
É, repito: Christopher Hitchens foi tudo aquilo que Paulo Francis gostaria de ter sido e jamais conseguiria ser.
Era inglês, intelectual de fino trato, trotskista de butique, provocador refinado, extraordinário ensaísta e o sujeito que mais entendia de George Orwell em todo o mundo – Orwell, aquele de 1984 e da Guerra dos Bichos.
Paulo Francis bem que se esforçou, mas embora seu ego fosse infinito, seus recursos eram limitados.
Hitchens morreu esta madrugada, aos 62 anos, em Houston, Texas, onde se tratava de um insidioso câncer de esôfago. Quando soube da doença, pouco mais de um ano atrás, Hitchens dedicou a ela, na Vanity Fair, onde era colaborador fixo, as mais comoventes e inspiradas páginas desde Susan Sontag – que também morreu de câncer, em 2004.
Sou um contumaz leitor de Orwell – gosto especialmente de seus ensaios e escritos jornalísticos – e entendo porque Hitchens se apegou tanto a ele.
Excelentes escritores, ambos, tiveram uma juventude de esquerda (Orwell foi simpatizante da causa republicana na Espanha e sobre esse tema escreveu o vibrante Homenagem à Catalunha), mas acabaram se desvinculando de qualquer compromisso doutrinário ou partidário.
As piruetas ideológicas de ambos eram meio exasperantes, mas a inteligência deles desculpava as derrapadas. Essa, aliás, é a ideia que tenho de tolerância.
Fiquei bastante bronqueado com Hitchens quando ele defendeu a invasão do Iraque, em 2003. Eu estava morando em San Francisco, na Califórnia e, certa noite, entrei numa longa fila para assistir um debate entre ele e o jornalista Eric Alterman no grande auditório da Universidade de Berkeley.
Berkeley foi o epicentro da agitação estudantil nos anos 60 (é bom lembrar que Oakland, ali vizinha, foi o berço do Black Power). Hoje é um reduto do pensamento conservador e a platéia refletia isso (nem toda a Califórnia é aquele paraíso liberal que o pintam).
Ali, naquele momento, a maioria estava a favor de mandar “our boys” para caçar Saddam Hussein. Our boys, quer dizer, os filhos dos outros: os negros, os chicanos, os imigrantes que formam hoje a maioria das Forças Armadas dos Estados Unidos.
Hitchens era um entertainer, fez uma meia dúzia de piadas, exibiu parte do arsenal de seu cinismo mas não se deu bem no confronto com o discreto e minucioso Alterman.
Teve de pagar o preço de se levar pelo sabor da provocação – e pela vaidade intelectual – e se alinhar com um pateta como George Bush.
Dias atrás, trocou correpondência com o ator Stephen Fry e, no que parecia uma tentativa de editar o seu próprio obrituário, pediu ao amigo: “Menos Iraque, mais Bósnia”.
(Também fora um empolgado defensor da intervenção na guerra dos Bálcãs).
Nos últimos anos de vida, Paulo Francis aproximou-se de Fernando Collor e de Paulo Maluf. Ateu, Christopher Hitchens fez questão de se distanciar ainda mais de Deus. Guardou alguma coerência.
Irônico que Hitchens tenha morrido poucas horas depois do governo americano anunciar a retirada das tropas do Iraque.
Retirada sem glória e sem vitória.
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