19 jan as 06h00

Vejo foto da ministra Mario do Rosário, dos Direitos Humanos, sentadinha numa das carteiras da Escola Pública de Trânsito do Distrito Federal, assistindo aulas na tentativa de recuperar sua carteira de habilitação.

Dias atrás, foi a vez do ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, se submeter ao suplício do cursinho de direção defensiva – seja lá o que isso signifique.

É simbólico que as vítimas sejam, uma, responsável pelas Comunicações no governo federal e, a outra, guardiã do respeito à dignidade da pessoa.

Pois não vejo nada mais desrespeitoso a nós, cidadãos brasileiros, do que a forma como as autoridades (?) de trânsito nos tratam – sendo que o que passa para a opinião pública é que somos nós os cruéis infratores e eles, os zelosos apóstolos da lei. Terrível erro de comunicação, né não?

Antecipando-se ao noticiário, sabidamente carregado daquela linguagem policialesca dos jornalões anti-PT, tanto Paulo Bernardo quanto Maria do Rosário trataram de ser explicar: nem sempre são eles que dirigem seus veículos.

Percorro de novo as fotos e não consigo imaginar Maria do Rosário nem Paulo Bernardo no papel de sinistros delinqüentes do volante. As pessoas que os cercam, na sala de aula, tampouco parecem ser figuras de quem a sociedade, assustada, deva se proteger.

Conheço uma enorme – sem exagero – quantidade de pessoas de bem que perderam sua habilitação por uma única e exclusiva razão: a sanha arrecadadora do Estado.

A vigilância insana dos radares não existe para proteger a vida e propiciar a segurança do cidadão e, sim, apenas e tão somente, para converter em penalidade – quer dizer, em dinheiro – eventuais pecadilhos de trânsito.

Vocês podem dizer: e os assassinos do trânsito? Os que matam, nos cruzamentos loucos, encharcados de bebida? Existem, sim – e devem ser punidos exemplarmente. Mas são minoria. Governar é atender a maioria. Não é nos transformando a todos nós em suspeitos que a circulação caótica das grandes cidades e das rodovias há de melhorar.

A ansiedade punitiva disfarça a falta de idéias para o tráfego. Volto às fotos, vejo aquelas pessoas sendo humilhadas na sala de aula do Professor Detran e me pergunto se os verdadeiros criminosos não serão aqueles que se omitem ao lidar com essa questão gravíssima. As tais – e sempre anônimas – autoridades.

Quando não se omitem o que fazem é meter a mão no nosso bolso.

Em tempo: até hoje ainda não perdi minha habilitação. Deve haver algo de errado comigo.

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