26 ago as 14h43

Teve uma coisa que deixou Antonio Ermírio de Moraes – falecido no domingo – mais feliz do suas proezas empresariais e as seduções do trabalho. Foi se descobrir, subitamente, já em idade madura, autor teatral.

Lembro de sua alegria quase juvenil ao recepcionar as audiências compactas, aptas a ouvir suas prédicas e a rir de seu humor. Passou a frequentar a chamada "classe teatral", embora eu não tenha notícia de que o – à época – homem mais rico do Brasil tenha se dado ao exagero de, junto com o trupe, botar seu estômago à mercê do fettuccine do restaurante Piolim.

Vi a estréia dele no Teatro da Faap, com Brasil S/A. Foi em 1994. No livreto, fazia uma reflexão sobre a  decepção de 1986, quando perdeu o governo de São Paulo para Orestes Quércia: "As campanhas políticas têm muito de teatro. Aprendi que o sucesso eleitoral depende basicamente da manipulação competente das emoções dos eleitores. O script precisa ser bom; mas a interpretação é decisiva".

A peça trazia outro acerto de contas: era a visão de um empreendedor sempre acusado pela ganância dos bancos.

Ele não pararia aí. em 1999, lançou S.O.S. Brasil, em que o grande provedor da Beneficência Portuguesa fazia um diagnóstico da Saúde no Brasil. Escrevi uma crítica meio azedinha, dizendo que a peça tinha pouco de dramaturgia e muito de oratória, e de fato era como se a história parasse a todo momento para que o protagonista, dirigindo-se para o público, derramava sobre ele um discurso de palanque.

O terceiro momento da trilogia, Acorda Brasil, de 2006, enveredava por outro tema incandescente: a educação. Não cheguei a assistir mas posso adivinhar o tom e o teor.

Era assim, o dr. Antonio – generosamente didático. Tinha pelo seu país um incansável amor. Nunca vergonha, jamais ceticismo, que são os sentimentos que costumam embalar a alma de seus coleguinhas empresários.

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25 ago as 12h17

540661 As pessoas mais ricas do Brasil 2 Antonio Ermírio de 1986 deu a senha para a criação do PSDB

A melhor lembrança que tenho dele é da manhã de 15 de novembro de 1986, eu sentado ao lado dele numa cadeira dura de madeira no pequeno auditório do Edifício Esplanada, uma pérola arquitetônica do Anhangabaú, bem atrás do Municipal, antigo hotel chique de São Paulo e ainda hoje sede do grupo Votorantim.

Naquele dia, o Dr. Antonio se aventurava no maior desafio de sua vida pública: candidato a governador de São Paulo. Ele sabia – as pesquisas confirmavam – que ia perder. Exibia, porém, um sorriso paradoxal, uma alegria franca de quem parecia vencedor – nunca de um derrotado. Estava particularmente bem-humorado. Divertia-se em rememorar alguns momentos da campanha.

Riu muito ao lembrar aquele político do litoral, importante prócer do PTB que o apoiava, que saiu do diretório com uma dúzia de malas abarrotadas de dinheiro para pagar as despesas de campanha e, ao chegar ao destino, só entregou uma delas. O dr. Antonio gargalhava. Foi assim, assistindo a episódios como este, que ele fizera seu noviciado na política – a política real, a política nua e crua, a política do dia a dia, e não a política das intenções fantasiosas e dos propósitos elevados que ele queria encarnar.

A derrota o aliviava. Não precisa nutrir mais nenhuma ilusão eleitoral. De fato, nunca mais se candidatou a nada. Sem deixar de se interessar pela política, renunciou ao que a política tinha de mais interesseiro. A desilusão o curou.

Ilusão, aventura – são palavras que combinam com sua decisão de se candidatar em 1986. Ele não era homem de partido, achou que poderia ganhar passando, com seu inegável carisma, por cima das estruturas partidárias. Acabou tendo de ser acertar – ao pé da letra – com o marotíssimo PTB. Bancou a sua própria campanha e a do próprio partido.

Seu lançamento provocou um tsunami. As pesquisas, de cara, sugeriam uma eleição fácil. O adversário mais forte era o vice-governador Orestes Quércia, do PMDB. Setores do PMDB atritados com Quércia – o governador Franco Montoro, Fernando Henrique, José Serra, Roberto Gusmão, enfim, o núcleo que iria poucos anos depois romper com o PMDB e lançar o PSDB – apoiavam Antonio Ermírio por baixo do pano.

Mas 1986 foi um ano peculiar e as eleições acabariam por confirmar isso. Houve a miragem do Plano Cruzado, o fenômeno mobilizador dos "fiscais dos Sarney", o desabastecimento, o ágio e a oratória enganosa de Quércia de que, para abastecer as mesas das família, iria "buscar o boi no pasto". Quércia venceu com folga.

Dr. Antonio já trazia de família o sabor amargo da política. Seu pai, José Ermírio, fora senador da República. Sofreu impiedosamente a chantagem do jornalista Assis Chateaubriand, o Chatô, notório achacador. O filho sabia o quanto o pai sofrera. Mas aquele cacoete messiânico do DNA nordestino ainda assim açulou seu sonho eleitoral de 1986. Felizmente, o surto passou rápido.

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18 ago as 09h00

 A dignidade sofrida de Renata Campos

Já tinham comentado comigo que Renata, viúva do Eduardo Campos, é daquelas mulheres que, aos 47 anos, ostenta galhardamente os seus cabelos grisalhos, sem nenhuma tintura, como estandarte de uma maturidade altiva e sem deslumbramento. Ela confia – dá para imaginar – na afirmação de sua beleza serena.

Eu a observei, ontem, no velório e durante o enterro do marido, engolfada nos abraços, os sinceramente chorosos e os meramente protocolares, sempre investida de uma dignidade sofrida. Cabe a ela agora, além de experimentar o sabor amargo da perda, o desafio de cimentar uma família de cinco filhos – um deles de menos de um ano – sem a presença do pai. Eu a observei e notei nela uma guerreira.

Se quiser, a política estará de braços abertos para ela. Já até cogitaram vê-la de vice na chapa agora encabeçada por Marina Silva. Não acredito. Ainda que venha a se empenhar na campanha, Renata vai viver seu luto. De mais a mais, se é para manter os desígnios dinásticos da família na política, que vêm desde Miguel Arraes, avô de Eduardo Campos, que seja por outra pessoa.

O filho mais velho de Eduardo, João Henrique, já demonstrou que tem jeito, vontade e carisma para a vida pública. É o sucessor natural do pai.

 

 

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13 ago as 15h12

A tragédia que matou o candidato é do tipo duplamente triste e chorosa, porque lembra o clássico "novo demais para morrer".

Eduardo Campos, 49 anos, não era astro do rock mas tinha um jeito pop. Aquela linguagem corporal, os olhos claros, o discurso de modernidade, contrariando sua origem clânica que poderia ter feito dele um coronelzinho nordestino.

O clã Arraes – de seu avô, Miguel – veio da esquerda e a campanha o estava empurrando para a direita, como contraponto a Dilma Rousseff, mas as pesquisas mostravam que o novo Eduardo Campos ainda não tinha convencido os eleitores.

A bandeira anti-Dilma, o eleitorado via muito mais nas mãos de Aécio Neves.

O cenário eleitoral vai ser chacoalhado, é claro. A perplexidade deve interromper a campanha por algum tempo. A política há de fazer o conveniente luto. Vai dar um tempo.

Claro que as aves do infausto e do agouro irão se fartar com a tragédia. O Facebook já se excitou. Teorias conspiratórias irão pipocar. As redes sociais não têm limite para as besteiras, os absurdos, o desrespeito.

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11 ago as 13h04

Armínio Fraga – aquele dos juros a 45% quando era presidente do Banco Central de FHC – anda dissertando por aí já a bordo das atribuições de futuro ministro da Fazenda.

É no mínimo prematuro. Ainda falta combinar com os russos – quer dizer, com a búlgara. Dilma Rousseff teima em se reeleger e está à frente nas pesquisas. Não está nos planos dela aproveitar o ex-consultor de George Soros, o homem que quase quebrou o Banco da Inglaterra.

Com aquele figurino casual de quem acabou de chegar da mesa de um fundo de investimento de Wall Street, Armínio deu uma longa entrevista ao Estadão de domingo em que promete, ao chegar ao governo, um tremendo choque fiscal.

Ele acha que são os impostos que impedem o Brasil de crescer o que devia crescer.

Falar que se paga imposto demais no Brasil é uma conversa que soa como música aos ouvidos dos empresários – dos que pagam impostos mas também daqueles que sistematicamente sonegam.

Armínio tem dito aos amigos da roleta financeira que já é ministro. Ministro tipo 2 em 1. Se Aécio for presidente; e também se Eduardo Campos viesse a ser escolhido. Fala com todas as letras e com orgulho de ungido pelos deuses do mercado. Conhece de cor e salteado o catecismo neoliberal – aquele que quebrou o mnundo em 2008.

Eu, por ele, iria me precaver. Sei que Aécio anda com Armínio a tiracolo toda vez que tem de se exibir junto aos magnatas do capital. Esses aí a-do-ram o Armínio, apesar de suas sucessivas tentativas, ao lado do arrumadinho Pedro Malan, de atrelar a economia brasileira à pior das recessões. Vá entender esses capitalistas, se é que capitalistas são.

Bem, o Aécio sinaliza que Armínio seria o czar da Economia. Sinaliza ou simula? O avô e mentor de Aécio passeou muito junto com Olavo Satúbal nessas veredas dos endinheirados de São Paulo quando precisava do apoio deles para a vitória no Colégio Eleitoral – e, na prática, para encerrar o regime ditatorial que as Fiesps da vida tão entusiasticamente apoiavam.

Todo mundo ficou com a impressão de que o dr. Olavo seria o Ministro da Fazenda – inclusive o próprio dr. Olavo. Na verdade, Tancredo Neves era sabido demais para botar a raposa – um banqueiro – cuidando do galinheiro – o Tesouro. Nomeou o sobrinho, Chico Dornelles.

Vamos deixar que o Armínio se iluda.  E, com eles, os gananciosos da ciranda do dinheiro.

Rico, no Brasil, odeia, por princípio, pagar imposto. A impressão que tenho é que já os pobres apenas gostariam, com serena razão, que os tributos fossem melhor investidos.

Tributos foram criados no passado remoto da humanidade para que monarcas e nobres expoliassem a riqueza produzida pelos camponeses para custear suas guerras e seus banquetes suntuários.

Depois, na democracia moderna, os impostos passaram a ter um papel social, tímida distribuição de renda, de forma a que o Estado possa prover serviços básicos em prol dos menos favorecidos. A Bolsa Família, por exemplo. Os neoliberais da estirpe do Armínio têm urticária quando ouvem falar de programas como esse.

Não dá para desqualificar o princípio distributivista se a prática administrativa é imperfeita. Que se aprimore a gestão, isso sim; que a transparência nos gastos seja total; que a população tenha noção de onde e como os impostos são gastos.

O que Armínio e a patota dos especuladores querem é retroceder à Idade Média, talvez ao tempo dos faraós. Penalizar os pobres – sempre. E desonerar os ricos – o tempo todo. Afinal, que jeito melhor do que esse para, a pretexto de oxigenar a economia, pagar a conta do bacanal dos privilegiados?

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30 jul as 20h26

10441117 10152361928386638 2285307368251461202 n No caso da dívida, tem muita gente torcendo contra a Argentina

Se há alguém sendo intransigente, irracional e intolerante na questão da dívida que a Argentina tem com alguns investidores americanos, esse alguém não é o governo de Cristina Kirchner.

O ministro Axel Kicilloff passou o dia de hoje em Nova York tentando evitar o default marcado para a meia–noite de hoje. Está aberto ao diálogo e à conciliação.

A princípio, é o que vai acontecer, se a Argentina não depositar o 1,3 bilhão de dólares que os "fundos abutres" exigem (os credores que não aceitaram a renegociação da dívida depois da moratória unilateral de 2002).

Kicillof tem um passado trotskista e Cristina carrega a fama de uma nacionalista desmiolada. Mas o governo de Buenos Aires está se comportando de forma exemplar neste episódio. Tenta negociar com responsabilidade e até conseguiu a cumplicidade (em geral, relutante, desta vez, espontânea) dos banqueiros locais, que até decidiram emprestar algumas centenas de milhões de dólares como caução contra o default.

O FMI, as prestimosas agências de avaliação de risco e a imprensa oligárquica da Latinoamérica – aquela que se comporta como se morasse em Miami – esfregam as mãos de alegria diante da infelicidade dos hermanos.

Torcem para a desgraça deles e apoiam um certo juiz Griesa, de uma corte subalterna de Manhattan, que tem rejeitado até agora todas as tentativas de negociação por parte do governo argentino.

Foi esse Griesa quem decretou a pena capital para a Argentina.

Deve estar exibindo, naquela mesa gulosa do 21 Club da Rua 52, diante do robusto hambúrguer de 30 dólares, seu orgulho de quebrar um país inteiro.

Já se foi o tempo em que a Justiça americana apenas queria ser justa. Assim como aqui, tem muito magistrado lá louco por um holofote.

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23 jul as 18h15

ariano suassuna hosp 370 Ariano era nordestino, com orgulho, com alegria

Ariano Suassuna tinha a têmpera do cangaceiro, cabra valente, madeira de dar em doido. E a doçura do palhaço, brincalhão, espalhafatoso como um Arlequim da Commedia dell'Arte que viesse a dar com seus costados em alguma trupe mambembe e itinerante do sertão nordestino.

Uma vez assisti uma de suas palestras. Ele as chamava de aula-show. Inesquecível: aquele homenzarrão esguio, fino como o tronco da aroeira, misturava erudição e cantoria, poesia clássica com improviso de cordel, a Idade Média dos menestréis da Provença com o xote arretado da Feira de Caruaru.

Com ginga de saltimbanco, Ariano fazia da cultura um espetáculo popular. Tinha orgulho de suas raízes e extraiu delas a seiva de sua escrita.

Nasceu paraibano, virou pernambucano. Era basicamente nordestino e – desafiando o preconceito idiota do Sul Maravilha – ser nordestino para ele nunca foi vergonha, entrave, sobressalto. Era um desafio que ele transformou em arte.

O teatro, onde começou, desviando-se do equivocado ofício da advocacia, nunca saiu de dentro dele. Foi um comediante, no sentido amplo da palavra. Mesmo quando enveredava pela alta literatura, era como se estivesse fazendo travessuras no palco.

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18 jul as 14h42

ok1 João Ubaldo levava a literatura a sério. Ele mesmo, nem um pouco

João Ubaldo era um sujeito que tinha a virtude de não se levar a sério. A literatura, sim – ele a fazia com labor minucioso de tecelão, simulando uma facilidade debochada e desbocada de folhetim popular que, no entanto, tinha muito de conhecimento e de erudição por trás de cada frase, de cada parágrafo.

Ele lia Goethe e Thomas Mann no original.

Ironizava, com carinho, a síndrome palavrosa dos baianos, aquela vocação bacharelesca que, de repente, assoma até mesmo em talentos privilegiados (e aqui penso no Caetano e no Gil).

João Ubaldo foi um escritor tão grande que às vezes me perguntava – e ele próprio, com certeza, devia se perguntar – o que fazia ali aquele cenáculo de nulidades literárias que é a Academia Brasileira de Letras.

Um homem de paixões – na vida, na escrita, na política.

Lembro aqui um episódio que define o tamanho de seu coração. Ele e o jornalista Tarso de Castro, que também já se foi, almoçavam num restaurante bem frequentado dos Jardins, em São Paulo, quando receberam a notícia da morte de Glauber Rocha, em Portugal.

Jogaram-se nos braços um do outro, aos prantos. Ficaram horas ali se acariciando, consolando a perda irreparável do gênio do Cinema Novo.

Um freguês se levantou indignado, recolheu a família e partiu, reclamando aos berros que não frequentava redutos de maricas e de homossexuais.

Do choro, a dupla abriu-se em gargalhada estrepitosa. Pena que eu não acredite, mas de todo modo fico aqui na torcida de que João Ubaldo possa se encontrar agora com o Gláuber e com o Tarso para muitas gargalhadas e muitos carinhos.

 

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18 jul as 03h00

O anunciado apagão aéreo – aquele que iria transformar os nossos aeroportos em míseras rodoviárias, voos atrasados, filas quilométricas, guichês entupidos, passageiros dormindo pelos cantos como se estivessem num campo de refugiados do Oriente Médio – bem, o caos que as hienas agourentas alegremente alardeavam não aconteceu.

O editor da Folha, que vaticinou em manchete a vitória no campo e a derota fora dele, comporta-se agora com a mesma cara-dura da CBF. Não quer pagar o preço de seu próprio fracasso.

Eu me apego ao tema aeroporto e me pergunto por que é que, na hora de maior fluxo de passageiros, o sistema funcionou excepcionalmente bem. Por que é que na normalidade é que dá errado?

O milhão de turistas, nativos e estrangeiros, que se deslocou pelo país durante a Copa não fazia parte, aposto eu, daquela turma do Tiffany & Burberry. Eram seres humanos razoavelmente normais, desses que respeitam a fila e não se entreolham com aquele desdém superior de quem está pensando: "O que esta ralé vem fazer no meu avião?"

A bagunça, a balbúrdia, a confusão – está agora explicado – não vem da galera do futebol ou do andar de baixo da sociedade e, sim, daquela gente espaçosa e mal humorada que tenta viajar com quinze valises e quatro malas de mão, a garotada mimosa e mimada que atropela os demais passageiros com aqueles descomunais bichos de pelúcia comprados em Orlando e Miami, enfim, o tropel arrogante dos privilegiados sempre tão irritados em ver que seu privilégio vale cada vez menos.

Essa elitizinha indigente que foi aos estádios fazer selfies e promover grosserias tentou insistentemente convencer – e a mídia pressurosa, servil, logo acatou o argumento – que são os pobres que causam o colapso dos aeroportos. Por vontade deles, as autoridades competentes teriam de impor de imediato um apartheid social.

A Copa provou que os ricos e os que simulam ser ricos é que são os pais da mixórdia e da desordem.

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16 jul as 12h50

É hora de trocar, e olhem que eu não falo aqui nem do Felipão – que já vai tarde – nem da clique da CDF.

Quero sugerir outra troca. Explico já.

O Datafolha, a quem não se pode acusar de simpatia pela Copa (a nave-mãe, o jornal, comandou o coro das hienas agourentas), diz que 83% dos estrangeiros que vieram para a Copa acharam a organização ótima e boa. Somamos os 12% para quem a organização foi classificada de regular, dá 95% de visão positiva da Copa.

Outros ítens para açular ainda mais o rancor do cri-cris:

Conforto nos estádios – 92% de ótimo e bom; mais 5% de regular.

Segurança nos estádios – 92% de ótimo e bom; 5% regular.

Mas os estádios não iam ruir no embalo da primeira hola? Como é que os visitantes não perceberam as tais vigas e os vergalhões que iriam empalar – insistiam os jornalões – os distraídos torcedores? Onde estavam os sinistros assaltantes que, ocultos nos cruzamento escuros, iriam assaltar, roubar, estuprar, trucidar os turistas desavisados?

A tragédia perseverantemente manufaturada, com fins eleitorais, pela mídia do privilégio, não aconteceu. Quem queria guerra, encontrou amor.

Muita gente chegou a acreditar na uruca apregoada pelas cassandras midiáticas. Volto ao Datafolha pré-Copa. Publicado no dia 24 de março, menos de três meses antes do pontapé inicial da Copa. O resultado é altamente didático.

Com base na pesquisa, a Folha festejava que 54% dos brasileiros faziam "alguma ressalva" em relação ao que iria acontecer nos estádios e nos entornos. 24% acreditavam que a organização da Copa seria ruim ou péssima; e 30% acreditavam que ele seria regular.

Os confiantes do bom eram 33% e os otimistas do ótimo,13%.

turistas Troco os brasileiros cri cris pelos estrangeiros que vieram para a Copa

Com a malícia de eterna rabugenta, a Folha fazia questão que os crentes de boa fé se situavam basicamente entre os mais pobres, os menos escolarizados e moravam no Norte, Nordeste e no Centro-Oeste.

Os mais céticos eram os com-dinheiro e, eventualmente, com-jatinho do Sudeste. Quando convidados a declinar seu simpatia partidária, confessavam – surpresa! – votar no PSDB.

A Copa não correspondeu aos terríveis presságios dos coxinhas. A torcida deles não era pelo futebol, era pelo desastre fora do gramado.

Os estrangeiros, dispensados de tomar partido na eleição de outubro, vieram se divertir e, aparentemente, pelo que diz o Datafolha, divertiram-se mais do que se podia imaginar.

Alguém pode dizer: é, mas não tiveram de entrar na fila do SUS, pegar o Penha-Lapa na hora do rush. Os cri-cris – como atesta o revelador Datafolha – também não.

Os que reclamam são os que não têm nada a reclamar. Os que têm a reclamar reclamam no guichê certo. A Copa convidava à diversão. Divertiram-se, dentro do possível (a ressalva tem a ver com o Felipão, vocês sabem). Era para ser um entretenimento, como um show de música, o churrasco na laje, a pelada entre amigos.

Volto ao meu tema: a troca.

Poponho que a gente mande para Miami e para Orlando todos aqueles brasileiros de maus bofes, a turma azeda do Datafolha, e traga de volta a alegria dos estrangeiros que souberam adorar um espetáculo realmente adorável.

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