22 jun as 06h53

Foi ontem o dia mais longo do ano, no hemisfério norte (aqui em baixo, foi o dia mais curto).

O acontecimento atende pelo complicado nome de solstício de verão e vem, invariavelmente, acompanhado de uma carga magnética que desencadeia sortilégios e desperta bruxarias.

De Shakespeare a Harry Potter não parece haver povo mais suscetível a magias e a assombrações do que aquele que habita as ilhas britânicas. Não por acaso é na Inglaterra que os maluquetes mais radicais se mobilizam, tratando de celebrar o tal solstício à sombra das pedras gigantes do monumento de Stonehenge, ao sul do país – um amontoado megalítico que começou a ser erguido na Idade do Bronze, quer dizer, mais de três mil anos antes de Cristo.

No dia 21 de junho, o sol nasce em encaixe perfeito sob a pedra principal de Stonehenge e uma exótica fauna vestida como se estivesse num sabá de feiticeiras aplaude, dança, se contorce, rola no chão, propaga os mais variados fluidos corporais num balé frenético de exortações e transes. Comparado ao solstício de Stonehenge, o Halloween é uma Disneyworld.

Stonehenge deve ter sido de fato um templo de culto antiquíssimo, presidido por druidas e fraquentado por duendes. Há quem veja ali – como os gigantes de pedra da Ilha da Páscoa – a intervenção de superiores poderes extraterrestres. Afinal, as pedras chegam a cinco metros de altura e pensam até 50 toneladas.

Eu, de minha parte, prefiro acreditar em fantasminhas e em seus mistérios brincalhões digno de história em quadrinhos. Só me pergunto por que é que o dia das bruxas e dos bruxos é esse em que a noite é a mais curta do ano, e não a mais longa. Sempre achei que os sacerdotes do oculto – assim como certos cavernosos políticos brasileiros – preferissem agir sob o manto da noite.

Veja mais:

+ Curta o R7 no Facebook
+ Veja os destaques do dia
+ Todos os blogs do R7

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • del.icio.us
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes
21 jun as 12h04

O senador Aécio Neves, mestre no exercício do equilíbrio, caiu do cavalo. Na vida real, é bom dizer – na política é que, sendo ele o mineiro que é, não haveria de ser, por mais que o ex-governador José Serra, seu coleguinha de partido, pudesse estar torcendo para isso.

O acidente com Aécio aconteceu na fazenda que foi de sua avó, Risoleta, em Cláudio, Minas Gerais. Ele está com o ombro direito enfaixado e quebrou cinco costelas. Vai ficar de molho por um mês. Fora a inconveniência de permanecer de fora da trepidante agenda social do circuito Leblon-Barra por tão longo período, fica sempre o perigo de que, imobilizado em casa, seja vítima do assédio dos políticos carentes, cheios de pedidos e, pior, carregados de ideias.

Já imaginou se o próprio Serra, sempre muito cruel, decide fazer uma visitinha amiga, muy amiga, e, aproveitando-se da imobilidade do rival, discutir a relação? Nem é bom pensar.

Quem faz tempo anda se especializando no ofício de domar cavalo louco é o ministro da Educação, Fernando Haddad. Já esteve muito perto de cair, mas deu um jeito de, contra todos os prognósticos, amansar a montaria.

Haddad se meteu numa aventura complicada: queria passar para a História como o ministro que acabou com essa coisa medonha chamada vestibular.

Daí, a insistência no Enem – versão brasileira do baccalauréat francês e do SAT americano, ou seja, exame para verificar a aptidão dos alunos que estão saindo do segundo grau para a universidade. Em vez de submeterem os alunos ao assédio moral (quase escrevi imoral) daquele teste de arrancar os cabelos, as faculdades passariam a aceitar seus alunos com base na avaliação do Enem.

Faz o maior sentido, mas o Enem uma ou duas vezes tropeçou no caminho, uma delas culpa de um vazamento criminoso ocorrido dentro da gráfica da Folha de S. Paulo (detalhe que a corporação jornalística tratou de esconder debaixo do tapete).

Na trilha do injustamente mal falado Enem vem o Sisu, Sistema de Seleção Unificada. É o prolongamento natural do Enem. Através do Sisu, o aluno que passou pelo Enem se candidata a uma ou duas vagas nas universidades públicas e, dependendo da nota, pode ter sua admissão automática. A cada ano, dobra o número de inscritos no Sisu.

Entre triunfos e tropicões, o ministro Haddad parece ter se cansado de encarar potro bravo. Já se candidata a deixar o ministério e disputar a indicação para a prefeitura de São Paulo pelo PT. Comparado ao Ministério da Educação, administrar São Paulo deve ser que nem surfar.

Só falta combinar com Marta Suplicy, a favorita do partido – também adepta de uma cavalgada selvagem.

Veja mais:

+ Siga o R7 no Twitter
+ Veja os destaques do dia
+ Todos os blogs do R7

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • del.icio.us
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes
20 jun as 06h00

casal vancouver 450 Amor entre barricadas

Terminou a favor dos apaixonados de todo o mundo o enigma sobre a foto do ano – aquela que mostra um casal enlaçado em incendiário beijo, deitado no asfalto, indiferente às chamas e aos cassetetes, em meio à pancadaria que se seguiu à derrota do time de hóquei de Vancouver na final do campeonato norte-americano, na semana passada.

Foram identificados os dois protagonistas da inesperada cena e eles esclareceram que, naquele clique do fotógrafo Rich Lam, da agência Getty Images, o que parece ser de fato é: um caliente, arriscado rompante amoroso. A carga erótica do ato é impressionante: a garota se entrega totalmente, o rapaz, debruçado sobre ela, responde à altura.

A princípio, houve quem dissesse – nem mesmo o fotógrafo sabia afirmar – que aquilo ali era um gentil cavalheiro socorrendo uma garota espancada pelos policiais, ou, quem sabe, atingida pelos próprios baderneiros.

Felizmente a verdade se impôs contra a vontade dos céticos: o amor sempre pode ser maior do que o medo.

EM MÁRMORE E EM PRETO E BRANCO

É grande a iconografia sobre o beijo – à qual vem se agregar, agora, para sempre, a foto dos conflitos em Vancouver. Lembro, de imediato, dois outros cliques que ficaram para a posteridade.

O primeiro deles chama-se V-J in Times Square e foi registrado por Alfred Eisenstaedt, alemão naturalizado americano. Dia 14 de agosto de 1945: Nova York sai às ruas para festejar a rendição do Japão. O próprio Eisenstaedt controu: “O marinheiro, louco de alegria, vinha beijando toda mulher que via pela frente, velha ou nova, feia ou bonita, magra ou gorda”. Ele clicou a cena pelo contraste da roupa branca da moça (uma enfermeira?) e o escuro do uniforme do marujo. Mas é a linguagem corporal da dupla que encanta. Uma surpresa velada, um passo de dança, as pessoas em volta rindo, condescendentes.

Outra imagem que ficou para a História é obra do francês Robert Doisneau, um dos pioneiros, junto com Henri Cartier-Bresson, do fotojornalismo. Cena do cotidiano, da vida urbana: numa Paris cinzenta, invernal, no meio de uma pequena multidão indiferente, diante do Hotel de Ville (a Prefeitura), irrompe a química do amor a dois, a mulher ligeiramente recuada, sugerindo alguma surpresa. Insinuou-se, à época, que era enganação: foto produzida (como ocorreu agora no caso de Vancouver). Se foi produzida, os dois deviam ser uns tremendos de uns atores, não é mesmo? Só artistas – ou enamorados – seriam capazes de demonstrar tal espontaneidade.

Beijos clássicos, de antologia, estão também em mármore (quatro versões) e em bronze, com a assinatura do francês Auguste Rodin, e numa tela conhecidíssima do austríaco Gustav Klimt. Nas esculturas e na pintura, o título é o mesmo: O Beijo. Não é preciso dizer mais nada.

Veja mais:

+ Siga o R7 no Twitter
+ Veja os destaques do dia
+ Todos os blogs do R7

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • del.icio.us
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes
17 jun as 14h13

Em meus momentos mais azedos, convenço-me – contrariando todas as minhas convicções – que a pena de morte justifica-se plenamente em dois casos.

A saber:

1 – para quem joga bituca de cigarro em mictório masculino, condenando os futuros usuários ao lamentável contato com um fétido entupimento;

2 – para caminhoneiros que viram carretas na Marginal, na Linha Vermelha e em rodovias (vale, acredito, o fuzilamento sumário, sem julgamento e sem defesa).

Acrescento agora uma terceira categoria de deliquentes extremados a quem só cabe o justiciamento, sem nenhum perdão: aquele que usa celular nos aviões mesmo quando a pobre da aeromoça insistentemente chama a atenção do parlapatão exibicionista.

101211172 Uma defesa da pena de morte

Digo exibicionista – e reitero: só um idiota ególatra há de imaginar que seus vizinhos de cadeira estejam interessadíssimos em suas conversinhas de negócio ou em suas intimidades bobocas (“chego aí em duas horas, benhê”), mesmo depois de acionados todos os sinais de advertência da aeronave.

Pessoalmente, até pouco tempo considerava um excesso de paranoia imaginar que um avião pudesse ser derrubado por um cretino no uso a bordo de seu telefoninho. Mas recente relatório da Federal Aviation Agency – a Anac dos Estados Unidos – confirma que as ondas dos telefones móveis podem interferir, sim, nas comunicações de um avião, configurando, portanto, um perigo real para a segurança do voo.

Esta semana, viajei nas proximidades de um desses seres antissociais a quem não bastava, em sua ansiedade de deslumbrado, uma gravata piscando uma infindável palheta de cores. O carinha falou da sala de espera à decolagem – tentando disfarçar, de cabeça baixa e aos sussurros, seu desrespeito não só às regras da Aeronáutica, mas também ao código básico de convivência social. Pela importância que o fulaninho dava à conversa, só podia ser o Papa ou então a Gisele Bündchen.

O voo em questão procedia de Brasília. Aquela terra que os humoristas do tipo cê-que-sabe sugerem resumir, na figura dos políticos, todas as mazelas e maracutaias do país. Mas tem hora que fico imaginando se não é toda a sociedade brasileira, ali representada pelo desprezível tagarela, se não somos todos nós, ou quase todos, que estamos sempre dispostos a uma trapaçazinha marota, desde que ninguém nos flagre, que ninguém venha nos puxar as orelhas.

Veja mais:
+ Siga o R7 no Twitter
+ Veja os destaques do dia
+ Todos os blogs do R7

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • del.icio.us
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes
16 jun as 18h55

O prédio de escritórios que sedia a Projeto, empresa de consultoria do ex-ministro Palocci agora faladíssima, chama-se Çiragan (em turco, com til em cima do G e se pronuncia Xirarrán).

Originalmente dá nome ao suntuoso palácio inaugurado em 1867, à beira do Bósforo, em Istambul, onde, em meio a tapetes, almofadas, eunucos e odaliscas, imperararam os sultões otomanos.

Como um foi destronado, outro reinou por apenas três meses e o próprio palácio certa vez pegou fogo, ficou com fama de lugar agourento.

O sultão do jornalismo da Rede Globo, Ali Kamel, foi visto esperando, horas a fio, no lobby do hotel Meliá de Brasília, na noite de terça-feira (14).

Até o momento em que a testemunha indiscreta se retirou, o senador Álvaro Dias ainda não tinha aparecido, sobraçando algum daqueles dossiês secretos anti-PT que a Globo e o Globo tanto apreciam.

O financeiro da FIFA divulga que a entidade tem em caixa, hoje, o correspondente a R$1,5 bilhão. Em dólares, 900 milhões. Está explicado porque Joseph Blatter, apesar da maré de acusações que a FIFA enfrenta, foi reeleito tão facilmente para seu quarto mandato.

Veja mais:

+ Siga o R7 no Twitter
+ Veja os destaques do dia
+ Todos os blogs do R7

SULTÕES, MAGNATAS

E O JUSTICEIRO

O prédio de escritórios que sedia a Projeto, agora famosa empresa de consultoria do ex-ministro Palocci, chama-se Çiragan (em turco, com til em cima do G e se pronuncia Xirarrán)

Originalmente dá nome ao suntuoso palácio inaugurado em 1867, onde, em meio a tapetes, almofadas, eunucos e odaliscas, imperararam os sultões otomanos.

Como um foi destronado, outro reinou por apenas três meses e o próprio palácio certa vez pegou fogo, ficou com fama de lugar agourento.

O sultão do jornalismo da Rede Globo, Ali Kamel, foi visto esperando, horas a fio, no lobby do hotel Meliá de Brasília, na noite de terça-feira.

Até o momento em que a testemunha indiscreta se retirou, o senador Álvaro Dias ainda não tinha aparecido, sobraçando algum daqueles dossiês secretos anti-PT que a Globo e o Globo tanto apreciam.

Esta é para tirar o sono dos magnata das altas maracutaias e de certos marajás dos tribunais superiores: o hoje desembargador Fausto De Sanctis, aquele da Operação Satiagraha, fez chegar aos amigos sua intenção de escrever um livro. De Sanctis, embora seja chegado às letras (ou talvez por isso mesmo), não pertence a nenhuma Academia. Contudo, já publicou um livro de ficção, Xeque-Mate (de 2010). Na sua carreira de implacável justiceiro, De Sanctis não confunde realidade com ficção, mas na literatura é o que ele mais gosta de fazer. Quer dizer, mesmo que o próximo livro seja uma ficção (ninguém sabe ao certo o conteúdo dele), os pilantras da vida real que se cuidem.

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • del.icio.us
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes
15 jun as 15h07

Para quem fica um tempo sem ir a Brasília – como eu fiquei – a cidade pode surpreender. No bom sentido, quero dizer. Existe outra Brasília que não aquela apresentada, de forma debochada e caricata, por certos pseudo-humoristas nada gentiles da TV.

A impressão é de que capital federal deixou de ser monotemática. O coração do poder hoje fala menos de política – ou pelo menos não fala de política.  É como se Brasília tivesse se desidratado da testosterona que costuma caracterizar o cenário das disputas políticas. Já será o efeito do Matriarcado Dilma?

Você percorre os melhores restaurantes e a conversa, à mesa vizinha, raramente diz respeito a alguma medida provisória ou alguma comissão de inquérito. As pessoas parecem normais, discutindo assuntos normais, familiares. Quanta diferença daqueles tempos em que o Florentino e o Piantella se revezam, às noites, para sucursais tardias dos plenários parlamentares, aquela promiscuidade de deputados, senadores, empreiteiros, lobistas e outras criaturas das sombras.

O Piantella, em especial, ficou famoso por sediar, após o expediente parlamentar, o Estado-Maior da oposição, capitaneado por dr. Ulysses Guimarães e por sua invariável Poire – o fermentado de pera do norte da França. O Piantella funcionou, nos anos da ditadura e na era da redemocratização, como uma espécie de botequim ideológico dos não-conservadores. Se o ex-deputado Luis Eduardo Magalhães e o então ministro Pelé também iam lá quase religiosamente, é porque o Piantella tinha outras mimosas atrações noturnas além das inflamadas tentativas de endireitar a República, quando não de salvar o mundo.

Passei por um ninho de novos restaurantes, num lugar exageradamente chamado de Fashion Park, lá no caminho para o aeroporto. Me falaram muito bem do Alice mas quem me seduziu foi o Taypá, de cozinha peruana. O ceviche é muito bom, assim como o tiradito. Mesas com senhoras desacompanhadas, do tipo que poderiam ser hoje ministras de Estado – e não aquelas raparigas que, em florido buquê, vagavam outrora pelos restaurantes do poder.

Sinto desapontar meu amigo James Holston, que escreveu um livro devastador contra o projeto de Brasília (A Cidade Modernista ganhou em 2010 uma edição atualizada da Companhia das Letras) – segundo ele, uma utopia que não deu certo, como de resto quase todas as utopias. Mas a realidade que resultou daquelas linhas traçadas por Lúcio Costa não me parece tão atroz assim. Brasília é opulenta, civilizada e não há quem resista aquela cena do sol se deitando pachorrentamente sobre o horizonte que não parece ter fim.

A PROPÓSITO

Juscelino Kubitschek e seu time (Oscar Niemeyer, Israel Pinheiro, Bernardo Sayão e uma multidão de candangos) erigiram a monumental nova capital em quatro anos. Quem disse que o Corinthians não constrói seu estádio em três?

Veja mais:

+ Siga o R7 no Twitter
+ Veja os destaques do dia
+ Todos os blogs do R7

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • del.icio.us
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes
14 jun as 06h00

Pertenço à rara espécie daqueles que gostam de pagar as contas em dia. Deve ser vício de origem. Mineiro guarda dinheiro debaixo do colchão para não pagar juros bancários e não atrasar no pagamento das dívidas. Aliás, nem dívida mineiro costuma ter. Mineiro não é empreendedor. Mineiro não gosta de correr risco. Mineiro é pão, pão, queijo, queijo – pão de queijo.

Acontece que o mineirim aqui assinado, premido pelas exigências da vida civil, possui dois ou três cartões de crédito. Um deles me informa, com solenidade, que “desde 1988” sou um fiel – e, acrescento, pontualíssimo – cliente do American Express.

Recentemente, mercê talvez da pontualidade obsessiva ou do tempo de casa, fui agraciado com um Platinum Card do Amex. Não sou dessas coisas, mas tenho de confessar que senti os inebriantes efeitos do upgrade. Virei um cliente muito especial – festejei com meus botões.

A verdade é que, não sendo eu um consumidor de apetite leonino, mantenho com meu Platinum uma relação sujeita a sazonalidades. Na verdade, meio que reservei, noblesse oblige, o imponente cartão prateado para minhas eventuais – cada vez mais eventuais – viagens ao exterior. Pagar o jantar no Benoît de Paris com meu Platinum é como se se alçasse automaticamente ao patamar de um magnata de Wall Street.

Estive recentemente na Europa e a conta do Amex me trouxe uma surpresa estrepitosa. Meu débito extrapolava todas as piores previsões e os mais razoáveis cálculos. Chequei online e verifiquei, em meio a um cipoal de juros, multas e taxas de cobrança, uma robusta conta não paga. Uma não, duas.

Como é possível, se sempre pago meu cartão em débito bancário automático? Como pode? Iniciei, assim, uma insana peregrinação pelos anônimos labirintos do telemarketing. Aparentemente, meu rutilante cartão não me conferia, nessa situação, nenhuma prerrogativa especial.  Fui à luta.

Tenho de reconhecer que, afora rápidas recaídas naquela linguagem do telemarketês, as criaturas que me atenderam, uma, duas, quinze vezes, primaram pela gentileza, embora tivessem dificuldade em me esclarecer o que de fato acontecia. Finalmente, alguém me despachou, num compreensível rasgo de impaciência: “Se é débito automático, que tal checar com o seu banco?”

O Itaú – que absorveu o Unibanco fingindo que era uma fusão – me informou que tal tipo de informação eu teria de obter pessoalmente com meu gerente, sujeito aliás simpaticíssimo de quem, porém, por falta de uma convivência mais frequente, me faltava o nome.

Fui à minha agência, já resignado com a via crucis, e pude enfim descobrir que, de abril para cá, o débito automático deixara de ser automático e sequer podia ser reconhecido, pelo meu banco, como débito. Ou seja, eu que me virasse para pagá-lo. Estava explicado porque a conta engordara tão fulminantemente: eram três contas, e não apenas uma.

Digamos que cabe a mim um pecado venial nessa barafunda toda: quando se contrata num banco o débito automático, você se ilude com a ideia de que pode se esquecer daqui, que o seu banco estará ali zelando sabiamente para que a dívida seja saldada. Nada disso: a verdade é que a responsabilidade de checar minuciosamente sua conta continua sendo sua, apenas sua. Você que se dane.

O Itaú mão pagou o débito que tinha contratado pagar. Uma, duas vezes – três, se eu não tivesse sido despertado pelo pesadelo da dívida estratosférica. Naturalmente, lava as mãos.  O American Express, ignorando olimpicamente meu currículo exemplar, me sobrecarregou de punições pecuniárias pelo fato de ter atrasado pagamentos que eu nunca atrasara.

Não termina aí, sinto dizer, a saga. Porque me restava a última etapa da odisseia. Liguei para o Amex e lá uma amigável voz me muniu de um quilométrico código de barras com o qual eu poderia voltar a ser um cidadão financeiramente confiável. Claro que tive antes de, “por medida de segurança”, me submeter a um rigoroso questionário oral em que não só tive de enunciar todos os algarismos de minha vida civil como tive de vasculhar a memória para mencionar dois ou três locais onde fizera compras com meu notável cartão. “Mas, meu anjo (já me sentia íntimo daquelas operadoras anônimas), sei que fiz compras em Milão, em Paris... Como é que vou me lembrar do nome alemão daquela farmácia do aeroporto de Zurique?”

O tal código de barras se materializou, enfim, e fui ao Itaú, onde novos sorrisos femininos, estampando simpatia, me informaram que a conta só podia ser paga no Bradesco. Fui ao Bradesco e outro gentil funcionário me desapontou: aquele código de barras não batia. Nova tentativa junto ao Amex: não, o código é esse mesmo.

Passada uma semana de incursões inúteis pelos canais competentes (?), de muitas horas perdidas em guichês e ao telefone, eis que uma alma piedosa me aconselha imprimir o boleto e ir à boca do caixa (já que a quantia superava o limite de qualquer operação no caixa eletrônico). “Mas tem de ter Adobe no seu computador”, advertiu. Felizmente, eu tinha. E, agora, tinha em mãos o fundamental papel para zerar a monumental conta que a realidade teimava em não me deixar pagar.

Esperei, impaciente, pela segunda-feira (ontem). Acho que até sonhei com a coisa – um daqueles sonhos cansativos, feitos de repetições que não se completam. Corri para pagar. No Bradesco, claro. Espero na fila. Meia hora. Chega a hora. O caixa faz um muxoxo: “Não pode, valor muito alto”.  Eu me desespero: “Mas como é que eu faço para pagar?”. Ele, inflexível: “Posso checar com o gerente, mas só na sua agencia bancária”. Eu ainda tento: “Mas você consegue acessar minha conta aqui. Tenho saldo suficiente, olha aí”. O rapazote de gravatinha fina, feliz em me contrariar: “Não é o saldo, é o sistema”.

Sou cabeça dura. Por mais que o Bradesco não quisesse receber meu débito, eu insisti em pagar. Peguei o carro, atravessei São Paulo de norte a sul e me dirigi à longínqua agência onde cometi o desafio de abrir uma conta, quinze anos atrás, quando eu trabalhava ali por perto.

Me desculpem, leitores, esta narrativa tão cansativa, tão tediosa, mas três horas depois, a poucos minutos de me ver às voltas com novas taxas, novos juros, novas punições, aleluia! – consegui pagar minha conta do Amex Platinum Card. Tive de esperar pela assinatura do meu gerente. Que está de licença médica. Então, do assistente dele. Que estava na rua, a trabalho. Esperei, esperei, mas minha tenacidade venceu. Aviso desde já que, no mês que vem, eu volto para cometer esse desatino de pagar o que devo.

Veja mais:

+ Siga o R7 no Twitter
+ Veja os destaques do dia
+ Todos os blogs do R7

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • del.icio.us
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes
13 jun as 06h30

Foi o banqueiro José Safra quem pagou a conta do banquete de 500 talheres em homenagem aos 80 anos de Fernando Henrique Cardoso, na noite de sexta, 10, na luxuosa Sala São Paulo.

Não é a primeira vez que Safra se mostra tão generoso com o ex-presidente. FHC vive hoje no apartamento onde Safra morava, à rua Rio de Janeiro, naquela Higienópolis de punhos de renda – e que Safra lhe vendeu em 2002 por um preço para lá de camarada.

José Safra está em terceiro lugar entre os bilionários brasileiros da lista da Forbes. Tem, de acordo com a revista, um patrimônio de US$ 11,4 bilhões, uns R$ 18,5 bilhões.

Dá para pagar um jantar amigo.

Veja mais:

+ Siga o R7 no Twitter
+ Veja os destaques do dia
+ Todos os blogs do R7

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • del.icio.us
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes
13 jun as 06h00

Este era o título do artigo do aqui assinado, publicado no Jornal do Brasil anos atrás. Foi um Deus nos acuda. A tietagem do João – capitaneada pelo pálido Nelson Motta – só faltou promover passeata de bar em bar em Ipanema em sinal de desagravo ao gênio. Que acaba de completar 80 anos.

Claro que eu não me referia ao músico, cuja batida original fundou a bossa-nova e revolucionou a música brasileira, mas ao cidadão João Gilberto – um cara que se julga acima de qualquer convenção do pacto social.

João Gilberto (os íntimos, como o Nelsinho, dizem “o João”) é mal-educado, excêntrico, não paga aluguel, não cumpre compromissos, é impontual e já deixou de comparecer a seus próprios shows. Dizem também que é péssimo pai.

Sempre me pergunto se alguém para ser gênio tem de ser uma criatura insuportável.

Veja mais:

+ Ainda o João
+ Siga o R7 no Twitter

+ Veja os destaques do dia
+ Todos os blogs do R7

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • del.icio.us
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes
13 jun as 05h59

Diz o Ruy Castro, biógrafo da bossa nova, que aquela batida tão especial foi descoberta, aperfeiçoada, reiterada, exacerbada, obsessivamente esmerada, quando João Gilberto morava em Diamantina, Minas Gerais.

A irmã dele, Dadainha, e o cunhado, Péricles, tinham se mudado para lá e João, solitário em Salvador, preferiu ser solitário em Diamantina.

Fechou-se num quarto na casa da irmã e trancava-se horas a fio no banheiro, de pijama e violão, para reinventar a música. O pessoal da terra o chamava de “esquisitão”. A esquisitice deu certo.

Em Minas, João Gilberto conheceu a poesia de Carlos Drummond de Andrade e disse à irmã: quero faz isso na música.

E, assim como Drummond, foi ser gauche na vida.

Leia mais:

+ João Gilberto é um chato
+ Siga o R7 no Twitter
+ Veja os destaques do dia
+ Todos os blogs do R7

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • del.icio.us
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes