11 nov as 14h43

Assisti ontem à pré-estreia do documentário sobre o Chico Buarque que o Miguel Faria Jr. dirigiu.

É de uma simplicidade tocante e de uma sólida integridade, refletindo, assim, adequadamente, a natureza de que o próprio personagem é feito.

À saída, encontrei uma amiga que vinha de assistir a um outro filme e ouvi dela essa infâmia: “Cansei do Chico, ele é petista demais pro meu gosto”.

Fiquei pensando numa frase que o Vinícius de Moraes aparece dizendo no filme. Escarrapachado num sofá, naquele jeitão dele, o poetinha resumia mais ou menos assim:

“A música brasileira é uma enorme planície, com alguns morros de qualidade. Tem também uma ou outra montanha, e o Chico é uma delas”.

Pois é, o Chico é um cume, um ápice, diria até: uma cordilheira. Raro poeta, compositor, harmonista, melodista, romancista – um talento muito acima das rusguinhas ideológicas nas quais os brasileiros resmungões se deleitam tanto hoje em dia.

Você pode até – como eu – perder contato com o Chico e a produção dele, seja musical ou literária, mas não importa. Um documentário como o de Miguel Faria não só resgata a memória de toda a colossal carreira do Chico como ainda mostra como ele continua lúcido, criativo e produtivo.

O filme respeita e acata a virtude número 1 do seu protagonista: a oralidade. Ele se deixa conduzir pela palavra. Chico tem o dom.

Sua verve incomparável e seu verbo elaborado lhe facultam o privilégio de rir de si mesmo, de se ironizar à vontade (a cena com Zidane é hilariante, mas não vou contar, não). E, olhem, o documentário atesta que a miudeza da política está longe de ser o foco de sua vida, como pretendem seus desafetos gratuitos.

Aos 71 anos, está muito à vontade. Não precisa da aprovação dos idiotas e, a rigor, nunca precisou (basta lembrar aqueles que o vaiaram e ao Tom, num festival de ódios, pela beleza que era Sabiá).

Afinal, os idiotas de hoje já têm o Lobão e o Roger do Ultraje para admirar. Bom proveito.

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05 nov as 19h07

A Trump Tower em Nova York é um desses lugares que enchem os olhos de turistas deslumbrados.

Imita, em seu design arquitetônico de mármore rosa, cascatas, jardim suspenso, cafés caríssimos, lojas de inúteis quinquilharias, o estilo fanfarrão, grandiloquente, exibicionista do proprietário que, claro, o batizou com seu próprio nome.

Coisa bem típica do ídolo daqueles americanos capiaus que acham que o mundo se divide entre os winners (vencedores), como Trump, e losers (perdedores), como eu e você.

Para o a turma do dinheiro fácil, Manhattan tem predinhos encantadoramente discretos e elegantes, aquelas town houses de tijolinho à inglesa nos Upper Sixties e Seventies. E aí vem o ex-governador e ex-presidente da CBF, José Maria Marin, e compra um apê exatamente na torre de orgulho e empáfia de Mister Trump.

Decidiu morar num ninho de turistas, como o Coliseu e a Torre Eiffel.

Brasileiro adora se exibir. Esse brasileiro – corrijo – que ganhou dinheiro de jeito maroto, com propina, lavagem ou sonegação, e que de repente sai à rua aqui, de camisa canarinho da CBF, para protestar contra a corrupção.

Na verdade, o flat do malufista Marin, no 41º andar da Trump Tower, apresentava para ele uma coincidência estratégica. Ou uma conveniência geográfica.

São seus vizinhos no monumento à cafonice da 5a. Avenida os escritórios da Concacaf (a confederação de futebol da América Central, Caribe e América do Norte), por onde passou o bilionário propinoduto da FIfa que está sendo investigado pela FBI.

Também na Trump Tower hiberna-se Chuck Blazer, o ex-presidente dessa Concacaf – que, acuado pela Justiça americana, confessou-se culpado e vai colaborar. Blazer arrisca-se a ficar em casa, compulsoriamente recluso, com uma tornozeleira a lhe monitorar os movimentos.

Até 2014, Marin, Blazer e vizinhos correram o risco de ter nas reuniões de condomínio a amena companhia de Baby Doc Chevalier, o sanguinário ditador do Haiti.

No entanto, o entorno do delírio megalomaníaco de Mister Comb Over (com aqule topete puxado para a frente) é de um contraste elegante.

A Tiffany é vizinha de porta, em frente está a Bergdorf Goodman, uma loja de departamentos de alto luxo, a Apple Store e a FAO Schwarz, a mais mítica butique de brinquedos do mundo (aos brasileiros fascina a vizinha Abercrombie & Fitch, com suas camisetas que vestem dez entre dez eleitores do Aécio Neves).

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04 nov as 15h16

“O próprio enunciado do problema sugere-me uma primeira resposta. É significativo que eu coloque esse problema. Um homem não teria a ideia de escrever um livro sobre a situação singular que ocupam os machos na humanidade . Se quero definir-me, sou obrigada inicialmente a declarar: "Sou uma mulher". Essa verdade constitui o fundo sobre o qual se erguerá qualquer outra afirmação.

“Um homem não começa nunca por se apresentar como um indivíduo de determinado sexo: que seja homem é natural. É de maneira formal, nos registros dos cartórios ou nas declarações de identidade, que as rubricas, masculino, feminino, aparecem como simétricas. A relação dos dois sexos não é a das duas eletricidades, de dois polos. O homem representa a um tempo o positivo e o neutro, a ponto de dizermos "os homens" para designar os seres humanos, tendo-se assimilado ao sentido singular do vocábulo vir o sentido geral da palavra homo.

“A mulher aparece como o negativo, de modo que toda determinação lhe é imputada como limitação, sem reciprocidade. Agastou-me, por vezes, no curso de conversações abstratas, ouvir os homens dizerem-se:

"Você pensa assim porque é uma mulher". Mas eu sabia que minha única defesa era responder: "Penso-o porque é verdadeiro", eliminando assim minha subjetividade. Não se tratava, em hipótese alguma, de replicar: "E você pensa o contrário porque é um homem", pois está suben- tendido que o fato de ser um homem não é uma singularidade; um homem está em seu direito sendo homem, é a mulher que está errada. Praticamente, assim como para os Antigos havia uma vertical absoluta em relação à qual se definia a oblíqua,  há um tipo humano absoluto que é o masculino.

“A mulher tem ovários, um útero; eis as condições singulares que a encerram na sua subjetividade; diz-se de bom grado que ela pensa com suas glândulas. O homem esquece soberbamente que sua anatomia também comporta hormônios e testículos. Encara o corpo como uma relação direta e normal com o mundo que acredita apreender na sua objetividade, ao passo que considera o corpo da mulher sobrecarregado por tudo o que o especifica: um obstáculo, uma prisão. "A fêmea é fêmea em virtude de certa carência de qualidades", diz Aristóteles. "Devemos considerar o caráter das mulheres como sofrendo de certa deficiência natural". E São Tomás, depois dele, decreta que a mulher é um homem incompleto, um ser "ocasional". É o que simboliza a história do Gênese em que Eva aparece como extraída, segundo Bossuet, de um "osso supranumerário" de Adão.

“A humanidade é masculina e o homem define a mulher não em si mas relativamente a ele; ela não é considerada um ser autônomo. "A mulher, o ser relativo...", diz Michelet. [...] Ela não é senão o que o homem decide que seja; daí dizer-se o “sexo” para dizer que ela se apresenta diante do macho como um ser sexuado: para ele, a fêmea é sexo, logo ela o é absolutamente. A mulher determina-se e diferencia-se em relação ao homem e não este em relação a ela; a fêmea é o inessencial perante o essencial. O homem é o Sujeito, o Absoluto; ela é o Outro”.

Este é um trecho de O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir (com tradução de Sergio Milliet). Portanto, duplamente perigoso: trata da melindrosa questão da identidade feminina antes mesmo do apogeu do feminismo (é de 1949) e foi escrito por aquela perigosa bolivariana que o Enem do PT tratou de infiltrar no recente exame a fim de promover a lavagem cerebral dos inocentes secundaristas brasileiros.

Abro aqui o espaço deste blog em apoio ao #AgoraÉQueSãoElas

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03 nov as 13h20

Mais até do que na arquibancada do futebol, é nas redes sociais que o racismo e a homofobia se propagam.

O Facebook, aliás, tem o mesmo clima dos estádios, a grosseria liberada, a estupidez glorificada, o preconceito elogiado.

O que andaram (andam?) dizendo da Taís Araújo é exemplar. Ela é agredida, espancada, insultada na web pelo imperdoável pecado de ser linda, talentosa – e negra.

Esta é mais uma faceta do atual ódio político, o fascismo residual insuflado histericamente pela mídia do privilégio. Ser crítico é uma coisa; a patologia social, é outra, bem diferente.

Essa turma aí, à frente de um filme como esse aí da Anna Muylaert com a Regina Casé, tem engulhos escravocratas e sente vontade de proscrever a Lei Áurea.

A Casa Grande, cada vez mais assanhada, sonha em encarcerar de novo os negros, os pobres, as mulheres altivas, os gays, os comunistas, os poetas em gigantescas senzalas.

O problema é que o aparente anonimato que acoberta a covardia nas redes sociais não acoberta o crime cometido.

Racismo é crime, homofobia é crime (pelo menos enquanto a Câmara dos Deputados comandada por esse Eduardo Cunha não decidir em contrário), calúnia é crime.

Taís Araújo fez o que as vítimas da intolerância devem todas fazer: bater às portas da Justiça.

Mesmo sabendo que a Justiça de cega não tem nada: ela é, assim como a mídia do privilégio, instrumento do status quo, a Justiça é seletiva, ela acusa os adversários inocentes e inocenta os aliados culpados.

De todo modo, que fique registrada publicamente a indignação de quem, como Taís Araújo, só é agredida por suas virtudes.

http://r7.com/Fft7

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30 out as 12h12

O tenente-coronel Antonio Tejero, da Guarda Civil Espanhola, de sinistra memória, foi um golpista fanático. Nem o capitão Bolsonaro conseguiria lhe fazer sombra.

Tejero nunca se conformou com a morte de Franco e a democratização da Espanha. Em 1979, tramou um golpe – mas os eventuais golpistas nem saíram do quartel. Em 1981, levantou 200 soldadinhos e invadiu com eles a Câmara de Deputados em Madri.

À moda dos gorilas histéricos que invadem livrarias em São Paulo, chegou gritando: “todos deitados no chão”.

Os deputados deitaram. Menos o primeiro-ministro Adolfo Suarez e mais um.

Era o dia 23 de fevereiro – e o putsch acabou ganhando o debochado apelido de “F-23”.

Tejero queria dissolver o Parlamento e reimplantar a ditadura. Queria aquilo com que um punhado de brasucas igualmente histéricos sonham hoje.

Na madrugada do dia 24, a bravura dele e de seus subordinados idiotas adormeceu. Cercado por tropas legalistas, defensoras da ainda tênue democracia espanhola, Tejero se rendeu. Acabou pegando 30 anos de cadeia.

O golpe de pantomina não durou sequer um dia.

O Brasil já tem seu candidato a Tejero. Errou quem pensou no Bolsonaro. Não, esse aí não tem tropa, não tem um recruta que o acompanhe em seus delírios de Fuehrer tropical.

Nosso Tejero é um general e atende pelo nome de Antonio Hamilton Martins Mourão. É o comandante do Exército na região Sul.

Deitou falação sobre “o despertar para a luta patriótica” e sugeriu a queda da presidente eleita pelo voto – “a vantagem da mudança seria o descarte da incompetência, má gestão e corrupção”.

Considera um dever da caserna combater a bagunça social.

Em outros tempos, as instituições tremeriam. Nossa democracia ainda é frágil e tem um razoável número de inimigos na sociedade, na política e na mídia. Mas sobreviver a bravatas como a do general Mourão, ela sobrevive.

A presidente Dilma erra muito mas acerta numa coisa: ela não tem medo dessa gente. Nunca teve. Enfrentou com coragem os antecessores do general Mourão, que exerciam a covardia dos porões. O Exército brasileiro foi cúmplice da tortura e, com seu silêncio premiado, continua sendo.

Assim como aquele Tejero espanhol, esse general Mourão é apenas um pateta desastrado.

ATUALIZAÇÃO: fico sabendo esta manhã de sexta, 30, que o general Mourão foi demitido do Comando do Sul por seus superiores. Vai ter agora de conspirar em casa, de pijama.

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28 out as 15h56

Deve estar muito tranquila a vida dos ministros do Supremo Tribunal Federal, a julgar pela ação que acaba que pousar à mesa dos Meritíssimos.

Já, já conto qual é.

Para o STF, a mais alta esfera do Judiciário do Brasil, vão convergir as denúncias calientes da Operação Lava Jato, o julgamento final de figuras políticas como Eduardo Cunha, presidente da Câmara, e Renan Calheiros, presidente do Senado, o possível andamento do impeachment no Congresso, a decisão derradeira sobre as contas da campanha de Dilma em 2014 (e, agora também, a pedido do PT, das contas do Aécio).

Enfim, uma agenda e tanto, vocês não concordam?

Pois não é que cabe ao STF dedicar este dias sua atenção à lancinante questão se um candidato a cargo público pode ser sumariamente barrado pelo fato de ostentar uma tatuagem – ou um determinado tipo de tatuagem?

Não é de um ridículo total que o caso chegue ao andar superior do Judiciário?

Pois chegou e está na mão do ministro (e roqueiro nas horas vagas) Luís Fux.

Quem barrou foi a Polícia Militar de São Paulo e o sinistro tatuado se candidatava ao cargo de soldado da corporação. O médico PM que o examinou é que bancou o dedo duro.

O caso se arrasta há meses e quem recorre ao Supremo é a vítima de estranha interdição.

Na mesma semana em que a Câmara vota uma lei que faculta a todo mundo ter sua arma de fogo, como no velho Oeste, na idiota presunção de que estar armado ajuda na segurança do cidadão, o STF se debruça nos seus robustos compêndios constitucionais para, numa ladainha de data vênias, decidir se tatuagens são um tremendo perigo para a nação canarinho.

Talvez bolivarianas, com certeza subversivas.

Argh, gente. Parem o Brasil que eu quero descer.

http://r7.com/EeR8

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27 out as 07h00

Toda vez que veja uma foto do senador Aloysio Nunes Ferreira – eleito pelos mesmos paulistas que vaiam o Suplicy em livraria – eu me prometo, de pés juntos, nunca fazer cirurgia plástica.

O resultado, se vê, pode ser catastrófico.

Mas a pior plástica que Aloysio Nunes fez não foi no rosto retorcido – foi na alma problemática.

Nesse quesito, faz tempo que está irreconhecível. No íntimo dele, habita um Frankenstein.

A última dele é a seguinte: a propósito de uma tal lei antiterrorismo que foi aprovada na Câmara dos Deputados e está hoje no Senado, o senador de São Paulo pretende exumar a Lei de Segurança Nacional da ditadura – aquela mesma Lei de Segurança pela qual ele, Aloysio, foi processado como “terrorista”.

A ideia é trancafiar na cadeira, com penas dignas de Guantánamo e de Abu Ghraib, quem insiste em fazer protestos de rua. Punir as manifestações, a liberdade de expressão dos movimentos sociais.

Mas isso é crime? Aloysio Nunes chamaria de terrorista, por exemplo, a garotada que protesta contra a arbitrariedade do governo tucano do Alckmin em retalhar as escolas públicas de São Paulo.

A gente já viu esse filme, né? Ele próprio, Aloysio, já viu este filme. Mas agora que pertence ao partido do coronel Telhada, que flerta com o Eduardo Cunha e com o Jair Bolsonaro – não mais o partido de Mario Covas –, Aloysio, com pose de ditadorzinho, está louco para chamar de terrorista todo aquele que não pensa como ele.

Eu, por princípio, já acho essa questão de um ridículo atroz. Algumas pessoas adorariam ver o Brasil no mapa do terrorismo mundial. Seria um signo de prestígio, de duvidosa importância.

Os  militares, sobretudo, já que não há nenhuma guerra contra a Argentina ou a Bolívia no horizonte, precisam justificar sua função fantasiando uma tal ameaça terrorista. São mercadores da paranoia.

A Olimpíada do Rio é um ótimo pretexto para eles.

“É preciso prevenir”, dizem. Besteira. No fundo, o que quer essa gente quer, capitaneada pelo senador do PSDB, é restringir as liberdades democráticas, a faculdade de se manifestar em público, o direito de discordar.

Não é por causa de um eventual maluquete – ínfima probabilidade estatística – que o Brasil tem de virar o campo de concentração com o qual algum candidato a Führer venha a sonhar.

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26 out as 10h27

A torcida do Corinthians, em vez de vaiar o atacante Guerrero, devia ter aplaudido seu ex-craque.

Pelo que ele fez no passado e, principalmente, pelo que ele não fez ontem no Itaquerão.

Antes do jogo, um amigo meu, corintiano desses que nem perde o tempo de torcer para o Brasil, só torce para o seu time, me ligou assustado: ouviu que as organizadas se preparavam para vaiar o sujeito que nos deu o título mundial de clubes.

Meu amigo estava desesperado: mas não dá para convencer a torcida a fazer o contrário? Aplaudir o cara, prestar uma homenagem a ele seria um jeito esperto de inibi-lo.

Já vaiá-lo, hostilizar o ex-ídolo poderia ser um jeito suicida de cutucar a onça com vara curta.

Mas quem é que é capaz de educar uma torcida de futebol? O espaço do torcedor brasileira é a conquista plena da grosseria. As pessoas vão aos estádios para exibir o orgulho da sua estupidez e de sua selvageria. Como dizia Nelson Rodrigues, vaiam até minuto de silêncio e o hino da seleção adversária.

Ninguém haveria de sonhar que a Gaviões viesse a aplaudir – como aplaudia delirantemente, até poucos meses atrás – um eventual gol do Guerrero. Não era esse o ponto. A questão era só respeitar – silenciosamente, vá lá – tudo o que ele fez pelo Corinthians.

Felizmente, fora a baixaria da torcida, tudo terminou bem.

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21 out as 16h46

No filme biográfico que ele diz que não é biográfico, Hector Babenco escolheu Willem Defoe para fazer o papel de Hector Babenco.

Fez bem. Não é o caso, para um cineasta tão premiado, com o portfolio que tem, de praticar publicamente um exercício de modéstia.

Lembro sempre, nessas ocasiões, de uma frase de meu amigo Washington Olivetto: “Há diferença entre orgulho e vaidade”.

Assim como Washington, Hector tem todo o direito de ter orgulho do que é e do que faz – especialmente quando se trata de fazer o casting de seu alterego.

Meu amigo hindu, com estreia na Mostra de Cinema de São Paulo, deve ter todos os ingredientes de ficção mas não dá para não ver o diretor no personagem internado para tratamento de câncer num cenário emprestado do Sírio-Libanês.

Babenco sobreviveu bravamente a um câncer na medula. O personagem que Defoe encarna também irá sobreviver ao seu.

Acho que todo mundo, mesmo não sendo cineasta, ou teatrólogo, teria o direito de sonhar com o ator (ou atriz) que melhor iria representar você. Por que não?

Vamos pegar, por exemplo, o Eduardo Cunha, presidente da Câmara. Um homem com o apreço que tem por si mesmo, apesar de todas as provas em contrárias, deve se sentir o próprio Brad Pitt.

E o senador Álvaro Dias, do Paraná? Ele com certeza adoraria se ver no corpo elástico e saltitante de um John Travolta.

Já o senador Aluísio Nunes Ferreira, de São Paulo, sempre louco por uma baderna, só ficaria contente se quem viesse a interpretar toda a sua exuberância física fosse o Sylvester Stalone ou então o Arnold Schwarzenegger.

Marta Suplicy, depois de suas recentes guinadas ideológicas, se enxerga possivelmente na pele da ex-esquerdista Jane Fonda.

Jair Bolsonaro sonhaia com Clint Eastwood. E o Lula não vai pensar um segundo para escolher o Morgan Freeman.

Eu, aqui da planície de minha humildade, não espero a hora de ver Robert De Niro brigando para fazer o papel de Nirlando Beirão. Literalmente, brigando: porque tem gente que me acha a cara de Al Pacino.

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20 out as 16h35

Sou antigo o suficiente para me lembrar de Yoná Magalhães – moça fina nascida no Rio – se esfalfando naquela aridez do sertão baiano atrás do seu amado Manuel, rebatizado Satanás ao ser aceito no bando de cangaceiros de Corisco.

Só mesmo uma grande atriz para dar certa credibilidade a um personagem tão distante dela própria.

(Para entrar no espírito da coisa, ajudou a Yoná o fato de morar à época na Bahia e fazer parte daquela talentosa geração do teatro A Barca)

Com Yoná de protagonista, Deus e o Diabo na Terra do Sol foi o impacto que fez o jovem curioso acreditar que o cinema brasileiro existia – e poderia existir.

A obra prima de Glauber Rosa continua sendo, para mim, o melhor filme já rodado no Brasil.

Depois disso, Yoná só viria a ser baiana de novo em Tieta, mas a TV sempre a privilegiou para fazer papéis digamos assim clássicos, burgueses, urbanos.

O último deles foi em Sangue Bom, de 2013, escrito por Maria Adelaide Amaral,

Estrela sem estrelismo, Yoná teve uma virtude a mais: nunca se deixou enredar na tentação da over exposure. Sempre discreta, sempre elegante.

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