17 nov as 14h50

Imagino o que teria acontecido à galera do MST ou dos trabalhadores sem teto se decidisse invadir o Congresso, ocupar o plenário, ameaçar os parlamentares e entrar em conflitos com os seguranças.

Sairiam dali direto para o presídio da Papuda. Se é que não seriam executados sumariamente no caminho.

Mas, não: os analfabetos políticos que promoveram a baderna para pedir intervenção militar contra “o comunismo” têm costas largas na casa e fora dela. São adeptos do deputado Jair Bolsonaro e têm o juiz Sergio Moro como ídolo.

Arregimentaram-se on line e a Polícia Federal do ministro Moraes – que rastreou na rede e ainda mantêm em cárcere uns pobres diabos acusados de serem perigosos terroristas islâmicos – não se incomodou com a movimentação do protofascistas.

Usam um espaço democrático para por em andamento um projeto antidemocrático. Mas parte da mídia e da opinião pública prefere tratar esses lunáticos como um folclore inofensivo – e não como o perigo que de fato representam.

Tem gente rindo dos paspalhões, assim como em 1923 a Alemanha mais ilustrada riu daqueles bufões que tentaram, numa cervejaria de Munique, sob o comando de um nervosinho cabo austríaco, dar um golpe de Estado.

A Justiça, lá como aqui, não gosta de incomodar o status quo – mesmo quando ele se apresenta em sua forma mais agressiva e caricata.

Hitler foi preso e logo libertado. Onze anos depois, estava no poder.

Os arruaceiros de Brasília, que pedem o fechamento do Congresso, parece já terem o seu Duce – e, aí, as camisas pretas do magistrado de Curitiba fazem todo o sentido.

Seria bom que o juiz Sergio Moro dissesse se tal tipo de, bem, homenagem o constrange ou se o deixa feliz da vida.

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09 nov as 11h17

É um narcisista tóxico, perigoso, disse de Donald Trump o glorioso Bruce Springsteen. Não há definição melhor para a criatura.

Exibicionista, egocêntrico, misógino, racista, islamofóbico – a lista de defeitos do presidente eleito dos Estados Unidos é enorme. De virtude, tem uma: acreditar em si mesmo. Ou pelo menos fingir que acredita. E conseguiu convencer a maioria dos americanos disso.

Jogou a cartada do “antipolítico”, ou “apolítico”, ou “anti-Establishment”, ele que é mais Establishment do que ninguém. Está dando certo, e não só na América – na Europa e em terras tropicais.

Foi, sim, uma derrota pessoal de Hillary Clinton, que jamais conseguiu convencer o eleitorado de sua sinceridade. Mas não é o que explica a vitória do magnata.

Trump tem ódio dos imigrantes latinos – e muitos deles votaram nele. Despreza os negros – e os negros não o rejeitaram. É um machista agressivo – e as mulheres se encantaram com sua grosseria.

Sabia-se que ele iria vencer naqueles Estados da capiauzada do Meio-Oeste, aqueles Kentucky, Tennessee ansiosos por acreditarem no “Vamos fazer a América grande de novo”, dos americanos que só olham para o próprio umbigo, mas a retórica vazia de Trump, de patacoadas patrióticas e dos delírios de grandeza, iludiu além do que se esperava que iludisse.

É a volta à Idade Média a bordo de um empresário ignorante e tosco que se faz de avançado.

Lembro Barbara Tuchman, que descreveu certos momentos da História em que nações inteiras, tomados de insensatez, atentam contra seus próprios interesses.

Achando que era um presente dos céus, a América levou o cavalo de Tróia para dentro de suas muralhas.

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27 out as 19h34

O Brasil conheceu esta semana, na figurinha frágil, chorosa mas convicta de uma menina de 16 anos, um comovente motivo de ter esperança no futuro.

Ana Júlia Ribeiro confrontou aqueles engravatados e mal-encarados deputados da Assembleia Legislativa do Paraná para explicar a eles porque os secundaristas do Estado – e, agora, pelo Brasil afora – estão ocupando suas escolas.

A garota começou com uma pergunta óbvia mas cortante: afinal, a quem pertencem as escolas? Por que, então, chamar aquele movimento de baderna?

Por dez minutos, Ana Julia fez engolir em seco aquele rebotalho da velha, velhíssima política num pedaço do  Paraná que parece sonhar com o IV Reich.

Velha política que, arriscando-se a uma comparação arriscada, se manifestou pela voz do presidente da, digamos, casa, um Ademar Traiano.

Ilustre desconhecido no Brasil, embora seja dono de sete mandatos estaduais no Paraná, Traiano, do PSDB, quis censurar a menina com a arrogância típica dos truculentos, dos reacionários e dos machistas.

De repente, graças às redes sociais, Sua Senhoria obteve seus 15 minutos de fama. Ao frescor juvenil, honesto, franco, corajoso de Ana Julia, contrapunha-se o ridículo porta-voz do passado.

Fico imaginando o massacre midiático que Ana Júlia irá sofrer, por parte dos escribas de aluguel. Na idade dela, Joana d’Arc também apanhou muito da Inquisição , dos ingleses invasores e do status quo dos franceses traíras.

Ana Julia e sua geração não têm sonhos de heroísmo nem de santidade. Só pretendem um pouquinho de justiça e de bom senso num país que aderiu definitivamente à marcha da insensatez.

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13 out as 14h08

bobdylan xl Bem que eu previ: Nobel para Dylan

No dia 4 de outubro de 2011, quando a Academia Sueca se preparava para anunciar o Nobel de Literatura, este blogueiro arriscou um palpite improvável.

O título do post era: O Nobel de Literatura vem aí. Meu candidato é… Esta é a foto que o ilustrava.

Desculpem aí, mas experimentei hoje o raro desfrute de me sentir meio profeta.

Aí está, de novo:

O Prêmio Nobel de Literatura vai ser anunciado esta quinta-feira, 6, e as bolsas de apostas da Inglaterra acabam de sugerir uma imponente zebra: Bobby Dylan.

Dylan disparou de repente nas cotações dos apostadores e subiu para quarto lugar, atrás de três dos favoritos: o poeta sírio Adonis, o poeta sueco Tomas Tranströmer e o novelista japonês Haruki Murakami.

Se este é mesmo o ano da poesia, chegou a hora de agraciar a inspiração superior de um gênio musical que criou versos como:

“Então me faça desaparecer através dos anéis de fogo de minha mente,

Abaixo das ruínas nebulosas do tempo, passando ao longe das folhas congeladas,

O assombro, árvores assustadoras, para fora da praia ventosa,

Longe do alcance distorcido da tristeza insana.

Sim, para dançar sob o céu de diamantes com uma mão acenando livremente,

Em silhueta para o mar, circulado por areias circulares,

Com toda a memória e destino navegando profundamente abaixo das ondas,

Deixe-me esquecer do hoje até amanhã”

(Mister Tambourine Man)

O problema é que essas premiações costumam ser demasiadamente caretas e preconceituosas para se comoverem com um cantor-compositor – por mais que Dylan seja a coisa mais próxima do sublime e da transcendência que a música pop já produziu.

De mais a mais, a Academia Sueca – que atribui o prêmio – adora uma futrica política e dar o Nobel a um sírio é uma tentação forte demais para passar em branco. A Síria é a bola da vez na Primavera Árabe.

(Se não fosse assim, que sentido encontrar no Nobel da Paz que a Academia Sueca deu a Barack Obama, que conduz duas selvagens guerras no Oriente Médio?)

Dylan está sendo cotado a 10 para 1. Ou seja, se ele ganhar, quem apostou uma libra nele vai receber 10 libras.

Não é a primeira vez que Dylan ronda um prêmio literário. Este ano, foi indicado para o Neustadt International Prize, concedido pela Universidade de Oklahoma (é chamado de “o Nobel americano”). Por pouco, Dylan não botou a mão em 50 mil dólares.

O Nobel dá um pouquinho mais: 1,45 milhão de dólares.

Estou na torcida por Dylan, ainda que seja que inútil.

O único inconveniente de uma vitória do cantor seria agüentar, na festa de premiação, em Estocolmo, a súbita irrupção do senador Eduardo Suplicy, sempre pronto para invadir os melhores ambientes cantando “Blowin’ in the wind”.

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11 out as 16h50

Soube que existe umas entidade chamada Wada pouco antes das Olimpíadas começarem. Ela barrou um expressivo número de atletas russos nos Jogos, acusando-os de turbinarem seu desempenho com substâncias ilícitas.

Até a gloriosa Maria Sharapova o Brasil ficou privado de ver, ao vivo e às cores. A tenista também caiu na malha fina da agência antidoping, que tem sede em Lausanne, assim como o Comitê Olímpico Internacional.

Assistindo ao segundo debate entre Hillary Clinton e Donald Trump, no domingo, fiquei me perguntando se não é o caso da Wada, que se diz independente, entrar em ação na campanha presidencial americana. Assim, pelo menos, poderia eliminar a suspeita de que tem uma agenda de punições que ainda reflete a Guerra Fria.

Sugiro um teste com o Trump.

O carinha bufa, funga, resfolega tanto que está na cara que algum aditivo ele está usando – além, é claro, de se alimentar com sua própria arrogância e sua cara de pau.

A gente sabe que o ego de Trump destila uma substância adiposa capaz de levá-lo a perigosos extremos de mentiras, de deboches e de violências. É um elefante numa loja de cristais. Mas aquela cara de criançola ofendida não é só caso de psiquiatra. Alguma coisa a mais o caricato Trump está botando na sua dieta.

Aliás, caso de psiquiatra são os 44% dos eleitores americanos que, apesar de tudo, ainda pretendem votar no bufão, de acordo com as pesquisas.

http://r7.com/sUAl

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28 set as 14h42

O colunista Jonathan Mahler, do New York Times, acaba de oferecer uma lição memorável para quem não aguenta mais a chatice dos debates eleitorais.

E olha que, no caso dele, era um debate que interessava ao mundo: aquele de segunda à noite, o primeiro confronto cara a cara entre Hillary Clinton e Donald Trump. (80 milhões de telespectadores, só nos EUA, em tevê aberta e a cabo, sem contar a audiência na internet).

Pois bem, o que Mahler fez foi desligar o som.

Sabia que não ia perder nada de mais substancial nas habituais promessas e nas recorrentes superficialidades dos candidatos.

E achou melhor avaliar Hillary e Trump pela linguagem corporal deles. O corpo mente menos do que as palavras.

Conclusão: Hillary ganhou. Estava mais à vontade, foi ficando relax à medida em que o debate avançava. No final, parecia até feliz.

Foi a mesma impressão que ficou para quem teve de ligar o som.

Jonathan acertou mesmo sem ter de ouvir Trump fungando e bufando – atirando totalmente a esmo no discurso sexista, racista e provocador.

Fica aí uma boa sugestão para nós, aqui na Tropicana.

Tire o som.

Vale também para o futebol e lembro aqui o cardeal Arns. Corintiano fanático, D. Paulo sempre adorou assistir a um futebolzinho na tevê. Mas tomava a precaução de cortar a gritaria dos locutores-papagaios e as platitudes dos comentaristas do óbvio.

Tirava o som e botava uma música clássica ao fundo.

Já fiz o mesmo e recomendo. Se bem que no panorama atual do nosso Corinthians a música recomendada passou a ser o Réquiem de Mozart.

http://r7.com/t0NQ

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22 set as 12h50

O circo em que se tornou a Justiça dos sectários no Brasil atingiu esta manhã o requinte de sua parcialidade sádica.

Com trajes e truculência que lembra os SS da Alemanha nazista, policiais da Federal foram buscar o ex-ministro Mantega no hospital onde sua mulher se preparava para ser operada de uma doença cruel.

Depois, o magistrado que comanda o picadeiro lamentou, com cinismo sorridente, “a triste coincidência”.

Esta gente – inebriada pelos holofotes da mídia – ultrapassou qualquer limite de decência e dignidade.

Tanto que me pergunto se não está aí uma jogada de tremenda sutileza conspiratória.

Os recentes episódios – o surto neurastênico do procurador Dallagnol em Curitiba, aquele power point ridículo, a acusação contra Lula “sem provas mas com convicções” – pegaram tão mal junto à opinião pública, constrangeram até mesmo os mais ferozes adversários do PT, que desconfio que se há alguém aí querendo desmoralizar e abafar a Operação Lava-Jato são os seus próprios operadores da Lava-Jato.

Vamos pensar: ao governo que a turma de Curitiba se empenhou em instaurar no poder assusta a possibilidade de que, algum dia, ainda que remotamente, o dr. Sergio Moro e seus balilas decidam investigar e prender gente de fora do alvo único e preferencial, que é o PT.

Digamos que até mesmo a mídia camarada resolva se perguntar porque a PF faz o show da moralidade em cima do ex-ministro Mantega e deixe solto o Eduardo Cunha, o Renan Calheiros, o Romero Jucá e toda aquela tropa do PMDB cleptomaníaco.

Aí estará aberto o caminho para que  os próprios setores conservadores venham a dizer: a Lava-Jato está exagerando. Precisamos discipliná-la. O ministro Geddel Vieira Lima já deu a senha.

Aconchegado nos louvores de ter criminalizado a esquerda e banido Lula da eleição de 2018, Moro poderá ir para casa, com seus balilas, sonhando em ser ele, o candidato a salvador da pátria.

Mais um.

http://r7.com/YXfB

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11 set as 15h45

Não, eu não estava lá naquela manhã mas – vou contar por que – é como se estivesse.

Julia, minha filha, morava no Brooklyn, do lado de lá do East River, e trabalhava no escritório de advocacia da Cleary Gotlieb Steen & Hamilton (os nomes dos escritórios de advocacia nos Estados Unidos!).

O escritório ficava (ainda fica) na One, Liberty Plaza, bem defronte à Torre Norte do World Trade Center, e a Julia chegava diariamente ao trabalho na estação de metrô dentro do WTC.

Nove da manhã ela tinha de estar lá.

A Julia era casada com o Dave, recém-formado em Economia pela Universidade de Rochester, NY, onde se conheceram e onde ela se formou em Ciências Políticas e História.

Eu saí excepcionalmente cedo de casa naquele dia, estava na Praça Buenos Aires quando o celular tocou. Era a Julia: “Pai, aconteceu alguma tragédia downtown, o Dave me ligou e recomendou que eu ficasse em casa”.

Dave era broker, passava o dia vendendo papéis da Bolsa pelo telefone para viúvas do Kentucky e aposentados do Maine. Pegava cedo: sete da manhã já estava no escritório, ali nas vizinhanças de Wall Street.

Teve a sabedoria de avisar a Julia, que, santa providência, me avisou imediatamente. Ela tinha se atrasado para o trabalho, naquela manhã. Nunca abençoei tanto um atraso.

(Saudade do Dave: caladão, tímido, só estudou porque entrou pro Marine Corps e ali teve de sofrer as agruras do serviço militar à americana, mas em compensação sabia trocar um pneu com uma eficiência impar, do que deu provas no dia em que o pneu do meu carro furou na Marginal do Tietê quando os levávamos para pegar o avião em Guarulhos)

(Saudade do Dave: nunca mais o vi mas a Julia, sim, anos depois da separação, e comentou que ele parecia bem, feliz, mais solto, tanto que – maldade de ex-mulher – vestia uma camisa social abóbora e uma gravata pink).

Bem, voltei para casa e poucos minutos depois as comunicações com Nova York – com todos os Estados Unidos – entraram em colapso. Eu teria surtado, sem aquele telefonema da Julia.

Soube depois que, preocupada com o Dave, a Julia tentou se reunir a ele mas aquela altura o metrô não funcionava mais, o transporte terrestre estava igualmente bloqueado.

Naquele dia estranho, como que enevoado por uma neblina de incredulidade e um véu de surpresa, eu tinha de ir para Brasília, a trabalho. Final da tarde, quando cheguei lá, dividi um táxi até o Congresso com o então deputado federal e ex-governador Luís António Fleury. O assunto era, natural, o ataque às torres gêmeas. Foi quando tocou o celular: era o Dave. Pedi licença para atender. Dave me contou que estava bem, tinha acabado de chegar em casa, atravessando a pé a ponte do Brooklyn, coberto pelo pó que a destruição levantara e contaminava todo o ambiente do sul da ilha de Manhattan.

A boa notícia. A má: já tinha recebido dos Marines a convocação para se apresentar no quartel. Colegas dele já estavam no avião a caminho de Diego Garcia, uma ilha do Mar índico onde os Estados Unidos têm uma importante base. “Você vai?” – perguntei. “Ainda não sei” – respondeu.

Fiquei imaginando o que um menino como aquele, meio capiau da Pensilvânia, o último de uma prole de onze filhos numa família religiosa, poderia fazer para vingar a América nunca guerra que já se adivinhava inevitável. Felizmente, o Dave não foi.

Naquela noite, a CNN informou que o prédio One, LIberty Plaza estava também condenado. Temi pelo emprego da Julia – o que hoje parece terrivelmente egoísta e mesquinho diante do tamanho da tragédia.

Mas pai é assim, né não?

A Cleary deu três dias de folga (trégua?) aos seus funcionários mas logo os realocou numa rede de pequenos escritórios no miolo e ao norte de Manhattan. O idiota do Bush tinha dito: “Amanhã, business as usual”. Mas esta é a linguagem que os americanos, mesmo quando moralmente e mortalmente feridos, entendem.

A Julia, do outro lado do rio, pegou a histórica câmera Nikon F2A que eu tinha dado a ela quando foi para a faculdade em Rochester – terra da Kodak Eastman e da Bausch & Lomb – e conseguiu fotografar as duas torres fumegando, ainda de pé.

Fotos que a história – e a memória – jamais irão apagar.

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31 ago as 13h46

 

 Dilma foi cassada 112 dias atrás

Desde que o Senado disse sim ao processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, 112 dias atrás, o destino dela estava selado.

O que acaba de acontecer, hoje, é o desfecho de um longo, cansativo, às vezes violento, quase sempre caricato jogo de cena.

Apenas e tão somente um pretexto para que os senadores pudessem banhar nas luzes da ribalta seu incontrolável exibicionismo e sua verve de parlapatões.

Panelas e paneleiros já tinham se recolhido faz tempo ao seu silêncio meio constrangido.

De todo modo, o Senado precisava, no rito coreográfico que não viu o conteúdo, e sim a forma, as filigranas jurídicas, legitimar a encenação.

A decisão estava tomada, nunca um único parlamentar pró-impeachment se empenhou verdadeiramente em ouvir e refletir sobre o que estava sendo exaustivamente dito pela defesa de Dilma. E vice-versa.

As “pedaladas” eram só pretexto, sabidamente – o julgamento sempre foi político.

Quando o senador Aécio Neves, o derrotado que venceu, culpou a ex-presidente pelos 12 milhões de desempregados, ele reconhecia o que outros só admitiam em pensamento: era o governo Dilma que estava sendo julgado, não algum crime por ela cometido.

Dilma, por sua vez, acabou conferindo uma involuntária razoabilidade ao processo enviesado ao se oferecer a encarar as feras – e apresentar sua defesa, cara a cara com os inimigos, com base em argumentos de razão.

A razão não é o forte daquela gente.

Curiosamente, Dilma arranhou um argumento que, à frente daquelas figuras, fazia todo o sentido: ela estava sendo condenada porque não aceitou fazer o varejinho de favorecimentos ao qual os impolutos senadores estão tão acostumados.

Fernando Collor, que renunciou para não sofrer o impeachment e que desta vez votou pelo impeachment, concordou: Dilma não soube fazer política, ela se fechou e não escutou os reclamos da corporação. É a mais cristalina verdade.

Por outro lado, é verdade que Dilma – assim como Lula – ficou no meio da caminho. Faltou-lhes a coragem de confrontar o privilégio, como o PT prometia. O PT fez igual aos outros. O Brasil que poderia ter sido não é – e nem será.

O ministro Ricardo Lewandowski forneceu, com sua expressão de bacharel infiltrado no bordel, o adereço que faltava ao vaudeville. Vai ficar marcado para a História como a cara do impeachment de Dilma Rousseff. Tenho dúvidas se, para ele, isso é bom ou se é mau.

http://r7.com/Kx77

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29 ago as 12h00

O Brasil que a eleição presidencial partiu ao meio em 2014 entra nesta última semana de agosto com a certeza agourenta de que continuará dividido – para pior.

O impeachment só agrava o fosso entre as duas metades. O processo final, com enredo de farsa com desfecho já sabido, faz sangrar as cicatrizes abertas para sempre.

Pelo menos o Brasil malemolente, malandrinho, esquivo e complacente teve de tomar partido e todo mundo pôde escolher de que lado está.

Se do lado do FHC ou do Lula, do Lobão ou do Chico Buarque, da Suzana Vieira ou da Letícia Sabatella, do Bolsonaro ou da Jandira Feghali, da Marta Suplicy ou do Eduardo Suplicy, do Ruy Castro ou do Fernando Morais, do Kim Kataguiri ou do Gregório Duvivier, da Veja ou da Carta Capital, do Renan Calheiros ou da Katia Abreu, do Eduardo Cunha ou do Marcelo Freixo...

Xiii, esquecemos o Eduardo Cunha, não é mesmo? Na barafunda daquele palavrório inócuo e bacharelesco do processo do impeachment, presidido pelo decorativo Ricardo Lewandowski com empáfia caricata de personagem de Molière, os senhores parlamentares trataram de jogar para debaixo do tapete aquele que, notoriamente corrupto e extraordinariamente corruptor, desencadeou tudo isso.

Eduardo Cunha, ao final das contas, merecerá de seus pares e cúmplices a benesse do perdão pelas contas

na Suiça, pelas mentiras deslavadas, pelas propinas infinitas. Com o aval dos xerifes de um olho só e dos impolutos justiceiros do STF.

Injustiça o Eduardo Cunha não poder estar ao lado de seus parceiros neste momento de forró canarinho.

Mas até periga receber das Forças Armadas, por seu decisivo papel no impeachment, aquela mesma medalha com a qual foi premiado, no Dia do Exército, o juiz Sergio Moro.

Há quem acredite que esta semana abrirá uma era de promissão e prosperidade, com chuva de maná sobre nossas cabeças.

Temo que não seja bem isso que vai acontecer. Para os crédulos de hoje há sempre a alternativa de, amanhã, se abrigar de novo no aconchego daquilo em que o brasileiro se especializou: a queixa, a reclamação, a ranzinzice.

Quando a realidade se impuser, categórica, inescapável, todo mundo terá o prazer de resmungar nas filas, nos supermercados, diante das câmeras dos telejornais, chorões por inteiro, cidadãos pela metade.

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