13 out as 19h43

Houve tempo em que todo brasileiro tinha de ser, querendo ou não querendo, um PhD em Economia.

Digno de prêmio Nobel.

É que, com aquela inflação alucinada (por exemplo: 1782 % no ano de 1989 – isto sim, que é inflação), você tinha de ficar esperto para que seu salário não minguasse em questões de hora, da noite para o dia. Ou que aqueles juros cobrados no seu cartão de crédito não virasse uma devastadora bola de neve.

Minha diarista analfabeta – eu dizia sempre a ela, recebendo de volta um olhar de perplexidade – sabia mais de finanças pessoais do que um banqueiro suíço.

A diarista tinha de se virar na poupança e no overnight. O suíço vivia refestelado na estabilidade de sua acomodada economia.

Sem falar nos sobressaltos dos sucessivos planos econômicos, que culminaram naquele suicida Plano Collor, de péssima memória. Como diz a música, era preciso estar atento e forte.

Hoje, o brasileiro, para estar atualizado com a conjuntura, tem de saber tudo de legislação – decretos, medidas provisórias, dispositivos constitucionais, o escambau. Ah, e, claro, a lei penal, para acompanhar o noticiário de todos os dias.

Pois é, a vida pública e o interesse da mídia foram se deslocando nos últimos anos para a esfera do Judiciário, dos tribunais, do Ministério Público e da Polícia Federal.

As sessões do julgamento do mensalão, ao vivo, davam mais audiência que novela de tevê.

Assiste-se agora a uma espécie de criminalização ampla e geral da política. É bom que se apurem as maracutaias, é perigoso que se com a apuração venha o descrédito popular pela democracia e pelos naturais e legítimos jogos do poder.

O STF, a instância suprema, parece querer por fim aos exageros desse processo às vezes doentio e oportunista. Chamou para si a responsabilidade pelo fim do samba de uma nota só que a oposição – em sociedade com o presidente da Câmara, o impoluto Eduardo Cunha – pretende impor ao país., com roteiro de República de Bananas.

O playground do impeachment foi fechado.

Agora, sim, se vier a acontecer, o afastamento da presidente eleita não se dá pelos capricho de uns tantos playboyzinhos e de notórios corruptos que tentam disfarçar sua corrupção bradando contra a corrupção alheia.

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09 out as 14h23

A surpreendente vitória de um “Quarteto Nacional do Diálogo” da Tunísia reitera porque o Brasil, ou algum brasileiro, tem pouquíssima chance de ganhar algum dia o Prêmio Nobel da Paz.

Mesmo na tensa Tunísia pós-Primavera Árabe, tem gente que de fato trabalha pela paz, pelo diálogo, pelo entendimento, pela democracia.

Aqui, os interesses miúdos, dos compadres da política e dos aliados por conveniência, só acirram o ódio, a hipocrisia (alô, Eduardo Cunha), a pancadaria.

O Brasil virou um país de gente reclamona, rancorosa, rabugenta. Uma nação de sentimentos cada vez mais violentos.

O Nobel da Paz, que ignorou favoritos tais como o Papa e a chanceler Angela Merkel, fez bonito este ano.

Vamos recapitular: a Primavera Árabe nasceu justamente na Tunísia, em 2013, no verão de hemisfério norte, e só ali a primavera não iria acabar em inverno.

As espontâneas manifestações populares derrubaram o longevo ditador Zine al-Abidine BenAli, que teve de fugir do país.

Da Tunísia, a Primavera foi se propagando como um rastilho de pólvora pelos países vizinhos. No Egito, caiu o ditador Hosni Mubarak. Na Líbia, caiu Muammar Ghadafi (muito mais pela ação dos bombardeios americanos e franceses do que propriamente por um levante popular). Na Síria, a revolta propagou em guerra civil que continua sendo travada com brutalidade, para desespero da população civil.

Na própria Tunísia, não foi fácil o day after. A primeira eleição democrática levou ao poder um partido islâmico fundamentalista, a Ennhada, cujo propósito era mudar a Constituição e implantar a lei da sharia, baseada no Corão.

Foi aí que as forças vivas da sociedade civil resolveram lutar em defesa da democracia – mas respeitando a vontade popular.

Quem começou todo o movimento foi a Cut deles, UGTT, na figura de Hounine Abassi – um dos quatro laureados de ontem.

Os trabalhadores conseguiram a inesperada adesão dos patrões – lá, comprometidos com a democracia representativa e não com as barganhas corporativas. A Confederação da Indústria, Comércio e Artesanato (Utica) veio junto.

Logo iriam aderir a Ordem dos Advogados e a Liga dos Direitos Humanos.

A mobilização foi tão bem sucedida que até os muçulmanos radicais do Ennhada aceitaram assinar um pacto a favor da estabilidade das instituições.

Na Tunísia, a Primavera Árabe continua florescendo graças a essa lideranças – mulher, uma delas. Processos revolucionários costumam, desde a queda da Bastilha, passar por fases de Terror, mas na Tunísia existe hoje uma estabilidade que nenhum país vizinho conseguiu – ainda que tensa, sujeita a crises e conflitos que são tratados com naturalidade republicana e maturidade cívica.

A Líbia pós–Khadafi é um país sem lei, nem instituições, dominados por milícias radicais.

O Egito da Praça Tahir foi para as eleições, escolheu por maioria a Irmandade Muçulmana, para desespero dos aliados regionais dos Estados Unidos, Israel, os Emirados, a Arábia Saudita, que tinham Mubarak por aliado. Resultado: um golpe militar derrubou o governo eleito democraticamente e um general de nome Sisi está no poder desde então.

A Síria é uma tragédia, o Iêmem, outra, o Iraque, nem se fala.

O Nobel da Paz 2015 dos tunisinos dá um exemplo para o mundo de que o diálogo livre, franco e honesto é a melhor solução para as crises – não a confrontação estéril e histérica.

O Brasil devia pensar a respeito.

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08 out as 15h18

Os repórteres presentes ao anúncio do Nobel de Literatura, esta manhã, em Estocolmo, aplaudiram freneticamente.

Afinal, a bielorrussa Svetlana Alexievch é uma deles – quer dizer, uma de nós.

Não é bem o que pensa a própria Svetlana. “Eu não sou jornalista”, costuma insistir em suas entrevistas.

Jornalista, no sentido convencional, ela não é mesmo. Mas o que ela faz – e o que deu a ela o maior prêmio literário – é não-ficção com uma pegada, isso sim, bem jornalística.

Passar anos a fio entrevistando os soldados russos que lutaram no Afeganistão ou quase uma década pesquisando as consequências físicas e sobretudo humanas do desastre de Chenobyl é, sim, fazer jornalismo, da mesma forma que John Hersey fez grande jornalismo – não por acaso para a impecável revista The New Yorker – ao palmilhar in loco as trágicas consequências da bomba atirada contra muitos milhares de civis.

(A longa reportagem de Hersey, com um up-to-date, virou livro e existe edição brasileira da Companhia das Letras)

Svetlana tem um agudo olhar para a realidade.

De fato, nem todo jornalista sabe cultivar essa virtude paradoxalmente intrínseca ao seu ofício.

De mais a mais, Svetlana escreve bem. Aí, de fato, ela não parece nem um pouco com a rapaziada que milita na nossa (sua – ela iria corrigir) categoria.

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05 out as 14h22

Tenho um amigo que se chama Eduardo Cunha. Não, gente – não me queiram mal.

É outro Eduardo Cunha.

Para sorte dele, no quadro da atual conjuntura, ele tem um nome do meio e um apelido pelo qual é conhecido por todo mundo.

Pouquíssimos são os que sabem que ele é Eduardo Cunha.

Mas ele anda pensando seriamente em seu prevalecer dessa (in)feliz coincidência.

Existem – é o que dizem as autoridades suíças – alguns milhões de euros depositadas em contas secretas em bancos locais em nome de Eduardo Cunha.

O notório e notável presidente da Câmara jura de pés juntos que elas não lhe pertencem.  Nem à sua mulher – cujo nome também surgiu na embrulhada.

Já que as contas não são daquele Eduardo Cunha lá, o Eduardo Cunha de cá está propenso a pegar um avião para Genebra e ir lá reivindicar os trocadinhos.

Vai dar uma de Romário – vocês se lembram, né?

A revista Veja, como aquelas má fé e irresponsabilidade que a caracterizam, publicou que o Baixinho tinha uma conta secreta de milhões de euros na Suiça. Até uma fatura falsa a revista (da) Marginal apresentou.

Romário foi à Suiça, não descobriu conta nenhuma e está processando a Editora Abril por um  valor dez vezes maior do que aquele da conta mentirosa que lhe atribuíram.

(A Justiça brasileira, sempre tão empavonada e tão cheia de bravatas, tem pavor de mexer com a Editora Abril, assim como com as Organizações Globo. Duvido que algum magistrado de coragem dê ganho de causa  ao craque-senador)

O risco que meu amigo Eduardo Cunha corre, se for mesmo buscar seus caraminguás suíços, é que as autoridades de lá o trancafiem na cadeia (o ex-presidente da CBF, José Maria Marin, hóspede da Polícia em Genebra, que o diga).

Se escapar de lá, aqui estará tranquilo. O nome Eduardo Cunha é, no Brasil, a tranquilidade para total impunidade.

A mídia da oligarquia, sempre tão ciosa em acusar, esqueceu-se de Eduardo Cunha e de suas indecorosas estripulias.

Sabem por quê? Porque ele é o ultimo fio de esperança para quem ainda sonha em derrubar a presidente que, bem ou mal, a maioria dos eleitores elegeu.

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01 out as 17h22

Passar alguns dias fora do Brasil é higiênico. Mesmo com o celular e o tablet ligados, você é poupado das tolices de uma certa imprensa canarinho – aquela que faz da política uma coisa parecida com a arquibancada de futebol.

De volta, deparei, ontem, com uma estridente manchete de O Globo acusando o ex-presidente Lula de ter feito lobby numa viagem à África a favor de uma empreiteira brasileira, a Odebrecht.

Custei a entender todo o estardalhaço. Lula era presidente do Brasil e tentava convencer um presidente africano das vantagens de contratar, para obras públicas no país, uma construtora brasileira. Era isso mesmo, me perguntei?

Claro que a reputação das construtoras brasileiras não anda lá essas coisas depois da Operação Lava-Jato. E claro que O Globo e seus seguidores tentam arrastar Lula para o lamaçal da corrupção e do propinoduto, no desespero de vê-lo voltar ao poder em 2018 – ainda que pelo voto popular.

Mas a “denúncia”, esta aí, é estúpida.

O que Lula fez não tem nada de ilegal, de imoral, de condenável. Só seria se ele tivesse tirado benefício pessoal pelo tal “lobby” – o que nem O Globo tem coragem de afirmar, em sua ânsia de transformar uma banalidade em mais um escândalo.

Imprima-se a intriga. Logo ela ganhará ares de verdade.

Presidentes da República funcionam como caixeiros-viajantes a vender produtos e serviços de empresas sob sua jurisdição. E é inegável que a engenharia brasileira tem competência gerencial e expertise tecnológica para concorrer com qualquer outra. Lula fez o que tinha de fazer. E fez o que todo mundo faz.

Quando o Brasil anunciou a compra bilionária de jatos de combate, Barack Obama veio apregoar seus Boeings e Nicolas Sarkozy tratou de nos visitar para vender os Rafales da Dassault.

Poucos vendedores foram tão convicentes e empenhados, quando no poder, quanto o sedutor ex-presidente americano Bill Clinton.

Certa vez, visitando Nova York com minha filha então criança, quis levá-la a uma fascinante e mítica loja de brinquedos, a FAO Schwartz, ali na praça defronte o Hotel Plaza, num ângulo do Central Park.

A loja estava fechada, o tráfego bloquedo. Explicação: princesa Diana estava ali para promover brinquedos fabricados na Grã-Bretanha.

Não me consta que o Sunday Times tenha insinuado que, por causa do tal “lobby”, a Lady Di tivesse de parar nas mãos com sede de revanche de algum juíz Moro.

http://r7.com/_UFD

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30 set as 18h29

Bom demais para ser verdade: o argentino Bergoglio, aliás Papa Francisco, andava dizendo coisas que sugeriam um catolicismo renovado, aggiornato, caridoso, humilde, com compaixão.

Aqui para nós: nem parecia um Papa.

Basta ver os dois últimos, João Paulo II e Bento XVI, tão conservadores, tão autoritários, tão distantes da realidade do mundo atual – figuras que fariam bom papel naquelas cortes pontificais da Contra-Reforma.

De repente, Francisco surgia como O Renovador. A figura tranquila e humilde que poderia trazer de volta para o rebanho do catolicismo romano um extraordinário número de fiéis desgarrados pelo simples fato de serem contemporâneos de sua própria época.

Francisco arranhou a questão gay, sugeriu um relaxamento canônico para os divorciados e para aqueles que deixaram a batina para se casar e pediu clemência para as hordas de refugiados.

Até ajudou na reaproximação EUA-Cuba, com aquele bloqueio que é uma relíquia da Guerra Fria.

O século XXI parecia ter batido às medievais portas do Vaticano.

Nos Estados Unidos, porém, o Papa se revelou. E nada foi tão estúpido quanto acolher, em sigilo, enquanto estava em Washington, uma senhora chamada Kim Davis – esta desfrutando seus 15 dias de celebridade.

Mrs. Davis é escrivã de um cartório no Estado de Kentucky – um daqueles lugares bem capiaus que, se não fosse a ação de figuras como o Reverendo Martin Luther King, ainda estariam hoje queimando negros e os pendurando nas árvores. A escrivã estaria, fácil, na linha de frente dos linchamentos.

Ela ficou famosa porque, embora a Corte Suprema dos Estados Unidos tenha decidido semanas atrás que os homossexuais de ambos os sexos têm o direito a um casamento civil como qualquer outro cidadão que viva na América, dona Kim decidiu, sozinha, que isso ela não faz.

Ou seja, ela se julga acima – ou à margem – da lei.

Foi detida e afastada de sua função. Afinal, é crime o que ela faz. O Papa achou por bem recepcionar, ainda que às escuras, a criminosa. Claro que a visita clandestina vazou.

Francisco, em sua vilegiatura americana, decidiu atacar a união homo-afetiva. Chegou a usar o termo “anormal” para definir aquilo que rola fora da relação homem-mulher.

Quem diria que o promissor Papa Francisco, pastor-mor do catolicismo, iria ter sua dia de Levy Fidelix.

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21 set as 12h28

Vizinhos quase sempre são um problema na nossa vida – e, sem demagogia, eu me sinto privilegiado hoje em dia pelos vizinhos que tenho.

Fiquei especialmente irritado com os vizinhos daquele condomínio em Taboão da Serra em que ocorreu a tragédia do garoto Gustavo, que caiu da cobertura do prédio em que morava.

Aproveitando-se daqueles quinze segundos de fama e de holofote oferecido pela tevê, trataram de exibir, com um sadismo falsamente moralista, sua mentalidade doentia e bisbilhoteira.

Fizeram de tudo para piorar ainda mais a dor de uma mãe terrivelmente golpeada pela perda do filho de 5 anos.

Insinuaram discussões acirradas no apartamento, no claro intento de dizer que a mãe desquitada era uma criatura disfuncional.

Sabem por que? Porque ela tem um namorado – aquele a quem ela foi buscar na estação de trem naquela noite trágica.

Uma desquitada. Um namorado. Um filho que ficou sozinho em casa por uns minutinhos. As corocas (e os corocas) da vizinhança, que adoram perscrutar atrás das portas, tinham de penalizar a mãe com uma dose extra de culpa.

Mãe não pode ter libido.

Queriam os vizinho, ansiosos em sua patologia malévola, sugerir uma reprise da história do caso Nardoni. Na verdade, acabaram produzindo uma reprise do caso da Escola Base – aquele de acusações infundadas, também de cunho moralista, contra educadores docentes cuja vida virou um inferno.

Gostaria de ver os detratores pagando, na Justiça, pelas leviandades ditas pelo simples e egocêntrico prazer de ganhar uns minutinhos no telejornal.

http://r7.com/BTDN

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17 set as 17h38

O ministro Gilmar Mendes, do STF, levou um ano, seis meses e cinco horas – estas, computadas ontem, quarta-feira – para dizer, a respeito do financiamento empresarial de campanhas eleitorais, o que todo mundo já sabia que ele diria.

Depois pedem agilidade à Justiça.

Ao proferir, enfim, o seu demoradíssimo voto, o ministro Gilmar pendurou na sua imponente beiçola – expressão facial de um tédio eterno, de um deboche inaceitável – um violento discurso no qual, entre outras pérolas retóricas, acusou a Ordem dos Advogados do Brasil de ser o braço jurídico do PT.

Como a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) assinou embaixo da causa – que contesta a ideia de que o financiamento empresarial cabe na Constituição – é bem provável que o ilustre magistrado venha a incorporar o episcopado nacional na cota dos terroristas bolivarianos, ainda mais agora que o Papa Francisco pretende se jogar nos braços dos sinistros irmãos Castro, de Cuba.

O ministro Gilmar é, ele sim, uma piada de mau gosto. Um provocador a serviço de uma agenda político-partidária tosca, muito óbvia, que no entanto tem um incompreensível apoio da mídia oligarca.

O problema é que Mendes pertence ao mais alto foro da Justiça brasileiro. Teria, a princípio, de agir com isenção e imparcialidade.

Dizem que a Justiça é cega. Aí você vê o ministro Gilmar Mendes – aquele que mandou soltar o Daniel Danta$ e o doutor Roger Abdelma$$ish – e percebe que, na verdade, a Justiça no Brasil não é cega, é caolha. E muito gulo$a.

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14 set as 18h29

Numa das minhas encarnações na revista Playboy, lá pelos meados dos anos 90, lembro de ter feito, em curto intervalo de tempo, duas daquelas caudalosos entrevistas com divas da minha geração: Betty Lago e Marisa Monte.

A da Marisa, foi a pior da minha já longa carreira. Ela só respondia o que queria, com expressão vaga e blasée, como se estivesse entediada com aquilo tudo. Explicou: “Foi o Nelsinho [Motta] quem me ensinou a lidar com a imprensa”.

A com a Betty Lago foi um show de humor, de perspicácia, de inteligência, de capacidade de surpreender – e também de corajosa sinceridade. Ela era capaz até de debochar do entrevistador do jeito mais elegante do mundo.

Fiquei encantado com ela.

Encontrei-a, depois, uma meia dúzia de vezes e essa percepção só cresceu.

Betty Lago desfrutou, até o prematuro fim, de uma rara unanimidade. Unanimidade é coisa perigosa mas no caso dela se justificava. Beleza, elegância, talento, versatilidade – li por aí um desfile de atributos a ela dedicados, nos elogios póstumos, e é isso mesmo, Betty Lago era isso e muito mais.

Nunca vou esquecer de sua imagem, recortada com o morro do Corcovado ao fundo, no escritório dela do Jardim Botânico, tendo aquela gargalhada franca, deliciosa, como trilha sonora – e as nuvens se projetando lá do alto da montanha, curiosas, talvez, de chegarem perto de tal força da natureza.

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11 set as 13h24

Rip Van Winkle refugiou-se um dia na floresta, à sombra de árvore tão acolhedora que fechou os olhos, dormiu e acordou 20 anos depois dando vivas ao rei George III, da Inglaterra – nos Estados Unidos já independentes.

Eu me sinto tão velho e tão distraído como este personagem de ficção de Washington Irving (criado pelo escritor em 1819) quando o assunto é a banda Calypso e o rumoroso divórcio entre os dois parceiros.

Pois é, gente: acho que dormi esse tempo todo.

Nunca tinha tido o privilégio de desfrutar a superior arte desse – como é mesmo o nome? – Chimbinha e de sua escort Joelma.

Na verdade, confesso, envergonhado, dessa banda Calypso não tinha mais do que uma vaga, nebulosa ideia.

Não me acusem de esnobismo, de preconceito. Em matéria de música, não discrimino nada – quer dizer, quase nada – mas acho que ídolos sobem e descem numa velocidade tão alucinante que eu simplesmente não consigo ficar em dia.

Por exemplo: aquele infausto Cristiano Araújo, que a Fátima Bernardes, da Globo, chamou de Cristiano Ronaldo. A morte dele revelou o fenômeno popular que ele de fato era. Assim como a Fátima, eu não tinha a menor ideia.

Vocês vão dizer: mas a banda Calypso está na estrada há muito tempo (desde 1999, me diz a Wikipédia), praticando as maravilhas do “brega pop” (obrigado, Google) e a traumática separação de Joelma e Chimbinha, no palco e na vida, mobiliza a plateia a ponto de a dupla liderar, agora rompida, a audiência da internet.

Não, eu não tenho nenhuma preconceito musical: gostar das sonatas de cello de Beethoven não significa que eu torça o nariz para Michel Teló, misturo alegremente Blur e o samba-enredo da Mocidade.

Mas, lamentavelmente, devia eu estar ocupado demais para não ter entrado em contato com os agora ironicamente explícitos hits “A lua me traiu” e “Vamos ficar de bem”, obras-primas do duo agora estilhaçado.

Alguém aí me diz, por favor, por onde devo começar.

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