18 jan as 14h13

Livros nos presídios. Taí uma boa ideia tola. Livros não fazem mal a ninguém mas não acredito que a leitura de Crime e Castigo, de Dostoievski, vá demover alguém a se regenerar naquelas estufas de criminalidade propositalmente erigidas por uma sociedade hipócrita. E O Pequeno Príncipe , terá ele o condão de subverter, com sua docilidade juvenil, a cadeia de comando das facções de quem o Estado é cúmplice?

Sinto muito discordar mas livros não fazem as pessoas melhores. A vida é que sabe ensinar. E os presidiários, no Brasil, não têm o direito de chamar de “vida” ao que lhes resta, nas suas masmorras pestilentas.

Tive fascínio por livros e ainda os tenho em casa, em quantidade antissocial e anti-decorativa. Não me orgulho do que as pessoas chamam, com reverência babosa, de “biblioteca”. “Você leu tudo?” “Não, claro que não”. Na adolescência, no início da vida adulta, um dos meus prazeres solitários era o de manusear livro após livro, por hora a fio, numa compulsão de seguidas livrarias. Me sentia um candidato à sabedoria. Não alimento mais nem o hábito nem a pretensão.

Lembro agora que o dr. Drauzio Varella, em seus tempos de Carandiru, produziu e distribuiu entre os detentos revistinhas em quadrinhos com preciosas informações sobre doenças e prevenções – quando o vírus da Aids, por exemplo, proliferava no ambiente. Eram cartilhas pedagógicas, as quais não faltavam a pitada sedutora de erotismo. Isso, sim, funciona, um gibi meio safado, como aquele Vira-Lata, com texto de Paulo Garfunkel e desenho de Libero Malavoglia.

Se for o caso, que os pobres diabos amontoados nos calabouços tenham seus livros à, bem, cabeceira. Mas não esperem por nenhum milagre – nem mesmo o bruxo Paulo Coelho se aventuraria a acreditar nisso.

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16 jan as 14h17

O ensaio geral aconteceu no inverno de 2013 quando o mal-estar amplo, mas ainda latente, se enganchou na questão das tarifas de transporte público e fez disso o pretexto para desacreditar, com crescente violência, todas as instituições.

Depois aconteceu o impeachment, um episódio cuja dramaticidade acabou se diluindo no ridículo de patriotadas vazias e no discurso moralista de políticos imorais. O impeachment está previsto na Constituição mas não deixa de ser um tropicão na normalidade democrática. De todo modo, muita gente achou que trocar de presidente é igual a demitir técnico quando o time não vai bem.

Aí, surge o governo Temer, naufragando em fracassos enquanto se debate, junto com a mídia camarada, com o desafio de buscar uma legitimidade que nem provisória há de ser. Quem o instalou lá, o PSDB à frente, já está de olho é na eleição presidencial de 2018 – ou, se possível, antes.

A crise não é do governo. A crise é do Estado. E o sinal mais evidente, desde a insurreição de 2013, vem dos massacres nos presídios (“sob controle”, na versão do decorativo ministro da Justiça). As rebeliões promovidas pelas facções organizadas dizem: aqui quem manda somos nós. Na verdade, mandam dentro e fora dos presídios.

À falta de um Estado minimamente competente, que aliás vai se eximindo cada vez mais de todas as responsabilidades sociais (saúde, educação, segurança, emprego) em nome de um projeto neoliberal e darwinista de “Estado mínimo”, em que só sobreviverão os mais fortes e os mais ricos, setores marginalizados da sociedade tomam em suas mãos os deveres de um Estado que faliu.

Não existe mais normalidade no nosso dia a dia. O Brasil desistiu de si mesmo. A triste realidade é que o PCC manda mais do que o PMDB e o Marcola é o autêntico mandachuva de um país que já se acostumou à violência – e, pior, pede mais.

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14 dez as 13h02

Sinal dos tempos: as colunas dos ricos, chiques e famosos enchem-se de fotos de eventos em que advogados, promotores e juristas de diferentes envergaduras festejam, sorridentes, o feliz desígnio de serem as estrelas do momento.

Bebericam seu uisquinho e, eventualmente, sem pudor, um champã de boa cepa, em vernissages, coquetéis, jantares de gala e, sobretudo, lançamentos de livros aptos, segundo os solícitos colunistas, a decifrarem para os menos aquinhoados pela inteligência o supremo saber contido nos compêndios de leis e de jurisprudência.

Confesso que os prefiro, os senhores da magistratura, os heróis do Judiciário, na imponência de suas togas, as quais ocultam convenientemente a silhueta rotunda de quem aufere salários pra lá de polpudos – e chantageia, com carranca sinistra, quem ameaça lhe cortar as gordas mordomias.

Mas os eventos sociais revelam também jovens promissores da corporação, com aquela barba hype de cinco dias e gravatas que lembram aquelas, espantosas, que os publicitários envergavam nos anos do seriado Mad Men.

Nessas situações, até se comportam como se fossem meros seres humanos – e não enviados especiais da Providência.

Às vezes, deparo com uma ou outra menção a grupos de advogados e até mesmo do Ministério Público – o que é bastante surpreendente, pelo que o MP anda

fazendo – que trazem no nome o aposto “pela democracia”.

Merecem respeito. Se há quem, na casta judicial, tenha de anunciar que é a favor da democracia, é porque o resto não é. Decididamente, não.

O Judiciário brasileiro tem uma velha tradição a zelar no que diz respeito à blindagem do status quo e à implantação de regimes de exceção.

O comportamento arbitrário, politicamente orientado, parcial, truculento do Judiciário brasileiro, do mais baixo juizeco aos marajás do Supremo Tribunal, repete esse triste e histórico papel.

Sem falar do narcisismo exibicionista com que juízes e procuradores se banham hoje à luz dos holofotes midiáticos.

Eles estão se esbaldando com os 15 minutos de fama. Perderam a compostura. Um brinde à futilidade dessa gente.

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12 dez as 15h34

Sonhei que já tínhamos chegado a 2018 e Ronaldo Caiado era o presidente eleito.

Acordei com suores de pesadelo mas, por mais amalucados que possam ser os devaneios do inconsciente, ouso dizer que até faz algum sentido.

Seria o Ronaldo nosso Donald (Trump)?

Minha convicção é que a eleição presidencial de 2018 – depois da barafunda de delações que chamusca toda a classe política – vai ser a estufa ideal para um arrivista, um aventureiro.

Um sujeito fora do atual jogo político assim como foi Fernando Collor, em 1989.

Mas por que o Caiado e, não, por exemplo, um Bolsonaro, que aparece, ainda que discretamente, entre as opções?

O Bolsonaro, na minha opinião, é um fenômeno gerado pela mentalidade fascista do Sul Maravilha – Rio, São Paulo e Paraná, em especial.

Se é para ser de extrema direita, melhor que seja um sujeito perfumadinho, bem aprumado, como o senador de Goiás. O discurso é o mesmo, a ojeriza à democracia, igual, mas Caiado tem bom trânsito entre a plutocracia do “mercado”, aquele, hum, empresariado de São Paulo, incapaz de empresariar.

Com sua estampa de galã dos anos 50, Caiado pode até fazer sucesso entre as irritadiças paneleiras chiques dos Jardins e adjacências.

Da próxima vez, o DataFolha devia experimentar botá-lo na pesquisa. Porque esta pesquisa que apareceu aí não vale – como se diz no interior – dois réis de mel coado.

É surreal escalar no time dos presidenciáveis aqueles de sempre, tipo Marina, Aécio, Lula, Geraldinho Alckmin, Serra. Claro que eles têm o recall das últimas disputas mas a política brasileira virou de cabeça para baixo e a eleição presidencial de 2018 vai mostrar isso.

Mesmo que o acordão que está sendo desenhado entre os podres poderes da República – com o Judiciário em primeiro plano, como foi no impeachment, como voltou a ser demonstrado no episódio Renan Calheiros – poupe os apaniguados da quadrilha, vai ser difícil que o eleitorado engula as relíquias da velha politica.

O Dr. Janot e o foro privilegiado estão aí para fazer o que os beneficiários do impeachment mais querem. Ou seja, impugnar as delações que comprometem e deixar respirando com aparelhos um governo que agoniza.

Um Supremo caricato também não vai botar sua melindrosa mão no fogo.

O eleitor é que vai ter de fazer a faxina e eu espero que possa fazê-lo em 2018 de acordo com o calendário eleitoral, aconteça o que acontecer (o PSDB maquina para que, se Temer não durar e vier a ser substituído em eleição indireta pelo Congresso, as eleições de 2018 sejam adiadas).

Espero também que o eleitor não deixe se levar por nenhum salvador da pátria.

A propósito: não sei porque o DataFolha não incluiu entre os presidenciáveis o herói da nação canarinho, aquele que faz política em tempo integral fingindo ser apolítico.

O problema com o juiz Sergio Moro é saber se ele vai durar até 2018. A Lava-Jato está sendo desmoralizada e desmobilizada a cada dia. E logo por aqueles que ela propositalmente ajudou a levar ao poder.

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06 dez as 08h50

O juiz Sergio Moro, herói da pátria, peregrinou a semana passada por gabinetes influentes de Brasília pressionando congressistas e figuras do altíssimo escalão do próprio Judiciário contra as mudanças que a Câmara fez no projeto dos dez pontos anticorrupção proposto pelo Ministério Público.

Com aquele seu jargão escorregadio, capaz de escamotear a verdade com uma linguagem empolada que lembra as Ordenações Filipinas do século XVI, Moro foi, sim, pressionar – e a gente sabe como ele é capaz de, com a sua mera presença, executar com maestria essa arte.

Foi vendida para a opinião pública – com a ajuda prestimosa de certa mídia – a ideia de que as mudanças propostas pela Câmara visam acabar com a Operação Lava-Jato. Os patos canarinhos voltaram às ruas no domingo acreditando nessa balela.

Primeiro: se o Ministério Público submete sua proposta ao Parlamento é de se acreditar que o Parlamento tenha, por sua própria natureza, o direito de discutir o que está ali. O fato de ter sido acompanhada por “dois milhões de assinaturas”, pelas contas do MP, não confere ao Judiciário, no jogo democrático, o direito de legislar por conta própria, de impor decretos-leis. A Câmara de Deputados, que é, diga-se, uma vergonha, é soberana para discutir e decidir. É bom lembrar que esse mesmo Parlamento chegou a depor, não faz muito tempo, uma presidente da República – sob aplausos generalizados.

Segundo: o que está em jogo, e incomodando a tropa da Lava-Jato e apaniguados, é a ideia de que o Judiciário deve ser blindado contra os que não admitem seus abusos. Se o juiz Sergio Moro está tão seguro assim de que não os cometeu, não devia estar injuriado. Ele teve de balbuciar uma desculpa quando o ministro Teori Zavascki cobrou do condestável de Curitiba o fato de ele ter vazado aquela gravação dos ex-presidentes Lula e Dilma às vésperas do impeachment. Moro disse que não lhe moveu nenhum motivo “político-partidário”. Ficou por isso mesmo. Se não foi por razão política, por que então? Mera birra pessoal? Para pontificar na tevê?

A verdade é que a Lava-Jato virou um movimento político. As manifestações do domingo só confirmam isso. A Operação não está em risco – mesmo porque qualquer punição, se houvesse, seria definida no seio do próprio Judiciário, que atua como uma corporação compactamente auto-protetora.

O que a Lava-Jato busca é a certeza da impunidade, com o aval das ruas. Fazer o que bem entender, implantar o terror judicial, promover um crivo nas delações, cercear a defesa, grampear advogados, perseguir os inimigos – e, claro, proteger os amigos. Mesmo que estes, sim, sejam os piores dos corruptos.

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29 nov as 17h08

Sempre eles, agora usurpando a dor legítima que atinge toda a nação brasileira.

Ouço uma nota assinada por Renan Calheiros, a pretexto de ser o presidente do Senado. Também Rodrigo Maia, o artífice do caixa 2, abandona por um lapso de tempo a sua armação em prol da impunidade para “lamentar profundamente”. Carmen Lúcia, presidente do Supremo, confirma sua até aqui disfarçada vocação para os holofotes midiáticos e vem a público se lamuriar pelo desastre.

E, claro, o presidente Temer pega mais uma carona na vida para decretar luxo por três dias e se solidarizar com os familiares das vítimas.

São manifestações protocolares, eu sei, e quem sou eu para – à moda do juiz Sergio Moro – querer censurar o que diz quem quer que seja?

Mas está na cara que não há sinceridade alguma no que

essa gente fala e alardeia. Usam todos a oportunidade para buscar uma mínimo de identidade afetiva com um país enlutado que não tem nenhuma identidade afetiva com essa sua raça de políticos.

O pior é que a mídia leva a sério, repete as notas com expressão consternada.

O futebol, por pior que seja sua fama, é melhor do que a política. Vejam a nobreza do Atlético de Medellín, que ia disputar com a Chapecoense o título da Sul-Americana. Abriu mão do campeonato, ofereceu o prêmio ao rival dilacerado pela tragédia.

Vocês conhecem aí algum político capaz de tal desprendimento? Não vale o Suplicy, ok?

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24 nov as 20h59

A “delação do fim do mundo”, com a qual 80 executivos da Odebrecht, a começar pelo presidente da empreiteira, estão tirando o sono de Brasília a arredores, já cria, de cara, duas categorias de investigados.

Ninguém prestou a devida atenção a essa jabuticaba.

Como o Senado está adiando o fim do foro privilegiado para quem tem mandato – e dificilmente tomará qualquer decisão a este respeito até a virada do ano – as denúncias contra os que têm o privilégio do foro ficarão sob a responsabilidade do Supremo Tribunal Federal.

Isso quer dizer que se, como se anda sussurrando, aparecerem na delação senadores como José Serra, Aécio Neves, Romero Jucá, os ministros Geddel Lima, Moreira Franco e Eliseu Padilha e até mesmo o presidente Temer, em pessoa, eles serão beneficiados pela pachorra covarde do STF, quando não de uma ação abertamente protetora das togas amigas de um Gilmar Mendes, de um Celso de Mello, de um Dias Toffoli.

A turma que bateu panelas vai assistir a um mega-processo de acobertamento judicial. Não deve reclamar: afinal, a corrupção não era exclusividade dos governos do PT?

Os demais denunciados, os que não dispõem do foro privilegiado, esses poderão incorrer na ira inquisidora dos juízes e dos tribunais de baixa extração. Os ex: ex-prefeitos, ex-parlamentares, ex-ministros. O STF tende a remeter a acusação a eles para os Sergios Moros da vida.

A pior das injustiças pode nem ser esta. Tendo em vista a tradição de investigação seletiva e de punição politicamente orientada da Lava-Jato, sempre ficará a dúvida se a super-delação da Odebrecht já não terá passado por um crivo prévio.

Será que os justiceiros de Curitiba vão divulgar mesmo tudo o que foi dito pelos delatores? Ou, em certas circunstâncias, quando os suspeitos forem os amiguinhos da casa, não será o pretexto para se repetir, como faz o juiz Moro, “isso não vem ao caso?”

 

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17 nov as 14h50

Imagino o que teria acontecido à galera do MST ou dos trabalhadores sem teto se decidisse invadir o Congresso, ocupar o plenário, ameaçar os parlamentares e entrar em conflitos com os seguranças.

Sairiam dali direto para o presídio da Papuda. Se é que não seriam executados sumariamente no caminho.

Mas, não: os analfabetos políticos que promoveram a baderna para pedir intervenção militar contra “o comunismo” têm costas largas na casa e fora dela. São adeptos do deputado Jair Bolsonaro e têm o juiz Sergio Moro como ídolo.

Arregimentaram-se on line e a Polícia Federal do ministro Moraes – que rastreou na rede e ainda mantêm em cárcere uns pobres diabos acusados de serem perigosos terroristas islâmicos – não se incomodou com a movimentação do protofascistas.

Usam um espaço democrático para por em andamento um projeto antidemocrático. Mas parte da mídia e da opinião pública prefere tratar esses lunáticos como um folclore inofensivo – e não como o perigo que de fato representam.

Tem gente rindo dos paspalhões, assim como em 1923 a Alemanha mais ilustrada riu daqueles bufões que tentaram, numa cervejaria de Munique, sob o comando de um nervosinho cabo austríaco, dar um golpe de Estado.

A Justiça, lá como aqui, não gosta de incomodar o status quo – mesmo quando ele se apresenta em sua forma mais agressiva e caricata.

Hitler foi preso e logo libertado. Onze anos depois, estava no poder.

Os arruaceiros de Brasília, que pedem o fechamento do Congresso, parece já terem o seu Duce – e, aí, as camisas pretas do magistrado de Curitiba fazem todo o sentido.

Seria bom que o juiz Sergio Moro dissesse se tal tipo de, bem, homenagem o constrange ou se o deixa feliz da vida.

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09 nov as 11h17

É um narcisista tóxico, perigoso, disse de Donald Trump o glorioso Bruce Springsteen. Não há definição melhor para a criatura.

Exibicionista, egocêntrico, misógino, racista, islamofóbico – a lista de defeitos do presidente eleito dos Estados Unidos é enorme. De virtude, tem uma: acreditar em si mesmo. Ou pelo menos fingir que acredita. E conseguiu convencer a maioria dos americanos disso.

Jogou a cartada do “antipolítico”, ou “apolítico”, ou “anti-Establishment”, ele que é mais Establishment do que ninguém. Está dando certo, e não só na América – na Europa e em terras tropicais.

Foi, sim, uma derrota pessoal de Hillary Clinton, que jamais conseguiu convencer o eleitorado de sua sinceridade. Mas não é o que explica a vitória do magnata.

Trump tem ódio dos imigrantes latinos – e muitos deles votaram nele. Despreza os negros – e os negros não o rejeitaram. É um machista agressivo – e as mulheres se encantaram com sua grosseria.

Sabia-se que ele iria vencer naqueles Estados da capiauzada do Meio-Oeste, aqueles Kentucky, Tennessee ansiosos por acreditarem no “Vamos fazer a América grande de novo”, dos americanos que só olham para o próprio umbigo, mas a retórica vazia de Trump, de patacoadas patrióticas e dos delírios de grandeza, iludiu além do que se esperava que iludisse.

É a volta à Idade Média a bordo de um empresário ignorante e tosco que se faz de avançado.

Lembro Barbara Tuchman, que descreveu certos momentos da História em que nações inteiras, tomados de insensatez, atentam contra seus próprios interesses.

Achando que era um presente dos céus, a América levou o cavalo de Tróia para dentro de suas muralhas.

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27 out as 19h34

O Brasil conheceu esta semana, na figurinha frágil, chorosa mas convicta de uma menina de 16 anos, um comovente motivo de ter esperança no futuro.

Ana Júlia Ribeiro confrontou aqueles engravatados e mal-encarados deputados da Assembleia Legislativa do Paraná para explicar a eles porque os secundaristas do Estado – e, agora, pelo Brasil afora – estão ocupando suas escolas.

A garota começou com uma pergunta óbvia mas cortante: afinal, a quem pertencem as escolas? Por que, então, chamar aquele movimento de baderna?

Por dez minutos, Ana Julia fez engolir em seco aquele rebotalho da velha, velhíssima política num pedaço do  Paraná que parece sonhar com o IV Reich.

Velha política que, arriscando-se a uma comparação arriscada, se manifestou pela voz do presidente da, digamos, casa, um Ademar Traiano.

Ilustre desconhecido no Brasil, embora seja dono de sete mandatos estaduais no Paraná, Traiano, do PSDB, quis censurar a menina com a arrogância típica dos truculentos, dos reacionários e dos machistas.

De repente, graças às redes sociais, Sua Senhoria obteve seus 15 minutos de fama. Ao frescor juvenil, honesto, franco, corajoso de Ana Julia, contrapunha-se o ridículo porta-voz do passado.

Fico imaginando o massacre midiático que Ana Júlia irá sofrer, por parte dos escribas de aluguel. Na idade dela, Joana d’Arc também apanhou muito da Inquisição , dos ingleses invasores e do status quo dos franceses traíras.

Ana Julia e sua geração não têm sonhos de heroísmo nem de santidade. Só pretendem um pouquinho de justiça e de bom senso num país que aderiu definitivamente à marcha da insensatez.

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