29 mar as 19h03

São 600 cargos que o partido do sub – e candidato a titular – Michel Temer tem no governo.

Parece que a rapaziada do PMDB – agora apostando abertamente no impeachment – não tem muita pressa em definir quando sai. Não estabeleceu prazo.

O próprio Temer, eleito numa coligação com o PT, desliga do governo seu partido,  mas não abre mão do cargo – e de sua ambição presidencial, amparada alegremente pela mídia amiga e pelo Judiciário faccioso.

Deixar um emprego público implica em se despedir da rotina confortável e das vantagens pecuniárias.  Em limpar as gavetas (o PMDB acredita que, de todo modo, não é um adeus, mas um até breve, na esperança de voltar a bordo do golpe parlamentar à paraguaia).

Sendo o PMDB o que é, seria bom que, após a tropa do Eduardo Cunha e do Renan Calheiros abandonar as repartições públicas, alguém fosse lá conferir a prataria.

Os computadores, as impressoras, os aparelhos telefônicos, os quadros na parede, as cortinas, até mesmo as xícaras, os copos, os carimbos, os envelopes. Pode não sobrar nada.

O PMDB, como se sabem, tem uma velha reputação a zelar.

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23 mar as 14h57

modelo Liberdade para as gordinhas

Lane Bryant é uma grife americana que atende preferencialmente as meninas oversized. Sem eufemismo: as gordinhas.

Acaba de lançar uma campanha pela tevê – Thisbody – que proclama o orgulho de possuir umas polegadas a mais. Este corpo (This body) é feito para o glamour; este corpo é feito para o amor; este corpo é feito para o jeans; este corpo é feito para o estilo: este corpo é corajoso, poderoso e sexy: este corpo é para quebrar o molde; este corpo é feito para revolucionar.

É lindo, delicado e divertido, o comercial, assinado pela agência Laird + Partners. No casting, a loira Ashley Graham, que já esteve no time da famosa edição de maiôs da Sports Illustrated, e a morena Tara Lynm, igualmente celeb.

Em roupas, lingeries, trejeitos e gargalhadas, as meninas da Lane Bryant corajosamente desafiam o padrão corporal dominante, aquele das magrelinhas secas e insossas que jejuam nas passarelas. Veja o vídeo:

Pois não é que dois canais de broadcasting, dos dois grandes, a ABC e a NBC, implicaram com o comercial? Recusaram-se a veiculá-lo. A peça não tem nada de provocativo, mas despertou o moralismo que domina hoje a América.

Curiosamente, a tevê aberta dos EUA aceita tranquilamente a vulgaridade pseudo sensual dos comerciais de redes de fast food, com suas ninfetas esquálidas e seminuas – o correspondente, lá, dos alguns de nossos comerciais de cerveja.

O escândalo é quando a mulher mostra publicamente orgulho não pelo corpo que os homens querem que ela tenha e, sim, pelo corpo que ela efetivamente tem – seja ele qual for, independente da tirania da balança e da fita métrica.

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21 mar as 08h00

Duas coisas importantes, em minha modesta opinião, aconteceram neste domingo, 20.

Uma delas foi o Fla-Flu no Pacaembu. Sei lá, eu não sou nem Fla nem Flu, o jogo, parece, foi uma porcaria, mas, ainda assim, é curioso registrar para a posteridade o dia em que o grande derby carioca teve que se mudar para a Paulicéia, sempre tão hostil a tudo o que se refere à Cidade Maravilhosa.

O segundo fato, importante de verdade, foi a chegada do presidente Barack Obama em Cuba.

Espero que tenham prestado a devida atenção aqueles que andam tão encantados com as beiçolas sensuais do ministro Gilmar Mendes e entretidos com os viris, largos, sarados ombros (ai, meu Deus!) do juiz Sergio Moro, com seu ar de honky boy de academia.

É um evento que vai ficar para sempre registrado, em sua beleza simbólica, na História da humanidade. Obama decretou ontem o definitivo fim da Guerra Fria, sepultando uma era de ódio político e ideológico que vinha desde o início do século passado.

Adorei ver a Michelle Obama, naquele seu look florido, tropical, de estampas sintomaticamente alegres, as meninas Obama, todo aquele clima de afetividade e congraçamento impossível de ser imaginar alguns anos atrás, nos anos trogloditas dos caubóis republicanos.

Eu disse: Obama sepultou a Guerra Fria. Disse e já me arrependo. Em paisecos periféricos, permanentes candidatos a República da Banana, o ódio ideológico ainda pauta a vida civil. O Paraguai, por exemplo. Ou aquele enorme país vizinho ao Paraguai, louco para copiar seu exemplo.

No Brasil, as multidões da Avenida Paulista ainda acordam diariamente temendo que um comunista esteja lhes espreitando debaixo da cama. Tentaram mandar embora os médicos cubanos que se dispuseram a trabalhar naqueles rincões agrestes nos quais os filiados limpinhos da Associação Médica Brasileira se recusaram a botar os seus delicados pezinhos.

Até hoje as multidões da Paulista gritam para aqueles que não concordam com o catecismo do Bolsonaro, do Lobão, do Olavo de Carvalho, da Rede Globo, do Otavinho Frias, do Gabeira, do Sergio Moro: “Vão pra Cuba”.

Estou achando uma ótima ideia: ir pra Cuba. Um país risonho, musical, tropical, sexy, sem ódio.

Os que ficarem que se contentem com esse Brasil aí, primário, tosco, violento, desinformado, idiotizado pela mídia parcial.

Façam bom proveito. E saudações ao Michel Temer e ao Eduardo Cunha, grandes patriotas.

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16 mar as 11h42

Entro no elevador do meu prédio, no Califado de Higienópolis, e eis que dou de cara com aquela tiazinha azeda, cuja distração é azucrinar o zelador, o síndico, os porteiros. O dia é bonito, com aquele céu de azul filtrado e um sol clemente, mas ela, como sempre, está disposta a estragá-lo, sem piedade.

* Vai ter protesto na sexta, né?

* ...

* Sexta-feira, que belo dia para fazer um protesto!

* ...

[ela nunca sai de casa, entretida que está, o tempo todo, em infernizar a vida dos vizinhos, me surpreende a sua súbita compaixão pela sorte dos cidadãos da metrópole]

* É o protesto dos sindicatos, da Cut, dos baderneiros, dos desocupados.

* ...

* Tudo pago pelo governo. Basta dar dez reais e a favela desce.

Nem sempre de forma tão tosca, muita vezes disfarçado em eufemismos, é isso que ouço o tempo todo à minha volta. Há os bons protestos e há as manifestações pagas.

O de domingo, por exemplo, foi um protesto belo, justo, puro, legítimo, espontâneo – ainda que na organização tenham entrado Força Sindical, mantida com dinheiro do contribuinte, partidos como o PPS, o DEM, o PSDB, o Solidariedade, sustentados pelo fundo partidário, bancado pelos cidadãos, e pela Fiesp, ninho de sonegadores de impostos, irrigado, via Sistema Sesi, com dinheiro público.

O de sexta, convocado por movimentos sociais, é ilegítimo, corrupto, impuro, ainda que os movimentos sociais pudessem representar demandas justas no quadro de uma democracia. É “a favela” em marcha, como diz a jararaca.

Democracia essa que as multidões violentamente cegas execram. Que a minha vizinha venenosa odeia.

A gente nem precisava ler as faixas que pedem a volta da ditadura. Basta observar o que aconteceu com o Aécio Neves e o Geraldo Alckmin.

A política é hoje um crime, a democracia, uma instituição dispensável. A Nova República de 1985, quem diria, terminou na República de Weimar de 1933.

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14 mar as 15h21

 A vaia a Aécio e a Geraldo desvenda os verdadeiros heróis do “fora, Dilma”

Aécio e Alckmin na manifestação na Paulista (Foto: Caroline Apple/R7)

“Vamos melhorar o Brasil” é uma proposta sensata e generosa. Deve ter gente realmente acreditando nisso. Mas não é do jeito que o protesto de 13 de março se expressa que vamos chegar a isso.

É chocante a indigência dos argumentos colhidos na rua junto aos que estavam lá.

Poucos sabem realmente o que querem, além de derrubar a presidente na qual não votaram e que eles execram.

Poucos são os que querem pagar a consequência de seus atos, com a ruptura institucional.

Muitos são os que querem um regime autoritário, a implantação da cultura do olho-por-olho, a ditadura comandada pelos boquirrotos da intolerância e pelo Judiciário de viés partidário.

Aécio Neves, Geraldo Alckmin e Martha Suplicy foram vaiados.

Os heróis dos manifestantes são o Bolsonaro, o juiz Moro e o Ronaldo Caiado – deles, esperam os que protestam a luz que vislumbre o futuro. Mas daí só se pode esperar a treva.

Os protestos de domingo foram alimentados por um sentimento difuso de ódio à política e aos políticos – com raríssimas exceções.

Não existe democracia sem o livre e nobre exercício da política – do diálogo, da negociação, do convívio pacífico dos contrários.

O que se assiste no Brasil é a criminalização da política. Joaquim Barbosa fez seu papel. Sergio Moro está agora no comando. A massa aplaude a caça às bruxas – que sempre termina mal.

O complô da mídia e do empresariado – que parou de produzir, na base do quanto pior, melhor – não é para ser comemorado.

Serão os primeiros a se arrepender, no futuro, como se arrependeram da sórdida farsa que criaram os “revolucionários” de 1964, ao convocar os quartéis.

O Estadão passaria os anos da ditadura se penitenciando. Carlos Lacerda, o coveiro da democracia, seria cassado e preso pelos militares. Só o Globo continuou fiel, já que a ditadura o locupletou.

Para a família Marinho, essa coisa de democracia, livre concorrência, opiniões múltiplas nunca foi o melhor negócio.

O PSDB derrotado em 2014, ao insuflar o golpe libertou os demônios da massa despolitizada. Deve ter entendido no domingo, sob vaias, que o poder não vai lhe cair no colo assim de mãos beijadas.

É uma tristeza o que se assiste.

O Brasil se encaminha para ser de novo uma república de banana, na antessala de um golpe branco – desta vez sem as forças armadas – como aquele que aconteceu no Paraguai.

É isso: o Brasil quer virar um gigantesco Paraguai.

Não contem comigo.

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08 mar as 13h15

Maria Sharapova é o bode expiatório da semana. As pessoas estão adorando odiá-la.

A tenista russa teve a dignidade altiva de convocar a imprensa para admitir que usou, sim, uma substância proibida no Australian Open, o primeiro grand slam do ano (que ela, aliás, venceu em 2008).

Explicou que uma equipe de treinadores e médicos a assiste ao longo da temporada, mas não transferiu a culpa para eles. E pediu desculpas.

Imediatamente, a Nike, a Porsche e a Tag Heuer, seus melhores patrocinadores, renegaram a antiga xodozinha.

O erro que Sharapova cometeu – além de ser aquela belezura a despertar a dor de cotovelo das feiosas – foi o de ter ingerido meldonium, que ajuda no fluxo sanguíneo. Ou seja, dá mais disposição ao organismo.

Maria explicou que tomava o aditivo há dez anos.

O problema é que até o dia 1º de janeiro deste ano, o meldonium era perfeitamente legal. Só às vésperas do torneiro de Melbourne é que a ITF, a Federação Internacional de Tênis, decidiu acatar recomendação da Wada, World Anti-Doping Agency, e considerar a substância um doping.

Foi uma cilada para a Sharapova.

Aos 28 anos, ela é a tenista mais bem paga no circuito. Fatura mais de 120 milhões de dólares cada temporada. Não seria tão ingênua de se arriscar de forma tão indefesa.

Nesta história, sou mais a Maria Sharapova e repudio a cruzada dos falsos moralistas e dos sádicos ressentidos.

Tenho mesmo muitas dúvidas a respeito da própria questão do doping. A ciência e a farmacologia trabalham para desenvolver a performance das pessoas – e dos atletas. Acho isso totalmente normal. O risco de extravasar a dose devia ser avaliado pelo próprio atleta, e não pelos falsos tutores da virtude esportiva.

Deviam liberar o que chamam de doping, democratizar seu acesso. É como o álcool – se alguém quiser se matar com álcool, que se mate. A proibição só reitera o privilégio e aguça a hipocrisia.

Maria Sharapova, bicampeão em Roland Garros e campeã em Wimbledon, hoje sétima do mundo, merece mais respeito. Mas estamos vivendo, por toda parte, um surto de perseguição e desrespeito.

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07 mar as 21h37

Laredo é um nome que soa bem aos ouvidos de quem gosta de um western clássico. Daqueles de John Ford, Raoul Walsh, John Sturges e Anthony Mann.

Laredo, Texas – terra sem lei, de valentões e justiceiros prontos a sacar a arma ao menor sinal de dúvida e suspeita.

Por lá teria passado – narra a lenda – o mais temível e insensível de todos os facínoras: o matador Henry Bonner, aliás, Billy the Kid.

E na implacável caça a ele, os xerifes Pat Garrett – que acabaria por matá-lo – e Wyatt Earp.

A Laredo não fictícia, ainda que persistentemente violenta e agreste como nos old times, fica bem na fronteira dos Estados Unidos com o México.

Cidade de encruzilhada, porta de entrada – ainda que involuntária, vigiadíssima – para uma marola humana, de migrantes de toda a América Central, traficantes, fugitivos e sicários.

E também de gente decente que só pretende se estabelecer, a partir dali, no coração do sonho americano.

Laredo voltou à mídia dias atrás porque, nas primárias do Partido Republicano, escolheu o forasteiro Donald Trump, em detrimento de Ted Cruz, filho da terra.

Senador pelo Texas, Cruz venceu Trump no Estado – mas não em Laredo.

A ironia é que por lá passaria o tal muro graças ao qual o topetudo Trump promete barrar o avanço latino na América.

O muro da vergonha e do preconceito – ideia de alguém que acredita piamente na supremacia da raça branquela dos anglo-saxões da Costa Leste.

Laredo é reduto de chicanos de primeira, segunda ou terceira geração. Se tem gente lá votando Trump a gente deve entender como uma mistura de complexo de vira-latas com a síndrome de Estocolmo.

Ou seja, que os oprimidos acabem se apaixonando por seus opressores. Não é a primeira vez que se vê esse filme.

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23 fev as 11h35

Estou de pleno acordo com o juiz Moro e com a mídia a ele aliada: acabando-se com o PT, tira-se a corrupção do mapa do Brasil.

Não que a corrupção vá de fato acabar – quero dizer, o caixa dois das campanhas, o favorecimento político às empresas amigas, a promiscuidade entre os interesses privados e o poder público, a evasão fiscal, as remessas ilegais de dinheiro para o exterior.

Isso sempre existiu e, temo eu, sempre existirá. Todos os governos, em algum grau, a praticaram, não há partido que não tenha buscado recursos marotos para financiar suas campanhas eleitorais, não há parlamentar – salvo casos excepcionais – que não esteja disposto a se vender por um prato de lentilhas.

A Operação Lava-Jato é um fado de uma nota só. De uma parcialidade escandalosa, só tem um alvo. Quando algum apaniguado entra na alça de tiro, imediatamente se convoca o dr. Janot para, com aquela sua empáfia adiposa, engavetar a acusação.

Como se sabe, quando os suspeitos estão aqui do nosso lado, eles passam a ser injustiçados, vítimas de uma sórdida ação de uso político contra angelicais criaturas. O metrô e os trens de São Paulo. A Alstom. O furto da merenda escolar. O aparelhamento de Furnas. A compra-e-venda da reeleição de 1998. Nada disso interessa aos justiceiros de araque.

Na cartilha do dr. Moro, acaba-se com a corrupção – quando se trata de cupinchas delinquentes – de um jeito bem simples: sem falar nela, acobertando-a vergonhosamente, deixando de investigar o que tem de ser investigado.

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15 fev as 12h11

O Brasil acorda esta segunda-feira para 2016. Será que acorda mesmo ou vamos esperar a Semana Santa passar?

Afinal, será que vale o esforço de abrir os olhos e ver que Eduardo Cunha continua ditando a agenda política, em requintes de chantagem explícita, como um presidente da Câmara de Deputados desmoralizado pelas denúncias de corrupção?

Acordar diante de um cenário onde imperam os Temers, os Alckmins, os Nunes, os Serras, as Dilmas, os Malufs? Onde vicejam justiceiros narcisistas e facciosos, politicamente enviesados? Um país onde os supremos magistrados, aqueles que togas negras, atuam como mariposas, atraídos instantaneamente pelas luzes dos holofotes?

Já imaginou um 2016 de novo incendiado pelos interesses eleitorais do impeachment? A mídia do privilégio obstinadamente a brasa do golpe? Tendo o órgão máximo do Judiciário presidido por aquele Gilmar Mendes e sua beiçola petulante? E o panorama da eleição municipal? Apavorante é o mínimo que se pode dizer.

Tem a Olimpíada do Rio – vocês podem alegar. Pode ser que a competição contamine com algum bom humor a atmosfera ambiente de rancores e queixas.

Mas vejam o recente exemplo da Copa. Alguém aí acha que o Brasil desfrutou do evento com a alegria que poderia ter usufruído? O 7 a 1 foi consequência do triunfal retorno aquilo que Nelson Rodrigues chamava de nosso espírito de vira-latas. De tanto tentar, a gente conseguiu, dentro de campo, não fora dele – o vexame, a humilhação.

2016 e as dificuldades econômicas se aprofundando, as cassandras felizes da vida, os empresários sonegando os impostos (e cinicamente reclamando deles), os bancos se empanturrando de dinheiro.

Nessas horas é que me lembro de Rip Van Winkle, aquele personagem mitológico de Washington Irving, que passou vinte anos adormecido e estranhou um bocado quando espertou em sua aldeia natal.

Vinte anos eu não digo – mas se vocês puderem me acordar daqui a um, dois anos, eu ficaria agradecido.

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21 jan as 19h00

A internet e a calúnia: o idílio está acabando

A calúnia é uma brisa, um sopro leve muito gentil que, despercebido, 

sutil, ligeiramente,  docemente, começa a sussurrar. 

De início lentamente, em murmúrios, sibilante, vai rastejando, vai rodando; na mente da gente se introduz coim destreza, e a cabeça, e os nervos aturde e inflama. 

Em desordem vai saindo, em desordem vai crescendo, faz-se forte pouco a pouco,,voa já de um lado ao outro; como um trovão, uma tempestade que, no centro do bosque, agita o ar, chirria e de horror o sangue te gela. 

No fim, transborda e estoura, propaga-se, redobra-se e produz uma explosão, como um tiro de canhão, um terramoto, um temporal, um tumulto geral, que faz o ar ribombar. E o pobre caluniado, aviltado, pisado, flagelado por toda a gente, com tal azar, soçobra.

(“Ária da calúnia”, cantada por Don Basilio, da ópera O Barbeiro de Sevilha, de Gioachino Rossini, libretto de Cesare Sterbini)

Chico Buarque está processando duas figuras que o caluniaram, e a sua família, nas redes sociais.

Uma delas, um certo pecuarista que era um dos baderneiros na agressão ao cantor à porta de um restaurante do Leblon, certamente deve achar que Rossini é atacante do Milan ou então treinador italiano de algum time inglês (o dito-cujo iria reiterar a grosseria contra Chico, depois da palhaçada de rua, via internet).

O outro, rapaz de trato, deve saber quem foi Rossini e, pelo visto, se sente muito à vontade nas artes sevilhanas da calúnia. Caluniou e quis pedir desculpas – com novas calúnias.

A decisão de Chico Buarque – o qual até então costumava rir dos toscos xingamentos via web – pode marcar, por seu simbolismo, uma troca de mão no trânsito fácil das ofensas odiosas e da violência gratuita que impregnam as redes sociais.

Liberdade de opinião, sim – calúnias à parte.

O que dizem e repetem sobre Chico é um daqueles motes da intolerância política e da ignorância proposital: querem atrelar suas convicções a benefícios do dinheiro público. Mas exatamente à Lei Rouanet.

Só diz isso quem tem muita má fé para vender. A Lei Rouanet veio do governo Collor para revigorar a antiga Lei Sarney. Não foi inventada pelo tal lulopetismo. Foi, aliás, magnanimamente usada durante o governo FHC. E isso não tem nada demais.

Trata-se de um dispositivo de renúncia fiscal pelo qual o governo abre mão de arrecadar impostos para que as empresas possam patrocinar projetos culturais. Quem desembolsa o dinheiro, portanto, não é o governo – é a iniciativa privada.

É um instrumento importante para irrigar projetos alternativos que, se fossem simplesmente buscar espaço segundo as leis malthusianas do mercado, jamais sairiam do papel ou chegariam ao palcos.

A calúnia é maior ainda porque Chico Buarque nunca buscou esse tipo de patrocínio. Nem precisa. Reduzir a vasta, polifônica, generosa obra de nosso maior poeta-cantador a uma barganha de proveitos partidários seria coisa digna de indenização, punição – mais que isso, de cadeia. Se a Justiça, ele própria, não fosse tão comprometido com uma única causa.

De todo modo, é bom que os falsos valentões da internet se acautelem.

 

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