04 jul as 09h34

Desde cedo, senti no Facebook os primeiros clamores da euforia: Caiu um viaduto em Belo Horizonte.Pessoas morreram. Muitos feridos. O viaduto fazia parte das obras da Copa. Estava atrasado.

Os catastrofistas se rejubilaram com as mortes e com a tragédia. Nunca vi tamanha felicidade. Tinham, enfim, um pretexto para voltar à velha toada: a Copa vai ser um desastre.

Não assisti – em obediência ao meu detox mental – ao Jornal Nacional da Globo, mas imagino, no canto da boca do William Bonner, um esgar de contentamento: eu não disse?

Esta manhã, fui checar as manchetes do jornalões. Era o esperado. É o que chamo de manchete-oba. Tipo: “O crescimento do PIB vai ser pífio”. Oba! “O desemprego para de cair”. Oba! “O viaduto da Copa cai e mata”. Oba! Só faltaram os pontos de exclamação.

Imagina na Copa – insistia o agourento editor da Folha. Nos gramados, e fora dele, a Copa está impecável. O editor da Folha roía as unhas no desespero da urucubaca que não vinha: “Me arranjem uma tragédia”. Conseguiram uma tragédia. Podem voltar à toada do vira-lata: somos incompetentes. Só um alemão, um sueco seria capaz de fazer um evento com tal envergadura. O viaduto de Beagá é o emblema de nosso fracasso.

Imagino eu se o desastre tivesse acontecido numa prefeitura do PT e não sob a responsabilidade do Márcio Lacerda, do PSB do Eduardo Campo, em Minas aliado histórico do PSDB. Imagino o estardalhaço da mídia, sempre tão isenta, tão imparcial. Se é para politizar a Copa, por que não politizam agora?

Disfarcem seu contentamento, aves do infortúnio, hienas da desgraça.

As vítimas da minha Beagá merecem respeito.

 

 

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03 jul as 16h01

Marcos Azambuja foi embaixador do Brasil na Argentina quando Carlos Menem era o presidente. Jogavam golfe juntos na quinta de Los Olivos e o embaixador conta que, noblesse oblige, fazia de tudo para perder.

Uma vez eu o cutuquei sobre o histórico e lendário tema da rivalidade entre nosotros y los hermanos.

"É cosmética", me disse Azambuja. Circunscrita ao futebol. Apaixonado pelo país onde serviu cinco anos e meio, diz que"nada me dá mais prazer que ganhar um jogo da Argentina. A sensação de prazer é indescritível". Fora daí, a Argentina e o Brasil são sócios na História, compartilham o mesmo destino, assegura o ex-embaixador.

Azambuja lembra: a Europa, sim, curtiu por séculos inimizades viscerais. "Ao encontrar um alemão, um francês pode se perguntar: 'será que o avô desse cara foi o quem estuprou minha avó na guerra?'" E, no entanto, a Europa superou as feridas do passado e  conseguiu promover um fantástico entendimento político, financeiro, cultural, espiritual.

A Argentina é digna de admiração. Gosto dos cafés de Buenos Aires, com suas medialunas, seus sandwuiches de miga, seu ambiente de tranquilidade européia. Gosto de suas parrilas, do asado de tira, do ojo de bife, do bife ancho. Admiro a literartura de Borges, Cortázar, Sábato, de tantos outros. Lembro a piscanálise argentina que, condenada à diáspora pela brutalidade da ditadura fardada, ajuda aqui a promover a saúde mental de muitos de nós, brasileiros.

O cinema argentino tem uma energia criativa que ajuda a lhe cultivar a esquecida arte de contar uma boa história. Adoro o tango, "um pensamento triste que se baila", como disse Enrique Discépolo, o compositor de Uno e de Cambalache. Respeito os ícones locais: Evita, o Che, Carlos Gardel, o Maradona. Ah, e agora tem o Papa Francisco, que anda desafiando, lá no Vaticano sagrados estereótipos e pomposos preconceitos.

É bonito ver como os argentinos fazem da paixão o combustível não só dos estádios – mas também de sua arte, de sua cultura e de sua política. Saíram de um regime militar sanguinária e tiveram a coragem de ir cobrar dos algozes e de seus comandantes a merecida punição por seus crimes hediondos e imprescritíveis. Até presidentes-ditadores foram trancafiados nas cadeias. A Justiça lá se mostrou... bem, justa. Olhou para a lei, não para o holofote.

Gosto da Argentina e dos argentinos. Mas que a gente os derrote dentro do gramado.

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02 jul as 07h42

felipao ok O paizão Felipão transformou sua família em bebezinhos chorões

Quando o CBF optou pelo Felipão na Seleção, escolheu um paizão, não um treinador de futebol.

O mundo sabe que Felipão é um sujeito tosco, anacrônico, de visão primária a respeito do que acontece dentro do gramado.

Conseguiu, é verdade, um título mundial. Doze anos atrás – o que, no calendário das inovações futebolísticas, é como se fosse há um século.

Ganhou porque tinha no time três luminares da bola: Rivaldo, Ronaldo e Ronaldinho (para mim, nesta ordem).

Na Seleção portuguesa, foi apenas razoável. No Chelsea, medíocre (durou menos que uma temporada).

Por que então a CDF foi bater à porta dele? Pela mística da “família Scolari”.

Felipão seria o patriarca durão capaz de motivar, aos gritos, na marra, seus subordinados. Os comentaristas – a maioria deles – adora isso.

Acontece que o paizão repressor produz filhos submissos, inseguros, infantilizados. Ninguém precisa ter séculos de psicanálise nas costas, como eu, para entender essa noção elementar do comportamento humano.

Foi patético ver o capitão da equipe chorando na hora nos pênaltis como um bezerrinho desmamado. Thiago Silva amarelou – e espero que eu queime a língua.

Não culpo a ele mas ao regime de paternalismo que faz de cada jogador uma criançola medrosa, trêmula ante a reprimenda que vem do alto, feliz se ganha um afago, um agradinho,

A Seleção brasileira desta Copa é como um jardim da infância na qual os alunos, tremelicando de medo, aguardam as lições de um professor que, no entanto, não tem nada a dizer, não tem nada a ensinar.

Em tempo: este blog cometeu uma injustiça com a colunista social do Estadão. Ela telefonou dizendo que não estava no coro das grosserias contra Dilma no Itaquerão, naquela estréia do Brasil Como eu a conheço, acredito no que ela diz e sei que esse tipo de coisa não combina com o perfil dela, registro aqui essa correção.

 

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29 jun as 16h47

1afp1 Campeonato do cai cai: Robben é o verdadeiro Neymar

Foi embora da Copa, injustamente, a grande figura da Copa até aqui: o treinador mexicano Miguel Herrera.

Figuraça.

Armou um timaço que podia ter ganho do Brasil e esteve perto de ganhar da Holanda.

Figuraça, eu repito.

Don Miguel resfolegava fora do campo, passando para a equipe uma energia positiva – muito diferente daquele estilo Felipão, de só bufar, reclamar e transmitir para o time a sua consistente incompetência.

(Detalhezinho: eu queria aprender com o Miguel Herrera a assobiar, como ele assobia, sem sequer usar os indicadores no canto da boca).

O México jogou muito mas minha vizinhança aqui em Higienópolis torcia pela Holanda. Eu me pergunto por que. Pelo futebol é que não é.

Mais uma potência colonial esteve a dois minutos da desclassificação e a turma com-Rolex e com-Vuitton aqui de perto de mim torcia pelo colonizador, contra o colonizado.

Higienópolis tem um tremendo complexo de superioridade. Eles não viam o futebol, em que Holanda e México se equilibraram, viam o padrão de supremacia racial contemplado por aquele Viking de dois metros que entrou no final e fez o gol de pênalti.

Pênalti que, aliás, não existiu. Podem reparar: Robben é, nesta Copa, o verdadeiro Neymar. O campeão do cai-cai.

Se a Holanda tivesse perdido, a imprensa do Velho Mundo culparia os trópicos abrasivos e o calor inclemente. Como fizeram os ingleses, os espanhóis e a Itália – logo a Itália, que, na verdade, é praticamente um país africano.

Iriam também culpar o juiz, por aquela fantasia do complô da Fifa. O apito amigo, neste domingo, ajudou a Holanda.

E agora? Como é que os chorões vão explicar isso?

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29 jun as 10h04

 Felipão, Lugano e meu taxista: quem é capaz de falar mais bobagens?

Tenho simpatia pelo treinador do Uruguai, Óscar Tabárez. Tem cara de galã de filme B mas comporta-se durante a partida com uma serenidade elegante. Me dá a impressão de entender o que se passa dentro de campo. Armou um belo time. Perdeu com dignidade.

Tive pena dele, ontem, ao ver o Uruguai eliminado pela Colômbia. Eu, os brasileiros, o mundo tínhamos ficado encantados com o Uruguai até aquela maldita dentada. O time se superou, fez bonito, mostrou vontade, venceu a Itália, classificou-se – e aí o canibal, um sujeito claramente doente, fez a grande besteira.

Claro que, depois daquilo, o time ia entrar psicologicamente abalado em campo contra a Colômbia. Deu no que deu.

Antes da partida, Diego Lugano deu entrevista dizendo que a FIFA tinha armado um complô contra o Uruguai. O canibal dá uma mordida no adversário e a culpada é a FIFA.

Esse Lugano, a gente já conhece. Tem o olhar de um fanático e a cabeça de um idiota. Não sei com que autoridade ele fala. Amarelou na Copa. Foi para o banco. Ali, aliás, conseguiu o inédito feito: ontem, no banco, levou um cartão amarelo.

Tenho simpatia pelo técnico Tabárez. Tenho pena do patológico Suarez (embora a punição tenha sido mnerecida). Tenho horror a esse Lugano.

Por falar em complô: passei o jogo do Brasil lembrando meu motorista de táxi que me garantiu – “fica tranqüilo, a Dilma comprou a Copa, acertou com a FIFA, está tudo arranjado, o Brasil já é o campeão”.

Eu me lembrava do cara, tão seguro de suas informações de cocheira, e me perguntava, durante toda aquela partida de tirar o folego: mas alguém avisou os chilenos? Quando é que o complô vai entrar em campo?

Porque time, esse aí que o Felipão armou não é, é uma barafunda. Um amontoado de boas intenções, uma correria de incompetências. Vamos precisar, sim, do tal complô (e eventualmente do Julio César). Levamos um show de bola do Chile, que ao final cansou. A vitória nos pênaltis foi abençoada, mas pra lá de injusta.

Sair nas oitavas seria um vexame, para o anfitrião. Agora, está de bom tamanho. Podemos ficar por aqui. Com uma seleção que temos, não há dinheiro, não há complô que compre um título.

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27 jun as 15h46

9g5mb5y20a 8bk2suneda file Obama, yes, you can. Dilma, não, você não pode

Interrompeu uma importante reunião para ver o jogo de seu time na Copa. Depois, festejou alegremente a classificação para a fase seguinte. A imprensa comemorou junto: numa situação dessas quem é que vai cobrar se alguém liga a TV e para tudo para ver o jogo?

Aconteceu com quem? Não foi com a presidente do país do futebol, foi com o presidente do país do beisebol.

Pois é, Barack Obama se dá o direito de ser feliz com a sua Seleção (e olhem que o USA Team perdeu). "Não se preocupem, o presidente também parou de trabalhar", foi o tom brincalhão da cobertura jornalística.

Ele estava no Air Force One a caminho de Minnesota. Parou a reunião para ver a partida. Até cantarolou o estribilho da ESPN, adotado pela galera: "I believe that we will win" (Acredito que vamos vencer).

Obama apenas entrou no clima que surpreendentemente arrebatou a América. A "soccer fever" fez a audiência da TV subir a picos inéditos: mais de 30 milhões de espetadores no jogo EUA vs. Alemanha de ontem.

"A Copa capturou a imaginação popular", disse um presidente que ama o basquete e que certamente não tem a menor idéia sobre o que é um impedimento e porque os laterais são batidos com as mãos.

O staff da Casa Branca parou durante a partida. Assessores apareceram paramentados com a camisa do USA Team. Um marciano pensaria ter chegado ao Brasil.

A um antigo Brasil, corrijo. O que Obama pode fazer lá, Dilma não pode fazer aqui. Perseguida pela grosseria dos com-dólar e com-jatinho, a presidenta nem pode fazer as honras da casa para um evento que sacode o mundo todo – mesmo quem não tem a menor tradição no futebol.

O ódio que a mídia do privilégio minuciosamente manufaturou, com propósitos eleitorais, encontrou ressonância num estranho conluio que juntou na mesma rabugência os black blocs exibicionistas e os truculentos Cro-Magnolis a soldo do golpista Instituto Millenium.

(O articulista da Folha, de direita, empurra os black blocs para a esquerda. É mentira. O "anarquismo" não é de esquerda, é como a doença infantil do "folhismo")

Não, a Dilma não pode. "É o espírito das arquibancadas", alegam os que mais têm vontade de agredir.

Volto a lembrar: os estádios aplaudiam delirantemente o ditador Médici; agridem a presidente eleita por um  povo que, sábio, dono de vontade própria, imune à manipulação dos que usam e abusam do poder do dinheiro, apenas quer se divertir na Copa, gritar gol e ser feliz.

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26 jun as 07h29

ney A Copa desmonta a auto imagem do brasileiro. E agora, Rede Globo?

O brasileiro tem prazer em se dizer: avacalhado, desorganizado, ineficiente, improvisador, inconfiável, boêmio, carnavalesco – e por aí vai.

Se tiver que enunciar uma virtude, dirá: o calor humano, a cordialidade, a hospitalidade. Campeão mundial do tapinha na barriga e da cervejinha compartilhada.

A proximidade da Copa acirrou o estereótipo. A depender de nossas habilidades, seria um desastre, "o fim do mundo" – como se deleitava, sob a cabotina rubrica "A Copa como ela é", de inspiração subrodriguena, o editor da Folha.

Até os que estavam envolvidos no evento tentaram se defender previamente da tragédia anunciada e da vergonha inevitável. Ronaldo Fenômeno e as Organizações Globo, em sua ambiguidade interesseira, disputaram o troféu Óleo de Peroba.

A Copa tem sido um sucesso. "Até agora", resigna-se a chorosa revista Veja, porta-voz das aves agourentas.

Para organizar uma Copa que não nos cobrisse de vexame, o brasileiro teria de ser um alemão ou um sueco. Sozinhos, não seríamos capazes – é o que se dizia em todos os cantos da nação – de botar pé um evento esportivo com tal envegadura e tanta visibilidade mundial.

É a velha e repetida mentalidade colonial e da escravatura. O brasileiro é um incapaz, por isso precisa ser tutelado, pajeado, disciplinado.

Por quem? Por uma elite avalizada pelo dinheiro ou escolhida por direito divino – no entanto, muito mais tosca, muito mais improdutiva, muito mais grosseira do que o andar de baixo da sociedade. A elite dos camarotes vip que assiste o futebol numa esfregação de egos, de costas para a bola – assim como trafega pela vida de costas para o seu próprio país.

Aqueles senhores engravatados da Fiesp, todos eles reunidos, não valem um só torcedor da geral.

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24 jun as 16h12

7lzf4nq1nl 1l2vbpbbtg file Aqueles dentes do Luís Suárez são para te comer

Bem que avisei aqui neste blog à população de Sete Lagoas, Minas – onde o Uruguai se concentra nesta Copa.

Eles teriam um canibal nas vizinhanças. Melhor que crianças e donzelas não saíssem de casa em noites de lua cheia.

O famélico antropófago tinha se contido até esta tarde, até se maravilhar com a tentadora omoplata do italiano Chiellini. Decidiu, de repente, acionar seus caninos afiados dentro de campo, no jogo contra a Itália.

Luís Suárez é reincidente. Numa partida contra o Chelsea, na temporada 2012-2013, ele se enrolou na área com o zagueiro Ivanovich e sentou-lhe uma dentada no braço que quase arrancou um naco de músculo do adversário.

Filiado à escola Mike Tyson de fair play, o atacante do Liverpool e da Seleção uruguaia sabe exercer seu ofício carnívoro com tanta habilidade que nem falta o juíz deu, na ocasião (a TV o denunciou e ele acabou suspenso por dez jogos pela Liga Inglesa).

Contra a Itália, também, o novo surto não lhe valeu sequer um mísero cartãozinho.

Não corresponde à realidade, porém, a história de que Anthony Hopkins, aquele do Hannibal Cannibal, tem prestado consultoria ao time do Oscar Tabarez.

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21 jun as 12h36

O apito amigo tentou ajudar a Itália, ontem, contra a Costa Rica (o pênalti de Chiellini em Campbell foi escandalosamente nítido), mas a própria Itália não quis se ajudar.

Nem assim a Azzurra do Sílvio Lancellotti já está fora da Copa. Ao contrário, o choque de realidade vai fazer bem ao time.

Quando vi a Itália derrotar a Inglaterra, na estréia, pensei comigo: eis que finalmente ela tem um belo time. Por isso mesmo, prossegui eu em minhas divagações, não terá nenhuma chance de vencer o Mundial.

Não estranhem, é isso mesmo: a Itália só ganha Copa quando tem um time medíocre. Especializou-se nisso. Aquele joguinho enjoado, amarrado, retrancado, que exaspera o adversário a ponto de ele querer dar uma cabeçada no italiano mais próximo.

A Itália campeã de 2006 era – com exceção do goleiro e de um ou outro defensor – de uma indigência estrepitosa. A FIFA devia cancelar aquela Copa dos anais do futebol. Foi uma vergonha. O melhor lance do torneio foi a resposta do Zidane ao carniceiro Materazzi.

 

Com a derrota para a Costa Rica, a Itália pode, enfim, reencontrar seu futebol constipadinho, feio, triste – e, assim, se candidatar ao título, bem a seu estilo, bem à sua feição.

Jogando feio, a Itália vence qualquer um, podem apostar. O Brasil, a Alemanha, até a Argentina.

Aliás, sempre digo que os italianos são os argentinos da Europa. Naquele outro sentido, se vocês me entendem bem.

 

 

 

 

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20 jun as 12h43

Tenho um amigo italiano que foi – hoje ele está aposentado – croupier no Cassino de Monte-Carlo. Chama-se Mario. Tempos atrás, fiz uma reportagem sobre o Principiado de Mônaco para a velha Playboy , passei duas ou três noites tentando investigar o que há por trás do fascínio às vezes doentio, desesperado do jogo e acabei descobrindo, no Mario, um sábio a presidir uma das mesas de roleta.

Um filósofo, um agudo psicólogo das emoções humanas e, de repente, também um economista muito perspicaz.

Ele próprio se orgulhava: “Entendo mais da economia mundial do que o FMI”. De fato, diante da roleta, Mario era capaz de identificar os grandes fluxos do capital financeiro, a divisão internacional do trabalho, os altos e baixos das economias nacionais.

A reportagem aconteceu em meados dos anos 90, quando a economia russa, livre das amarras da burocracia socialista, produzia um milionário por minuto – e esses magnatas-relâmpago pareciam dispostos a torrar seu dinheiro no jogo com a mesma velocidade com que o tinham ganho.

Os russos predominavam mas Mario já pressentia no ar a ainda discreta invasão chinesa. “Os chineses vão mandar no mundo”, profetizava. Outra de suas remarcáveis observações dizia respeito a argentinos e brasileiros – e aquilo que o economista amador de Monte-Carlo chamava de teoria do pêndulo, ou do balanço. Media a teoria pela afluência às mesas da jogatina. “Quando a Argentina está bem, o Brasil está mal; quando o Brtasil está bem, a Argentina está mal”.

Lembrei-me do Mario nesses dias de Copa do Mundo. Sem a mesma profundidade de quem passou 30 anos diante de apostadores desatinados, eu me arrisco a dizer que a afluência de torcedores aos estádios do Mundial indica claramente que país anda bem de finanças, que país anda mal.

Poucos gregos andam por aqui. Em compensação, a invasão amarela de colombianos e a invasão vermelha dos chilenos colorem e enlouquecem os estádios. Confere: tanto Colômbia quanto Chile têm uma economia em viés de alta, como se diz das Bolsas de Valores.

 A Copa explica a economia mundial: quem está bem e quem está mal

Não é só a distância maior ou menor que explica o volume de público. Em situações outras, haveria muito mais argentinos do que mexicanos – em especial se a gente fosse comparar o potencial futebolístico da seleção do Messi e do time do Chicharito. Mas não é o que se verifica. Os mexicanos vieram com tudo, e uma consulta aos indicadores econômicos do país dão a entender por que.

E o Brasil? A Copa também explica (com uma pequena ajuda do dr. Freud). O Brasil vive a sensação de que os tempos mais exuberantes ficaram para trás. Que a economia emperrou. Repito: esta é uma impressão, nem sempre corresponde à realidade. O Brasil achou feio gostar da Copa. Não se entregou a ela com a mesma paixão. Economizou sua auto-estima. Guardou na poupança a confiança de que poderíamos, sim, ser competentes e eficientes no campo e fora dele. Trocou a vontade de vencer pela moeda da comiseração e da ranzinzice.

O futebol é de uma exuberância muitas vezes irracional (para citar o livro de um Nobel de Economia). As equipes voam no gramado, produzindo espetáculos de emoção e entusiasmo. A Copa é um sucesso. Não houve caos aéreo, como previam as cassandras eleitoralmente motivadas; os estádios foram concluídos e são belíssimos; a organização funciona a contento; os propalados protestos só mostram o isolamento exibicionista e violento dos meninos mimadinhos chamados black blocs – aqueles que, ao chegar em casa, de tão excitados com suas façanhas, acabam fazendo xixi na cama.

O único caos – que os sabichões não previram – é o futebol da Seleção da Felipão.

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