24 jan as 07h39

Tenho um amigo que batizou de Claudia – lindo nome – sua filhinha nascida em junho de 2011. Ela é um encanto de menina, risonha e doce. No entanto, tem padecido recentemente daquele mal-estar típico que os pais extremosos pensam ser o fim do mundo e o pediatra, já escolado, tranqüiliza com um – “não é nada, fiquem tranqüilos”.

O fato é que Claudia tem tido noites inquietas, chorosas.

O pai, naquela ansiedade de primeira viagem, faz o que pode, compressas, chupetas, suquinhos. O efeito é aleatório. Às vezes, o mal-estar passa e Claudia volta a dormir como um anjo. Às vezes, ela contempla as madrugadas com gritos lancinantes de bicho ferido.

Repito: Claudia é um amor e a gente sabe que isso passa. Mas meu amigo, no tormento da madrugada insone, ainda não sabe.

Uma noite dessas, descabelado em sua impotência de dar conforto aquela coisinha linda, ele radicalizou, em desespero de antipedagogia:

– Se você não calar, vou chamar a Polícia do governador Alckmin.

Desde então, a suave Cláudia não dá um pio.

(Este blog é uma homenagem aos resistentes do Pinheiro, em São José dos Campos – famílias e famílias desalojadas pela impoluta Justiça estadual e pela brutalidade da PM do Alckmin para reintegração de posse que favorece o escroque Naji Nahas)

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19 jan as 13h29

elis regina nirlando O povão me ensinou o que eu não sabia da Elis

Elis era uma encrenqueira. Não por acaso a chamavam de Pimentinha. Desaforada, era do tipo que brigava com garçom em restaurante. Mais de uma vez assisti a cenas dela. Me constrangia.

Fui acordado naquele 19 de janeiro de 1982 por um telefonema da Regina Echeverría – acho que foi a Regina, sim. Regina era superamiga da Elis e acabaria por escrever a definitiva biografia dela, Furacão Elis, que já deve estar aí pela décima edição.

Foi com a Regina que conheci pessoalmente a Elis, quando ela ainda morava na casa da Cantareira. Não seu dizer se já separada do César Camargo Mariano ou ainda com ele. Minha precaríssima memória registrou, de todo modo, a presença de uma garotinha esperta, de quatro anos, chamada Maria Rita.

Quando a Regina me ligou, não acreditei no que ouvia. Foi um baque. Corri para a redação da IstoÉ, onde o Geraldo Mayrink, editor de Cultura, já coordenava a cobertura com seu time de repórteres-gatas, em que a inteligência competia com a beleza. Também acabei escrevendo um texto modesto na edição daquela semana.

Até então eu acreditava que Elis era uma cantora cult, por causa da irreverência dela e da escolha do repertório, sempre cheio de alusões politizadas no escuro da ditadura militar que já se esvaía.

O enterro dela me desmentiu. A explosiva Elis era um ícone do povo, querida de todos. O cortejo passou pelas ruas do centro de São Paulo e os prédios deixavam cair lágrimas, pétalas de rosas e papel picado. Foi emocionante.

Antes dela, imagino que só Carmem Miranda deva ter provocado tal comoção. Depois dela, Ayrton Senna.

Elis morreu muito nova, aos 36 anos. A consternação popular aumenta quando se constata a injustiça de uma morte tão prematura.

O fato é que o povão sabia quem – e o quê – estava perdendo. Elis era única e continua sendo incomparável.

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19 jan as 06h00

Vejo foto da ministra Mario do Rosário, dos Direitos Humanos, sentadinha numa das carteiras da Escola Pública de Trânsito do Distrito Federal, assistindo aulas na tentativa de recuperar sua carteira de habilitação.

Dias atrás, foi a vez do ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, se submeter ao suplício do cursinho de direção defensiva – seja lá o que isso signifique.

É simbólico que as vítimas sejam, uma, responsável pelas Comunicações no governo federal e, a outra, guardiã do respeito à dignidade da pessoa.

Pois não vejo nada mais desrespeitoso a nós, cidadãos brasileiros, do que a forma como as autoridades (?) de trânsito nos tratam – sendo que o que passa para a opinião pública é que somos nós os cruéis infratores e eles, os zelosos apóstolos da lei. Terrível erro de comunicação, né não?

Antecipando-se ao noticiário, sabidamente carregado daquela linguagem policialesca dos jornalões anti-PT, tanto Paulo Bernardo quanto Maria do Rosário trataram de ser explicar: nem sempre são eles que dirigem seus veículos.

Percorro de novo as fotos e não consigo imaginar Maria do Rosário nem Paulo Bernardo no papel de sinistros delinqüentes do volante. As pessoas que os cercam, na sala de aula, tampouco parecem ser figuras de quem a sociedade, assustada, deva se proteger.

Conheço uma enorme – sem exagero – quantidade de pessoas de bem que perderam sua habilitação por uma única e exclusiva razão: a sanha arrecadadora do Estado.

A vigilância insana dos radares não existe para proteger a vida e propiciar a segurança do cidadão e, sim, apenas e tão somente, para converter em penalidade – quer dizer, em dinheiro – eventuais pecadilhos de trânsito.

Vocês podem dizer: e os assassinos do trânsito? Os que matam, nos cruzamentos loucos, encharcados de bebida? Existem, sim – e devem ser punidos exemplarmente. Mas são minoria. Governar é atender a maioria. Não é nos transformando a todos nós em suspeitos que a circulação caótica das grandes cidades e das rodovias há de melhorar.

A ansiedade punitiva disfarça a falta de idéias para o tráfego. Volto às fotos, vejo aquelas pessoas sendo humilhadas na sala de aula do Professor Detran e me pergunto se os verdadeiros criminosos não serão aqueles que se omitem ao lidar com essa questão gravíssima. As tais – e sempre anônimas – autoridades.

Quando não se omitem o que fazem é meter a mão no nosso bolso.

Em tempo: até hoje ainda não perdi minha habilitação. Deve haver algo de errado comigo.

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18 jan as 08h13

A gente sabe, faz tempo, que o personagem mais expressivo daquele amontoado de pit bulls e saradonas que atende pelo nome de BBB é o edredom.

É, de longe, o elemento mais sensível e com maior senso de dramaturgia em meio àquela agarração descerebrada, frenética maratona de amassos.

Sem o edredom, o Big Brother Brasil não é nada. O BBB pode passar sem o Pedro Bial, mas não sem o edredom. O edredom encobre a cupidez dos personagens, mas, sobretudo, aguça a fantasia dos espectadores.

O BBB 12 reitera agora a vocação do edredom de verdadeiro protagonista da farsa. O esfrega-esfrega de um dos brothers com a sister aparentemente embriagada – e talvez ferrada no sono – se passa, claro, por baixo do pano.

O brother – cujos 15 minutos de fama mal duraram uma semana – foi expulso da casa por conduta “inapropriada”. O edredom continua lá, imune a qualquer punição.

Brothers e sisters se calam. Bial perdeu a piada. O edredom apenas espera a hora de voltar à cena, presidindo aquele festival infantiloide de vulgaridade e de exibicionismo.

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10 jan as 17h43

É maluquice o que a Polícia Militar de São Paulo está fazendo, a pretexto de higienizar o centro da capital da nefasta presença dos traficantes e viciados em crack e similares.

Já se sabe que a PM tomou iniciativa sem avisar as instâncias superiores, transformando, assim, o que é um grave problema social numa questão meramente repressiva.

Lembrou os piores tempos da ditadura.

Nem o governador Alckmin nem o prefeito Kassab foram avisados de ação de tal envergadura e de tamanha visibilidade.

Aliás, a impressão que fica – vide Cracolândia, vide invasão da USP – é que o comandante da PM manda mais em São Paulo do que o omisso governador do Estado.

É preciso, sim, acabar com a chaga urbana que é a Cracolândia. Mas que junto com a polícia – aliás, antes dela – as autoridades mandem os assistentes sociais e os experts em saúde pública.

Pancadaria, balas de borracha, bombas de gás não resolvem; só aguçam ainda mais o problema.

Os viciados em crack e similares, meio que desalojados de seus redutos, vagam hoje por São Paulo como aquelas hordas infectadas pela peste do filme O Sétimo Selo, de Bergman. Ou reproduzindo sinistramente a alegoria medieval da Nau dos Descontentes.

Além do mais a PM agiu de má fé. Sabia que o governo federal preparava um programa de amplo espectro para combater o mal do crack e do tráfico. Não só em São Paulo – em todo o país. O Estadão de hoje traz essa informação, cristalinamente documentada.

A PM se antecipou, desastradamente, com a óbvia intenção de bajular o governador a quem deve obediência, de olho nos supostos dividendos políticos de um ano eleitoral.

Até nisso o resultado é um desastre. A ação só aumenta a insegurança da população.

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09 jan as 06h44

Há um lugar do Brasil em que A Privataria Tucana não é o livro mais vendido.

Líder absoluto em todas as listas de best sellers, até mesmo naquela da Folha de S. Paulo – jornal que, no entanto, achou irrelevante discutir o que está ali escrito –, o livro do Amaury Ribeiro Jr. está em quinto entre as obras de não ficção.

Na mesma bancada, lado a lado, em quarto lugar, desponta A Soma e o Resto, assinado ironicamente por um dos personagens mais insistentemente falados no bojo das denúncias de A Privataria: o ex-presidente Fernando Henrique.

Nem naquilo que diz respeito ao “Resto”, FHC sequer resvala no explosivo tema das privatizações. O livro é um passeio biográfico por 80 anos de vida de FHC. Mas as privatizações, a gente sabe, são uma incômoda pedra no sapato do ex-presidente.

O best seller número 1 da lista de não-ficção ajuda a explicar que misterioso lugar é este onde as pessoas fingem não ouvir o petardo detonado pelo Amaury Jr., repórter aqui da Record.

Lidera a lista A Parisiense, guia de estilo assinado por Inès Marie Laetitia Eglantine Isabelle de Seignard de la Fressange (no mundinho fashion, a ex-modelo Inés de la Fressange), em parceria com Sophie Gachet.

É, vocês adivinharam: o lugar é uma livraria de Higienópolis, a Versalhes brasuca. A Livraria da Vila do Pátio Higienópolis.

Higienópolis é aquele bairro cujos moradores gostariam de exigir passaporte de outros brasileiros digamos assim banais.

Sendo Higienópolis também o poleiro do tucanato, é até de se surpreender que A Privataria Tucana tenha galgado uma posição tão honrosa.

Desconfio que as pessoas comprem para não deixar as outras – realmente interessadas no assunto – lerem.

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05 jan as 19h20

A gente vive, na virada do ano, a fantasia de notáveis propósitos, como se o Ano-Novo (ou Ano Bom, como dizem os franceses, num otimismo incompatível com sua habitual índole) fosse purificar a humanidade com a aragem de uma Mega-sena espiritual.

Aí, começa o Big Brother e não há como não amargar a impressão de que nada irá mudar, em 2012, nem mesmo o repertório de piadas constrangedoras do Pedro Bial.

Bial, o BBB, as tragédias do verão tropical, a mediocridade das primárias do Partido Republicano onde cada pateta tenta dizer que é mais conservador e mais insensível do que o outro – e, para completar o quadro de desolação, o anúncio da aposentadoria do Marcão, goleiro do Palmeiras e da seleção.

Marcão aprontou várias contra o meu time, mas ele é o tipo de sujeito pelo qual ninguém – repito, ninguém – deixa de ter respeito, quando não admiração.

Na sua espontaneidade simulada de capiau, ele é dono de uma profunda sabedoria. Ao contrário de outros chatos que andam por aí, pavões enfatuados sob as traves, o Marcão se despede na hora certa e sai de cabeça erguida.

A julgar pela amostra dos seis primeiros dias, teremos aí um 2012 pra lá de chocho. Confesso que custei a buscar certa energia para recomeçar o ano aqui neste blog.

Nem daquelas mortandades gratuitas que alimentam a gana dos americanos e de seus aliados o ano será bem servido. As ameaças contra o Irã são jogo de cena e mera guerra de nervos para requentar o calendário eleitoral.

Os brucutus belicosos terão de se contentar, em 2012, com as pancadarias do Ultimate Fight.

E a principal novidade do cenário internacional, sou obrigado a dizer, deve ser a reeleição de Barack Obama.

Ruim com ele, pior sem ele.

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28 dez as 13h13

Diagnosticado câncer na tiroide de Cristina Kirchner. A presidente da Argentina vai ser operada dia 4.

Lula entra o ano na radioterapia por causa de um câncer na garganta.

Dilma Roussef, quando na Casa Civil, descobriu que tinha um câncer do sistema linfático.

Hugo Chávez, com cara de quem abusou dos corticoides, ainda se recupera de um tumor de próstata – que ele tratou em Cuba, não na Venezuela.

Fidel Castro há mais de cinco anos combate um câncer no intestino.

Fernando Lugo, presidente do Paraguai, teve de retirar em 2010 um linfoma de baixo grau na virilha.

As pessoas costumam dizer que o poder é afrodisíaco – e aí estão Silvio Berlusconi, Vladimir Putin, os irmãos Kennedy e todos os imperadores romanos que não nos deixam mentir.

Na América Latina, é diferente.

Na América Latina, o poder é cancerígeno. E o câncer é de direita.

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27 dez as 20h20

Em conjunto com a Rede Bandeirantes de Televisão, o Ibope tenta ressuscitar José Serra.

A emissora divulgou, nas brumas natalinas, uma pesquisa eleitoral em que o ex-governador, ex-ministro, ex-prefeito, duas vezes ex-candidato à Presidência aparece à frente de todos os demais postulantes à Prefeitura de São Paulo.

Serra teria 20% das intenções de votos, segundo o instituto do Sr. Carlos Augusto Montenegro (aquele que previu que Dilma Rousseff não tinha a menor chance de virar presidente da República).

Nem o Ibope nem a Band se interessaram em avaliar a rejeição dos candidatos.

O mais grave é que a pesquisa omite o nome do deputado Celso Russomano, do PRB – aquele mesmo que lidera em quatro das cinco projeções para a Prefeitura feitas por um instituto que não pode ser acusado de nenhuma parcialidade, o DataFolha.

Candidatíssimo, e líder na intenção de votos, Russomano sumiu, em ato de bruxaria explícita, da lista dos escolhidos do Ibope.

A, digamos, enquete deve ter sido comemorada pelo Departamento de Jornalismo da Band, ainda que a credibilidade dela seja igual a zero.

Serra é candidato a tudo desde o final da Primeira República e há sempre de ter um residual de renitentes apoios. Mas o que o Ibope e a Band fazem agora é tentar desajeitadamente retirar de Serra a estaca que o livro do Amaury Ribeiro Jr. – A Privataria Tucana – lhe cravou no peito.

PS: A propósito de bruxas, bruxarias e vampiros, este blog recomenda vivamente a leitura de The Witches (As Bruxas), do escritor inglês de origem noruguesa Roald Dahl.

Dahl foi um extraordinário autor de histórias infantis (A Fantástica Fábrica de Chocolates é um, entre muitos), assim como de arrepiantes contos de terror.

Tinha, portanto, algum trato com as bruxas e num dos capítulos do referido livro ela ensina: “Como reconhecer uma bruxa”.

É didático, claríssimo, e devia ser adotado em todas as campanhas políticas no Brasil por eleitores precavidos.

Estão lá os cacoetes mais evidentes das impenitentes agentes do mal: roupas pretas, perucas, carecas que coçam, sapatos largos que escondem pés medonhos – e por aí vai.

Identificar bruxas não é, a julgar pelo que escreve Roald Dahl, tarefa difícil.

Muito mais complicado será entender o poder com que certas criaturas do além conseguem enfeitiçar (atemorizar? chantagear?) os seres humanos mais vulneráveis – ou simplesmente cúmplices das mais perversas bruxarias.

É o que este blog se pergunta o tempo todo.

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26 dez as 12h06

Kim Jong-un, o novo homem-forte da Coréia do Norte, é apaixonado pelo Chicago Bulls desde os tempos de Michael Jordan e tem um fascínio pela Disneyworld.

Chegou a viajar clandestinamente para Disney do Tóquio em maio de 1991, na companhia de um irmão mais velho, Kim Jong-chol.

O caçulinha, hoje sucessor do pai Kim Jong-il, tinha 20 anos, fazia-se passar pelo coreano-brasileiro Joseph Pak e, segundo o jornal japonês Yomiuri Shimbun, portava passaporte da República Federativa do Brasil.

A Coréia do Norte não tinha – e ainda não tem – relações diplomáticas com o Japão. Daí o passaporte fajuto.

(Sempre me disseram que passaportes brasileiros, aqueles verdes, antigos, tinham alto valor no mercado negro porque podia ser facilmente falsificados, Eu achava que era lenda)

O irmão mais velho do novo manda-chuva, Kim Jong-nam (desculpem, os nomes são parecidos, aquilo lá é uma dinastia), quis imitar os dois irmãos e também desembarcou em Tóquio, em 2001, com identifidade falsa. Foi preso e despachado de volta. Com medo de incorrer na ira paterna por causa de sua idiotice, o primogênio preferiu se exilar na China e hoje, parece, se esconde em Macau.

É curioso perceber como o Mickey, a Minnie, a Branca de Neve e, claro, o Pateta são capazes de tocar os duros corações de filhos de ditador.

O que não consigo entender é porque os países que têm uma Disneyworld em seu território, em vez de barrar os irmãos Kim Jong, não trataram de acolhê-los de braços abertos e tapete vermelho.

Teria sido um jeito inteligente de começar a estabelecer uma política de boa vizinhança.

Um sujeito capaz de se enternecer quando assiste no cinema a morte da mãe do Bambi não pode ser de todo uma má pessoa.

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