16 mar as 11h23

rio Meus candidatos, se a Dilma sair (2)

Grupo protesta contra o governo Dilma e pede intervenção militar na Candelária, no centro do Rio de Janeiro / Foto: Bruna Oliveira/R7

Reclamei há pouco que o camarote VIP das manifestações não estava muito concorrido, mas pouco a pouco as redes sociais tratam de suprir esta lacuna.

Começam a pipocar os selfies das celebridades engajadas no Fora, Dilma.

Reconheço muitos empresários sorridentes e torço para que eles estejam entre aqueles que trataram de proteger seu dinheirinho das intempéries da conjuntura nacional recambiando-o, providenciando para aquela conta secreta do HSBC de Genebra.

Pode ser que alguém chame isso de evasão fiscal – prefiro dizer que é puro patriotismo.

Fiquei particularmente encantando com a presença, no tapetão humano de Copacabana, do Dom Joãozinho Príncipe, da família Orleans e Bragança – ele, trineto de Dom Pedro II.

No vazio das atuais lideranças políticas, eis aí uma bela opção para o Brasil. Dom Joãozinho é um sujeito garboso, simpático, de nobres origens e, ao que consta, apesar das enfiteuses que a família real ainda aufere, este príncipe é até mesmo trabalhador (é fotógrafo profissional).

Quem sabe a solução não seja restaurar a monarquia, com Dom Joãozinho no trono imperial? Poderia de cara atender a uma demanda escondida na alma da maioria dos manifestantes do andar de cima da sociedade: restaurar o regime escravo.

Quem iria se preocupar em bater panelas enquanto a gente tivesse serviçais operando-as, de graça, lá no escuro das cozinhas?

PS: se Dom Joãozinho se recusar, por pudor ou timidez, nunca será tarde lembrar que o Brasil tem hoje um herói desabusado: o doleiro Alberto Youssef. O delator andou fazendo umas coisinhas meio marotas, mas, quando um historiador do futuro for ler o que se escreve dele nos jornais de 2015, não haverá dúvida de que Youssef é um impoluto salvador da pátria.

 

 

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16 mar as 00h12

Não consegui identificar quem frequentou o palanque VIP das manifestações do domingo.

Sei que o Ronaldo Fenômeno – eleitor declarado de Aécio Neves – compareceu.

Ainda não ouvi falar do Lobão, o muso do impeachment. Nem um selfie com ele, rapaziada?

Na minha modesta opinião, quem acabou se candidatando a melhor imagem da manifestação foi aquela mocinha que, lá do alto de um dos carros de som patrocinados pelo imposto sindical da Força, em São Paulo, tirou toda a roupa e se apresentou em pelo.

Implicaram com ela. Agarraram a moça e a esconderam. Um absurdo. Minha musa do Fora, Dilma passa a ser ela, com certeza.

A rapaziada da Globo, que ajudou a convocar o protesto, será que se misturou com a multidão? Tenho dúvidas.

Bem, já que o movimento Fora, Dilma cresce, fico imaginando qual seria a melhor alternativa se convocada uma eleição que anule a eleição que a Dilma ganhou, com maioria de votos.

Como as lideranças políticas, todas elas, do governo e da oposição, estão meio desmoralizadas, sugiro pensar em nomes alternativos.

A irrupção do Ronaldo no protesto faz dele um candidato natural melhor do que o do cupincha dele. Afinal, nada melhor do que se lembrar dos antigos tempos em que, na Copa do Mundo, o Brasil vencia, em vez de ser humilhado (os 7 a 1, como se sabe, foi culpa da Dilma).

Outro que já anda muito assanhado por aí é o Joaquim Barbosa. O ex-ministro é um apóstolo do ódio e, se é para governar com o fígado, como querem os manifestantes, taí uma excelente escolha.

Dr. Barbosa é capaz de botar ordem nessa orgia. Fazer um governo de perseguição e punição – beleza pura. Quem demonstrar publicamente alguma felicidade vai direto para a cadeia.

Joaquim Barbosa é autoritário, rude, primário, mas que importa? Depois de 30 anos de democracia, o Brasil ainda não entendeu o que é bem isso. Um regime autoritário, rude, primário é o que muita gente pede nas ruas e de panela nas mãos.

O comentarista Merval Pereira, da Globo, pode ser uma opção. Como ele chegou à Academia Brasileira de Letras sem ter nenhuma intimidade com elas, as letras, pode ser um supremo mandatário sem nenhuma compreensão mais sensível do que é a política e o poder.

Pena que, depois de tudo o que aconteceu, o spider Anderson Silva ande meio desacreditado. Em clima de pancadaria, ele poderia imprimir ao país um regime realmente de força bruta.

Se você tem outras opções, escreva para esta coluna.

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12 mar as 11h04

predio O protesto contra a corrupção pode ajudar a corrupção

As manifestações previstas para o dia 15 são do jogo democrático, ainda que muita gente que vai estar lá, a julgar pelos grupos que a convocam, não tenha muito amor pela democracia.

O protesto, dizem, é contra a corrupção. É hipocrisia, isso. O protesto é contra a Dilma, contra o PT, contra o Lula, contra o bloco que governa o país desde 2002. Nem por isso deixa de ser legítimo e democrático.

Mas é bom dizer a verdade: é um protesto político. Aposto que entre os que estiverem por lá não haverá uma única e escassa criatura que tenha votado na Dilma em 2014.

É o protesto político dos derrotados. Que, aliás, têm todo o direito de fazê-lo.

Minha dúvida é de outra natureza: como vejo entre os manifestantes gente pedindo a ruptura democrática, que quer atropelar as regras do jogo, que até pede a volta do regime militar, percebo aí um tremendo paradoxo.

A corrupção só está senso investigada e revelada à luz do dia porque vivemos – com Dilma, assim como aconteceu com Lula e com o FHC – numa democracia.

As instituições funcionam, a Polícia Federal investiga com autonomia, o  Ministério Público denuncia com toda a liberdade.

Numa ditadura, não há nada disso. As ditaduras empurram as maracutaias para debaixo do tapete. E encarceram os críticos, aqueles que ousaram contestar e protestar.

No regime com que parte dos manifestantes, viúvas da ditadura, sonha não há manifestação.

Só o estado de direito pleno combate a corrupção. O estado de exceção é cúmplice da roubalheira.

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09 mar as 16h50

O dr. Janot Pacheco, engenheiro e empresário, foi uma figuraça que, com tinturas de folclore, animou a geração do meu pai em Belo Horizonte.

Eu me lembro bem do nome – e do carinho com que meu pai, um vulcão de sentimentos, justificava as excentricidades da criatura. Foram colegas na diretoria da Associação Comercial.

Gabriel Andrade Janot Pacheco, o nome completo dele. O Google me socorre.

Era um rígido nacionalista, entusiasta da campanha “O Petróleo é Nosso” (estaria hoje muito provavelmente na linha de frente da defesa da Petrobrás).

Ajudou a criar a Usiminas e a Vale.

Sua maior especialidade era fazer chover. Subia num teco-teco e saía a bombardear nuvens com uma química só dele. Não recordo se funcionava ou não. Mas fazia um estardalhaço na ainda provinciana Beagá.

Quando surgiu em cena o atual procurador-geral tentei investigar se ele teria alguma relação de parentesco com o notório Janot Pacheco.

Desta vez, o Google não me socorreu. Apesar do mesmo Janot, o do dr. Rodrigo não parece ter nada a ver, em linhagem familiar, com o do dr. Gabriel.

Se o vínculo de sangue não existe, a vocação para a ousadia com certeza é a mesma. Se o dr. Gabriel fazia chover, o dr. Rodrigo, o da lista, provoca tremendas tempestades.

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09 mar as 09h10

 O panelaço é democrático. Suas intenções não são

O taxista me pergunta se, dia 15, domingo, vou “à revolução”.

Eu me faço de desentendido: dia 15? Revolução? O que vem a ser isso?

“É para derrubar a Dilma, não sabia?”

Respondo timidamente: “Mas ela não foi eleita? O sr. não votou nela, votou?”

Não, ele não votou nela e acha que isso é suficiente para derrubar a escolha da maioria que a elegeu.

“Temos de botar os militares no poder”, insiste ele.

Apesar do tosco raciocínio que preside a mobilização para “a revolução” do dia 15, o fato que é que ela cresce, com o amparo raivoso das redes sociais.

O panelaço de domingo – invariavelmente acompanhado de palavrões ofensivos – parece ter sido o ensaio geral.

O panelaço é democrático, embora suas intenções não sejam.

É como a vaia na estreia da Copa e é interessante observar que o desrespeito à presidente exploda, em requintes de grosseria, no dia internacional da mulher.

Dilma paga o preço extra de ser mulher – não tenho dúvidas disso. Por duas vezes, a maioria do Brasil elegeu uma mulher presidente. Mas a minoria no Brasil falocrata e machista tem ódio de que isso tenha acontecido e se repetido.

Tem muita gente apostando no quanto pior, melhor, a começar nos redutos punho de renda do tucanato. O Congresso, conduzido por duas figuras comprometidas no propinoduto da Petrobras, está propenso a fazer da vida da presidente um inferno. A economia está paralisada. A governabilidade, em risco.

As aves agourentas da ditadura espreitam, embora os militares, desta vez, assistam a tudo na trincheira saudável da legalidade.

O panelaço aconteceu nos bairros da minoria furiosa. Pelo menos valeu para que as madames dos Jardins entrassem em contato, ainda que por meros minutinhos, com as panelas Le Creuset que elas relegam, com superior desdém, a seu exército de domésticas.

Mas como dizia o Presidente Mao, é bom que elas fiquem sabendo: “a revolução não é um jantar de gala”.

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03 mar as 13h49

 Sem a bolsa esposa, dispara em Brasília a bolsa cabaré

Quer dizer que Eduardo Cunha, o impoluto presidente da Câmara de Deputados, desistiu daquilo que a mídia já estava chamando maldosamente de bolsa-esposa?

Uma pena. Embora a conta da tranquilidade doméstica de Suas Excelências viesse a ser paga por você, por mim, por todos nós, os contribuintes, taí o tipo de coisa que eu aceitaria bancar de boa vontade.

Era, sou, sempre serei a favor da bolsa-esposa. Que os cônjuges pudessem testemunhar de perto, ao longo da semana, o infatigável trabalho dos parlamentares e, depois, acolhê-los no sacrossanto reduto do lar para um escalda-pés, um chinelinho confortável, uma sopinha leve, a novela das nove e o aconchego dos lençóis – é ou não é o melhor jeito de evitar que os representantes do povo passem a noite bebendo uisque 12 anos com lobistas das empreiteiras ou se consolando no regaço das profiissionais do afeto pago?

Aquela solidão do Planalto Central, em sua imensidão sem fim, faz o mais fiel dos maridos (e das esposas) fraquejar. Quantos casamentos paralelos que só duram no expediente congressual de terça a quinta! Quantos divórcios! Quantos filhos involuntários! Quantos escândalos para os tablóides!

Eduardo Cunha, o magnânino, só pretendia proteger a família e os bons costumes.

Você pode alegar que seria mais ético que o próprio congressista – não você, eu, todos – viesse a investir, em passagem aérea, seu pleito de fidelidade e decência, não é mesmo? Mas, coitadinhos, eles ganham tão pouco!

Sem a bolsa-esposa, Brasília já sabe que vão disparar as ações da bolsa-cabaré.

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23 fev as 07h45

A semana pós-carnaval vai botar fogo no circo. Perdão, na política.

Os deputados devem voltar dos folguedos animados com a perspectiva de criar problemas para o governo – em especial, os deputados que se dizem aliados do governo.

Há mais uma CPI da Petrobrás a caminho. E mesmo que a gente já saiba que ela não vai dar em nada, pelo menos oferece uma ótima photo opportunity – via TV Senado – para os fanáticos da visibilidade.

Algumas subcelebridades irão aflorar da CPI.

Já o procurador-geral Rodrigo Janot promete despir a toga de Pilatos e revelar, enfim, quais são os políticos citados das delações da Operação Lava-Jato.

30tjjifg1f 6m0tvh3ik6 file Previsão de tempo (na política): muito calor e risco de aguaceiros

Até aqui, os vazamentos das delações têm acontecido a conta-gotas. Os promotores e a PF só vazam o que interessam aqueles jornais anti-governo, o que deixa a impressão nítida de parcialidade, partidarismo e falta de isenção no trabalho do juiz Sergio Moro e sua tropa.

Pode estar chegando – inclusive para os investigadores – a hora da verdade. Se é para vazar aqui e ali, por que não vazar tudo?

Os próprios vazamentos são atos ilegais e antidemocráticos. Mas esse é o tipo de ilegalidade que nem aquela certa imprensa e nem os próprios investigadores irão investigar.

De todo modo, o chamado Petrolão está sendo minuciosamente escrutinado. O propinoduto de São Paulo, fica para outro dia. O mensalão mineiro está morto e enterrado. As operações Castelo de Areia e Satiagraha são ecos de um passado incômodo que se quer esquecer. A evasão fiscal nas contas secretas do HSBC, o tal jornalista investigativo – que fez campanha para Marina Silva e para o candidato dela no segundo turno – sentou em cima.

No Brasil, a Justiça decidiu que só os inimigos serão punidos; os amigos estão aí para ser acobertados.

PS: Vocês ficarão uns dias sem as minhas habituais provocações (ou baboseiras, como preferem alguns de vocês). Vou a Portugal regar as raízes. Pelo menos lá – é o que me dizem – tem água para isso.

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20 fev as 13h27

82yn029big jzuefhdr5 file Golpe hoje vem vestido de toga, não mais de farda

O presidente do Equador, Rafael Correa, entendeu tudo: os golpes na América Latina se sofisticaram; agora, em vez de convocar os militares, recruta juízes e promotores.

Os protagonistas mudam, o script é o mesmo da infindável guerra fria travada pelos senhores da oligarquia perfumada contra qualquer governante que tenha cheiro de povo.

A Justiça, na América Latina, sempre foi uma instituição reacionária, a serviço do privilégio e do status quo.

Os senhores de toga, fingindo isenção, atapetam, com suas acusações sempre seletivas, o caminho para que as forças políticas do passado trevoso derrubem em artimanhas parlamentares os governantes legitimamente eleitos.

Foi o que aconteceu no Paraguai com o Fernando Lugo. É o que setores da Justiça argentina pretendem agora, exumando contra a presidente Cristina Kirchner um cadáver de duvidosa reputação.

E é o que o juiz Sergio Moro, macaqueando o ex-supremo magistrado Joaquim Barbosa, espera fazer no Brasil, com o aplauso da mídia irremediavelmente antidemocrática.

(Documentos do Departamento de Estado, agora divulgados, indicam que Roberto Marinho, da Globo, foi o mais golpista de todos os golpistas de 64).

A investigação do juiz Moro só investiga os inimigos; acoberta os amigos.

Quando os advogados dos réus procuram, à luz do dia, em ambiente mais do que devassado, a autoridade legítima, ou seja, o ministro da Justiça, a mídia faz aquele estardalhaço, com a ajuda de um Joaquim Barbosa supostamente aposentado.

O simulacro de Batman, o justiceiro, tuita frases provocadoras com esperança de que o país não o esqueça. Afinal, dizendo-se falar em nome de "nós, os brasileiros honestos", é candidato à presidência no ainda longínquo 2018.

Ele e sua gente querem abreviar esse prazo com o recurso que for – inclusive os expedientes que passem por cima da lei. Enquanto isso, turbina seu novo negocinho: palestras sob encomenda. Quando mais mídia tiver, mais caro pode cobrar.

 

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18 fev as 19h50

2cz8l7t4hj ei8xyrot0 file Está na hora do carnaval rejeitar o dinheiro sujo – qualquer que seja

Dez milhões de reais para ganhar a atenção de uma passista sestrosa, sei lá, até que o machista que dormita dentro de cada um de nós admite – e até aplaude.

Mas não sei se foi essa a verdadeira intenção da família que domina a Guiné Equatorial desde a década de 70 ao derramar essa dinheirama toda no carnaval da Beija-Flor de Nilópolis.

Um requinte de public relations com repercussão internacional? Mero capricho de uma ditadura longeva?

Claro que os 10 milhões poderiam fazer melhor figuração se aplicados num país com um dos piores índices de desenvolvimento humano em todo o mundo.

E aqui no Brasil? Tudo bem fazer um carnaval com o baú do ditador?

Ouvi o argumento de que o financiamento das escolas de samba nunca procedeu de fontes as mais santificadas. Jogo do bicho, tráfico de dólares, lavagem de dinheiro, o escambau.

Dizem: o dinheiro sujo é que banca, sempre bancou, o carnaval.

Mas não é hora de acabar com isso. Se o país tem mesmo a pretensão de estar se passando a limpo, por que aceitar o nicho de ilegalidade explícita que é o carnaval?

É o que penso. Pode que alguém venha alegar que é dor de cotovelo de quem viu a Beija-Flor ganhar o campeonato com vantagem milimétrica sobre o Salgueiro, que trouxe para a avenida a alegria gulosa dos petiscos de minha Minas Gerais.

O Salgueiro perdeu, não vou chorar por isso,

Choro por um país africano que, com fachada de campeão, mais uma vez só tem tudo a perder.

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16 fev as 05h08

Fernando Pamplona é o homenageado. Não há quem no carnaval carioca não conheça este nome. Pamplona, que morreu em 2013, seria um dos maiores verbetes de uma eventual enciclopédia da folia.

A improvável trajetória dele começa no momento em que o carnaval pedia uma sacolejada. Pamplona apareceu um dia no Salgueiro para comandar esta revolução cujos efeitos estarão visíveis, mais uma vez, hoje e amanhã, no Sambódromo.

Mas o que há de tão improvável na trajetória de Pamplona? É que ele era um estranho naquele ninho. Vinha da Escola de Belas Artes, professor de cenografia. A Escola de Belas Artes, cópia das Beaux-Arts de Paris, foi criada para formar acadêmicos dos pinceis e das pranchetas. Não, acadêmicos do samba.

Pela Escola de Belas Artes passaram Niemeyer, Lúcio Costa, Burle Marx, Portinari e até – não me perguntem o que ele fazia lá – Dorival Caymmi.

Foram Pamplona e os alunos de Belas Artes que ele foi recrutando – candidatos a pintores, escultores, cenógrafos, designers gráficos, designers de interiores – que mudaram a estética, deram brilho e luxo aos desfiles das escolas do morro.

Em 1971, já estavam todos lá, no Salgueiro, naquele carnaval empolgante do Rei Negro – o do contagiante samba “Pega no ganzê, pega no ganzá”. Pamplona mais Arlindo Rodrigues, mais Maria Augusta, mais Renato Lage, mais Rosa Magalhães, mais Lícia Lacerda, mais um ex-bailarino que se daria muito bem no mundo das miçangas e das alegorias – um certo Joãosinho Trinta. Todos com passagem luminosa nos enredos carnavalescos.

Renato Lage e Rosa Magalhães ainda estão ativos no Sambódromo e é Rosa, ex-discípula de Pamplona, quem assina o tributo prestado ao mestre pela escola da Zona Sul.

O desfile da São Clemente – marcado para as 20h de segunda-feira – serve para lembrar também a tola polêmica que aflorou quando os acadêmicos da Belas Artes foram levar seu talento visual e cênico às escolas da favela e do subúrbio.

Os puristas, os tradicionalistas, se irritaram, dizendo que o carnaval ia perder sua autenticidade, que ia virar big business, tipo Hollywood ou Broadway.

Estavam certos porque o carnaval de fato se transformou. Estavam errados porque se transformou para melhor. Hoje, é o grande chamariz do turismo brasileiro. Um espetáculo de deslumbramento que quem viu de perto jamais esquecerá.

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