11 dez as 10h39

Uma das críticas mais irritadas que os líderes do PSDB fazem ao PT é o de ter "aparelhado o Estado". Ou seja, ter encastelado no poder uma companheirada louca para usufruir financeiramente as benesses do poder.

Confesso que, a princípio, eu estranhava a ideia do "aparelhamento". Afinal, quando um partido chega ao poder, em eleições legítimas, o que esperar dele: que nomeie para os cargos de confiança os adversários ou seus aliados?

Não é assim a regra do jogo – e sempre foi? Os nossos aparelhadores (aparelhados?) são melhores do que os dos outros?

Dá para discutir, sim, se as nomeações obedecem a critérios de competência ou se são mero subproduto de apadrinhamento político.

Tenho agora de aderir à convicção de que a curriola exagerou no apetite, em seu ataque às estatais. Claro que existem questões de fundo, como a do financiamento de campanha eleitoral. Mas que a turma abusou, abusou.

Percebo, pelo que tenho lido ultimamente, que o PSDB que acusa o PT é muito mais competente e muito menos ingênuo do que confraria do PT.

Incapacitado de aparelhar o Estado, já que fora do poder, o PSDB sorrateiramente aparelhou a Justiça. Politizou, partidarizou aquele que acabou por se tornar o mais forte dos três poderes da República.

Como é que se comporta, no Supremo, o ministro Gilmar Mendes, indicado por Fernando Henrique? Na tribuna do STF, ele visivelmente veste a camisa.

E até consegue a adesão daqueles que, como o ministro Toffoli, chegaram ao Supremo graças à indicação de Dilma e com o carimbo de petista.

E a intrépida trupe dos juízes, promotores e delegados da Lava Jato? E o juiz Sergio Moro, com seus vazamentos deletivos como aquele da véspera do segundo turno?

Nas eleições, muitos da equipe de justiceiros do Paraná rasgaram a fantasia e, nas redes sociais, celebraram abertamente o candidato do PSDB e distribuiram insultos a Dilma e ao Lula. A repórter Julia Dualibi, no seu blog hospeado no Estadão, fez um minucioso relatório de todos os impropérios.

São cidadãos, têm direito à sua própria opinião – hão de dizer. Mas  quem é que garante – eu é que não – que eles terão suficiente isenção nesta hora em o volume morto da corrupção vem à tona, comprometendo todos os partidos?

A mim incomoda menos a notícia de que a mulher do juiz Moro presta serviços ao vice-governador do Paraná, filiado ao PSDB. Rosângela Moro é advogada e a ação dela junto a Flávio Arns aparentemente se resume à área social.

De todo modo, o juiz Moro anda cercado de gente perigosa. O irmão dele, Cesar Fernando Moro, esse, sim, é um perigo. Perto dele, o Lobão é um esquerdista radical, o deputado Bolsonaro é uma flor de pessoa.

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05 dez as 10h06

O deputado Eduardo Cunha, aquele da ex-Telerj, formalizou sua candidatura ao terceiro mais importante cargo da República.

A presidência da Câmara de Deputados só perde para a presidência da República e a vice.

Cunha promete agradinhos aos colegas. Diz que quer revalorizar a tão vilipendiada categoria. Que vai buscar autonomia em relação ao Executivo. E blá-blá-blá.

É o elogio explícito do fisiologismo e do clientelismo, embora Cunha disfarce o trololó como se encarnasse  um Ruy Barbosa, citasse um Winston Churchill. É de rolar de rir mas vai acabar em choradeira.

É bom lembrar a molecagem que a Câmara fez em 2005 ao eleger para a presidência da Câmara o folclórico Severino Cavalcanti.

Severo era o candidato do chamado Baixo Clero, sem aparentes chances de vitória contra o favorito Luís Eduardo Greenhalgh, candidato do PT.

A oposição e os arruaceiros de sempre decidiram dar um susto no governo Lula, usando nos bastidores articuladores surpreendentes, inclusive o ex-presidente Fernando Henrique, já curtindo sua dor de cotovelo pelo sucesso de seu sucessor.

A mídia hegêmonica também adorou a travessura e Severo Cavalcanti acabou sendo eleito. Tipo da piada que perde a graça no dia seguinte.

Seis meses depois, os mesmos baderneiros que elegeram Severino Cavalcanti se uniram para derrubá-lo, a pretexto de uns caraminguás que ele teria recebido do concessionário do restaurante da Câmara.

Um dos mais enfáticos nas denúncias foi o deputado Fernando Gabeira, que ironicamente tinha sido um entusiástico militante da conspiração pró-Severino. Mereceu o Troféu Hipocrisia de 2005.

A Câmara parece estar vivendo de novo o tempo dos incendiários. A eleição de Eduardo Cunha é como riscar um fósforo perto da lona do circo

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30 nov as 10h23

Romário está batendo no Congresso o mesmo bolão que jogava em campo.

Vai gingando aqui e ali, driblando o preconceito e a descrença daqueles que achavam que ele se elegeu para a Câmara, abençoado pelos fanáticos do futebol, apenas para passar o tempo entre uma pelada de futevôlei e outra.

Virou um hábil e incansável defensor do cidadão. Tanto que acabou eleito para o Senado com dois em cada três votos dos eleitores do Estado do Rio.

Aqui estão dois de seus projetos, para se ter uma ideia porque dizem que o Romário é o Craque do Ano do Legislativo:

1 – passa a ser crime a divulgação indevida de material íntimo na internet e qualquer mídia (“pornografia de vingança”, definiu o Baixinho).

2 – vira prioridade o julgamento de crimes de corrupção.

A última do Baixinho é genial: um projeto de lei contra a “carteirada”. Aquele hábito bem brasileiro de – na linguagem do projeto – “usar cargo ou função pública para se eximir de obrigação ou obter vantagem ou privilégio”.

Em contraposição ao ”desacato à autoridade” que os donos do poder sempre usam contra os injustiçados, o que o deputado Romário propõe é uma lei que torne crime o desacato ao cidadão.

O que inspirou o Baixinho foi o recente episódio de abuso explícito do poder por parte de um juiz fluminense. Aquela história do sujeitinho que foi parado com seu imponente Land Rover numa blitz da Lei Seca, não tinha documento seu nem do carro (aliás, nem placa o SUV tinha), e ficou injuriado com a agente que quis puni-lo.

A moça cometeu o engano de dizer a ele: “Juiz não é Deus”. A Justiça do Rio, encarnando mais escandaloso espírito de corpo, resolveu punir... a moça. Impôs a ela uma indenização de 5 mil reais em favor do delinquente por ela ter ousado querer cumprir a lei.

Se o projeto do Baixinho estivesse em vigor (e a gente sabe como o Congresso demora a apreciar medidas que não sejam do intere$$e específico dos congressistas), o bonitão do Land Rover estaria na cadeia.

De todo modo, ainda está em tempo de homenageá-lo (e a seus cúmplices do Judiciário do Rio). Aprovada, a lei deveria se chamar Lei Souza Corrêa.

João Carlos de Souza Corrêa é o nome de Deus, quer dizer, do Todo Poderoso Magistrado.

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27 nov as 13h58

eses O Mineirão adora os perdedores

Em minoria, a torcida do Atlético-MG comandou a festa no Mineirão e calou os gritos dos rivais / Foto: Ramon Bitencourt/Lancepress!

Lugar estranho, esse Mineirão.

Sediou o mais espantoso vexame do futebol brasileiro em todos os tempos, aquele 7 a 1 que, para fazer justiça ao que se viu em campo, deveria ter terminado sem esse 1 aí - 8 a 0, 9 a 0 seria o mais razoável, se os gentis e alegres alemães não tivessem decidido poupar os anfitriões de um fracasso ainda maior.

Na quarta à noite, mais uma cena bizarra: o Cruzeiro do Aécio Neves perdeu para o seu arquirrival, o Atlético Mineiro da Dilma Rousseff, ficou em segundo lugar na Copa do Brasil, assim como seu ilustre aficionado, e a torcida azul comemorou animadamente a derrota.

Deve talvez ter sido reconfortante para os mandantes perder só de 1 a 0 para um adversário que adquiriu essa mania de o derrotar sistematicamente.

"Lindo o espetáculo da torcida cruzeirense", extasiou-se o locutor global.

Não sei se estou assistindo demais os espetáculos da Operação Lava Jato mas ofereço outra interpretação para o que fez a torcida derrotada: apropriação indébita.

O Cruzeiro tentou roubar no Mineirão a alegria que muito adequadamente pertence ao Atlético, aos jogadores do Galo e à sua torcida – e só a eles.

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22 nov as 06h01

Quando comecei a frequentar cinema, numa época em que Sarah Bernhard ainda estava longe de vestir seu primeiro espartilho, requisitava-se da plateia uma solenidade respeitosa, bem em conformidade com um espetáculo o qual, já se sabia, iria incendiar a tela de encantamento e de magia.

Diria Nelson Rodrigues: o cinema devia exigir do espectador cartola, fraque e polainas.

Eu ia ao Pathé, em Beagá, ao Palladium, ao Cine Metrópole, ao Cine Brasil, ao Art Palácio e frequentava as sessões do CEC, o nosso cineclube, com a reverência silenciosa que mereciam de nós os filmes de Fellini, de Visconti, de Marco Bellocchio, de Louis Malle, de François Truffaut. Era como se estivéssemos participando de uma missa profana, de um rito de encantamento, de magia, de adoração.

Fui assistir a um filme argentino, um dia desses, em cinema que se quer cult. Trata-se de uma bela história narrada com contida delicadeza, sem um gesto a mais, uma cena desnecessária, uma palavra a mais. A trilha sonora deslizava pela película em gracioso sintonia com a narrativa (como sabem contar uma história esses argentinos!).

Escrevi aqui: a trilha sonora. Não corresponde à realidade. O que se ouvia na sala de espetáculos, em cacofonia grosseira e ensurdecedora, insensível à sutileza da trama e a leveza da música, eram pessoas e mais pessoas mastigando inclementemente aqueles gigantescos sacos de pipoca, numa ruminação voraz, rude, animal, interrompida apenas pela sucção obscena de latinhas e mais latinhas de Coca Cola que, depois de consumidas, eram arremessadas ao solo, em metálico alarido.

Imaginem um Bergman, um Godard, até mesmo um Woody Allen acompanhado por aquele perfume gorduroso de manteiga de segunda.

O diabo da pipoca produz, no cinema, uma sinfonia de boçalidade explícita, desrespeitosa para com os vizinhos de cadeira, nada a ver com o propósito original de um local que, até onde eu saiba, não foi feito para servir de refeitório para glutões selvagens.

Morei nos Estados Unidos duas vezes, uma delas em Nova York e na outra em San Francisco. Embora possa haver uma pequena sutileza entre o comportamento de um e do outro lado (a Costa Oeste é ligeiramente menos tosca), dá para observar que vem da América a moda que agora contamina, de incivilidade brutal, os nossos cinemas aqui de Pindorama.

Os cinemas de lá sabem que o que menos atrai num cinema é o filme. Atolados até hoje no que Freud chamou de fase oral, os americanos não sabem sobreviver um minuto sem sua mamadeira e seu sanduiche delivery. Duas horas de um filme, então, se torna insuportável para a ansiedade comilona deles. As estatísticas atestam: hoje, nos Estados Unidos, só 10% da renda de um cinema vem da bilheteira: o grosso da receita vem dos quiosques de guloseimas.

Abocanhar pipoca de mão-cheia nos cinemas até quase o ponto da regurgitação é mais uma contribuição que os americanos dão a toda a civilização ocidental. Nós adoramos macaqueá-los. No que eles têm de pior.

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20 nov as 11h51

marcio Dr. Marcio evitou que o governo PT virasse uma piada mundo afora

O ex-ministro Marcio Thomas Bastos

Marcio Thomas Bastos era um homem elegante e de fino humor. Jurista perspicaz e agudo, levou para o governo Lula – ao qual serviu como ministro da Justiça no difícil momento da posse do ex-metalúrgico, vista com tanta desconfiança e tanto preconceito pelos adversários – o mais indispensável atributo que se pode exigir de um político: a defesa de suas convicções mas com o tempero da tolerância.

Tê-lo no Ministério, para Lula, era como apresentar para o país ainda arredio uma luxuosa vitrine. De mais a mais, o Dr. Márcio era a garantia de que o governo do PT não haveria de fazer mais besteiras do que a cota habitual de besteiras que um governo costuma habitualmente fazer.

Se não fosse por mais nada, basta lembrar que foi o ministro da Justiça quem evitou aquele desastre que teria sido a expulsão do correspondente do New York Times, Larry Rohter, por causa de um artigo chamando o presidente da República de bebum.

Dr. Márcio estava fora do Brasil mas interveio a tempo de evitar que o governo, movido por um surto de raiva, cometesse um ato do qual o mundo inteiro iria gargalhar.

Rohter era apenas um bobalhão, repórter primário, embora estivesse sob o guarda-chuva de uma publicação de respeito e de prestígio. Para vocês terem uma ideia, a “fonte” principal do artigo sobre Lula era o insuspeito e imparcial colunista Diogo Mainardi, da Veja.

(Anos depois, antes de fazer as malas e voltar para a terra de Bush, Larry Rohter produziu uma peça dizendo que as garotas de Ipanema eram pura celulite)

O Dr. Márcio deu ao desrespeitoso artigo-denúncia sobre Lula a dimensão que ele de fato merecia; ou seja, nenhuma. Salvou o Brasil de virar piada pelo mundo afora.

No episódio do mensalão, trabalhando na trincheira dos réus, foi atropelado por aqueles que queriam promover o linchamento da mídia, e não obedecer à Justiça prescrita pelos códigos e pelos costumes.

É tristemente irônico que o Dr. Marcio se vá neste momento em que, diante do estrelismo exibicionista de certos justiceiros, a gente de novo fica sem distinguir a fronteira entre a justiça verdadeira e a mais mesquinha e seletiva injustiça.

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12 nov as 12h06

Está para ser aberta a nova estação de metrô da Linha Amarela, em São Paulo.

O atraso na inauguração da estação Fradique Coutinho, em Pinheiros, é de uns bons anos mas como o eleitor decidiu que Geraldo Alckmin – responsável pelo metrô – será governador vitalício de São Paulo, faça sol ou faça chuva (bem-vinda a chuva, diante da "carência hídrica", como dizem os jornais aliados ao PSDB), ninguém há de ter pressa alguma para lhe cobrar rapidez em qualquer obra.

É como a crise da água. O governador Alckmin, que fez da pachorra e na inapetência seu estilo de administração, foi empurrando com a barriga a tragédia previamente anunciada. Depois, culpou a natureza e, sem medo de blasfemar, culpou o Todo Poderoso. Agora, com a mãozinha do jornalismo servil, tenta despachar a conta para o governo Dilma.

Menos mal que tenha enfim uma estação de metrô para estrear. Daqui a quatro anos, quem sabe, ou daqui a oito, quando fatalmente reeleito, poderá inaugurar mais uma estação, uminha. O eleitor, reconhecido, irá agradecer de joelhos.

Pelo menos me distraí tentando espanar, da poeira de minha precária memória, esse nome: Fradique Coutinho. Em vão. Mas o Google está aí para isso mesmo.

Fradique Coutinho foi bandeirante. Participou da conquista de Guaíra, sob o comando de Raposo Tavares. A seu lado, combateram Pedroso de Morais e Mourato Coelho. A geografia das ruas assegurou aos três – Fradique, Pedroso e Mourato – uma justificada vizinhança.

Os bandeirantes de quem os paulistas tanto se orgulham saíram por aí ampliando o território nacional e chacinando os índios.

O mood dos bandeirantes de hoje é igualmente selvagem. Só que em vez de se identificar com esse mundão chamado  Brasil o sonho é separatista. São Paulo se acha muito melhor do que o Brasil: um Estado rico, dinâmico, operoso.

Aí a gente olha o governador de São Paulo e pensa: será?

 

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30 out as 07h40

No já remoto dia 12 de maio de 2011, Dilma Rousseff quis levar o empresariado para a cama, perdão, para a Câmara.

Câmara de Políticas de Gestão, Desempenho e Competividade – CGDC – este são o empolado nome e a esquisita sigla da coisa. São, não – eram.

Foi criada, a tal Câmara, naquele dia, com a pretensão de desobstruir as sempre entupidas artérias de comunicação entre os governos do PT e os sempre desconfiados homens da produção e do capital.

Fazia cinco meses que Dilma tomara posse. O que a presidente prometia, por debaixo daquele habitual burocratês, era música aos ouvidos do mercado.

Pedia ajuda a eminentes figuras para criar “mecanismos de controle e avaliação da qualidade do gasto público”, “melhoria de gastão”, “otimizar o desempenho do Executivo na prestação de serviços públicos à sociedade” e, a título de sobremesa, colocava à mesa o pudim capaz de fazer os empresários salivarem: “reduzir custos” da máquina estatal.

Parecia antecipar os mantras do Aécio-2014.

Mais do que o que estava escrito no papel, o que parecia avaliar as melhores intenções da nova presidente foi a escolha do time que levou à Câmara de Gestão.

O capitão da equipe foi Jorge Gerdau. Também convidados o estrelado Abílio Diniz, Antonio Maciel Neto, ex-Ford, ex-Suzano e hoje Hyundai, e sintomaticamente também Henri-Philippe Reichstul, ex-presidente da Petrobrás no governo Fernando Henrique e amigo pessoal de FHC. Enfim, um banco de idéias capaz de causar inveja ao board de qualquer grande multinacional.

Do lado do governo, foram escalados a ministra Miriam Belchior, do Planejamento, Guido Mantega, da Fazenda, Mauro Borges, do Desenvolvimento, e Aloízio Mercadante, da Casa Civil.

Não deu certo. O grupo não foi consultado em questões viscerais como a organização da Copa e a administração do SUS. As manifestações de junho expuseram dramaticamente as urgências do país e a inutilidade das conversinhas de gabinete.

Naquele ano de 2003, só duas reuniões aconteceram. 2014, ano eleitoral, é que não haveria de ter nenhuma mesmo.

De mais a mais, as divergências ideológicas afloraram, ficou exposta a incompatibilidade entre duas formas radicalmente opostas de pensar o país, a sociedade, o governo e o capitalismo.

Embora continuasse nominalmente no comando do tal CGDC, Jorge Gerdau passou a financiar o Instituto Millenium, um ninho de golpistas da ultradireita adepto da tese do quanto pior, melhor e da estratégia de impedir a qualquer custo – e com o prejuízo de toda a nação – que o governo do PT seja bem sucedido.

A Câmara de Gestão ainda existe, no papel, mas se de fato Dilma pretende reconstruir as pontes que levam o governo ao empresariado, como anda prometendo, terá de inventar novas formas de sedução para selar, aí sim, um casamento de mútuo desfrute e de longo entendimento.

 

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27 out as 13h22

Ficamos, ontem, o Heródoto, o Kotscho e eu comentando por seis horas, na Record News, os últimos lances da eleição presidencial, enquanto o Clébio ia narrando a – como se dizia nos tempos do rádio – marcha das apurações.

O cientista político Vitor Marquetti, da Universidade Federal do ABC, veio se juntar a nós e, com o resultado já proclamado, os deputados federais Flariano Pessaro, do PSBD, e Paulo Teixeira, do PT.

Saí de lá e, ainda no carro, me caiu uma fichona. Todo aquele tempo conversando, analisando, discutindo, e em nenhum momento se falou no nome de Marina Silva.

Repito: nem uma e remota vez.

Aquela figura carismática que disparou na frente das pesquisas no bojo do impacto emocional da tragédia que vitimou seu parceiro de chapa, a presidente prematura que facultava a seu mentor político-ideológico, o tucano Walter Feldman, o direito de fazer as primeiras escolhas para o ministério, bem, essa criatura de passado tão edificante e de futuro tão promissor desapareceu nas brumas de uma real insignificância.

Marina Silva virou um vazio.

 Xiiiiii, gente, esquecemos a Marina Silva

Foi o grande fiasco desta eleição. Incompetente para criar um partido (coisa que qualquer Paulinho da Força consegue, a turma do Pros, também, até essa caricatura da Commedia dell'Arte chamada Levy Fidelix conseguiu), teve de ser jogar nos braços de um PSB que sabidamente iria se aninhar no segundo turno junto ao tucanato.

Surpreendida como cabeça de chapa, a ex-ambientalista aliou-se ao latifúndio e à brigada dos transgênicos; a porta-voz de uma vaga "nova política" ganhou alegremente o apoio do preconceito anti-gay; a mulher outrora combativa jogou-se nos braços dos que batalham contra as mulheres que lutam pelo direito de escolherem e se serem plenamente elas mesmas.

Revelou-se, então. seu discurso sem conteúdo, o carisma de mentirinha, um poço de contradição, acolitada por economistas de um ultraliberalismo tão radical que, diante deles, Adam Smith soa como um perigoso bolchevique.

De mais a mais, ao oferecer a Aécio Neves seu inócuo apoio (o eleitorado dela não a acompanhou inteiramente), com direito a lance marqueiteiro do cabelo solto (cujo "sentido oculto", profetizou um sociólogo de botequim, "fala de um engajamento expressivo de Marina de emancipar o Brasil do lulo-petismo"), Marina se deixou levar pelo fígado, não pela razão e muito menos pelo coração, ela que passeia pela política brasileira simulando o ar piedoso de uma Madre Tereza.

Torço para que a derrota a leva a algum tipo de reflexão, já que autocrítica é que não se há de esperar de figura tão severa e tão dogmática.

Devia se espelhar, por exemplo, no próprio Aécio, que perdeu com dignidade e, assim, se credencia, ao contrário de Marina Silva, a ser a legítima liderança da oposição.

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26 out as 08h15

Olivia tem um ano e quatro meses e acabo de admirar no celular um filme em que ela dá os primeiros passos.

Passinhos vacilantes, os pés tentando se apoiar ao chão usando os dedos como se fossem delicadas garras – mas caminhando para a frente, sempre para a frente.

Estranho nela, a princípio, a atitude blasée, uma solente indiferença frente aquilo que nós, os adultos que a amamos, comemoramos como o triunfo extraordinário que de fato é.

 

Olivia dá os primeiros passos e se comporta como se fosse o momento mais banal de sua curta existência.

Avança, vacila, avança – e de repente cai. Cai protegida por aquela fralda de conforto ergonômico.

A queda também lhe parece banal, nada de susto ou de pânico. Ela prossegue o percurso ambicionado engatinhando com superior tranquilidade.

Olivia caminha mas também sabe cair. Caminha sem a empáfia dos vitoriosos. Cai sem choro, sem drama,

Com um ano e quatro meses, Olivia dá uma bela lição aos candidatos de hoje.

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