29 jan as 16h23

Nos meus piores pesadelos, a imagem que me vinha à cabeça sobre uma São Paulo catastrófica era – não me perguntem por que – a do Vesúvio.

É, aquele vulcão que destruiu Pompéia e Herculano, duas cidades vizinhas à Roma da antiguidade.

O Vesúvio continua lá, bufando o tempo todo, coroando de fumaça a bela baía de Nápoles, sem que os cidadãos da cidade e das cercanias se incomodem com o perigo iminente acima de suas cabeças.

Em momentos de profunda depressão (ou irritação) com São Paulo, o trânsito empacado, as grosserias urbanas, a violência das ruas, eu me dizia: "Isto aqui é Nápoles, há uma tragédia à nossa espreita".

A tragédia chegou – e ela vem pelas águas. Alias, pela falta delas. Tragédia anunciadíssima que o culpado tentou atribuir, durante a campanha eleitoral, a uma "exploração política" dos adversários.

O governador Alckmin libera agora um de seus assessores – se fosse do partido adversário a mídia chamaria, depreciativamente, de "marqueteiro – para tentar nos engabelar.

Atribui ele nesta edição da Folha o colapso do abastecimento ao "sistema". Seja lá o que for isso. é muita cara de pau.

Estamos na iminência de um cenário de ficção científica à moda de Holywood, a metrópole transformada em deserto, os moradores evacuados, os roedores varejando os restos de lixo, a peste grassando.

E lá do Olimpo de sua incompetência, o Nero sádico dos tempos modernos aprecia o espetáculo ao lado de seus asseclas e proclama, com seu timbre falso labidado na fonoaudióloga: "É o sistema, é o sistema".

PS: a Sabesp informa que no meu prédio, em época de escassez, o consumo de água subiu acima de 21% em relação ao último período medido. É mentira da Sabesp. Nem se meu prédio fosse habitado por bolivarianos furibundos dispostos a se vingarem da incompetência do governor Geraldinho – o que está longe da realidade – o consumo iria crescer dessa forma. É bom ficar atento. Insisto: a Sabesp mente.

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28 jan as 19h31

Fui ao Itaquerão assistir a partida Corinthians vs. Corinthian Casuals, no sábado. Tinha me prometido não botar o pé em nenhum estádio de futebol daqui enquanto durasse a ressaca – a minha ressaca, pelo menos – por aquele 7 a 1 do Mineirão.

Escrevi ressaca mas podia ser luto – é mais correto. O Brasil parece já estar se esquecendo do vexame que, no entanto, eu não quero esquecer, me recuso a esquecer. Recordar aquilo não é ficar atrelado ao passado, remoendo algum masoquismo; ao contrário, é um jeito de iluminar um futuro que, para o futebol brasileiro, pode ser melhor e mais verdadeiro.

Por enquanto, estou fora.

Fui ao Itaquerão porque é semore irrecusável um convite do Washington Olivetto – de quem me orgulho de ter sido parceiro no livro É Preto no Branco, uma biografia digamos assim pouco convencional do Timão. Ficamos no camarote dos visitantes , apinhado de ingleses vermelhos, eufóricos e bonachões.

Alguns deles vieram acompanhar o time, que é mais antigo do que a nossa República (O Corinthian é de 1882, o Casuals, de 1883, eles se fundiram depois da Primeira Guerra, que dizimou quase todo seu elenco).

Nasceu amador, continua amador. Quando a Liga Inglesa foi criada –a mais antiga do mundo – eles recusaram a se profissionalizar. Viajam e jogam por prazer. Em 1910, passaram por São Paulo, com seus bigodões nobiliárquicos, suas gravatas e polainas, dispostos a despertar nos locais o amor pelo football association. Para as horas de folga, trouxeram raquetes de tênis. Causaram tanta simpatia que, meses depois, quando um punhado de artesões do Bom Retiro e imediações decidiu fundar um time, o nome escolhido foi Corinthians.

Foi uma festa, o Itaquerão do sábado. Mas a torcida não entendeu nada. Os 7 a 1 parecem ter feito um estrago maior do que eu imaginava na alma de nossas arquibancadas. O Corinthians, duas vezes campeão do mundo, entrava em campo contra um time da oitava divisão inglesa e, no entanto, a torcida babava sangue, gritava e espumava (às vezes, contra os seus próprios atletas) como se o adversário fosse aquele rival feroz do Parque Antarctica ou o do Morumbi.

A gente se acostumou no Brasil a se encantar com a mística das torcidas que fazem do futebol um culto religioso de paixões sem limite, uma fé literalmente cega.

Dessa forma, acabamos perdendo a capacidade saudável de ver no futebol a graça, a diversão, a alegria que ele pode trazer – ou que pelo menos os londrinos do Casuals ainda cultivam.

A torcida se idiotizou – todas as torcidas se idiotizaram. Não é só dentro do campo e nos gabinetes da cartolagem que o futebol brasileiro ficou sem noção.

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27 jan as 12h57

Lembrar os 70 anos de liberação de Auschwitz pelo Exército Vermelho é expor de novo as veias ainda abertas da intolerância.

Há pouco a se comemorar.

O trauma do ataque ao Charlie Hebdo, em Paris, e a violência dos radicais do Exército do Levante são amplamente lamentados pela mídia ocidental que, no entanto, tem ela mesma um curioso critério de indignação coletiva.

Quando quem massacra são nossos aliados, preferimos ignorar. Os teocratas sauditas, os protofascistas ucranianos, os oligarcas latino-americanos, tutto buona gente.

A mais triste ironia é que as vítimas de ontem podem estar propensas a se comportar como os seus antigos carrascos.

Corrijo: as vítimas, não, mas aqueles que dizem representá-las.

O que o governo Bibi Netanyahu faz hoje com os palestinos, em nome de uma certa "segurança nacional", faria inveja aos que pregavam o "espaço vital" para a raça germânica – e assim iam passando por cima dos "inimigos".

O lebesraum de Bibi Netanyahu e seus aliados produz hoje os campos de concentração e as vítimas culpadas pelo mero pecado do sangue e da etnia – vítimas essas que talvez a humanidade só vá chorar daqui a 70 anos.

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22 jan as 19h59

Rio vai multar em R$ 510 reais o mijão que exprimir em via pública, durante o carnaval, a sua infecta deselegância.

Em Salvador, onde a incontinência urinária produz no carnaval uma pestilência asfixiante capaz de durar o ano todo, a multa pode ser o dobro, se o prefeito ACM Neto se dignar a assinar a lei municipal já aprovada pela Câmara.

É triste que um comportamento de urbanidade civilizada tenha de ser imposta por decreto – e por multas pesadas.

Será que nosso carnaval, para ter graça, tem de ser essa coisa repugnante e fedorenta que é hoje?

Também é triste presumir, com base no que a tradição nos ensina, que a lei seca do xixi terá efeito próximo a zero, uma ou outra punição aqui e ali e, claro, a possibilidade de que um dinheirinho esgueirado no bolso do policial amenize o rigor de qualquer vigilância.

Mais triste ainda é saber que, em cumplicidade com a falta de educação dos mijões, viceja a omissão do poder público, incapaz de oferecer aos foliões o alivio de lugares minimamente limpos e adequados.

Imagina o olor acre que emanaria de toda a Alemanha se as prefeituras não cuidassem de dar um mínimo de conforto aos frequentadores das monumentais festas da cerveja em Munique, Stuttgart. Bremen, Düsseldorf.

Alguém vai dizer: não dá para comparar um brasileiro com um alemão. Não sei, não. Prefiro acreditar que ao alemão dão o direito de ser respeitador, educado. Ao brasileiro não cabe senão o papel de exprimir nos muros da cidade, durante o carnaval, a arrogância simbólica de uma virilidade duvidosa e debochada.

Você acha que o brasileiro é mal-educado? Vote na enquete.

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21 jan as 07h43

 Dr. Geraldo, a culpa pela falta dágua não é minha – é sua

Vinte séculos atrás, os romanos conseguiam abastecer suas cidades graças a magníficos aquedutos que até hoje dão imponente testemunho da competência de sua engenharia.

No século XXI, em São Paulo, o governador Geraldo Alckmin insinua que se falta água é porque eu tenho essa insana mania de querer tomar um banho por dia neste verão impiedoso.

Em parceria com a mídia amiga e serviçal, o faceiro Geraldo começou a insinuar em suas conversinhas – com eco na chamada opinião pública – a noção franciscana do "desperdício".

Ou seja, a culpa é do consumidor, não de quem deveria – cobrando caro – fornecer a água.

É a tática nova de despistamento, depois daquela, manjadíssima, de acusar São Pedro. As chuvas responderam à mentira com raiva e a desculpa se enfarrapou de vez.

(A Califórnia é um deserto, Israel é um deserto, mas não há notícia de que a água lá não chegue às torneiras).

 

Já que não dá mais para culpar a seca, o governador e seus aliados destorcem culpando a mim e a você. Nos elevadores, leio mensagens alarmistas e alarmantes apontando o dedo para meus perigosos padrões de higiene pessoal.

O pior é que o farisaísmo funciona. Faça sol, faça chuva ou falte água, São Paulo adora o governador Geraldinho. Com aquela entonação falsa de quem fez muita fonoaudióloga, ele sabe falar com seu eleitorado irremediavelmente fiel e iludido.

São Paulo tem saudade de Prudente de Moraes, de Campos Salles, de Washington Luís. Continua lutando sua guerra de 32 contra o Brasil. Dr. Alckmin, homem de um passado pré-romano, é a cara deste Estado (de coisas).

 

 

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20 jan as 09h32

2w1r4l8x7v 60dex0wjei file Pezão é um paizão

O governador Pezão gosta de exibir – a começar pelo apelido aberto a tanta intimidade – o jeitão de paizão simples, caloroso, afetuoso.

Foi assim, com esse estilo paternal de quem faz de você, em dois minutos, um amigo de infância, que ele ganhou a eleição.

Não precisava agora exagerar.

Conseguiu que seu enteado descolasse uma saborosa boquinha numa das subsecretarias do Rio, capital. O prefeito Eduardo Paes e Pezão, a gente sabe, são do mesmo partido, o PMDB.

O paternal governador alega que o enteado é advogado competente, profissional de aguda sensibilidade e que o eventual laço de parentesco não tem nada a ver com a nomeação.

Não conheço o rapaz e não posso descartar os seus eventuais méritos. Mas não fica bem nomear parentes de governantes – sejam ministros, governadores, prefeitos – para o serviço público.

É um problema de ética e - felizmente - o Brasil tem reencontrado nos últimos tempos o sentido dessa antes esquecida noção.

Se o sujeito já está lá no serviço público, devidamente concursado, antes da eleição de seu parente, tudo bem – que continue por lá.

Mas fazer como faz agora o governador Pezão, com a ajuda do prefeito Eduardo Paes, ou fazer como vêm fazendo governadores pelo Brasil afora (a Folha diz que oito deles nomearam parentes), não fica bem.

Uma coisa é intimidade – e Pezão é expert nessa arte. Outra coisa é promiscuidade no trato com os negócios do Estado, cujo preço é pago pelo contribuinte.

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17 jan as 09h26

Não é porque Marcos Archer Moreira é brasileiro que eu gostaria que o governo da Indonésia lhe concedesse clemência. Torço por essa possibilidade – mais remota, a cada minuto que passa – porque sou radicalmente contra a pena de morte. Em toda e qualquer circunstância.

Marcos fez uma besteira das grossas. Ingenuamente, acreditou que poderia camuflar 13 quilos de cocaína na sua asa-delta. É obviamente um mané. Nem por isso merecia o castigo de uma punição extrema.

Fico imaginando o que deve ter sido um julgamento desses. Sete juízes – adivinho – decidindo, com seus trajes ridículos e sua retórica agressiva, o destino de um ser humano.

Insisto: o Estado, representado por seus fantoches, não tem o direito de matar. Torna-se um facínora igual aquele que pretende punir. Podem argumentar: mas a droga pode ser mortífera, e o Estado tem de ser rigoroso no seu controle. Ainda assim, nada justifica a brutalidade de um fuzilamento. É um recurso arcaico, autoritário, anti-civilizatório. Reparem na lista dos países que insistem na pena capital: a Arábia Saudita, o Irã, o Vietnã, o Paquistão e, claro, os Estados Unidos, um país que parece viver no passado fantasioso do faroeste bandido vs. mocinho.

A América é hoje um país da violência lícita e gratuita. A brutalidade virou espetáculo. Não me surpreende que haja plateia risonha e excitada para, no Texas, em Utah, no Nebraska, assistir prisioneiros estrebuchando ao receberem injeções letais.

Só um país mata mais do que os Estados Unidos: a China. Também na China o método de execução sumária é o fuzilamento. Não é algo de que se orgulhar.

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15 jan as 13h42

okok Sebastião Salgado ainda acredita no gênero humano

 

Convivi bastante com ele quando fez, aqui no Brasil, uma das escalas daquela megaexposição – acompanhada do lançamento de um megalivro – de título Êxodos, no ano de 2000.

Lembro com clareza que a maior preocupação dele era facilitar o acesso à mostra – acolhida pelo Sesc Pompeia – de pessoas geralmente excluídas de todo e qualquer circuito cultural.

Trocando em miúdos: Sebastião Salgado queria que os pobres também pudessem apreciar a sua arte.

Ações foram feitas para isso. Recordo que crianças da favela de Heliópolis chegaram a ser levadas até lá e ganharam maquininhas xeretas para que, quem sabe, um dia dali brotasse algum novo Sebastião Salgado.

A crítica rabugenta que costumam fazer a ele – essa gente elitista que ele tanto abomina – é que Tião Salgado se alimenta dos pobres e da pobreza.

Nunca concordei com isso, mas, antes de conhecê-lo, confesso, eu tinha medo de encontrar nele o ranço de uma atitude excessivamente missionária, o fanatismo de quem pretende salvar o mundo.

Tião é, ao contrário, apesar daquele rosto vincado de histórias, uma doçura de pessoas, sem abrir mão de seus princípios e de suas convicções. É, sim, apóstolo de certas utopias.

Exemplo: nas vizinhanças da Aimoré, MG, sua terra natal, respondeu ao impiedoso desmatamento providenciando o replantio de uma frondosa mata atlântica. É um de seus orgulhos.

Deve estar a esta altura celebrando, na Paris que carinhosamente o acolheu nos anos 70, a indicação do documentário Sal da Terra para o Oscar. Ele merece.

Seu filho o codirigiu, junto com o sensível alemão Win Wenders. Ou seja, teria pouco de Brasil nessa história toda se Tião Salgado, mesmo a distância, com toda a sua quilometragem internacional, não continuasse reivindicando o direito de ser cem por cento brasileiro.

(Por outro lado, deve estar se lamentando, no íntimo, de ter de disputar a estatueta com um filme baseado nas denúncias de espionagem americana feitas por Edward Snowden).

Há quem diga que Sebastião Salgado faz sempre a mesma foto e clica as mesmas pessoas.

Para mim, o que acontece é que Tião Salgado descobre em cada pessoa que ele retrata uma feição particular, cada rosto é único, cada sentimento captado pela lente é singular, o que o faz continuar acreditando – apesar da injustiça, apesar da violência, a despeito dos massacres e da fome – nesse vago, impreciso, mas rico e surpreendente aglomerado chamado humanidade.

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12 jan as 09h48

Vi muitas manifestações políticas em Paris naqueles remotos anos 69/70 em que lá vivi mas nenhuma se compara à que aconteceu este domingo.

Não falo em volume de manifestantes, em decibéis de emoção. Falo na densidade simbólica da marcha.

Ao contrário dos americanos, os franceses não querem fazer do ataque dos três terroristas um pretexto para uma retaliação anti-Islã. Bush e seus sequazes provaram que o antiterrorismo pode ser até mais violento, gratuito e insano do que o próprio terrorismo,

Uma coisa me incomodou terrivelmente: a presença, na linha de frente das autoridades, de Bibi Netanyahu, o primeiro-ministro de Israel.

Num lindo evento em que a paz e a tolerância – não a vingança ou o rancor – estavam sendo celebrados por milhões, a presença de Bibi Netanyahu é um ultraje.

Ele tem boa parcela de responsabilidade pelo ódio que se dissemina pelo mundo – e que provoca cenas de louca insanidade como o ataque ao tablóide Charlie Hébdo e ao supermercado kosher de Vincennes.

 

Os líderes mundiais ali presentes se comportaram comme il faut: discretos, compungidos, solenes. Um esgar de compreensiva dor percorria a fisionomia de todos eles. Menos de um.

Com um sorriso nos lábios, Bibi Netanyahu acenava para as galerias em triunfo, como se fosse um general romano chegando da conquista da Pérsia. Parecia felicíssimo. Saboreava, talvez, aquela facinorosa ideia: “Estão vendo como os árabes são sinistros? Por isso eu lhes dou o que eles merecem”.

Do outro lado da fila, Mohammad Abbas, o chefe da Palestina ocupada por Israel, mantinha o semblante adequado à situação.

Abbas deve saber que a insanidade de uns poucos vai acabar servindo de desculpa para novas brutalidades contra os muçulmanos do mundo inteiro.

Bibi Netanyahu adora que ataques terroristas aconteçam pelo mundo – mesmo quando judeus sejam alvos deles. O terrorismo é que dá sobrevivência a sua agenda de ódio e intransigência.

Em Paris, enquanto lágrimas rolavam, Bibi sorria. Perdeu totalmente a compostura. Se é que alguma vez ele a teve.

 

 

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07 jan as 15h20

Wolinski – que morreu no ataque ao semanário Charlie Hébdo – veio de longe. No final dos anos 60 ele já rabiscava seus cartuns políticos embebidos em humor que ele própria definia como "bête et méchant" (bobo e malvado).

Era visivelmente um sujeito de esquerda, impiedoso com os conservadores que estavam no poder (George Pompidou, Jacques Chaban-Delmas, herdeiros políticos do general De Gaulle) mas os alvos dele passaram a ser pluripartidários. A ironia e o sarcasmo que sua pena (ou seu lápis, ou seu crayon) traçavam, sempre em preto e branco, jamais perdoavam os poderosos.

Também era um obcecado pelo erotismo. Não, o erotismo de exibição, o sexo-show. Mesmo nas mais escancaradas orgias por ele retratadas havia um quê de melancolia e desilusão.

Tento aqui comigo definir o que é o Charlie Hébdo no espectro da imprensa francesa. Uma espécie de Pasquim, aquele nosso jornal alternativo dos anos 70? Mais provocador, talvez. Mais irreverente, com certeza.

A França é um país cauteloso no que diz respeito ao trato com o Islã e os islamitas. A imprensa francesa reflete esse pacto. A comunidade argelina, marroquina, tunisina, de Oriente Médio, que ali reside, em convivência às vezes tensa mas geralmente harmoniosa, é enorme. A França é ainda – apesar dos surtos xenófobos e anti-imigração da Frente Nacional da dinastia Le Pen – mais tolerante com os muçulmanos que países vizinhos.

Mas o Charlie Hébdo nunca impôs limite ao seu humor politicamente incorreto. A tendência é que agora os ódios se acirrem.

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