Minas Gerais ganhou as honras de estrela no badalado festival de gastronomia Madrid Fusión, que vai do dia 21, segunda-feira, a 23, quarta. O festival homenageia países, não regiões. Minas quebrou o tabu, muito em função do empenho do governo estadual e da mobilização do empresariado local. O organizador da Madrid Fusión, José Carlos Capel, foi seduzido. Esteve em Minas, no Festival de Tiradentes, e gostou do que viu – quer dizer, do que comeu.
Esta edição 2013 do Madrid Fusión, cujo tema é “A criatividade continua”, traz nos cartazes: “Cozinha convidada: Brasil – MG”.
O que era para ser uma festa virou encrenca das boas. Dizem que mineiro dá um boi para não entrar numa briga – e dá uma boiada para não sair. Pois é: estou vendo bois graúdos se atracando uns com os outros. Acontece que o festival desencadeou uma briga até então velada entre a tradição e a tal da modernidade.
Os espanhóis fizeram nos últimos anos, de sua culinária, um experimento de laboratório. Adoram transformar ingredientes de verdade em emulsões e espuminhas. O chef de escola é o catalão Ferrán Adrià, que fechou recentemente seu El Bulli, mas antes formou um legião de seguidores – e não só na Espanha, no mundo todo. A figura mais parecida com Ferrán Adrià aqui no Brasil é o Alex Atala. O Dom é considerado o quarto melhor restaurante do mundo – eu escrevi “do mundo” – pelo júri dos moderninhos da revista inglesa Restaurant.
Pois, no evento mineiro de Madri, o paulista Alex ganhou o direito de fazer palestra de uma hora. Enquanto isso, às matriarcas da culinária de Minas foi reservado o espantoso tempo de três minutos, cada uma. Elas são Nelsa Trombino, do Xapuri, Maria Lúcia Clementino Nunes, do Dona Lucinha, e Beth Beltrão, do Virada’s do Lago (este, em Tiradentes). Três minutos não dá nem para fritar uns torresminhos. A melhor tradição da cozinha de Minas vai ficar sem panela e corre o risco de ficar sem voz, no Madrid Fusión.
“Tenho medo de que alguém invente lá um frango ao molho pardo sintético”, comentou um dos articuladores do protesto.
Ainda assim, dona Nelsa e dona Lucinha decidiram seguir para o evento – “somos pessoas de Deus e de paz”, justificaram. Iriam mesmo se não tivessem ganho o mais que devido upgrade da classe econômica para a executiva. Ambas têm 80 anos.
Alex Atala, 44 anos, ganhou bilhete de primeira classe.
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