28 fev as 13h28

Em escala menor, o hollywoodiano plano de fuga do hipertraficante Marcola, aliás, Marco Camacho, do presídio de segurança máxima de Presidente Venceslau, em São Paulo, lembra o do também traficante Escadinha, no RG José Carlos dos Reis Encina, do presídio da Ilha Grande, nos anos 80.

A escala é menor, repito: o que o Escadinha tramou não chegava aos pés da operação arquitetada pelos cúmplices de Marcola, com a ambiciosa marca registrada do PCC.

O tráfico dos anos 70 e 80, comparado com o aparato logístico do PCC, é como comparar o 14 Bis de Santos Dumont com um Boeing 777.

Outra diferença é que o Escadinha foi bem sucedido. Marcola e o PCC foram flagrados no pulo.

Perto do Marcola, o Escadinha era quase um ladrão de galinha. Traficante, sim, no Morro do Juramento, no subúrbio de Vicente Carvalho, Zona Norte do Rio.

Era da "comunidade" e exercia no território esquecido pelo poder público um poder paralelo que lhe rendeu a mística de Robin Hood, como um daqueles bandidos romantizados de que fala o historiador Eric Hobsbawn.

Atendia os mais carentes e administrava uma espécie de seguridade social que não deixava um só velhinho doente do Juramento sem atendimento médico. Até festas de casamento eram pagas por ele.

Claro que fazia tudo isso com o dinheiro sujo do crime.

Preso e condenado, foi parar na Ilha Grande. Para lá a República gostava de mandar os dissidentes, nos interregnos ditatoriais de Vargas e, depois, dos militares de 64. Graciliano Ramos construiu em torno do cenário ambíguo de terror e de beleza o emocionante Memórias do Cárcere. Luis Carlos Prestes também foi hóspede involuntário, assim como Fernando Gabeira, este já inquilino da ditadura fardada.

A fuga do Escadinha ocorreu num 1o de janeiro de 1986. Foi resgatado, lá dentro do presídio, por um helicóptero, em façanha digna de cinema.

Preso de novo, morreu metralhado em 2004 quando saía do presídio em Bangu para trabalhar (estava em regime semiaberto). Até hoje a polícia não descobriu os assassinos.

Desmoralizado pela fuga do Escadinha, o presidio da Ilha Grande acabou implodido tempos depois, mas prédios ligados a ele e o portal onde se lia “Colônia Penal Candido Mendes” continuam lá para contar a história – ou parte dela.

Dá para visitar, pegando uma trilha que sai da Vila do Abraão ou por outra, mais selvagem, e deslumbrante, a partir da praia de Parnaoica.

(Enquanto escrevia isso aqui, fiquei intrigado com o nome do Marcola: Marco Camacho. Se Marco Camacho, com tal nome, não fosse um traficante, o que mais ele haveria de ser?)

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27 fev as 12h19

O tremendo ator que se esconde no ministro Joaquim Barbosa – o melhor Rei Lear com o qual William Shakespeare teria sonhado – tem a chance da vida de concluir, com o que os experts chamam de “coup de théâtre”, sua importante atuação na infindável novela do mensalão.

Já que o Supremo Tribunal, que Barbosa preside, acaba de decidir, contrariando os humores do seu condottiere, desclassificar o crime de formação de quadrilha para os réus do PT, imagino um eletrizante the end mais ou menos assim:

Sempre com aquela carranca de quem não está gostando nem um pouco da brincadeira dos outros, Joaquim Barbosa arrancaria sua toga negra, arremessaria-a violentamente sobre aquela cadeira na qual ele jamais se senta e sairia do plenário com passos marciais. Aliás, renunciaria ao STF, rumando direto para a campanha de senador no Rio pelo PSB.

Nem Jânio Quadros – outro desperdiçado talento de comediante – faria melhor.

Barbosa já recebeu o convite e sinalizou, nas entrelinhas, quer dizer, para a Veja, que pode aceitar. Não  precisa temer o veredicto popular. Afinal, toda vez que as pesquisas presidenciais o incluem, ele se sai bem, melhor do que Aécio Neves, muito melhor do que Eduardo Campos – seu futuro patrão.

Anda aí pela faixa dos 17% das intenções de voto. (ainda assim, Dilma ganharia, segundo o Ibope e a Data Folha, no primeiro turno).

Se para a         Presidência Barbosa já seria capaz de dar um calor nos demais, imagina então uma eleição para o Senado, onde ninguém iria  botar em dúvida sua eventual capacidade administrativa, nem mesmo sua habilidade no entendimento político. Ao senador basta ser bom de gogó. A seu jeito, shakespearianamente, Barbosa é um craque nisso.

De mais a mais, senador tem um bom salário, Barbosa não sairia prejudicado na troca, daria para pagar tranquilamente o condomínio daquele apartamento que ele tem em Miami.

O ministro tem até 4 de abril para tomar a decisão. Mas é hoje o dia. O pretexto está dado. É pegar ou largar.

Se vocês estiverem no lugar dele, o que fariam?

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26 fev as 09h15

Na festa com jeitão eleitoral dos 20 anos do Plano Real, ontem, no Congresso, o PSDB voltou a uma de suas ideias fixas: a  tal história do “choque”.

A proposta de agora é o “choque de confiança”. O Brasil estaria precisando de um, repetiram, bem ensaiadinhos, o ex-presidente Fernando Henrique e o candidato a presidente Aécio Neves.

Pelo menos os tucanos desembarcaram, desta vez, do “choque de gestão” que o governador Geraldo Alckmin, por exemplo, e o próprio Aécio não se cansam de repetir (o eleitor um dia há de entender que esse “choque de gestão” não tem nenhuma relação com redes de transmissão elétrica).

De choque em choque, o PSDB vai se arrastando com energia bastante reduzida e novidades bastante rarefeitas.

Vocês precisam conhecer a história de outro “choque” que o PSDB anunciou – nesse caso, há um quarto de século. O hoje mítico “choque de capitalismo” proposto por Mario Covas, candidato a presidente na primeira eleição direta depois da ditadura, em 1989.

O PSDB tinha um ano de vida e já se amarrava num “choque”. Vou contar, tentando ser breve:

Contra o monstro de duas cabeças Brizula, meio Brizola, meio Lula (um dos dois certamente iria para o segundo turno, representando a esquerda), o bloco conservador da mídia e do empresariado estava disposto a qualquer negócio, inclusive apoiar Fernando Collor, que surpreendentemente liderava as pesquisas.

Mas até o assombrado Roberto Marinho, dono da Globo, sabia, no íntimo, que Collor era um arrivista, possivelmente incontrolável, dificilmente manipulável, completamente inconfiável. Um perigo jogar todas as fichas nele – ainda que em prol do mal menor.

Uma megaoperação midiática passou a ser armada para dar visibilidade à ainda tímida candidatura Covas, na esperança de se criar, a alguns meses do pleito, o que se chamou à época “uma terceira onda”.

Mas Covas tinha um probleminha aos olhos da direitona troglô. Trouxe da Constituinte, concluída um ano antes, a fama de “estatizante” e “desenvolvimentista” pela sua atuação como líder da Maioria na batalha contra o chamado “Centrão”.

“Estatizante” e “desenvolvimentista”. Dois pecados imperdoáveis aos olhos do pensamento hegemônico ultraliberal tão bem esposado pelas Organizações Globo (embora o dr. Roberto ficasse uma fera quando vinham experimentar a livre competição própria do capitalismo nas vizinhanças de seu monopólio).

Para sanitizar a imagem de Covas, pensou-se no seguinte: ele voltaria ao Senado por um dia (estava licenciado para fazer a campanha) e pronunciaria uma espécie de discurso-manifesto que o fizesse palatável aos setores mais conservadores, aqueles que, na prática, bancam ou não a eleição de um presidente.

O então senador Fernando Henrique entrou em ação para mobilizar o pool da mídia, que, além da Globo e do Globo, incluía o fiel Estadão e outros grupos simpatizantes como o do Estado de Minas e da RBS gaúcha).

Mas quem de fato orquestrou todo o plano foi Jorge Serpa, tradicional enviado do dr. Roberto ao submundo da política e dos negócios. Serpa foi um conspirador incurável, daí o apropriadíssimo apelido de “Lobisomem”.

Serpa tem pavor de avião. Pegou um táxi para Brasília e preparou o cenário. E deu uma checada final no texto do discurso, escrito a várias mãos (quem também andou por ali, além de FHC, foi José Serra).

Serpa, de formação jornalística, se irritou. O texto era uma obra-prima da tucanagem. Falava, falava e não afirmava nada. “Não tem lide”, reclamou. Ou seja, dali não sairia uma daquelas manchetes trepidantes do Jornal Nacional (estava tudo armado para que Covas e o discurso ficassem dez minutos no ar, em horário nobre).

Foi o Lobisomem quem desengavetou a expressão “choque de capitalismo”. Não era original, fora cunhada por algum economista americano (se não me falha a memória), mas cabia direitinho no estardalhaço a ser promovido pela mídia anti-Brizula.

E por dias não se falou de outra coisa no Brasil senão do “choque de capitalismo” de Covas e do PSDB.

Mario Covas, sujeito de convicções e de princípios, se ressentiu a vida toda de ver um discurso cheio de ideias (insistia, por exemplo, na questão da justiça social e defendia perigosamente a distribuição de renda) ser reduzido a uma só.

A candidatura Covas não avançou e o que se viu foi a debandada alucinada dos que prometiam apoiá-la para os braços de Fernando Collor.

Deu no que deu. Vinte e cinco anos depois, o PSDB, de choque em choque, ainda procura a luz.

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23 fev as 20h34

Busquei nos jornais deste domingo as notícias sobre os anunciados protestos contra a Copa, em São Paulo.

Como estava fora da cidade, fiquei curioso. A menos de quatro meses da abertura, quero avaliar a que ponto manifestações políticas podem vir de fato atrapalhar a vida dos eventos do futebol em junho e julho.

O protesto de sábado, convocado pelas redes sociais, prometia a adesão de multidões. Apareceram os habituais gatos-pingados.

Leio os jornais e fico perplexo: detalhes sobre as eventuais pancadarias, o tal “esquadrão ninja” da Polícia Militar, agressões a jornalistas, prisões de muita gente, vandalismo contra agências bancárias – enfim, nada de novo.

O que era novidade os jornais não contaram: a manifestação contra a Copa foi um fracasso. Queria ver isso escrito – um fracasso. Por que é que os jornais se recusam a estampar essa verdade evidente, tão cristalina?

Mil pessoas estavam no protesto. Na mesma hora, algumas dezenas de milhares caíam no samba. O bloco de homenagem ao Caetano Veloso, Tarado Ni Você, arrastou mais de 20 mil foliões não muito longe dali dos blac blocs tristes e exibicionistas (outros 40 blocos estavam se esbaldando em São Paulo enquanto os frangotes anti-Copa e anti-tudo tentavam emanar a felicidade geral e irrestrita).

A imprensa está exagerando no poder dessa meia-dúzia de inconformados mimadinhos (e, muitas vezes, covardemente violentos). Aos jornais interessa manter esse suspense artificial criado pela minoria insignificante do #NãovaiterCopa. A brincadeira mixou, os jornais fingem perceber que não.

Não fica bem dizer que não vai ter protesto – ou que eles, se ocorrerem, não terão o menor efeito, o menor significado. O bacana é dizer, com ares de sabichão: não sei, não, o pau vai quebrar.

Os jornais se deixam levar pelo culto ao protesto como se fosse uma causa nobre (outros, com a agenda política do golpe, mais fariseus, mais finórios, torcem para bagunçar o País em ano eleitoral).

O que aconteceu em junho de 2013 foi importante. Mas não tem nada a ver com os surtos da atual moléstia infantil do protestismo.

As aves agourentas vaticinaram que os estádios não ficariam prontos – e quase todos já estão. Que a roubalheira iria grassar. Gostaria que me dessem evidências reais – e não aquele lero-lero catastrofista dos taxistas. Profetizou-se o caos. A Copa caminha para se realizar dentro da maior normalidade.

A Copa não vai esconder os duros problemas do Brasil. Tampouco é responsável por eles. A Copa é só a Copa. Melhor relaxar e aproveitar.

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21 fev as 14h21

Há ruas e ruas, praças e praças. A Praça Tahrir, por exemplo, no Cairo – ela acabou por simbolizar todo o mal-estar adormecido nas autocracias da África muçulmana e do Oriente Médio – mal-estar que, de repente, despertou e saiu às ruas, em festa coletiva de cidadania.

A “Primavera Árabe”, é bom lembrar, começou na Tunísia mas foi no Egito que o sonho democrático encorpou e contaminou de esperança todos os que torciam, mesmo à distância, por ele.

Não dá para dizer que o sonho da Praça Tahrir acabou, porque o povo egípcio pelo menos conseguiu saborear a fugaz sensação de que (ainda) pode fazer História.

Derrubou uma ditadura, elegeu um presidente islamita, voltou a sair à rua mas acabou assistindo o triste espetáculo de uma nova ditadura – dessa vez, militar, fardada, sem nenhum disfarce.

Kiev e Caracas têm em comum a mesma sede de uma democracia mais ampla – em alguns casos, até direta – mas o que acontece lá não guarda muita semelhança com a Primavera Árabe.

Bem ou mal, tanto a Ucrânia quanto a Venezuela têm governos legitimamente eleitos por maioria de votos. Na prática, os governantes podem padecer, aqui e ali, de certa tentação autoritária, mas as instituições ainda funcionam (na Ucrânia, chegaram a dar a impressão de que estavam em ruínas, até o pacto acertado hoje de manhã por governo e oposição).

Assim como acontece no Brasil, nem todos os manifestantes que falam em nome da democracia são exatamente democratas.

Na Venezuela, a oposição legalista de Henrique Capriles – aquele que desafiou Nicolas Maduro na última eleição presidencial e deu um calor nele – quer se desvincular de toda maneira da aventura golpista de Leopoldo López.

Na Ucrânia, milícias da ultradireita ao estilo SS participaram dos confrontos sangrentos que só num dia custaram a vida de quase 40 pessoas.

No Rio, em São Paulo, em Caracas, em Kiev, no Cairo, em Istambul, a insubmissão é um jeito legítimo de atropelar a política fazendo política. Desde que não conduza desastrosamente a um regime de exceção. Aí, toda a mobilização perde o sentido.

A propósito, recomendo fortemente o documentário The Square (A Praça), da diretora egípcia Jehane Noujaim. Vai disputar o Oscar e está disponível via Netflix.

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21 fev as 09h02

De sete anos para cá, o consumo de cerveja na Alemanha tem caído ano a ano. Logo lá, o país das frenéticas Oktoberfest repletas de loiras e regadas a loirinhas, ou, sei lá, vice-versa.

Um alemão consome hoje 300 ml de cerveja por dia. Corresponde a uma long neck. Já consumiu 500 ml.

O golpe maior no orgulho patriótico foi ter perdido o segundo lugar no ranking dos países cervejeiros. Para a Áustria, vejam só . Os tchecos, que consomem, por cabeça, num ano,150 litros daquelas suas deliciosas pilsens, lideram disparados.

(O Brasil é o terceiro maior produtor de cerveja do mundo, depois da China e dos Estados Unidos, mas, por cabeça, nosso consumo ainda é modesto em comparação com a Europa. Não chegamos a tomar 60 litros/ano. Ficamos aí pelo 15º. lugar)

Na Alemanha, o fenômeno parece não ter a ver com nenhuma crise. O que os alemães têm deixado de beber em cerveja eles passaram a beber em vinho.

Vocês se sempre daqueles execráveis e adocicados  vinhos alemães da garrafa azul? Pois é, a indústria de vinho na Alemanha superou aquela fase. Aprimorou-se. Produz hoje rielings, silvaners, pinot noirs, pinots gris que não fazem feio em nenhuma mesa.

A associação dos cervejeiros tem esperança de, este ano, virar o jogo. Graças... ao Brasil. Quer dizer, à Copa do Brasil. Eles sabem que cerveja tem tudo a ver com futebol  (em 2006, na Copa que eles organizaram, o consumo explodiu) e estão confiantes. Com a cerveja e com o time.

O Bayern de Munique é campeão do mundo, a Bundesliga é show de bola. Os alemães vêm para a Copa com um timaço. Estão entre os favoritos. Quanto mais tempo durarem na competição, mais cerveja vai rolar.

Nossa obrigação é botar água no chope deles

 

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20 fev as 12h28

A morte de uma miss num país que se orgulha de ser uma usina de misses leva ao altar dos sacrifícios uma nação partida em dois.

Não há de ser Nicolás Maduro quem vai conseguir unir as duas pontas; ou pelo menos estabelecer uma trégua entre elas.

A oposição, menos ainda.

A Venezuela não tem paz à vista.

A moça de nome tristemente irônico – Génesis – estava num protesto da oposição e foi possivelmente vítima de livres-atiradores alinhados com o governo.

Milicianos armados, de ambos os lados, são hoje um dos retratos cruéis do acirramento político no País.

Maduro tenta assegurar a sobrevida do chavismo com mão dura e métodos toscos. Não é um sujeito muito afeito ao diálogo. Desconhece completamente o sentido da palavra finesse.

Mas foi eleito por uma maioria – precária, que seja – na última eleição presidencial. Observadores de entidades internacionais atestaram a lisura do pleito.

Inconformada, a oposição partiu para o confronto. Insatisfeita com a penúria da economia e insuflada desde Miami por figuras sinistras como Roger Noriega, ex-feitor de George W. Bush na sub-Secretaria de Estado para o quintal, o que ela pretende é derrubar Maduro. A isso se chama: golpe.

Henrique Capriles, que disputou a eleição contra Maduro e teve votação impressionante, está aparentemente fora disso. Deixa claro que aposta na via eleitoral e na solução democrática. O setor black bloc da opsicão acusa-o de ter se acovardado.

A Venezuela tem a oligarquia mais atrasada da América Latina – e olha que, se a gente olhar em volta, isso não é pouca coisa. Sempre dominou a mídia, sempre teve o poder financeiro, sempre teve engulhos com o cheiro do povo.

Parte dessa plutocracia trevosa juntou sua prataria e suas obras de arte e buscou asilo na Florida. Os Cisneros são o melhor exemplo.

Hugo Chavez resolveu peitá-la. Promoveu reformas sociais que fazem a Bolsa Família parecer esmola. Mas atropelou a Constituição, partiu para o confronto. Carisma e autoritarismo são atitudes que se atraem perigosamente.

Maduro , ou tenta fazer, que Chavez fez.

Isso me remete à voz corrente de uma certa mídia brasileira, insistente na identificação do "chavismo" com o "lulismo". Aquela lenga-lenga do PT "bolivariano".

Lula governou na chave da intermediação entre os dois Brasis – assim como na Venezuela, aqui também o cisma é grande e vem desde a escravatura.

Lula não é de esquerda, ele é um conciliador. Não sou eu quem diz. Ouvimos na voz do... Fernando Henrique Cardoso. Mas nem sempre os aliados de FHC acreditaram nisso – pelo menos aqueles que adoram acender as fogueiras da Inquisição, que checam debaixo da cama antes de dormir para ver se há algum comunista escondido por lá.

Diziam, com razoável histeria, que Lula ia, à moda de Chavez, mexer na Constituição para se reeleger infinitamente. Não mexeu.

É bom lembrar o que muita gente prefere esquecer: quem mudou a Constituição para se beneficiar da reeleição foi... FHC.

 

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19 fev as 09h02

 A Copa ressuscitou nosso complexo de vira–lata. Freud explica?

O complexo de vira-lata – diagnosticado por Nelson Rodrigues após a derrota do Brasil na Copa de 1950 – é uma doença que espreita nas reentrancias da alma nacional.

Ela vai e volta, ao sabor dos nossos humores ocasionais. Desconfio que estamos mergulhando, a propósito desta Copa, no mais fundo abismo da nossa autoestima. Quer dizer, da falta dela.

Pior talvez do que no pós-Maracanazo.

Leio na pesquisa da CNT que três em quatro brasileiros reprovam os investimentos feitos para a Copa-14. O jeito que eu tenho de ler isso é, digamos, mais pedestre: ¾ dos brasileiros acham que gastar dinheiro com esse evento futebolístico, ainda que com tal exposição internacional, com tamanha repercussão turística e institucional, é um desperdício.

Não fica bem falar bem da Copa. Ficou bacana falar mal dela. As pessoas enchem a boca e vaticinam: “Vai ser um desastre”. Aplaude-se desde já a promessa de muitos protestos.

Vejo por trás disso não a compreensiva racionalidade de quem prefere ver o dinheiro investido em outras áreas mas o pânico pueril, inconsciente, de quem teme que a gente vá fazer feio aos olhos do mundo.

Nós temos é vergonha de nós mesmos. Medo da opinião do outro. Medo do fracasso.

Como se fóssemos um país de incapazes. Como se os estádios corressem o risco de desabar sobre nossas cabeças – e a dos ilustres visitantes. Como se a Copa será fatalmente o atestado público, com o mundo por testemunha, de nossa corrupção, de nossas mazelas, de nossa incompetência.

O brasileiro – a maioria dos brasileiros, diz a pesquisa CNT – se refugiou no consolo prévio e covarde do “mas eu não disse?”

A Alemanha fez a Copa e aí a gente diz, humilhado, de cabeça baixa: “Mas são alemães, né mesmo?”

É, mas o Mexico fez a Copa duas vezes, a Argentina, o Uruguai, a África do Sul. Somos assim tão mais miseráveis do que eles?

Há muito o que fazer no Brasil no que diz respeito às urgências da população. Saúde, educação, segurança, transportes, infraestrutura – a lista é enorme.

Mas a Copa é para ser apenas um momento de prazer – mesmo que, no gramado, a gente venha a perdê-la.

Quer dizer que a garotada não vai mais poder se divertir um show de rock ou de funk só porque é ruim a qualidade da escola que frequenta? Cancelamos o carnaval porque tem gente sem moradia? Vamos parar de festejar, de abraçar, de beijar, de fazer sexo enquanto os equipamentos hospitalares forem insuficientes?

Insisto: os problemas existem, e são graves, mas a Copa virou pretexto para aqueles que querem misturar covardia com baixo astral. São os black blocs da infelicidade coletiva.

Tem ainda a questão: mas a Fifa está faturando uma fortuna. Acontece que o show da bola é o espetáculo de que mais gostamos (ou gostávamos?). Empresários cobram. A Fifa cobra.

O mundo aguarda ansioso a Copa do Brasil. A imprensa internacional já está mobilizada para o grande evento. Leio nos jornais ingleses, franceses, portugueses, reportagens carinhosas, cheias de entusiasmo.

Só o Brasil odeia a Copa do Brasil. Nem Freud explica.

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17 fev as 12h53

A Austrália foi povoada por degredados ingleses, irlandeses mortos de fome, europeus do Leste fugitivos da guerra e asiáticos pobretões. É, portanto, uma mistureba étnica.

Está aí, nesse sincretismo, muito do sua graça. Países assim – Brasil, Estados Unidos, Peru, Colômbia, Cuba, todo o Caribe – costumam ser culturalmente mais vigorosos do que os outros.

No entanto, uma australiana foi presa em Brasília na sexta-feira por cena explícita de ódio radical. Foi fazer o pé num salão da Asa Sul e decidiu destratar duas manicures, uma cliente e o policial chegado à cena do crime pela razão de serem – contam as testemunhas – da "raça ruim".

Uma australiana branquela julgando as pessoas pela cor da pele – logo ela, certamente herdeira por DNA do rebutalho do Império britânico.

(Embora o racismo seja crime inafiançável no Brasil, a dita-cuja já foi solta).

Dois dias antes, assistimos indignados a outro paradoxal momento de racismo explícito. Digo paradoxal porque aconteceu no Peru, uma nação ao que me consta bem distante de qualquer supremacismo racial de modelo ariano (embora o escritor Vargas Lhosa, enfatiado como um inglês da Savile Row, às vezes passe essa impressão).

Em Huancayo, o meia-atacante Tinga, do Cruzeiro, foi perseguido por injúrias na forma de gestos e ruídos siescos desde o momento em que entrou em campo, no segundo tempo.

Imaginem só: o Peru. Inca, espanhol, negro, japonês. Pena que a América Latina de múltiplas faces e muitas peles escorregue. Aqui e ali, na discriminação e na intransigência.

Escrevi uma matéria no Estadão em que me perguntava: a brutalidade que impregnou o futebol vem do contágio com uma sociedade truculenta e ignorante? Ou é a sociedade que acabou se impregnando, toda ela, do violento espírito de arquibancada?

Desculpem, mas cito a mim mesmo: "Desconfio que as duas coisas se alimentam, em espiral de vertiginosa reciprocidade. Pelo menos no que diz respeito a este Brasil 2014, onde a barbárie espreita a cada esquina. O problema é que o espírito de arquibancada – no estádio mas também fora dele – tenta isentar-se de qualquer responsabilidade. A arquibancada é anônima, o borrão coletivo de mil caras e nenhum rosto, um aglomerado humano prestes a explodir numa paixão que, por definição, não está sujeita às amarras da razão. É como se o futebol estivesse imune a regras de convívio social. Em nome da emoção, tudo será permitido. A promessa de alegria se converte, na estufa de ódio, em antecâmera da barbárie".

Felizmente, houve um momento após o episódio Tinga em que o rancor perdeu para a solidariedade. Refiro-me à atitude da torcida do Atlético Mineiro na partida contra seu arquirrival no domingo. Vocês talvez adivinhem como são acirradas as paixões do futebol em Minas. No entanto, os atleticanos levaram palavras de apoio ao injuriado Tinga.

Show de bola. Pelo menos por um dia, o truculento espírito de arquibancada – que vazou para a web e contamina a política – perdeu de goleada.

 

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14 fev as 10h48

Pedro Palma, ao que parece, era desses jornalistas que incomodam os podres poderes com sua espingarda de chumbinho – quer dizer, com seu periódico regional.

Há vários Pedros Palmas pelo Brasil afora e vira e mexe um deles vai engordar as estatísticas da ONU que dão conta de jornalistas mortos por exercerem plena e corajosamente sua tarefa de informar.

Foram cinco, em 2013. Ganhamos a duvidosa honra de liderar em toda a América. Chegamos a superar o México dos traficantes e das milícias.

Esses, sim, são os verdadeiros atentados à liberdade de expressão.

A lamentável morte do cinegrafista Santiago Andrade, durante manifestação no Rio, ganhou justificado repúdio. O editorial da Rede Globo diz que foi um ato contra toda a imprensa. Os editoriais da Globo sempre têm um subtexto. É bom ler com cuidado o que a Globo (e o Globo) dizem.

A indignação contra atentados como esse que vitimou o jornalista de Miguel Pereira tem de ser proporcional.

Vamos esperar para ver.

Obs: Todo esse argumento só vale, claro, se ficar comprovado que foi mesmo, como indicam as investigações até agora, um crime motivado pelas suas denúncias.

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