24 mar as 19h05

1aoqvdd4gp zg937hrsy file Tragédias aéreas: o pior é quando você nem consegue enterrar os entes queridos

O premiê da Malásia deu por encerrado o mistério do voo MH-370, que saiu de Kuala Lumpur com destino a Pequim, dia 8, com 239 pessoas a bordo.

O avião ainda não foi localizado, há vagas notícias de eventuais destroços dele, mas oficialmente está confirmado que ele caiu no Oceano Índico e que não há sobreviventes.

Tão penoso quanto receber o impacto da confirmação da tragédia é passar horas, dias, semanas, agarrado a um tênue, improvável fio de esperança.

Entendo os familiares que se revoltam, que choram, que esperneiam, que culpam Deus e o mundo pela dor irreparável de uma tragédia. Já passei por isso.

O estrepitoso dono da companhia aérea que, por imprudência, matou meu cunhado ganhou, de uma revista de negócios (e que negócios!), o prêmio de Empresário do Ano. Naquele mesmo ano! As autoridades aeroviárias o tinham em alta conta.

O trabalho dos tais administradores de crises gerou resultado. Dane-se o sentimento das famílias enlutadas. Certos leitores da revista até debocharam, em cartas (encomendadas?), das "viúvas histéricas" do Fokker 100.

No caso do Boeing 777-200 da Malaysian Airlines, a dor ganha contornos de tragédia grega. Literalmente. Lembra Sófocles. O tirano Cleonte impede que Polinice receba as honras fúnebres e seja dignamente enterrado. Antígona, irmã de Polinice, desafia o tirano. A pior desonra para um ser humano é não ser respeitado sequer na morte.

Os ritos funerários consolam a dor. Os parentes das vítimas do voo MH-370 correm o risco de não desfrutarem sequer – assim como a desafortunada Antígona – do sofrido alívio de enterrar os mortos.

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24 mar as 09h07

ney Se Neymar jogar na Copa como jogou contra o Real, a Taça é nossa

O acontecimento do fim de semana não foi, como prometia o capitão Jair Bolsonaro, a marcha das viúvas da ditadura. O desfile das “cororocas” (expressão do Stanislau Ponte-Preta) revelou-se um fiasco, tanto no Rio quanto em São Paulo.

A melhor coisa do fim de semana foi, disparado, o jogo Real Madri vs. Barcelona. Um espetáculo do futebol capaz de arrepiar durante os 90 minutos.

O título que dei aí acima é uma pequena provocação. Neymar começou jogando, movimentou-se com desembaraço, mas revelou, de vez, a diferença que ele pode fazer numa difícil Copa do Mundo como a que se aproxima.

A diferença é o talento cenográfico do Neymar. O cara é um extraordinário ator, como a gente já desconfiava.

O Barcelona deve a ele a virada num jogo em que o adversário, a despeito da arbitragem facciosa, era melhor. Neymar cavou um pênalti no segundo tempo, provocou a expulsão do zagueiro e, com 10 jogadores em campo e o apito contra, o valente Real não teve como evitar a derrota.

O lateral Jordi Alba, à saída do campo, concordou comigo. Neymar forçou a barra. E o lateral joga... no Barcelona.

Espero que o Neymar use e abuse, na Copa, de seus artifícios histriônicos. Seremos invencíveis. Com a torcida nativa pressionando os árbitros, vai ser um pênalti atrás do outro.

Se eu fosse o Felipão, esquecia o resto, essa besteira de treino tático, etc, e tratava de cuidar apenas desse item: cobrança de pênalti. Aceito que o próprio Neymar (no Barça, é o Messi) seja o escolhido. Assim, a farsa estará completa.

(A propósito: o melhor argentino em campo no Santiago Bernabeu, neste domingo, nem foi o Messi; foi o Di Maria, do Real. Não é  opinião de um sabichão do futebol; mas é a minha opinião).

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21 mar as 07h30

Amigo meu de plumagem tucana me mandou mensagem na quinta-feira: “Tem um rumor aí na praça de que o Ibope está para divulgar uma pesquisa, que a Dilma caiu sete pontos e que os adversários da oposição subiram. Você está sabendo de alguma coisa?”

Como odeio contrariar o pensamento-torcedor de meus amigos, apenas disse que não sabia de nada, mas aquilo me intrigou porque fiquei sabendo que o boato se propagou e mexeu fortemente no movimento da Bolsa de Valores. Em minha opinião de leigo, só uma coisa mexe com a Bolsa: a malandragem de especuladores que, a pretexto de alguma coisa geralmente irrelevante (a crise na Ucrânia, o cronograma das obras do Itaquerão, uma pesquisa do Ibope), esticam para cima o valor de seus papéis. O filme é velhíssimo.

A gente viu que a pesquisa do Ibope existia, sim, mas que os resultados não tinham nada a ver com o que haveria de esperar a revista Veja e os moradores do Leblon. Diz lá: Dilma venceria no primeiro turno seja qual for o cenário. Conclusão: aproveitando a boa fé dos tolos, teve gente fazendo fortuna na Bolsa da noite para o dia.

A única coisa que se chama atenção numa pesquisa sem nenhuma novidade é o que chamo de Lei da Voz do Povo. Quem a formula é Marcos Coimbra, diretor do instituto de pesquisa que tem esse nome, Vox Populi. Segundo Coimbra, o candidato que está na frente da pesquisa em abril costuma vencer a eleição presidencial no final do ano. Aconteceu com Fernando Collor, em 1989. Com Fernando Henrique, em 1994 e 1998. Com Lula, em 2002 e 2006. Com a própria Dilma Rousseff, em 2010.

A lógica do processo parece ser esse: a menos que um cataclismo aconteça, o que está eleitoralmente escrito hoje é o que deve prevalecer no dia da eleição.

Eu acrescentaria uma opinião: num país como o Brasil, o eleitor tende a deixar as coisas como estão, numa acomodação que favorece a reeleição dos governantes. Só um idiota não se reelege. É essa idéia de “ruim com ele, pior com ele” que beneficia a figuras como o insípido governador Geraldo Alckmin – e que pode beneficiar a própria Dilma.

Bem, a gente ainda não chegou em abril e este ano traz um evento de risco chamado Copa do Mundo. Não acredito que a reeleição da Dilma vá ser afetada, em outubro, por uma derrota do Brasil em campo – nem que ela irá usufruir eleitoralmente de uma eventual vitória com o planejaram os generais da ditadura.

O elemento-risco, penso eu, é se a organização da Copa se revelar um fracasso, se a Copa vier a nos encher de vergonha aos olhos do mundo.

Aí, sim, e só assim, é que Dilma pode deixar de faturar uma eleição que, apesar dos boatos plantados e dos interesses contrariados, sugere uma goleada.

Vamos, de toda forma, esperar para ver a bola rolar.

 

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19 mar as 15h04

O portal UOL, do grupo Folha, foi proibido pela Justiça de veicular qualquer notícia sobre o BBB da Rede Globo.

O tema é ridículo mas a briga é séria. Não que algum ser humano dotado de mais do que três neurônios vá se prejudicar sem as educativas lições ministradas pelos mamutes e pelas periguetes sob os edredons sebentos do BBB.

O grave é que uma emisssora peça e a Justiça aceite censurar conteúdos da internet.

A Justiça é servil aos grandes poderes, a gente sabe, e a do Rio, em especial, treme diante do poder e dos argumento$ do império Globo. A covardia das decisões judiciais é pública e notória.

Mas essa decisão é inaceitável.

A ironia é que a Folha de São Paulo, dona do UOL, já fez a mesma coisa e a Justiça de São Paulo, igualmente subserviente, ficou do seu lado. E conta a liberdade na web.

Refiro-me ao blog Falha de S. Paulo, que os irmãos Lino e Mario Bocchini lançaram para acompanhar, com fino humor, a cobertura escandalosamente pró-PSDB que a Folha fazia da eleição presidencial de 2010.

À medida em que o candidato da Folha, José Serra, derretia, a Folha deixava escoar pelo ralo sua farsa e seus escrúpulos.

Um dia – 30 de setembro, poucos dias antes da votação – os irmãos receberam uma liminar judicial que os obrigava a retirar do ar a Falha de S. Paulo.

O argumento, acolhido pela Justiça temerosa e silenciado pelo cartel da mídia, era econômico: a pequena Falha estaria tirando proveito da gigante Folha. O ínclito magistrado fixou pesada multa caso o blog continuasse ativo.

E, por coincidência, o mesmo argumento que a Rede Globo usa agora para tirar do ar a cobertura do UOL.

Menos hipocrisia, gente: o nome disso é censura.

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17 mar as 08h13

Jango [o presidente João Goulart] não tinha personalidade autoritária e estava longe de ser um inveterado golpista, à moda de  Carlos Lacerda. Sabíamos que tivera chance de promover golpes no passado não distante, talvez em condições mais propícias para si, quando o general Amaury Kruel era chefe da Casa Civil e depois ministro da Guerra, e o general Osvino Alves, comandante do poderoso Primeiro Exército, do Rio de Janeiro. “Mas não o fizera”.

“O deputado Bilac Pinto, mineiro, era precisamente o autor da tese de que havia uma guerra revolucionária em preparação no Brasil –  tese que me parecia ridícula, mas que percorria jornais, quartéis e reuniões de cidadão assustados. Ele fazia reiterados discursos delirantes sobre o tema, preparados, segundo acusávamos, pelo Ibad [Instituto Brasileiro de Ação Democrática] e pela CIA e divulgados com grande cobertura”.

“Apesar da tese do udenista mineiro Bilac Pinto sobre a guerra revolucionária, demonstrações de violência mesmo só existiam do lado da direita. No Congresso da UNE em que fui eleito, em Santo André, grupos paramilitares metralharam o estádio que abrigava os trabalhos e soltaram bombas de gás lacrimogêneo no plenário. No ano anterior, em Quitandinha, também houvera metralhadoras e bombas. Numa reunião do anfiteatro do Mackenzie, em São Paulo, atiraram ácido no ministro de Educação, Paulo de Tarso. O prédio da UNE sofria periódicas rajadas de metralhadora nos primeiros meses de 1964. O fato é que não havia exercícios de violência do nosso lado nem preparativos nesse sentido. E, se essa ideia existisse, não haveria como materializá-la”.

“Para as classes médias que deram suporte ao golpe nas marchas de São Paulo e do Rio e nas ruas de Belo Horizonte, havia uma motivação adicional para o apoio: o medo da cubanização do Brasil e da guerra revolucionária que a implantaria. Esse é um mito que ficou: nada mais fantasioso do que supor que o Brasil pudesse virar uma Cuba ou que a esquerda, em 1963-64, estivesse se armando”.

“Grandes jornais do Rio publicaram fotos da UNE incendiada [por comandos paramilitares] e suas dependências. Não sei qual deles dava destaque para um retrato do Josef Stálin, afirmando que adornava a parede de minha sala. Ficava me perguntando se os historiadores do futuro iriam acreditar naquilo e em tantas outras estultices”.

Estas frases estão no livro do ex-governador José Serra sobre o golpe militar de 1964. O livro, que se chama Cinquenta Anos Esta Noite e está para ser lançado pela Record. Traz uma privilegiada visão dos bastidores: em 1964, aos 22 anos, José Serra era presidente da União Nacional dos Estudantes, UNE, que defendia Jango e a legalidade.

ok José Serra escreve livro sobre 64 e rompe com seus eleitores

Li os excertos que a Folha publicou no domingo e fiquei surpreso, Serra decidiu falar a verdade. Deu uma guinada para a esquerda? Derruba os mitos paranoicos do perigo comunista que, por ironia, açula a ira patológica do seu atual eleitorado. A turma que quer reproduzir as marchas da família contra o perigo vermelho que, financiado pelo Planalto, se esconde debaixo de nossas camas.

Em 2010, na campanha contra Dilma, Serra chafurdou na lama. Parecia decidido a rasgar de vez o sua currículo e sepultar sua própria história. Aliaram-se os brutucus da mídia que, adversários da democracia, marionetes dos tiranos, repetem os mesmos bordões dos golpistas de 64. A Veja agora; o Estadão, O Globo, a Folha, tantos outros, no passado. – e, por vocação, também golpistas hoje e sempre. O Instituto Millenium, versão abonada do IBAD dos anos 60 – think tank da direita radical que financia os colunistas de aluguel.

O que terá acontecido com o Serra? O que ele escreve é um libelo contra essa mesma imprensa que insiste nas estultices (expressão dele) e na má fé porque teme governantes impregnados por cheiro do povo. Ele demole o argumento do que o golpe militar surgiu da “boa fé” de democratas ingênuos, iludidos. Os golpistas sabiam muito bem o que estavam fazendo.

José Serra foi em 2010 o objeto do desejo dos trogloditas. Mimetizou o pior Jair Bolsonaro, o mais nefando Odilio Scherer, o triste fantasma do Carlos Lacerda. Adulou os blogueiros da direita alfafa. Serviu – com a assessoria da Globo – ao papel de vítima naquele episódio da bolinha de papel. Foi um desastre.

Estou impaciente para ler o livro todo sobre 1964. Serra vai resgatar no passado a dignidade política e moral que ele parecia ter perdido. Foi, de fato, um resistente da democracia. Talvez – para desespero de seus eleitores descabelados – ainda seja.

Quando se jogou eleitoralmente nos braços da Casa Grande, Fernando Henrique renegou o passado socialdemocrata e pediu: “Esqueçam o que escrevi”.  Só espero que José Serra, parodiando FHC, não me venha dizer: “Esqueçam o que eu fiz”.

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14 mar as 11h41

 Me ajudem a procurar um novo palco para Joaquim Barbosa

O presidente do STF, Joaquim Barbosa, estava desolado ontem ao final do chamado mensalão do PT.

Aquela cara amarrada dele, a gente já conhece – mas eu quase adivinhei uma lágrima furtiva escorrendo lentamente no rosto do severo ministro.

Só assistiu os minutos finais da derradeira sessão – a ausência de Joaquim Barbosa é sempre sentida, e como! – e as línguas venenosas espalharam que ele não queria assistir ao capítulo de mais uma derrota anunciada: por 6 a 4, o ex-presidente da Câmara, João Paulo Cunha, livrou-se da prisão em regime fechado, como queria o ministro ferrabrás.

Quando começaram as revisões das penas previstas pela Constituição, Joaquim Barbosa sentiu o golpe. Chegou a confessar, pressionado pela matemática processual do coleguinha Luis Roberto Barroso, que tinha, sim, carregado a mão nas condenações dos dirigentes petistas.

Sob os holofotes de um entusiasmo midiático jamais visto nem em Copa do Mundo, quis fazer da lei um show. Conseguiu plenamente. Com isso, até escalou as pesquisas presidenciáveis com boas chances de sucesso.

Foram 69 sessões do STF. Mais de 300 horas de espetáculo. Quando é que aquelas sombrias figuras de toga terão, de novo e de graça, tamanha visibilidade?

Assim como não se sabe, jamais se saberá quais foram as reais motivações punitivas do presidente do STF, dificilmente alguém há de cravar o que ele está pensando hoje, quais são os planos dele agora que a aposentadoria se aproxima.

A vantagem de Joaquim Barbosa é que ele é um tremendo de um ator. Não há de faltar palco novo para ele. Papel de durão, tipo John Wayne, em novela de TV. Instrutor de MMA. Coordenador da Marcha de Deus pela Família. Apresentador da Festa do Peão de Barretos. Líder dos black blocs. Negociador da crise da Ucrânia.

Onde for preciso de muita testosterona e pose de macho, é só chamar o Joaquim Barbosa.

Pelo menos um partido – o PV do Rio – já lhe ofereceu a legenda para disputar o Senado este ano. Mas o Senado, pensando bem, é muito pouco para Joaquim Barbosa. Ele teria de disputar, mesmo sendo mestre em rasteiras e cotoveladas, o espaço cênico com outros 80 egos igualmente engalanados.

Pelo que fez pelo Brasil, Joaquim Barbosa deveria ser tombado em vida e exposto em pedestal na praça pública, de toga e tudo. Sugiro, por exemplo, a Cinelândia do Rio. Ou a Avenida Paulista.

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13 mar as 12h51

novo O Papa teve um desafeto. Conheça a figura

Os católicos, imagino, devem estar satisfeitos em ter enfim um Papa com cara de gente.

Mas neste primeiro aniversário do Pontificado de Francisco, o Simples, é de outra pessoa que eu me lembro.

Leon Ferrari foi a maior figura da arte contemporânea argentina até a morte dele, no ano passado. Quando morreu, o argentino Francisco já estava entronizado como Sumo Pontífice no Vaticano.

Leon Ferrari tinha o futuro Papa – ainda Jorge Bergoglio, cardeal-arcebispo de Buenos Aires – na conta de desafeto. Desafeto é a palavra. Não eram inimigos de morte – nunca. Nem mesmo adversários ferozes.

No caso de Bergoglio, o santo dele não batia com o de Leon Ferrari. No caso do artista, o problema era político, ideológico – quer dizer, de consciência.

Leon, filho de um arquiteto de catedrais, era pacifista, socialista, ateu e fervorosamente anticlerical. Viveu no Brasil, exilado, entre 1976 e 1991. Fazia grandiosas telas em que o Cristo de braços abertos aparecia crucificado em jatos de caça americanos. Suas gravuras debochavam de Santa Ceia, introduzindo por baixo da mesa cenas do Kama Sutra.

Em 2004, numa exposição no Centro Cultural Recoleta, em Buenos Aires, uma foto do Papa alemão forrava a gaiola onde uma pomba branca (da paz?) expelia seus excessos digestivos. Beatas de terço na mão atacaram a mostra e Leon Ferrari acusou Bergoglio de tê-las insuflado.

Leon fazia arte com um sorriso nos lábios e muito veneno dos pincéis. Ele próprio não se levava muito a sério. Um artista à moda antiga.

Mas era muito séria a qualidade de sua arte. Chegou a ganhar o Grande Prêmio da Bienal de Veneza, em 2007.

Uma figuraça. Quando Bergoglio virou Papa, ele reclamou: "Um homem autoritário. Um horror". O combate de Leon Ferrair era contra a intolerancia. E tinha um humor privilegiado. Por isso mesmo é que talvez ele hoje até achasse graça no Papa que ele adorava atormentar.

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12 mar as 15h44

Um amigo meu publicitário – com quem vez e outra assisto a jogos do Corinthians no Pacaembu – não podia ver em campo o Eduardo Ratinho. O Corinthians estava uma draga só, seis ou sete anos atrás, mas era em cima do franzino lateral – nem pior nem melhor do que seus parceiros de time – que meu amigo despejava uma vaia viscosa, furibunda, antes sequer de o pobre coitado tocar na bola. Não sei por onde anda o Eduardo Ratinho mas lembro dele com certa simpatia.

Vejo que a FIFA prudentemente decidiu poupar os espectadores da Copa da chatice dos discursos autoelogiativos. Na verdade, estará é poupando os donos da festa – a presidente Dilma Rousseff, o próprio presidente da Fifa, Joseph Blatter, os invariáveis papagaios de pirata, etc – do fatal constrangimento das vaias. Sábia decisão: até que o Neymar dê a saída no jogo de estréia, até aí o humor da torcida canarinha estará mais para vaia do que para aplauso.

Nelson Rodrigues, com aquela sua ironia debochada, dizia que brasileiro vaia até minuto de silêncio. Diria mais: vaia hino nacional. Autoridades constituídas e personalidades públicas, então, imagina só. Melhor não arriscar. O Papa argentino passaria incólume? Madre Teresa de Calcutá? Tenho minhas dúvidas.

Vaia exprime um sentimento sincero e um direito democrático mas também pode ser extraordinariamente estúpida. Nos antológicos festivais de música da Record, nos atormentados anos 60, a platéia vaiava, ou aplaudia, segundo seus humores políticos e ideológicos. Não havia meia-medida nem para as palamas nem para o apupo. Vaiado, Caetano Veloso respondeu de volta com o hoje antológico "Vocês não estão entendendo nada". Só conseguiu mais vaias. Tom Jobim e Chico Buarque foram vaiados pelo Maracanãzinho. Ficaram desconcertados.

Mesmo em ambientes aplumados, a crítica pode se transformar em vaia. Aos modernistas de 1922 só faltou serem apedrejados durante a controvertida Semana de Arte no Teatro Municipal de São Paulo. A scoiedade paulistana, acostumada aos recitativos e florilégios, não entendeu nada daquelas ousadias.
Vaia de antologia foi também a que se ouviu no Théâtre des Champs-Elysées, em Paris, em 1913, na estréia daquela que seria uma obra-prima do século: "A Sagração da Primavera", de Igor Stravinsky, coreografada pelos Balés Russos de Diaghilev e Nijinsky.

Se na política a vaia quase sempre é pedagógica, no futebol ela pode acabar prorrompendo em violência gratuita e até mesmo injusta. Meu pai guardou para sempre a reação babosa, o furor bíblico do público do Maracanã numa remota partida da Seleção brasileira contra a Inglaterra, em 1958, antes da partida para a Copa da Suécia. O treinador, Vicente Feola, alinhou o paulista Julinho Botelho na ponta-direita. Por alguma razão, Garrincha não entrou em campo. Anunciada a escalação, o Maracanã veio abaixo. Meu pai nunca esqueceu: a dignidade de Julinho, que afinal não tinha nada a ver com aquilo e respondeu aos apupos com dois belos gols.

O Maracanã que já vaiou o Lula aplaudiu o general Médici. Aliás, as multidões gostam de aplaudir os ditadores e de vaiar os governantes democráticos. Dá para entender. O aplauso pode ser mera bajulação e a vaia pode ser muito covarde.

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11 mar as 12h09

Algumas coisas revelam escandalosamente a idade que eu tenho. Por exemplo: ainda chamo micro-ondas de forninho. De vez em quando, num bar, sou capaz de pedir uma Crush. Quando sonho com um carro é minha primeira Variant que aparece. Tenho dificuldade em acessar a Apple TV. Sou um desastre no manejo de certas ferramentas tecnológicas.

Vi a última foto que Neymar postou no Facebook. Alguém fotografou-o circunspecto, sentado numa cama de casal. Nem parecia o Neymar: sério, enigmático. Parecia estar falando ao celular (se não era isso, simulava O Pensador, de Rodin, se é que Neymar tem alguma ideia de quem é Rodin).

Neymar postou: "Sentindo sua falta # saudades".

Hipóteses imediatamente pulularam: é do Brasil que ele sente falta... a praia, a galera, o iate... Não, deve ter visto as fotos da ex, a Bruna Marquezine no Carnaval... a Bruna parecia bem à vontade sem ele... nada disso, é o filho, ele está com saudade do filho...

Fui checar: o Face do Neymar teve mais de 18 milhões de curtidas. Repito: 18 milhões.

Fico me perguntando por que tanta gente se preocupa com a vida sentimental do Neymar. Será que estou perdendo alguma coisa de tão fascinante assim?

Neymar é um gênio da autopromoção. O rei do selfie. Craque da internet. Campeão da era digital, herói de si mesmo. Não critico: deve vir daí a extraordinária autoconfiança que ele leva para dentro do gramado. A fórmula de superação do Neymar, acredito, é esta: acreditar piamente que é melhor do que de fato é.

 

Neymar é, fora e dentro de campo, ator muito talentoso. A sociedade do espetáculo precisa de gente como Neymar. Ele transporta para todas as mídias suas proezas de palco. Amplifica seus dotes cenográficos e dramatúrgicos, seja o script uma comédia ou uma tragédia (no dia em que postou a foto, o Barça perdeu para o Valladolid, um time medíocre, e Neymar teve uma atuação patética).

A geração Neymar não tem o menor pudor de se expor nas redes sociais. Estranho mas não sou eu quem vai condená-la, e condenar o Neymar, por isso.

Mas confesso certa saudade do estilo Pelé. Não consigo imaginar o Rei se vangloriando de si mesmo, dia e noite, em poses estudadas, caretas bobinhas e cortes de cabelo esdrúxulos.

A majestade do Rei se baseava em sua elegância discreta e respeitosa. De mais a mais, o que Pelé gostava mesmo de fazer era jogar bola.

Um dia, quem sabe, o Neymar se convença a fazer o mesmo.

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10 mar as 13h39

eike batista Quero ser tão pobre quanto o Eike Batista

Dois livros de reportagem ao estilo do que os americanos chamam de instant books – livros instantâneos, de oportunidade – investigam o fenômeno do súbito derretimento da fortuna do ex-oitavo maior bilionário do mundo: o nosso Eike Batista.

Em "Eike – A Derrocada do Homem Mais Rico do Brasil" (da editora Matrix), Felipe Moraes chama Eike de "vendedor de sonhos". "Um ilusionista", prefere Sergio Leo, em "Ascensão e Queda do Império X" (ediitado pela Nova Fronteira).

Derretimento, derrocada, queda, desabamento, desmoronameno – as palavras usadas para explicar o que aconteceu com Eike têm cheiro de catástrofe. Não é exagero. Ao terminar a leitura pode ser que você fique com peninha das infortúnios do neopobre Eike.

 

Em 2011, estava entre os top 10 dos bilionários da Forbes (em rasgo de imodéstia, avisou que chegaria a ser o número 1). Fortuna avaliada em 30 bilhões de dólares. O reconhecimento ao Eike não vinha só dos números. Seus colegas do capital, encantados com o estilo arrasa-quarteirão dele, o elegeram empresário mais admirado do Brasil em 2012 (revista Carta Capital).

Dos 30 bilhões, de dólares, sobraram hoje na conta de Eike 900 milhões (segundo a Forbes) ou 200 milhões (na conta mais severa da Bloomberg). Pela Forbes, Eike, em reais, ainda continuaria sendo um bilionário.

Não consigo ficar muito condoído com a situação financeira do Eike. Sempre foi um aventureiro. jogava pesado na roleta do dinheiro. Aos 21 anos, comprou uma mina de ouro (logo depois, iria investir num outro tesouro chamado Luma de Oliveira).

Blefou e pagou. Aliás, quem pagou foram os acionistas que acreditaram nele. Esses, sim, derreteram.

A OGX, petrolífera do Eike, está mudando para um escritório mais modesto no Rio e aproveita para leiloar 718 lotes de objetos que vão de xícaras a notebooks. Até o frigobar do Eike está no leilão on line (os lances encerram esta quarta). Infelizmente, sem nenhum vinho branco da Borgonha.

Para os acionistas arruinados, arrematar um objeto do espólio da petrolífera OGX pode trazer um consolo simbólico. Mas o humor deles deve estar mais para "schadenfreude".

Eike fala alemão como se fosse (e é) língua materna. Sabe o que isso significa. Schadenfreude é aquele risinho íntimo que alguém guarda, pretextando compaixão, quando um amigo querido vai para o vinagre.

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