manoel (família na Bahia, ele aqui trampando doze horas por dia), faxineiro do prédio de Higienópolis, do que ouvir os argumentos de minha vizinhança de nariz empinado e preconceito à mostra.

(A propósito, meus vizinhos da Tradição, Família e Propriedade despertaram enfim para o perigo vermelho. Uma retreta cheia de clarins e trombetas passou a tarde de sexta tocando hinos religiosos como aquele “Queremos Deus”).

Na hora de votar me recuso a escolher só e tão somente quem seria melhor para mim – eu sou, afinal, querendo ou não querendo, um privilegiado, hei de me virar não importa que governante vier.

Que a Bolsa fique nervosa. Pior para ela.

Faz tempo que desconfio que o tal mercado não irá, por si só, melhorar a vida da dona Arlinda e do sr. Manoel. Vão dizer que isso é assistencialismo. Vão dizer que socorrer os miseráveis eterniza a miséria.

Digam o que disserem, na hora de apertar o botão é na dona Arlinda e no sr. Manoel que vou pensar.

E tem mais; o voto da dona Arlinda, o voto do sr. Manoel, seja ele qual for, tem o mesmo valor que o meu.

Por isso é que tanta gente odeia a democracia. Por isso é que os liberais de fachada sonham tanto com uma democracia dos limpinhos e dos sabidos.

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29 set as 11h20

9u3trdqzw8 3j5wllb63k file Dilma foi o saco de pancadas. Fidelix não é uma piada, é um ultraje

Da primeira fila do debate de ontem na Record, tive o privilégio de notar alguns detalhes que talvez tenham passado em branco aos olhos dos telespectadores.

Massacrada por ataques que vieram, em espantosa unanimidade, de todos os adversários, Dilma Rousseff reagiu com bravura mas também bem ao estilo Dilma Rousseff: tensa, ficava batendo o pé direito no chão, obsessivamente, em claro sinal de irritação.

Deve ter saído de lá, porém, com um consolo. Como um debate de tal importância é sempre pautado pelas pesquisas, Dilma deve estar muito bem nelas.

Marina Silva também tem um cacoete corporal: tendo ficado em pé ao longo das duas horas de bate, seu corpo parecia tremer ligeiramente cada vez que era acusada com uma pergunta mais forte.

Levou seu próprio refresco: uma garrafa térmica com água. Morna. É tudo o que ela bebe.

Sua fragilidade física se refletiu também na fragilidade de alguns de seus argumentos. Como é uma contradição ambulante, ela e sua coalizão, isso fica transparente.

Vejam o caso da Bolsa Família, sobre a qual o Heródoto Barbeiro a inquiriu: ela diz, com toda convicção, que jamais irá acabar com o programa. No entanto, os conselheiros econômicos que vivem falando em nome dela – alunos da ultraortodoxia neoliberal – condicionam todo e qualquer programa social ao dogma da “austeridade fiscal”.

Em outras palavras: primeiro corta, depois vê o que se faz. Foi o que Eduardo Gianetti disse dias atrás ao jornal Valor.

Se ela pensa assim tão diferente dele, por que o tem como conselheiro?

Aécio Neves parecia um daqueles dias de surfista que um dia ele foi. Queimado de sol, muito à vontade, atacou e se defendeu no tom certo. Será que já é o efeito de ter virado, na campanha, um mero livre atirador?

Outra vantagem: em vez de carregar aquela enorme papelada de difícil manuseio, como fizeram Dilma e Marina, Aécio tinha às mãos uma ficha básica que facilitava as perguntas e as respostas.

Luciana Genro e Eduardo Jorge, cada um a seu estilo, são donos de opiniões claras e firmes. A candidata do PSOL, surpreendentemente, também preferiu avançar na jugular de Dilma do que na dos candidatos à sua direita.

Levi Fidelix é um ultraje. O fato de ter negociado um deputado na Câmara Federal faz dele uma figura obrigatória nos debates. Ele se faz de figura folclórica, provoca gargalhadas, mas num debate em que está em pauta uma coisa séria – o Brasil – Fidelix é o retrato do tiririquismo que assola o país.

Saiu de lá com o ego inflado, depois de sugerir que estamos para ser invadidos a qualquer hora pelas Forças Armadas bolivarianas da Argentina e do Evo Morales? Ou será que é o Califado Islâmico que nos ameaça? – já não sei mais.

O discurso homofóbico dele, incitando a violência contra os gays, é crime. Esse indivíduo não devia estar disputando eleição presidencial, devia estar na cadeia.

E o pior é que já anunciou que em 2018 vai estar de volta.

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22 set as 07h22

Fiquei meio sumido aqui deste R7 por razões acadêmicas: ando estudando de forma científica a atual campanha presidencial, detendo-me em especial no que diz respeito ao alto nível do debate e ao respeito e consideração que cada candidato dedica ao outro. Um exemplo para o mundo civilizado.

Por falar em civilização, decidi me distrair um pouquinho com o campeonato inglês de futebol, a Premier League. Sintonizei hoje o jogo Manchester City e Chelsea, dois candidatos ao título, ao que me dizem.

Jogo muito disputado – “muito pegado”, preferem os comentaristas da TV, sempre propensos a transformar o que devia ser um espetáculo esportivo num circo romano. Mas, ao contrário do que costuma ser ver por aqui, não havia ninguém em campo fazendo mero papel de bibelô.

Os ingleses têm fama de ser um povo elegante e até no futebol – extirpado das arquibancadas o mal dos hooligans – teimam em ser. Na mesma semana em que a gente assistiu aqui a sinistra torcida do Grêmio vaiando um goleiro negro porque ele não aceitou engolir as ofensas racistas dessa mesma sinistra torcida, eis o que aconteceu em Manchester City:

Quase no final da partida, quando o Chelsea vencia por 1 a 0, entrou em campo Frank Lampard, que até poucos meses atrás – e por um longo período de anos – defendeu o time de Londres. Entrou em campo, desta vez, com a camisa do Manchester City.

Ao entrar, foi aplaudido tanto pela torcida local – de seu novo time – quanto da torcida do Chelsea. Não mereceu dos agora adversários nenhuma animosidade, nada daqueles palavrões homofóbicos para quem muda de time, pelo contrário, só a simpatia devida a um ídolo que ficou no coração da torcida, para sempre.

E eis que, de repente, Frank Lampard empata a partida contra o seu antigo time. Fez o que se esperava que ele fizesse, em campo. Mas, elegantemente, não comemorou.

O 1 a 1 persistiu até o final. Quando o juiz apitou, as duas torcidas, em surpreendente sintonia, tributaram a Lampard uma ovação de pé. Minutos e minutos de aplausos. Um espetáculo de elegância que a gente jamais esperaria ver aqui neste nosso país que se diz tão cordial.

Lampard se dirigiu às duas torcidas e agradeceu a ambas. Ficou emocionado. Quem viu, certamente ficou também.

Essa beleza de espetáculo quase foi comprometida pelo comportamento de um ou outro jogador em campo. Um deles, o lateral argentino Zabaletta, foi expulso. O outro, o atacante Diego Costa, bem que tentou anarquizar aquele ambiente competitivo, mas sereno. Tem visivelmente a cabeça nos pés. Diego Costa, vocês sabem, é aquele brasileirinho tosco que preferiu ser espanhol.

Se os ingleses são civilizados, não é o caso de dizer o mesmo de certos expatriados que militam nos gramados de lá.

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03 set as 19h41

A lista que a colunista Mônica Bergamo publicou, com os possíveis ministeriáveis de um virtual governo Marina Silva, traz uma clara intenção e uma grave preocupação.

A intenção é desmentir os temores de ingovernabilidade que aproximariam a supostamente inflexível Marina – que promete a utopia de uma administração que desconheça as injunções políticas do Congresso – de um modelo aventureiro e bonapartista tipo Jânio Quadros e Fernando Collor.

A assessoria de Marina sugere que qualquer temor nesse sentido seria superado por um gabinete de figurões acima do bem ou do mal e de políticos que vão além das amarrações partidárias.

É tudo especulação, a gente sabe – mesmo porque ninguém sabe o que de fato se passa na cabeça da candidata. Talvez nem mesmo ela própria.

A preocupação maior – fora a capitulação da economia ao atraso do neoliberalismo – é ver Miro Teixeira como possível ministro das Comunicações.

A trajetória de Mino no Congresso consiste na defesa feroz dos monopólios e na adulação servil dos oligarcas. Se ele viesse mesmo a ser o ministro, a Globo iria mandar mais ainda nesse pobre país.

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27 ago as 15h49

Foi o restaurateur Giovanni Bruno, falecido ontem, quem involuntariamente me apresentou o encanto que o jornalismo pode às vezes produzir. Ele se foi – no exato dia do centenário do seu Parmera – sem ficar ciente dessa gratidão a mais que eu lhe devia.

(Em tempo: quero corrigir esse "restaurateur" aí. Giovanni, o Giovà, não tinha nenhuma afinidade com esses fricotes de alta gastronomia à francesa, era, isso, sim, um homem da cozinha, começou lavando prato, passou ao salão, abriu sua própria casa, mas sempre com o compromisso de manter uma tradição de raíz que o remetia à culinária franca e veraz daquele sul da Itália em que nasceu).

Volto ao jornalismo. Eu era um foquinha na Última Hora de Minas e, como é da tradição dos mineiros, até na hora de ler jornal a gente mirava o Rio. O Nelson Rodrigues. O Stanislau Ponte-Preta. O João Saldanha. O Rubem Braga. De repente, me chamaram atenção para um jornal de São Paulo, lançado há pouco mais de um ano, radical na forma, revolucionário no conteúdo. Era o Jornal da Tarde.

O fascínio se consolidou no dia em que, se não me engano na última página do vespertino (ainda os havia, à época), passeei os olhos deliciados por uma reportagem que tinha o título: "Giovà fez a América". Era poesia pura. Descrevia a saga de um rapazote que chega no pós-guerra em busca do aconchego de uma metrópole de sotaque italiano e que, com sua feroz operosidade e sua simpatia cativante, vai galgando  prestígio e carinho num ofício em que isso é tudo.

Eu me lembro da reportagem em detalhes. Uma história que poderia ser igual a tantas outras mas o triunfo de Giovanni Bruno era magistralmente narrado através da correspondência que ele mantinha com parentes del paese lontano.

Cartas nas quais ressoava aquela melodia muito palavrosa, em enredo meio açucarado, às vezes confundido com pieguice, que era a marca registrada do Giovanni chef, anfitrião e amigo. O inegável orgulho de fare l'Ammerica mesclado numa simplicidade sempre generosa.

A reportagem do Jornal da Tarde era assinada por Mino Carta. Um surpresa a mais: me disseram que Mino era o diretor de redação do jornal e diretores de redação que deixassem sua redoma de presunção para perfilar um personagem que não fosse um figurão, um magnata, era coisa rara, raríssima. Além disso, o texto era um primor de escrita. Comecei a achar que jornalismo podia ter alguma graça.

Escrevo hoje para uma publicação dirigida pelo Mino Carta. Com maiores ou menores intervalos, tenho com ele uma relação profissional de 40 anos.

Fico muito à vontade de fazer aqui esta menção a ele. O Mino tem horror à internet, nunca se apresentou diante de um computador, jamais será visto frequentando algum blog – este, então, nem pensar. Assim é melhor: um elogio pelas costas.

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26 ago as 14h43

Teve uma coisa que deixou Antonio Ermírio de Moraes – falecido no domingo – mais feliz do suas proezas empresariais e as seduções do trabalho. Foi se descobrir, subitamente, já em idade madura, autor teatral.

Lembro de sua alegria quase juvenil ao recepcionar as audiências compactas, aptas a ouvir suas prédicas e a rir de seu humor. Passou a frequentar a chamada "classe teatral", embora eu não tenha notícia de que o – à época – homem mais rico do Brasil tenha se dado ao exagero de, junto com o trupe, botar seu estômago à mercê do fettuccine do restaurante Piolim.

Vi a estréia dele no Teatro da Faap, com Brasil S/A. Foi em 1994. No livreto, fazia uma reflexão sobre a  decepção de 1986, quando perdeu o governo de São Paulo para Orestes Quércia: "As campanhas políticas têm muito de teatro. Aprendi que o sucesso eleitoral depende basicamente da manipulação competente das emoções dos eleitores. O script precisa ser bom; mas a interpretação é decisiva".

A peça trazia outro acerto de contas: era a visão de um empreendedor sempre acusado pela ganância dos bancos.

Ele não pararia aí. em 1999, lançou S.O.S. Brasil, em que o grande provedor da Beneficência Portuguesa fazia um diagnóstico da Saúde no Brasil. Escrevi uma crítica meio azedinha, dizendo que a peça tinha pouco de dramaturgia e muito de oratória, e de fato era como se a história parasse a todo momento para que o protagonista, dirigindo-se para o público, derramava sobre ele um discurso de palanque.

O terceiro momento da trilogia, Acorda Brasil, de 2006, enveredava por outro tema incandescente: a educação. Não cheguei a assistir mas posso adivinhar o tom e o teor.

Era assim, o dr. Antonio – generosamente didático. Tinha pelo seu país um incansável amor. Nunca vergonha, jamais ceticismo, que são os sentimentos que costumam embalar a alma de seus coleguinhas empresários.

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25 ago as 12h17

540661 As pessoas mais ricas do Brasil 2 Antonio Ermírio de 1986 deu a senha para a criação do PSDB

A melhor lembrança que tenho dele é da manhã de 15 de novembro de 1986, eu sentado ao lado dele numa cadeira dura de madeira no pequeno auditório do Edifício Esplanada, uma pérola arquitetônica do Anhangabaú, bem atrás do Municipal, antigo hotel chique de São Paulo e ainda hoje sede do grupo Votorantim.

Naquele dia, o Dr. Antonio se aventurava no maior desafio de sua vida pública: candidato a governador de São Paulo. Ele sabia – as pesquisas confirmavam – que ia perder. Exibia, porém, um sorriso paradoxal, uma alegria franca de quem parecia vencedor – nunca de um derrotado. Estava particularmente bem-humorado. Divertia-se em rememorar alguns momentos da campanha.

Riu muito ao lembrar aquele político do litoral, importante prócer do PTB que o apoiava, que saiu do diretório com uma dúzia de malas abarrotadas de dinheiro para pagar as despesas de campanha e, ao chegar ao destino, só entregou uma delas. O dr. Antonio gargalhava. Foi assim, assistindo a episódios como este, que ele fizera seu noviciado na política – a política real, a política nua e crua, a política do dia a dia, e não a política das intenções fantasiosas e dos propósitos elevados que ele queria encarnar.

A derrota o aliviava. Não precisa nutrir mais nenhuma ilusão eleitoral. De fato, nunca mais se candidatou a nada. Sem deixar de se interessar pela política, renunciou ao que a política tinha de mais interesseiro. A desilusão o curou.

Ilusão, aventura – são palavras que combinam com sua decisão de se candidatar em 1986. Ele não era homem de partido, achou que poderia ganhar passando, com seu inegável carisma, por cima das estruturas partidárias. Acabou tendo de ser acertar – ao pé da letra – com o marotíssimo PTB. Bancou a sua própria campanha e a do próprio partido.

Seu lançamento provocou um tsunami. As pesquisas, de cara, sugeriam uma eleição fácil. O adversário mais forte era o vice-governador Orestes Quércia, do PMDB. Setores do PMDB atritados com Quércia – o governador Franco Montoro, Fernando Henrique, José Serra, Roberto Gusmão, enfim, o núcleo que iria poucos anos depois romper com o PMDB e lançar o PSDB – apoiavam Antonio Ermírio por baixo do pano.

Mas 1986 foi um ano peculiar e as eleições acabariam por confirmar isso. Houve a miragem do Plano Cruzado, o fenômeno mobilizador dos "fiscais dos Sarney", o desabastecimento, o ágio e a oratória enganosa de Quércia de que, para abastecer as mesas das família, iria "buscar o boi no pasto". Quércia venceu com folga.

Dr. Antonio já trazia de família o sabor amargo da política. Seu pai, José Ermírio, fora senador da República. Sofreu impiedosamente a chantagem do jornalista Assis Chateaubriand, o Chatô, notório achacador. O filho sabia o quanto o pai sofrera. Mas aquele cacoete messiânico do DNA nordestino ainda assim açulou seu sonho eleitoral de 1986. Felizmente, o surto passou rápido.

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