22 nov as 06h01

Quando comecei a frequentar cinema, numa época em que Sarah Bernhard ainda estava longe de vestir seu primeiro espartilho, requisitava-se da plateia uma solenidade respeitosa, bem em conformidade com um espetáculo o qual, já se sabia, iria incendiar a tela de encantamento e de magia.

Diria Nelson Rodrigues: o cinema devia exigir do espectador cartola, fraque e polainas.

Eu ia ao Pathé, em Beagá, ao Palladium, ao Cine Metrópole, ao Cine Brasil, ao Art Palácio e frequentava as sessões do CEC, o nosso cineclube, com a reverência silenciosa que mereciam de nós os filmes de Fellini, de Visconti, de Marco Bellocchio, de Louis Malle, de François Truffaut. Era como se estivéssemos participando de uma missa profana, de um rito de encantamento, de magia, de adoração.

Fui assistir a um filme argentino, um dia desses, em cinema que se quer cult. Trata-se de uma bela história narrada com contida delicadeza, sem um gesto a mais, uma cena desnecessária, uma palavra a mais. A trilha sonora deslizava pela película em gracioso sintonia com a narrativa (como sabem contar uma história esses argentinos!).

Escrevi aqui: a trilha sonora. Não corresponde à realidade. O que se ouvia na sala de espetáculos, em cacofonia grosseira e ensurdecedora, insensível à sutileza da trama e a leveza da música, eram pessoas e mais pessoas mastigando inclementemente aqueles gigantescos sacos de pipoca, numa ruminação voraz, rude, animal, interrompida apenas pela sucção obscena de latinhas e mais latinhas de Coca Cola que, depois de consumidas, eram arremessadas ao solo, em metálico alarido.

Imaginem um Bergman, um Godard, até mesmo um Woody Allen acompanhado por aquele perfume gorduroso de manteiga de segunda.

O diabo da pipoca produz, no cinema, uma sinfonia de boçalidade explícita, desrespeitosa para com os vizinhos de cadeira, nada a ver com o propósito original de um local que, até onde eu saiba, não foi feito para servir de refeitório para glutões selvagens.

Morei nos Estados Unidos duas vezes, uma delas em Nova York e na outra em San Francisco. Embora possa haver uma pequena sutileza entre o comportamento de um e do outro lado (a Costa Oeste é ligeiramente menos tosca), dá para observar que vem da América a moda que agora contamina, de incivilidade brutal, os nossos cinemas aqui de Pindorama.

Os cinemas de lá sabem que o que menos atrai num cinema é o filme. Atolados até hoje no que Freud chamou de fase oral, os americanos não sabem sobreviver um minuto sem sua mamadeira e seu sanduiche delivery. Duas horas de um filme, então, se torna insuportável para a ansiedade comilona deles. As estatísticas atestam: hoje, nos Estados Unidos, só 10% da renda de um cinema vem da bilheteira: o grosso da receita vem dos quiosques de guloseimas.

Abocanhar pipoca de mão-cheia nos cinemas até quase o ponto da regurgitação é mais uma contribuição que os americanos dão a toda a civilização ocidental. Nós adoramos macaqueá-los. No que eles têm de pior.

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20 nov as 11h51

marcio Dr. Marcio evitou que o governo PT virasse uma piada mundo afora

O ex-ministro Marcio Thomas Bastos

Marcio Thomas Bastos era um homem elegante e de fino humor. Jurista perspicaz e agudo, levou para o governo Lula – ao qual serviu como ministro da Justiça no difícil momento da posse do ex-metalúrgico, vista com tanta desconfiança e tanto preconceito pelos adversários – o mais indispensável atributo que se pode exigir de um político: a defesa de suas convicções mas com o tempero da tolerância.

Tê-lo no Ministério, para Lula, era como apresentar para o país ainda arredio uma luxuosa vitrine. De mais a mais, o Dr. Márcio era a garantia de que o governo do PT não haveria de fazer mais besteiras do que a cota habitual de besteiras que um governo costuma habitualmente fazer.

Se não fosse por mais nada, basta lembrar que foi o ministro da Justiça quem evitou aquele desastre que teria sido a expulsão do correspondente do New York Times, Larry Rohter, por causa de um artigo chamando o presidente da República de bebum.

Dr. Márcio estava fora do Brasil mas interveio a tempo de evitar que o governo, movido por um surto de raiva, cometesse um ato do qual o mundo inteiro iria gargalhar.

Rohter era apenas um bobalhão, repórter primário, embora estivesse sob o guarda-chuva de uma publicação de respeito e de prestígio. Para vocês terem uma ideia, a “fonte” principal do artigo sobre Lula era o insuspeito e imparcial colunista Diogo Mainardi, da Veja.

(Anos depois, antes de fazer as malas e voltar para a terra de Bush, Larry Rohter produziu uma peça dizendo que as garotas de Ipanema eram pura celulite)

O Dr. Márcio deu ao desrespeitoso artigo-denúncia sobre Lula a dimensão que ele de fato merecia; ou seja, nenhuma. Salvou o Brasil de virar piada pelo mundo afora.

No episódio do mensalão, trabalhando na trincheira dos réus, foi atropelado por aqueles que queriam promover o linchamento da mídia, e não obedecer à Justiça prescrita pelos códigos e pelos costumes.

É tristemente irônico que o Dr. Marcio se vá neste momento em que, diante do estrelismo exibicionista de certos justiceiros, a gente de novo fica sem distinguir a fronteira entre a justiça verdadeira e a mais mesquinha e seletiva injustiça.

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12 nov as 12h06

Está para ser aberta a nova estação de metrô da Linha Amarela, em São Paulo.

O atraso na inauguração da estação Fradique Coutinho, em Pinheiros, é de uns bons anos mas como o eleitor decidiu que Geraldo Alckmin – responsável pelo metrô – será governador vitalício de São Paulo, faça sol ou faça chuva (bem-vinda a chuva, diante da "carência hídrica", como dizem os jornais aliados ao PSDB), ninguém há de ter pressa alguma para lhe cobrar rapidez em qualquer obra.

É como a crise da água. O governador Alckmin, que fez da pachorra e na inapetência seu estilo de administração, foi empurrando com a barriga a tragédia previamente anunciada. Depois, culpou a natureza e, sem medo de blasfemar, culpou o Todo Poderoso. Agora, com a mãozinha do jornalismo servil, tenta despachar a conta para o governo Dilma.

Menos mal que tenha enfim uma estação de metrô para estrear. Daqui a quatro anos, quem sabe, ou daqui a oito, quando fatalmente reeleito, poderá inaugurar mais uma estação, uminha. O eleitor, reconhecido, irá agradecer de joelhos.

Pelo menos me distraí tentando espanar, da poeira de minha precária memória, esse nome: Fradique Coutinho. Em vão. Mas o Google está aí para isso mesmo.

Fradique Coutinho foi bandeirante. Participou da conquista de Guaíra, sob o comando de Raposo Tavares. A seu lado, combateram Pedroso de Morais e Mourato Coelho. A geografia das ruas assegurou aos três – Fradique, Pedroso e Mourato – uma justificada vizinhança.

Os bandeirantes de quem os paulistas tanto se orgulham saíram por aí ampliando o território nacional e chacinando os índios.

O mood dos bandeirantes de hoje é igualmente selvagem. Só que em vez de se identificar com esse mundão chamado  Brasil o sonho é separatista. São Paulo se acha muito melhor do que o Brasil: um Estado rico, dinâmico, operoso.

Aí a gente olha o governador de São Paulo e pensa: será?

 

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30 out as 07h40

No já remoto dia 12 de maio de 2011, Dilma Rousseff quis levar o empresariado para a cama, perdão, para a Câmara.

Câmara de Políticas de Gestão, Desempenho e Competividade – CGDC – este são o empolado nome e a esquisita sigla da coisa. São, não – eram.

Foi criada, a tal Câmara, naquele dia, com a pretensão de desobstruir as sempre entupidas artérias de comunicação entre os governos do PT e os sempre desconfiados homens da produção e do capital.

Fazia cinco meses que Dilma tomara posse. O que a presidente prometia, por debaixo daquele habitual burocratês, era música aos ouvidos do mercado.

Pedia ajuda a eminentes figuras para criar “mecanismos de controle e avaliação da qualidade do gasto público”, “melhoria de gastão”, “otimizar o desempenho do Executivo na prestação de serviços públicos à sociedade” e, a título de sobremesa, colocava à mesa o pudim capaz de fazer os empresários salivarem: “reduzir custos” da máquina estatal.

Parecia antecipar os mantras do Aécio-2014.

Mais do que o que estava escrito no papel, o que parecia avaliar as melhores intenções da nova presidente foi a escolha do time que levou à Câmara de Gestão.

O capitão da equipe foi Jorge Gerdau. Também convidados o estrelado Abílio Diniz, Antonio Maciel Neto, ex-Ford, ex-Suzano e hoje Hyundai, e sintomaticamente também Henri-Philippe Reichstul, ex-presidente da Petrobrás no governo Fernando Henrique e amigo pessoal de FHC. Enfim, um banco de idéias capaz de causar inveja ao board de qualquer grande multinacional.

Do lado do governo, foram escalados a ministra Miriam Belchior, do Planejamento, Guido Mantega, da Fazenda, Mauro Borges, do Desenvolvimento, e Aloízio Mercadante, da Casa Civil.

Não deu certo. O grupo não foi consultado em questões viscerais como a organização da Copa e a administração do SUS. As manifestações de junho expuseram dramaticamente as urgências do país e a inutilidade das conversinhas de gabinete.

Naquele ano de 2003, só duas reuniões aconteceram. 2014, ano eleitoral, é que não haveria de ter nenhuma mesmo.

De mais a mais, as divergências ideológicas afloraram, ficou exposta a incompatibilidade entre duas formas radicalmente opostas de pensar o país, a sociedade, o governo e o capitalismo.

Embora continuasse nominalmente no comando do tal CGDC, Jorge Gerdau passou a financiar o Instituto Millenium, um ninho de golpistas da ultradireita adepto da tese do quanto pior, melhor e da estratégia de impedir a qualquer custo – e com o prejuízo de toda a nação – que o governo do PT seja bem sucedido.

A Câmara de Gestão ainda existe, no papel, mas se de fato Dilma pretende reconstruir as pontes que levam o governo ao empresariado, como anda prometendo, terá de inventar novas formas de sedução para selar, aí sim, um casamento de mútuo desfrute e de longo entendimento.

 

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27 out as 13h22

Ficamos, ontem, o Heródoto, o Kotscho e eu comentando por seis horas, na Record News, os últimos lances da eleição presidencial, enquanto o Clébio ia narrando a – como se dizia nos tempos do rádio – marcha das apurações.

O cientista político Vitor Marquetti, da Universidade Federal do ABC, veio se juntar a nós e, com o resultado já proclamado, os deputados federais Flariano Pessaro, do PSBD, e Paulo Teixeira, do PT.

Saí de lá e, ainda no carro, me caiu uma fichona. Todo aquele tempo conversando, analisando, discutindo, e em nenhum momento se falou no nome de Marina Silva.

Repito: nem uma e remota vez.

Aquela figura carismática que disparou na frente das pesquisas no bojo do impacto emocional da tragédia que vitimou seu parceiro de chapa, a presidente prematura que facultava a seu mentor político-ideológico, o tucano Walter Feldman, o direito de fazer as primeiras escolhas para o ministério, bem, essa criatura de passado tão edificante e de futuro tão promissor desapareceu nas brumas de uma real insignificância.

Marina Silva virou um vazio.

 Xiiiiii, gente, esquecemos a Marina Silva

Foi o grande fiasco desta eleição. Incompetente para criar um partido (coisa que qualquer Paulinho da Força consegue, a turma do Pros, também, até essa caricatura da Commedia dell'Arte chamada Levy Fidelix conseguiu), teve de ser jogar nos braços de um PSB que sabidamente iria se aninhar no segundo turno junto ao tucanato.

Surpreendida como cabeça de chapa, a ex-ambientalista aliou-se ao latifúndio e à brigada dos transgênicos; a porta-voz de uma vaga "nova política" ganhou alegremente o apoio do preconceito anti-gay; a mulher outrora combativa jogou-se nos braços dos que batalham contra as mulheres que lutam pelo direito de escolherem e se serem plenamente elas mesmas.

Revelou-se, então. seu discurso sem conteúdo, o carisma de mentirinha, um poço de contradição, acolitada por economistas de um ultraliberalismo tão radical que, diante deles, Adam Smith soa como um perigoso bolchevique.

De mais a mais, ao oferecer a Aécio Neves seu inócuo apoio (o eleitorado dela não a acompanhou inteiramente), com direito a lance marqueiteiro do cabelo solto (cujo "sentido oculto", profetizou um sociólogo de botequim, "fala de um engajamento expressivo de Marina de emancipar o Brasil do lulo-petismo"), Marina se deixou levar pelo fígado, não pela razão e muito menos pelo coração, ela que passeia pela política brasileira simulando o ar piedoso de uma Madre Tereza.

Torço para que a derrota a leva a algum tipo de reflexão, já que autocrítica é que não se há de esperar de figura tão severa e tão dogmática.

Devia se espelhar, por exemplo, no próprio Aécio, que perdeu com dignidade e, assim, se credencia, ao contrário de Marina Silva, a ser a legítima liderança da oposição.

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26 out as 08h15

Olivia tem um ano e quatro meses e acabo de admirar no celular um filme em que ela dá os primeiros passos.

Passinhos vacilantes, os pés tentando se apoiar ao chão usando os dedos como se fossem delicadas garras – mas caminhando para a frente, sempre para a frente.

Estranho nela, a princípio, a atitude blasée, uma solente indiferença frente aquilo que nós, os adultos que a amamos, comemoramos como o triunfo extraordinário que de fato é.

 

Olivia dá os primeiros passos e se comporta como se fosse o momento mais banal de sua curta existência.

Avança, vacila, avança – e de repente cai. Cai protegida por aquela fralda de conforto ergonômico.

A queda também lhe parece banal, nada de susto ou de pânico. Ela prossegue o percurso ambicionado engatinhando com superior tranquilidade.

Olivia caminha mas também sabe cair. Caminha sem a empáfia dos vitoriosos. Cai sem choro, sem drama,

Com um ano e quatro meses, Olivia dá uma bela lição aos candidatos de hoje.

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24 out as 07h46

Quem se surpreendeu com o nível de ódio, rancor e bílis destilado pelos pitbulls das redes sociais durante esta campanha presidencial é porque não costuma andar de táxi na cidade de São Paulo.

É o q ue costumo fazer com frequência, imbuído da ilusória convicção de que deixar o carro em casa é um ato cidadão – ainda que reconhecendo que recorrer a um taxi não deixa de configurar certo privilégio.

Os taxistas paulistanos andam crispados. Uns mais intensos, outros mais sutis, uns visivelmente alterados, outros dissimulando, o fato é que a eleição lhes subiu à cabeça e não havia corrida que não impusesse ao passageiro a exposição sempre truculenta de certezas definitivas, incontestáveis, categóricas.

Sequer o silêncio defensivo do passageiro é respeitado. O sujeito, com insistência doentia, convoca você a entrar no debate, a declinar seu candidato, a expor suas preferências políticas e eleitorais.

Um abuso, uma chatice.

Lembro que Luís Fernando Veríssimo escreveu, certa vez, que havia um erro de casting em relação aos motoristas de táxi. Eles parecem tão mobilizados com a coinjuntura nacional que deveria caber a eles, e não aos políticos, o governo da nação.

Na era do Facebook e do Instagram, eles formam uma rede social informal, ainda que poderosíssima, transmitindo indiscriminadamente o que ouvem nas boboseiras do jornalismo radiofônico politicamente enviezado e, pior ainda, o que escutam de clientes pilantras e mal intencionados.

Aquelas reiteradas histórias: o filho do Lula é dono da Friboi (e ouse você lembrar que o Júnior Friboi declarou apoio ao Aécio), o filho do Lula é dono da OI, o filho do Lula tem uma fazenda no Paraguai e conseguiu que o governo Dilma atapetasse de asfalto o caminho dele, da fronteira até a casa-grande (ou seja, o governo do PT faz obras rodoviárias... no Paraguai).

Fico pensando quanto talento empresarial tem esse "filho do Lula" em se multiplicar em atividades tão versáteis e tão lucrativas. Um Richard Branson dos trópicos, certamente. Nunca ousei perguntar quem é esse excepcional "filho do Lula" (ao que me consta, há mais de um, uns dois ou três). Se perguntar, o taxista há de ficar furioso diante de qualquer ceticismo.

A lógica do taxista não é a de difundir histórias banais e versões verossímeis. Isso o colocaria numa posição não muito diferente da de um mero jornalista, de um cidadão mediamente instruído.

O taxista tem certeza de que é dono de informações exclusivas, confidenciais, até mesmo secretas. Quem lhe contou foi um sujeito que tem uma prima no BNDES ou aquele cliente cuja namorada é ex de um alto funcionário da Polícia Federal.

Se são fábulas venais ou se são fatos comprovados, isso é o que menos importa ao taxista. Ali ao volante de seu carro, no tédio cotidiano de horas e horas de trânsito diabólico, resta-lhe o consolo de ser o dono da verdade.

Ontem, um desses dedicados profissionais quis me provar que a Globo está vendida ao PT. Que o noticiário do jornal O Globo favorece o governo.

Simpatizo com a categoria. tenho vários amigos taxistas. Por isso mesmo é que torço para que ninguém queira inventar, algum dia, uma versão de bafômetro que, em vez de medir o teor alcoólico dos motoristas, sirva para avaliar seu nível de desconfiômetro.

 

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16 out as 07h31

esse 1 Debate eleitoral na TV virou luta de circo romano

Perdi a vontade de assistir debates presidenciais. Dou uma olhada, e basta.

Sou um cidadão consciente, ou procuro ser, e adoraria acreditar que – como afirmam enfaticamente os apresentadores – ali a gente irá se informar sobre as plataformas de governo de cada um, o que os candidatos verdadeiramente pensam, de onde vêm e para onde vão.

Os debates são hoje como o circo romano. E sinto nos espectadores o mesmo clamor sádico da audiência dos embates de gladiadores no Coliseu.

A gente vai pra frente da TV esperando uma gafe monumental, uma derrapada fatal, uma cutilada que verta sangue.

A gente quer apenas, com deleite de dedo para baixo, ver a desgraça definitiva de nosso adversário, exposta aos olhos cruéis de toda a nação.

Percebo isso nessa categoria nova dos narradores via Facebook.

Comemoram: eba, pegamos o cara (ou a cara); veja como ele( ela) ficou desconcertado/a.

Como se fosse um combate de MMA, uma luta de muay thai, não que estivesse em jogo o futuro de 200 milhões de pessoas.

Debates hoje são para avaliar a performance teatral do candidato, na artimanha das aparências, sabendo-se de antemão que eles vão mentir solenemente ou, como fizeram dois dos falecidos nanicos, o Eduardo Jorge e o Levy Fidelix, comportar-se como bufões de folhetim.

Para mim, chega.

De mais a mais fico pensando no que iria pensar o dr. Tancredo, que, como ministro da Justiça, defendeu Getúlio até o fim da cólera patológica da UDN do Lacerda, ao ouvir seu neto querido usando publicamente aquele argumento do “mar de lama”– senha dos golpistas de ontem e de sempre.

Se mar de lama há, seria bom que o Aécio, em respeito pelo avô e pela História, usasse outro jargão.

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06 out as 14h14

O mantra de todos os candidatos é sempre este: mudança, mudança, precisamos mudar, é hora de mudar.

O eleitor finge que se importa, vai à urna e vota para que tudo fique como está. No máximo, uma ou outra troca de comando, aqui ou ali, nada realmente significativo.

A volta do Fla-Flu entre PT e PSDB demonstra isso com clareza.

Aí, a gente se pergunta: mas e a onda de protestos de 2013? Onde foi parar aquela energia política que parecia ter sacudido o país, em espontânea unanimidade? Cadê o efeito insurrecional, supostamente revolucionário, da Primavera de Junho?

O voto de domingo foi um voto na contramão dos protestos.

Revelou que as demandas radicais podem até provocar certa coceirinha na cabeça do eleitor mas só isso.

Eu me pergunto: afinal, o eleitor não quer mudar ou não sabe como mudar?

Pelo voto é que ele acha que não irá acontecer mudança alguma. Esta é a triste constatação deste 5 de outubro de 2014.

O esgarçamento do prestígio das instituições democráticas, em especial do Parlamento, propositalmente arquitetado por uma mídia que tem o sentimento antidemocrático no seu DNA oligárquico, leva o eleitor a desvalorizar aquela que é a sua principal arma de protesto: o voto.

O eleitor vota em qualquer um, em qualquer coisa, num escandaloso deixa-pra-lá.

Depois passa os quatro anos seguintes deleitando-se em reclamar, em resmungar, feliz da vida em mergulhar de novo em seu repousante complexo de vira-lata.

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04 out as 06h00

Minha escolha… Bem, podem desistir: não vou revelar o nome.

Sou como a Folha, a Veja, a Globo – pratico um jornalismo estritamente imparcial e isento, não puxo jamais a sardinha pro meu candidato, não minto, não trapaceio o leitor, não manipulo informações segundo as minhas conveniências e meus interesses.

Nunca, sou um jornalista seríssimo como o Bonner, o William Waak, a Miriam Leitão e o Boris Casoy.

Se disserem que não sou sério, vou gritar: “é censura”. Gosto de criticar os outros, mas não admito que me critiquem.

Sou talvez um radical de centro, como diz um amigo meu, que era de esquerda e que, agora, escreve nesse templo do sentimento democrático que é o Estadão.

Só que, na hora de votar, me assaltam alguns sentimentos débeis, idiotas.

Sucumbo a um surto de populismo. Chego a temer que me chamem de boliviano (bolivariano é a palavra da moda, até o sinistro Levy Fidelix a usa, embora não saiba distinguir entre bolivariano e boliviano, entre Bolívar e Bolívia).

Na hora de votar, prefiro pensar na dona Arlinda, minha diarista (quatro filhos, um neto, quatro horas de transporte coletivo por dia), do que no João Doria ou no Jorge Bornhausen.

Prefiro imaginar o que seria melhor para o sr. Manoel (família na Bahia, ele aqui trampando doze horas por dia), faxineiro do prédio de Higienópolis, do que ouvir os argumentos de minha vizinhança de nariz empinado e preconceito à mostra.

(A propósito, meus vizinhos da Tradição, Família e Propriedade despertaram enfim para o perigo vermelho. Uma retreta cheia de clarins e trombetas passou a tarde de sexta tocando hinos religiosos como aquele “Queremos Deus”).

Na hora de votar me recuso a escolher só e tão somente quem seria melhor para mim – eu sou, afinal, querendo ou não querendo, um privilegiado, hei de me virar não importa que governante vier.

Que a Bolsa fique nervosa. Pior para ela.

Faz tempo que desconfio que o tal mercado não irá, por si só, melhorar a vida da dona Arlinda e do sr. Manoel. Vão dizer que isso é assistencialismo. Vão dizer que socorrer os miseráveis eterniza a miséria.

Digam o que disserem, na hora de apertar o botão é na dona Arlinda e no sr. Manoel que vou pensar.

E tem mais; o voto da dona Arlinda, o voto do sr. Manoel, seja ele qual for, tem o mesmo valor que o meu.

Por isso é que tanta gente odeia a democracia. Por isso é que os liberais de fachada sonham tanto com uma democracia dos limpinhos e dos sabidos.

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