10 mar as 12h52

Primeiro, foi o próprio presidente da República que, em sua oração do trono, no Dia Internacional da Mulher, fez um tributo àquela criatura devotada (quase escrevi: derrotada) que fica em casa cuidando dos filhos, do fogão, dos chinelos do marido e das compras no supermercado.

A princípio, a plateia ficou sem saber se era uma piada de Temer ou a fala refletia a visão de um coronel da Velha República.

Não era piada.

Agora vem o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, dizer que a defasagem de salário entre homens e mulheres vai, sim, acabar. Dentro de 20 anos.

Repito: dentro de 20 anos.

Até lá, as mulheres devem esperar recatadamente, resignadas, submissas, sem arroubos de rebeldia.

O governo sem mulheres acredita que a reforma da Previdência vai resolver tudo. Com a devida paciência, claro.

O que Temer disse é um desastre, o que Meirelles disse é um deboche.

O pior de tudo é o tom de normalidade que certa mídia camarada quer dar a tantos disparates – e ao próprio governo trapalhão.

Ninguém estranha nada?

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02 mar as 13h54

Não, não estou falando do pacote de 10 milhões que um prestativo servidor da Odebrecht deixou no escritório do advogado José Yunes, o primeiro-amigo do presidente.

É a modesta contribuição que fora acertada no Palácio do Jaburu, pelo empreiteiro Marcelo Odebrecht com o então vice presidente Temer e o hoje ministro Eliseu Padilha para azeitar a campanha do PMDB em 2014. (A cifra, disse Marcelo Odebrecht, foi sugerida por Padilha. O silêncio de Temer, na ocasião, indica que ele concordou com a quantia).

Bem, o escândalo do pacote – que o governo quer jogar para debaixo do tapete, contando com a cumplicidade final do presidente do Tribunal Superior Eleitoral, o amigão e confidente Gilmar Mendes, e, claro, da mídia camarada e da turma do mercado financeiro – não vai dar em nada.

Mas, noblesse oblige, Temer poderia pelo menos ressarcir os cofres públicos dos 24 mil reais que ele gastou na reforma do Palácio Alvorada para abrigar o Michelzinho e os looks de dona Marcella.

Temer e família voltam para o ninho dos vices, o Palácio do Jaburu, de onde talvez nunca devesse ter saído. Diz que se sente mais aconchegado lá.

De fato, o Alvorada é mal assombrado. Ficou fechado muito tempo, vários presidentes se recusaram a morar lá. O general Ernesto Geisel, por exemplo, ouviu dos servidores do palácio sinistras histórias de barulhos estranhos em salões vazios, de vozes cavernosas e até de arrastar de correntes.

Não deve ser por acaso que enxames de morcegos ficam ali esvoaçando, à noite, diante daquela enorme fachada.

Fernando Henrique, ao assumir, tratou de dar mais do que uma simples desinfetada naquele ambiente arrepiante.

Faz bem Michel Temer em sair dali – desde que, insisto, pague o que gastou com a obra inútil. Se houver fantasma por perto quem sabe não é aquele mesmo espectro que aparecia para o príncipe Hamlet apontando o dedo para Claudio, o rei usurpador.

Melhor evitar o assunto.

http://r7.com/rfYk

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27 fev as 16h18

maluf2 Maluf, o cigarro, o cinto de segurança e eu

Paulo Maluf no Roda Viva dos anos 90, quando era prefeito de São Paulo (Foto: Reprodução/TV Cultura)

Uns engraçadinhas da net exumaram o vídeo de um Roda Viva de vinte anos atrás, do qual participei – e andam pegando no meu pé.

Como o clima é ameno, ao contrário do que costuma acontecer no Face, eu resolvi responder.

Pra começar, eu mesmo rio da irritação do qual fui possuído frente aquela figura que é o ex-prefeito. Ainda assim acho que me comportei com razoável elegância.

Falávamos da decisão do então alcaide de São Paulo de perseguir os fumantes e de obrigar o uso do cinto de segurança.

Para os que me perguntam, na rede, se ainda não morri, gostaria de esclarecer que nunca fumei e que já não dirijo automóvel. Portanto, estou fora do grupo de risco (a propósito, também me recuso hoje a participar do Roda Viva).

O que me desgostava no Maluf – e ainda me desgosta – é a sua mentalidade autoritária, que no entanto parece ter tantos adeptos. Maluf não tem o menor apreço pela vida de ninguém, senão não estaria sendo perseguido pela Interpol por desvios de dinheiro que deveriam ter melhorar os serviços públicos – hospitais, por exemplo.

Esbravejava para chamar atenção enquanto o superfaturamento das obras e as propinas polpudas iam escoando, na surdina, em direção a contas secretas na Suíça.

O que me irrita nesse tipo de governante é a ânsia de proibir, de se imiscuir na vida pessoal, de impor códigos de condutas que deveriam estar afeitos apenas ao livre arbítrio do cidadão.

Desprezo o governante-paizinho, o Grande Irmão que me vigia, a autoridade possuída pela sanha arbitrária de invadir minha privacidade e minha soberania.

Sei, por outro lado, que Maluf e sua mentalidade calam fundo em quem precisa de babá. Escrevo aqui Maluf mas há muitos da mesma escola de ditadorzinhos de quarteirão triunfando por aí.

Espero, de todo coração, que o cerco ao cigarro e a obrigação do cinto tenham salvado muitas vidas. Acredito que sim.

Por isso mesmo é que, correndo o risco de parecer contraditório, eu fui – e continuo sendo – a favor da redução da velocidade nas Marginais de São Paulo.

Desconfio que a turma que defende o Maluf ache, desta vez, normal que o Doria tenha aumentado o limite da velocidade. Afinal, Maluf e Doria têm a mesma vocação ditatorial e o mesmo tipo de fã-clube.

Sou a favor da redução da velocidade porque, aí, não é só minha sobrevivência que está em risco – mas também a de outras pessoas.

Respeito aos outros é coisa que duvido que o rigoroso, implacável, falastrão Maluf tenha.

http://r7.com/EpCI

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24 fev as 16h02

Nas conversas que temos no Jornal da Record News, ouço sempre o Heródoto Barbeiro citar o Brasil das jabuticadas. Coisas, práticas, instituições que só existem aqui – assim como as deliciosas frutinhas, roliças e negras, que vicejam nos quintais familares.

Na quarta-feira, HB veio com mais uma: pós-doutorado. É mais uma cosa nostra. Diferente do post-doc que, na versão norte-americana, é um complemento à graduação. A gente inventou o pós-doutorado. Não hei de me surpreender se o notável pós-doutorado vier a plagiar textos inteiros de livros escritos no exterior, alegando depois ter se esquecido, ora vejam, de dar o crédito.

Aí é que entra um outro Brasil que me fascina: o Brasil ornitorrinco.

Vocês sabem que ornitorrinco é aquele bicho esquisitíssimo da fauna australiana que ora se comporta como réptil, ora parece ave. Dizem que a primeira vez que levaram um ornitorrinco empalhado para a Academia Britânica de Ciência, os perplexos scholars acharam que era um embuste.

Aqui no Brasil aparecem uns ornitorrincos de vez em quando, mas a grande peculiariedade nossa é que em pouco tempo a gente passa a tratar com a maior naturalidade o mais esquisito dos bichos.

O ornitorrinco PMDB, por exemplo: recordista dos corruptos delatados na Lava-Jato, de cima a baixo, ele governa como se tudo fosse muito natural – e a mídia camarada, parte da opinião pública resignada se comportam como se tudo estivesse ok, obrigado.

Dias atrás, consagrou-se o ornitorrinco Alexandre de Moraes. Foi tão desastrosa sua, hum, gestão no ministério da Justiça (desastrosa e palavrosa) que o patrão resolveu demiti-lo. E o fez nomeando-o para o mais alto escalão da Justiça do país.

O Senado tratou o ornitorrinco Moraes como um dócil bichinho de estimação e o Supremo há de recebê-lo com tapete vermelho de Oscar, festejando seu extraordinário saber jurídico e sua isenção patriótica, ele que era filiado até ontem a um partido político.

Outro ornitorrinco acaba de tirar de seu zoo particular o governo Temer. Convoca para substituir Moraes no Ministério da Justiça o deputado Osmar Serraglio, o amigo número 1 de Eduardo Cunha.

Serraglio usou de todas as artimanhas para livrar a cara do ex-presidente da Câmara, seu companheiro de partido e de estrada. E passa agora a ter total jurisdição sobre a Polícia Federal, que mantem Cunha sob sua custódia em Curitiba.

O futuro ministro já disse que, pelo que fez pelo país (leia-se: o impeachment), Eduardo Cunha devia ser anistiado de todas as lambanças que praticou.

O Brasil onitorrinco vai em frente, na cuplicidade do poder e da, bem, justiça. José Dirceu, Antonio Palocci, a turma do PT continua presa. O goleiro Bruno, assassino monstruoso, condenado a 22 anos de cadeira, foi libertado pelo STF a tempo de brincar o carnaval.

http://r7.com/pLrV

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18 fev as 15h33

 Bolsonaro é um tigre de papel

O deputado Jair Bolsonaro (Foto: Wilson Dias/16.12.2014/Agência Brasil)

Uma novidade e uma meia-novidade na pesquisa de intenções de voto para presidente feita pelo instituto MDA e divulgada esta semana pela Confederação Nacional do Transporte (CNT).

A meia novidade é que Lula lidera em todos os cenários – e continua crescendo. Quase 17% de menção espontânea é um dado mais espantoso até do que os mais de 30% que o ex-presidente tem quando os pesquisadores sugerem os nomes dos presidenciáveis.

Na barafunda chamada Brasil, Lula ainda é a lembrança de um tempo melhor: menos desemprego, mais consumo, mais esperança. Uma parte substancial do Brasil está com saudade daqueles tempos (o governo Michel Temer detém o recorde negativo de 10% de aprovação).

Infla também a candidatura Lula – e isso aparece na pesquisa – a percepção, pela maioria, de que ele está sendo perseguido pela mídia e pela Justiça. Vitimizar o Lula é ajudar a elegê-lo.

Portanto, para o juiz Sergio Moro, o procurador-geral e o Supremo Tribunal – que agem em sintonia –, trata-se de tomar logo a medida radical de impedir Lula de se candidatar, de torná-lo inelegível, ou vão acabar produzindo aquilo que menos querem.

A novidade da pesquisa atende pelo nome de Jair Bolsonaro. Chegou a segundo lugar nas intenções de voto, ali com uns 11% - empatado com a sumida Marina Silva e na frente do irritado Aécio Neves.

Ou seja, o comando do impeachment está pagando o preço de ter exacerbado o ódio. Se é para ser radical, intolerante, intransigente, para quer votar num Aécio se você tem à mão o capitão Bolsonaro?

Mas não se iludam; na hora do vamos ver, a direita, o bloco conservador, vai se alinhar a um candidato mais palatável, de apelo mais amplo (ainda que um discurso igualmente ou quase tão selvagem quanto o do Bolsonaro.

Bolsonaro não é Donald Trump. Ele não transita pelo big business, é uma relíquia da ditadura militar. Se é para derrotar “a jararaca” (palavra da advogada Janaína Paschoal) que seja um conservador mais perfumadinho, mais articulado, com trânsito junto ao “mercado”, ou seja, entre os senhores do dinheiro de São Paulo.

João Dória disse que ficaria quietinho na Prefeitura pelos próximos quatro anos. Vão ter de inventar outro Aprendiz.

http://r7.com/RAGG

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06 fev as 12h29

Meu plano era escrever sobre o dr. Deltran Dallagnol, “o intelectual da Lava-Jato” – segundo o Estadão de domingo.

Está lá no moço, na capa do jornal, com trajes de formatura, brandindo alegremente seu diploma da Universidade de Harvard.

O dr. Dallagnol tem a pulsão do holofote e, agora, com tais credenciais estampadas publicamente, deve estar causando ciúmes entre seus pares.

Imagino que deve ter sido um domingo amargo no lar de Rosangela e Sergio Moro.

Mas por que se importar com os justiceiros-celebridades de Curitiba se você acabou de ver Lady Gaga voar?

Foi no intervalo do Superbowl, a final do campeonato de futebol americano, em Houston, Texas. Quem também voou – mas aí, dentro de campo, foi o quarterback Tom Brady, aqui mais conhecido como marido da Gisele Bündchen.

O intervalo do Superbowl é tão disputado pelas estrelas pop quanto o jogo pelas duas equipes rivais.

Prince, Beyoncé, Katy Perry, Lenny Kravitz, Coldplay, Red Hot Chilli Pepperrs já desfilaram pelo palco.

Lady Gaga traz sempre a expectativa de uma tremenda surpresa e, com a ajuda do engenho tecnológico, não deu outra. O que ela cantou – apesar do entusiasmo da plateia – passou a ser mero detalhe.

A pirotecnia de Gaga deve ter contaminado Tom Brady. Até a volta do intervalo ele parecia blasé, amuado, quase deprimido. O time dele, o New England Patriots, de Boston, embora favorito, estava levando uma goleada: 21 a 3. Recomeça o jogo e mais um touchdown do azarão Atlanta Falcons: 28 a 3.

Aí, Brady acordou e, com ele, os Patriots. Empate de 28 a 28 no tempo normal. Nunca na história do Superbowl tinha acontecido uma façanha dessas.

Os dois times vão para a prorrogação e o milagre se completa: gol dos Patriots, 34 a 28.

Tom Brady ganha seu quinto título. Bate o recorde do lendário Joe Montana, do San Francisco 49ers.

Uma partida inesquecível.

Eu pessoalmente tenho certa resistência em engolir as presepadas patrióticas que inevitavelmente surgem no maior evento esportivo dos Estados Unidos.

Este ano, em especial, temi que o espectro de Donald Trump pairasse, em triunfo, sobre a capiauzada machista e tosca que tipicamente acorre ao futebol

americano, na verdade mero pretexto para a cerveja, o churrasquinho e os xingamentos homofóbicos.

Temi mais ainda ao ver a entrada no gramado do casal Barbara e George Bush – o pai.

Mas os comerciais do Superbowl conseguiram amainar, com sutis referencias à uma América tolerante e multiétnica, muito mais ampla do que aquela que elegeu o trevoso, o clima de provocação e deboche que Trump pretende impor ao país e ao mundo.

Quando Lady Gaga surgiu, foi como ele encarnasse a metáfora de uma América talentosa que ainda pode alçar belos voos.

Nada a ver com a mediocridade rasteira e topetuda que o eleitorado, pela metade, instalou na Casa Branca.

http://r7.com/kbcR

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03 fev as 10h38

O gesto de Fernando Henrique, ao levar sua solidariedade ao Lula no Sirio-Libanês, neste momento de dor, retribui o gesto de Lula quando o então presidente da República veio abraçar FHC diante do caixão da ex-primeira-dama Ruth Cardoso.

Na época, escrevi um texto para a revista Brasileiros. Passaram-se oito anos e meio. Fica aqui o documento, de papel passado, de como alguém pode se iludir tão cabalmente com uma nação como a brasileira.

A partir daí, o Brasil colheu uma seara de ódios. Os momentos de grandeza humana são raros, raríssimos. Por isso mesmo merecem ser destacados.

Eis aqui a esperança infundada, datada de julho de 2008:

“Intolerância, aquele abraço!

A política, dizem, é a arte do possível – e é também, claramente, um teatro de aparências. Assim como o jornalismo, ela tem fome de imagens e foi a convergência dos dois, do jornalismo com a política, que produziu, num cenário de morte, um fascinante flagrante de vida. O flashback de uma amizade de décadas que a miudeza da política não consegue escamotear.

O abraço de Lula e Fernando Henrique, diante do caixão de Ruth Cardoso, exprimiu um afeto autêntico, embargado, o intercâmbio de emoções sinceras entre duas criaturas que já foram aliadas e hoje são, de fato, adversárias. Um abraço que remonta às jornadas pela redemocratização, os anos 70, a anistia, as greves no ABC, a primeira campanha de Fernando Henrique para o Senado, em 1978, a frustração das diretas já.

Desta vez, ali estavam o presidente da República e o ex. Afetos privados, mas figuras públicas. Não era, portanto, um mero abraço. É sintomático que quem estivesse por assim dizer presidindo o encontro, com sua dignidade agora silenciosa, fosse Ruth Cardoso. Antropóloga, ela compreendia mais do que os demais mortais o sentido social das representações simbólicas. Haveria de saber: numa época que espetaculariza tudo, até o banal, e principalmente o vulgar, ainda existem gestos que se revestem de um manto de decência pessoal e de grandeza democrática.

Aquela surrada frase brechtiana de Galileu Galileu: pobre o país que precisa de heróis. Sem heróis, pobre em mitos, que o Brasil tenha ao menos o direito a ícones. Aquele abraço é um ícone, uma imagem altamente pedagógica, ainda que cada um brasileiro vá aprender ali apenas o que ele bem quiser. Será, enfim, a chance de uma concertación à espanhola? PT e PSDB se entendendo, dois pilares para o avanço institucional? Pode ser que daqui a algumas semanas o abraço de Lula e FHC não passe de um retrato na parede. Mas não vai doer. Sua força emocional, sua condição alegórica, é para sempre.

A verdade é que a política, no Brasil, não está bem na foto. Qual é a imagem, ao pé da letra, que ela nos passa, no dia a dia dos cotidianos ansiosos e dos telejornais trepidantes? A cara da política é Brasília, o picadeiro barulhento das CPIs, o tosco exibicionismo dos palanques, a inapetência de se pensar o Brasil com uma altivez cidadã que vá além das recompensas midiáticas do Jornal Nacional.

O jornalismo de massa açula os arruaceiros dos plenários, dá voz à patética bancada legislativa do botox e patrocina, nos hooligans de plantão, a ânsia do linchamento de inocentes. O saudável direito à atitude investigativa virou impenitente caça às bruxas, o prazer viscoso do escândalo pelo escândalo.

Não existem partidos, há torcidas – e esse espírito de arquibancada, convidativo à imprensa, com suas artérias de adrenalina, acabou por contagiar até mesmo aquele outro poder, que tinha, por natureza, de estar acima das paixões transitórias e muito além dos fogos de artifício O Judiciário já não se interessa, como prioridade, em promover justiça; adora é fazer um showzinho. A começar pela mais alta das Cortes.

O Congresso é uma vitrine óbvia, o mais aberto dos poderes. Colhe os frutos e paga o preço. Mas que os meritíssimos do Supremo Tribunal Federal tenham se tornado, eles também, candidatos ao star system, a bordo daquela cenografia narcisista de suas togas esvoaçantes, já é confundir transparência com saliência. Ligam-se os spots, lá se vai todo e qualquer decoro. Juiz do Supremo em capa de revista, celebridade solúvel como a estrela da novela e o animador de auditórios – eis aí a Justiça à brasileira.

A propósito do espírito de arquibancada: o futebol ainda é tabu para os bem-pensantes, desdenhado em guetos de gente metida à besta, mas é interessante notar – com todo o respeito – que ele é igualmente capaz de instaurar símbolos. Na mesma semana daquele abraço, espanou-se a poeira de uma fotografia de 50 anos atrás, cujo vigor emblemático resistiu ao ataque fatal, esmaecido, do tempo e do sépia: Bellini levantando a taça, na Suécia, em 1958. Brasil, afinal campeão do mundo.

O capitão, em sua fotogenia de ator de Hollywood, estátua olímpica e silenciosa, como que facultava o grito calado desde muito tempo em nossa garganta de, como dizia Nelson Rodrigues, nação vira-latas. Aquela, a da Suécia, é a melhor imagem de nossa independência.

Ruth Cardoso exerceu aquele mesmo senso de tolerância que, como em Juscelino, não prescindia de princípios. Tolerância não é complacência. De certo modo, Ruth parecia até encanar, em meio aos políticos, a não-política. Suas fotografias, solenes ou informais, revelam que ela, em seu recato irrestrito, jamais cedeu à tentação fácil da ostentação. Rigorosa, sim, em seu modelo de militância, nunca frequentou, porém, as arquibancadas descabeladas das facções.

Se o abraço de Lula e FHC, à frente de figura agora eternizada de Ruth Cardoso, representou a homenagem que todos os brasileiros deviam a ela, é bem provável que a própria Ruth, em sua modéstia proverbial, preferisse conferir ao gesto nobre, comovido, uma leitura menos pessoal. Supor que, mesmo no Brasil, a vida social pode se pautar pela compostura. Aquela suave, civilizada compostura que ela, Ruth, deixou registrada em cada um de seus retratos”.

http://r7.com/7o6k

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02 fev as 14h05

Hoje, 2 de fevereiro, os baianos sabem, é dia de festa no mar. E de tristeza na terra. Foi confirmada a morte cerebral da companheira do Lula, dona Marisa.

Deve ter gente celebrando. Lembro, por exemplo, das duas patetas que foram para a porta do Sírio-Libanês portando cartazes e debochando do fato da ex-primeira-dama ter recorrido a um hospital particular, e não ao SUS.

A ignorância, no Brasil, insuflada por um setor da imprensa ideologicamente orientado e politicamente enviesado, desconhece que o Sírio-Libanês acolhe, de graça, um imponente número de usuários do SUS.

A ignorância – junto com a má fé – não consegue aceitar que uma ex-primeira-dama fosse tratada num hospital de ótimo nível só porque ela se casou com um torneio mecânico. Aos pobres, os maus tratos; aos ricos, as benesses de um sistema eternamente injusto.

(O SUS, aliás, com todas as suas limitações, é um sistema muito mais humano do que imaginam as duas idiotas postadas no Sírio em seu plantão de ódio)

Dona Marisa vinha sofrendo humilhações mais doloridas do que esta. Por ter acompanhado o marido na visita a um apartamento no Guarujá que os dois acabaram não comprando (a PF divulgou esta semana, com a maior discrição, esta conclusão), passou a se submeter ao escrutínio feroz do juiz Moro.

Aquele que só vê crime de um lado – com as outras organizações igualmente criminosas, ele se confraterniza alegremente, em simpósios engravatados e coquetéis de luxo.

Dona Marisa se foi. Agora só falta o Lula, né mesmo, doutor Sergio Moro?

http://r7.com/JHX8

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30 jan as 14h47

Foi um desses sábios populares do futebol (Neném Prancha, pode ser?) que dizia: pênalti é tão importante que quem devia bater era o presidente do time.

Lembrei da frase ao ver o imbróglio das delações da Odebrecht, que subitamente tinham caído no limbo com a morte inesperada do ministro Teori Zavaski, do STF.

Teori era o relator e tinha até o dia de hoje para homologar, ou não, as mais de 70 delações – uma bomba de alta megatonagem já que envolve toda a cúpula do atual governo, o presidente Temer incluído, e seus aliados do PSDB de mais alta plumagem, como o Aécio, o Serra, o Alckmin.

Pois bem: o prazo era hoje e a presidente do STF, Carmen Lucia, decidiu fazer o que Zavaski certamente faria: aceitar as delações.

Não foi uma mera decisão formal – afinal, a presidente do STF funciona como uma plantonista nos casos de urgência quando o tribunal está em recesso, como agora.

Carmen Lúcia podia ter enrolado, esperado a nomeação de um novo relator, a indicação do substituto dele pelo governo investigado. Não, ela tomou coragem e bateu o pênalti. As delações estão valendo.

O que está longe de significar que a partida está definida. As delações passarão a partir de hoje a circular pelos sombrios corredores da burocracia judicial, vão ser manuseados por uma quantidade monumental de magistrados, terão de pedir senha para avançar, ficarão soterradas nas gavetas interessadas em postergar o máximo o andamento das apurações.

As delações vão encarar o pó dos gabinetes, talvez o pó da História – já que aos atuais poderosos da República não interessa nem um pouco a revelação da verdade. E se, por descuido, a verdade aparecer, a, bem, Justiça sempre haverá de fazer dela um juízo seletivo: aos amigos, o esquecimento; aos inimigos, a lei.

Carmen Lúcia teve a coragem de bater o pênalti. Está 1 a 0 para os que buscam a Justiça com isenção e sem medo.

1 a 0, por ora. Temo que acabe 1 a 7. Como tem acontecido neste Brasil de derrota em derrota.

http://r7.com/S10L

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25 jan as 10h30

 Parabéns para uma São Paulo ainda mais feia

Doria apagando grafite em São Paulo

Alguém aí precisa me explicar o que deu na cabeça do prefeito Doria ao apagar as alamedas de grafite que encantavam os turistas em São Paulo.

Aliás, não precisa, não.

Ele só quer aparecer, a qualquer custo – não se acanha do estardalhaço, da polêmica, do ridículo. Como São Paulo é ingovernável, ele vai ficar servindo uma dose diária de factoide a uma mídia deslumbrada.

Depois da cadeira de rodas, um deboche, um acinte a quem de fato precisa dela, o vandalismo contra o grafite.

O grafite, arte popular mas que adquiriu aqui e no mundo todo requinte, toda sofisticação, não cabe na cabeça de um sinhozinho dos Jardins, afeito aos horrores do Romero Brito e às fraudes fajutas que imitam o Krajcberg.

O problema é que o prefeito que se diz homem de seu tempo, com suas roupinhas bem talhadas, é um jeca completo, de uma jequice só, como aliás a tal confraria que lhe paga tributo em suas encenações comerciais. São capiaus de espírito, tacanhos, atrasados – incapazes de apreciar o valor cosmopolita e, aí sim, verdadeiramente contemporâneo da street art.

Não dá para se surpreender com João Doria. Mas é estranho perceber que faz eco ao chefe o modernoso secretario da Cultura, disposto a aderir ferozmente à era da pós-verdade. Esse André Sturm alega que os lindos murais de rua foram apagados porque estavam em mau estado de conservação.

Conta outra, malandro.

Nossos grafiteiros estão pelo mundo afora desenhando em muros e paredes e dando vida e colorido a cidades às vezes nem tão cinzentas como São Paulo. A cidade deles decidiu exilá-los.

http://r7.com/8qpg

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