18 fev as 15h33

 Bolsonaro é um tigre de papel

O deputado Jair Bolsonaro (Foto: Wilson Dias/16.12.2014/Agência Brasil)

Uma novidade e uma meia-novidade na pesquisa de intenções de voto para presidente feita pelo instituto MDA e divulgada esta semana pela Confederação Nacional do Transporte (CNT).

A meia novidade é que Lula lidera em todos os cenários – e continua crescendo. Quase 17% de menção espontânea é um dado mais espantoso até do que os mais de 30% que o ex-presidente tem quando os pesquisadores sugerem os nomes dos presidenciáveis.

Na barafunda chamada Brasil, Lula ainda é a lembrança de um tempo melhor: menos desemprego, mais consumo, mais esperança. Uma parte substancial do Brasil está com saudade daqueles tempos (o governo Michel Temer detém o recorde negativo de 10% de aprovação).

Infla também a candidatura Lula – e isso aparece na pesquisa – a percepção, pela maioria, de que ele está sendo perseguido pela mídia e pela Justiça. Vitimizar o Lula é ajudar a elegê-lo.

Portanto, para o juiz Sergio Moro, o procurador-geral e o Supremo Tribunal – que agem em sintonia –, trata-se de tomar logo a medida radical de impedir Lula de se candidatar, de torná-lo inelegível, ou vão acabar produzindo aquilo que menos querem.

A novidade da pesquisa atende pelo nome de Jair Bolsonaro. Chegou a segundo lugar nas intenções de voto, ali com uns 11% - empatado com a sumida Marina Silva e na frente do irritado Aécio Neves.

Ou seja, o comando do impeachment está pagando o preço de ter exacerbado o ódio. Se é para ser radical, intolerante, intransigente, para quer votar num Aécio se você tem à mão o capitão Bolsonaro?

Mas não se iludam; na hora do vamos ver, a direita, o bloco conservador, vai se alinhar a um candidato mais palatável, de apelo mais amplo (ainda que um discurso igualmente ou quase tão selvagem quanto o do Bolsonaro.

Bolsonaro não é Donald Trump. Ele não transita pelo big business, é uma relíquia da ditadura militar. Se é para derrotar “a jararaca” (palavra da advogada Janaína Paschoal) que seja um conservador mais perfumadinho, mais articulado, com trânsito junto ao “mercado”, ou seja, entre os senhores do dinheiro de São Paulo.

João Dória disse que ficaria quietinho na Prefeitura pelos próximos quatro anos. Vão ter de inventar outro Aprendiz.

http://r7.com/RAGG

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06 fev as 12h29

Meu plano era escrever sobre o dr. Deltran Dallagnol, “o intelectual da Lava-Jato” – segundo o Estadão de domingo.

Está lá no moço, na capa do jornal, com trajes de formatura, brandindo alegremente seu diploma da Universidade de Harvard.

O dr. Dallagnol tem a pulsão do holofote e, agora, com tais credenciais estampadas publicamente, deve estar causando ciúmes entre seus pares.

Imagino que deve ter sido um domingo amargo no lar de Rosangela e Sergio Moro.

Mas por que se importar com os justiceiros-celebridades de Curitiba se você acabou de ver Lady Gaga voar?

Foi no intervalo do Superbowl, a final do campeonato de futebol americano, em Houston, Texas. Quem também voou – mas aí, dentro de campo, foi o quarterback Tom Brady, aqui mais conhecido como marido da Gisele Bündchen.

O intervalo do Superbowl é tão disputado pelas estrelas pop quanto o jogo pelas duas equipes rivais.

Prince, Beyoncé, Katy Perry, Lenny Kravitz, Coldplay, Red Hot Chilli Pepperrs já desfilaram pelo palco.

Lady Gaga traz sempre a expectativa de uma tremenda surpresa e, com a ajuda do engenho tecnológico, não deu outra. O que ela cantou – apesar do entusiasmo da plateia – passou a ser mero detalhe.

A pirotecnia de Gaga deve ter contaminado Tom Brady. Até a volta do intervalo ele parecia blasé, amuado, quase deprimido. O time dele, o New England Patriots, de Boston, embora favorito, estava levando uma goleada: 21 a 3. Recomeça o jogo e mais um touchdown do azarão Atlanta Falcons: 28 a 3.

Aí, Brady acordou e, com ele, os Patriots. Empate de 28 a 28 no tempo normal. Nunca na história do Superbowl tinha acontecido uma façanha dessas.

Os dois times vão para a prorrogação e o milagre se completa: gol dos Patriots, 34 a 28.

Tom Brady ganha seu quinto título. Bate o recorde do lendário Joe Montana, do San Francisco 49ers.

Uma partida inesquecível.

Eu pessoalmente tenho certa resistência em engolir as presepadas patrióticas que inevitavelmente surgem no maior evento esportivo dos Estados Unidos.

Este ano, em especial, temi que o espectro de Donald Trump pairasse, em triunfo, sobre a capiauzada machista e tosca que tipicamente acorre ao futebol

americano, na verdade mero pretexto para a cerveja, o churrasquinho e os xingamentos homofóbicos.

Temi mais ainda ao ver a entrada no gramado do casal Barbara e George Bush – o pai.

Mas os comerciais do Superbowl conseguiram amainar, com sutis referencias à uma América tolerante e multiétnica, muito mais ampla do que aquela que elegeu o trevoso, o clima de provocação e deboche que Trump pretende impor ao país e ao mundo.

Quando Lady Gaga surgiu, foi como ele encarnasse a metáfora de uma América talentosa que ainda pode alçar belos voos.

Nada a ver com a mediocridade rasteira e topetuda que o eleitorado, pela metade, instalou na Casa Branca.

http://r7.com/kbcR

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03 fev as 10h38

O gesto de Fernando Henrique, ao levar sua solidariedade ao Lula no Sirio-Libanês, neste momento de dor, retribui o gesto de Lula quando o então presidente da República veio abraçar FHC diante do caixão da ex-primeira-dama Ruth Cardoso.

Na época, escrevi um texto para a revista Brasileiros. Passaram-se oito anos e meio. Fica aqui o documento, de papel passado, de como alguém pode se iludir tão cabalmente com uma nação como a brasileira.

A partir daí, o Brasil colheu uma seara de ódios. Os momentos de grandeza humana são raros, raríssimos. Por isso mesmo merecem ser destacados.

Eis aqui a esperança infundada, datada de julho de 2008:

“Intolerância, aquele abraço!

A política, dizem, é a arte do possível – e é também, claramente, um teatro de aparências. Assim como o jornalismo, ela tem fome de imagens e foi a convergência dos dois, do jornalismo com a política, que produziu, num cenário de morte, um fascinante flagrante de vida. O flashback de uma amizade de décadas que a miudeza da política não consegue escamotear.

O abraço de Lula e Fernando Henrique, diante do caixão de Ruth Cardoso, exprimiu um afeto autêntico, embargado, o intercâmbio de emoções sinceras entre duas criaturas que já foram aliadas e hoje são, de fato, adversárias. Um abraço que remonta às jornadas pela redemocratização, os anos 70, a anistia, as greves no ABC, a primeira campanha de Fernando Henrique para o Senado, em 1978, a frustração das diretas já.

Desta vez, ali estavam o presidente da República e o ex. Afetos privados, mas figuras públicas. Não era, portanto, um mero abraço. É sintomático que quem estivesse por assim dizer presidindo o encontro, com sua dignidade agora silenciosa, fosse Ruth Cardoso. Antropóloga, ela compreendia mais do que os demais mortais o sentido social das representações simbólicas. Haveria de saber: numa época que espetaculariza tudo, até o banal, e principalmente o vulgar, ainda existem gestos que se revestem de um manto de decência pessoal e de grandeza democrática.

Aquela surrada frase brechtiana de Galileu Galileu: pobre o país que precisa de heróis. Sem heróis, pobre em mitos, que o Brasil tenha ao menos o direito a ícones. Aquele abraço é um ícone, uma imagem altamente pedagógica, ainda que cada um brasileiro vá aprender ali apenas o que ele bem quiser. Será, enfim, a chance de uma concertación à espanhola? PT e PSDB se entendendo, dois pilares para o avanço institucional? Pode ser que daqui a algumas semanas o abraço de Lula e FHC não passe de um retrato na parede. Mas não vai doer. Sua força emocional, sua condição alegórica, é para sempre.

A verdade é que a política, no Brasil, não está bem na foto. Qual é a imagem, ao pé da letra, que ela nos passa, no dia a dia dos cotidianos ansiosos e dos telejornais trepidantes? A cara da política é Brasília, o picadeiro barulhento das CPIs, o tosco exibicionismo dos palanques, a inapetência de se pensar o Brasil com uma altivez cidadã que vá além das recompensas midiáticas do Jornal Nacional.

O jornalismo de massa açula os arruaceiros dos plenários, dá voz à patética bancada legislativa do botox e patrocina, nos hooligans de plantão, a ânsia do linchamento de inocentes. O saudável direito à atitude investigativa virou impenitente caça às bruxas, o prazer viscoso do escândalo pelo escândalo.

Não existem partidos, há torcidas – e esse espírito de arquibancada, convidativo à imprensa, com suas artérias de adrenalina, acabou por contagiar até mesmo aquele outro poder, que tinha, por natureza, de estar acima das paixões transitórias e muito além dos fogos de artifício O Judiciário já não se interessa, como prioridade, em promover justiça; adora é fazer um showzinho. A começar pela mais alta das Cortes.

O Congresso é uma vitrine óbvia, o mais aberto dos poderes. Colhe os frutos e paga o preço. Mas que os meritíssimos do Supremo Tribunal Federal tenham se tornado, eles também, candidatos ao star system, a bordo daquela cenografia narcisista de suas togas esvoaçantes, já é confundir transparência com saliência. Ligam-se os spots, lá se vai todo e qualquer decoro. Juiz do Supremo em capa de revista, celebridade solúvel como a estrela da novela e o animador de auditórios – eis aí a Justiça à brasileira.

A propósito do espírito de arquibancada: o futebol ainda é tabu para os bem-pensantes, desdenhado em guetos de gente metida à besta, mas é interessante notar – com todo o respeito – que ele é igualmente capaz de instaurar símbolos. Na mesma semana daquele abraço, espanou-se a poeira de uma fotografia de 50 anos atrás, cujo vigor emblemático resistiu ao ataque fatal, esmaecido, do tempo e do sépia: Bellini levantando a taça, na Suécia, em 1958. Brasil, afinal campeão do mundo.

O capitão, em sua fotogenia de ator de Hollywood, estátua olímpica e silenciosa, como que facultava o grito calado desde muito tempo em nossa garganta de, como dizia Nelson Rodrigues, nação vira-latas. Aquela, a da Suécia, é a melhor imagem de nossa independência.

Ruth Cardoso exerceu aquele mesmo senso de tolerância que, como em Juscelino, não prescindia de princípios. Tolerância não é complacência. De certo modo, Ruth parecia até encanar, em meio aos políticos, a não-política. Suas fotografias, solenes ou informais, revelam que ela, em seu recato irrestrito, jamais cedeu à tentação fácil da ostentação. Rigorosa, sim, em seu modelo de militância, nunca frequentou, porém, as arquibancadas descabeladas das facções.

Se o abraço de Lula e FHC, à frente de figura agora eternizada de Ruth Cardoso, representou a homenagem que todos os brasileiros deviam a ela, é bem provável que a própria Ruth, em sua modéstia proverbial, preferisse conferir ao gesto nobre, comovido, uma leitura menos pessoal. Supor que, mesmo no Brasil, a vida social pode se pautar pela compostura. Aquela suave, civilizada compostura que ela, Ruth, deixou registrada em cada um de seus retratos”.

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02 fev as 14h05

Hoje, 2 de fevereiro, os baianos sabem, é dia de festa no mar. E de tristeza na terra. Foi confirmada a morte cerebral da companheira do Lula, dona Marisa.

Deve ter gente celebrando. Lembro, por exemplo, das duas patetas que foram para a porta do Sírio-Libanês portando cartazes e debochando do fato da ex-primeira-dama ter recorrido a um hospital particular, e não ao SUS.

A ignorância, no Brasil, insuflada por um setor da imprensa ideologicamente orientado e politicamente enviesado, desconhece que o Sírio-Libanês acolhe, de graça, um imponente número de usuários do SUS.

A ignorância – junto com a má fé – não consegue aceitar que uma ex-primeira-dama fosse tratada num hospital de ótimo nível só porque ela se casou com um torneio mecânico. Aos pobres, os maus tratos; aos ricos, as benesses de um sistema eternamente injusto.

(O SUS, aliás, com todas as suas limitações, é um sistema muito mais humano do que imaginam as duas idiotas postadas no Sírio em seu plantão de ódio)

Dona Marisa vinha sofrendo humilhações mais doloridas do que esta. Por ter acompanhado o marido na visita a um apartamento no Guarujá que os dois acabaram não comprando (a PF divulgou esta semana, com a maior discrição, esta conclusão), passou a se submeter ao escrutínio feroz do juiz Moro.

Aquele que só vê crime de um lado – com as outras organizações igualmente criminosas, ele se confraterniza alegremente, em simpósios engravatados e coquetéis de luxo.

Dona Marisa se foi. Agora só falta o Lula, né mesmo, doutor Sergio Moro?

http://r7.com/JHX8

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30 jan as 14h47

Foi um desses sábios populares do futebol (Neném Prancha, pode ser?) que dizia: pênalti é tão importante que quem devia bater era o presidente do time.

Lembrei da frase ao ver o imbróglio das delações da Odebrecht, que subitamente tinham caído no limbo com a morte inesperada do ministro Teori Zavaski, do STF.

Teori era o relator e tinha até o dia de hoje para homologar, ou não, as mais de 70 delações – uma bomba de alta megatonagem já que envolve toda a cúpula do atual governo, o presidente Temer incluído, e seus aliados do PSDB de mais alta plumagem, como o Aécio, o Serra, o Alckmin.

Pois bem: o prazo era hoje e a presidente do STF, Carmen Lucia, decidiu fazer o que Zavaski certamente faria: aceitar as delações.

Não foi uma mera decisão formal – afinal, a presidente do STF funciona como uma plantonista nos casos de urgência quando o tribunal está em recesso, como agora.

Carmen Lúcia podia ter enrolado, esperado a nomeação de um novo relator, a indicação do substituto dele pelo governo investigado. Não, ela tomou coragem e bateu o pênalti. As delações estão valendo.

O que está longe de significar que a partida está definida. As delações passarão a partir de hoje a circular pelos sombrios corredores da burocracia judicial, vão ser manuseados por uma quantidade monumental de magistrados, terão de pedir senha para avançar, ficarão soterradas nas gavetas interessadas em postergar o máximo o andamento das apurações.

As delações vão encarar o pó dos gabinetes, talvez o pó da História – já que aos atuais poderosos da República não interessa nem um pouco a revelação da verdade. E se, por descuido, a verdade aparecer, a, bem, Justiça sempre haverá de fazer dela um juízo seletivo: aos amigos, o esquecimento; aos inimigos, a lei.

Carmen Lúcia teve a coragem de bater o pênalti. Está 1 a 0 para os que buscam a Justiça com isenção e sem medo.

1 a 0, por ora. Temo que acabe 1 a 7. Como tem acontecido neste Brasil de derrota em derrota.

http://r7.com/S10L

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25 jan as 10h30

 Parabéns para uma São Paulo ainda mais feia

Doria apagando grafite em São Paulo

Alguém aí precisa me explicar o que deu na cabeça do prefeito Doria ao apagar as alamedas de grafite que encantavam os turistas em São Paulo.

Aliás, não precisa, não.

Ele só quer aparecer, a qualquer custo – não se acanha do estardalhaço, da polêmica, do ridículo. Como São Paulo é ingovernável, ele vai ficar servindo uma dose diária de factoide a uma mídia deslumbrada.

Depois da cadeira de rodas, um deboche, um acinte a quem de fato precisa dela, o vandalismo contra o grafite.

O grafite, arte popular mas que adquiriu aqui e no mundo todo requinte, toda sofisticação, não cabe na cabeça de um sinhozinho dos Jardins, afeito aos horrores do Romero Brito e às fraudes fajutas que imitam o Krajcberg.

O problema é que o prefeito que se diz homem de seu tempo, com suas roupinhas bem talhadas, é um jeca completo, de uma jequice só, como aliás a tal confraria que lhe paga tributo em suas encenações comerciais. São capiaus de espírito, tacanhos, atrasados – incapazes de apreciar o valor cosmopolita e, aí sim, verdadeiramente contemporâneo da street art.

Não dá para se surpreender com João Doria. Mas é estranho perceber que faz eco ao chefe o modernoso secretario da Cultura, disposto a aderir ferozmente à era da pós-verdade. Esse André Sturm alega que os lindos murais de rua foram apagados porque estavam em mau estado de conservação.

Conta outra, malandro.

Nossos grafiteiros estão pelo mundo afora desenhando em muros e paredes e dando vida e colorido a cidades às vezes nem tão cinzentas como São Paulo. A cidade deles decidiu exilá-los.

http://r7.com/8qpg

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20 jan as 08h07

 Bem vindos ao mundo do faz de contas

A melhor definição sobre o Trump continua sendo aquela de um ídolo pop há décadas na estrada: Bruce Springsteen. Durante a campanha, o roqueiro disse do candidato: “é um narcisista tóxico”.

Bingo.

Agora é meio tarde para a gente ficar procurando definições para este terrível – e temível – fato consumado que os americanos jogaram na cara do mundo. A angústia consiste em tentar decifrar o que esse “narcisista tóxico” pretende fazer a partir desta sexta-feira.

Bem, isso nem o próprio Trump sabe. Ela navega pelo mundo a bordo de palavras que vai espalhando a esmo e cujo único sentido parece ser a sonoridade que essas mesmas palavras lhe trazem ao ouvido. Encantado por si mesmo, Trump se escuta e se fascina. Tudo o que diz se resume a um estrepitoso autoelogio. Palavras ocas de conteúdo – grau zero de relevância.

Tenho para mim que um sujeito que se candidata à presidência da República – qualquer que seja ele, seja qual for a República – tem de ter uma dose cavalar de autoconfiança construída em cima de um sólido alicerce de vaidade.

Reparem em volta – e na História. De Calígula e Hitler (para ficar só nos que valem a pena citar, não os espertinhos de ocasião), não existe um grande líder sem a presunção da onipotência.

O problema, no caso de Trump, é que a onipotência pode ser destrutiva. Ele só sabe abrir a boca para fazer provocações, mesmo quando o desaforo vai além do que pensa... Donald Trump. É o campeão do bullying, pronto para demitir e humilhar os outros. Um autodidata da injúria – uma criança pirracenta que se recusa a crescer.

Como simula ser o senhor do universo, promete reescrever as regras da vida democrática e redesenhar o mapa do mundo. Só que vai ter de combinar com os russos – quer dizer, com os chineses, com os europeus, com os asiáticos... e com os próprios americanos.

Trump, no poder, tende a ser uma caricatura do Trump candidato. Está certo, nomeou um gabinete das trevas, bem à altura dele próprio. Mas o poder tem uma dinâmica a que ele terá de se submeter docilmente.

Obama foi ao ponto: que Trump assuma e seja na presidência o que ele prometeu ser. Trata-se de uma fina ironia por parte do presidente que sai acerca do presidente que chega. Obama tem conhecimento de causa. Teve de se moldar ao poder. Trump também vai ter de colocar sua arrogância imperial no banho-maria de interesses divergentes. Fingindo-se de lobo, vai ser um cordeirinho.

A América tende a piorar, sim, com Trump. Mas não tanto quanto Trump gostaria.

Os americanos adoram contar vantagem sobre si mesmos. Dizem-se os gendarmes do mundo. Mas a valentia made in USA, a gente sabe, é muito seletiva. A invasão do Iraque, a pretexto das “armas de destruição em massa” de Saddam Hussein, só aconteceu porque o governo Bush sabia que as tais armas não existiam. Se existissem, não teria havido invasão alguma.

A Coréia do Norte tem “armas de destruição de massa”. Não há governo americano, republicano ou democrata, capaz de cogitar por um segundo a invasão da Coréia do Norte.

Na guerra comercial, duvido que Trump vá peitar a China. De verdade – e não da boca pra fora.

O falastrão vai continuar sendo o que é, uma espécie de palhaço de si mesmo. A mídia gosta de palavras e de palhaços. Vai ter muito com o que se divertir neste governo do faz-de-contas.
Mesmo que as palavras de Trump não signifiquem rigorosamente nada, elas ficarão faiscando nas manchetes como pérolas de uma era de delírio e de engodo.

http://r7.com/xehC

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18 jan as 14h13

Livros nos presídios. Taí uma boa ideia tola. Livros não fazem mal a ninguém mas não acredito que a leitura de Crime e Castigo, de Dostoievski, vá demover alguém a se regenerar naquelas estufas de criminalidade propositalmente erigidas por uma sociedade hipócrita. E O Pequeno Príncipe , terá ele o condão de subverter, com sua docilidade juvenil, a cadeia de comando das facções de quem o Estado é cúmplice?

Sinto muito discordar mas livros não fazem as pessoas melhores. A vida é que sabe ensinar. E os presidiários, no Brasil, não têm o direito de chamar de “vida” ao que lhes resta, nas suas masmorras pestilentas.

Tive fascínio por livros e ainda os tenho em casa, em quantidade antissocial e anti-decorativa. Não me orgulho do que as pessoas chamam, com reverência babosa, de “biblioteca”. “Você leu tudo?” “Não, claro que não”. Na adolescência, no início da vida adulta, um dos meus prazeres solitários era o de manusear livro após livro, por hora a fio, numa compulsão de seguidas livrarias. Me sentia um candidato à sabedoria. Não alimento mais nem o hábito nem a pretensão.

Lembro agora que o dr. Drauzio Varella, em seus tempos de Carandiru, produziu e distribuiu entre os detentos revistinhas em quadrinhos com preciosas informações sobre doenças e prevenções – quando o vírus da Aids, por exemplo, proliferava no ambiente. Eram cartilhas pedagógicas, as quais não faltavam a pitada sedutora de erotismo. Isso, sim, funciona, um gibi meio safado, como aquele Vira-Lata, com texto de Paulo Garfunkel e desenho de Libero Malavoglia.

Se for o caso, que os pobres diabos amontoados nos calabouços tenham seus livros à, bem, cabeceira. Mas não esperem por nenhum milagre – nem mesmo o bruxo Paulo Coelho se aventuraria a acreditar nisso.

http://r7.com/6UOd

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16 jan as 14h17

O ensaio geral aconteceu no inverno de 2013 quando o mal-estar amplo, mas ainda latente, se enganchou na questão das tarifas de transporte público e fez disso o pretexto para desacreditar, com crescente violência, todas as instituições.

Depois aconteceu o impeachment, um episódio cuja dramaticidade acabou se diluindo no ridículo de patriotadas vazias e no discurso moralista de políticos imorais. O impeachment está previsto na Constituição mas não deixa de ser um tropicão na normalidade democrática. De todo modo, muita gente achou que trocar de presidente é igual a demitir técnico quando o time não vai bem.

Aí, surge o governo Temer, naufragando em fracassos enquanto se debate, junto com a mídia camarada, com o desafio de buscar uma legitimidade que nem provisória há de ser. Quem o instalou lá, o PSDB à frente, já está de olho é na eleição presidencial de 2018 – ou, se possível, antes.

A crise não é do governo. A crise é do Estado. E o sinal mais evidente, desde a insurreição de 2013, vem dos massacres nos presídios (“sob controle”, na versão do decorativo ministro da Justiça). As rebeliões promovidas pelas facções organizadas dizem: aqui quem manda somos nós. Na verdade, mandam dentro e fora dos presídios.

À falta de um Estado minimamente competente, que aliás vai se eximindo cada vez mais de todas as responsabilidades sociais (saúde, educação, segurança, emprego) em nome de um projeto neoliberal e darwinista de “Estado mínimo”, em que só sobreviverão os mais fortes e os mais ricos, setores marginalizados da sociedade tomam em suas mãos os deveres de um Estado que faliu.

Não existe mais normalidade no nosso dia a dia. O Brasil desistiu de si mesmo. A triste realidade é que o PCC manda mais do que o PMDB e o Marcola é o autêntico mandachuva de um país que já se acostumou à violência – e, pior, pede mais.

http://r7.com/2vMN

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14 dez as 13h02

Sinal dos tempos: as colunas dos ricos, chiques e famosos enchem-se de fotos de eventos em que advogados, promotores e juristas de diferentes envergaduras festejam, sorridentes, o feliz desígnio de serem as estrelas do momento.

Bebericam seu uisquinho e, eventualmente, sem pudor, um champã de boa cepa, em vernissages, coquetéis, jantares de gala e, sobretudo, lançamentos de livros aptos, segundo os solícitos colunistas, a decifrarem para os menos aquinhoados pela inteligência o supremo saber contido nos compêndios de leis e de jurisprudência.

Confesso que os prefiro, os senhores da magistratura, os heróis do Judiciário, na imponência de suas togas, as quais ocultam convenientemente a silhueta rotunda de quem aufere salários pra lá de polpudos – e chantageia, com carranca sinistra, quem ameaça lhe cortar as gordas mordomias.

Mas os eventos sociais revelam também jovens promissores da corporação, com aquela barba hype de cinco dias e gravatas que lembram aquelas, espantosas, que os publicitários envergavam nos anos do seriado Mad Men.

Nessas situações, até se comportam como se fossem meros seres humanos – e não enviados especiais da Providência.

Às vezes, deparo com uma ou outra menção a grupos de advogados e até mesmo do Ministério Público – o que é bastante surpreendente, pelo que o MP anda

fazendo – que trazem no nome o aposto “pela democracia”.

Merecem respeito. Se há quem, na casta judicial, tenha de anunciar que é a favor da democracia, é porque o resto não é. Decididamente, não.

O Judiciário brasileiro tem uma velha tradição a zelar no que diz respeito à blindagem do status quo e à implantação de regimes de exceção.

O comportamento arbitrário, politicamente orientado, parcial, truculento do Judiciário brasileiro, do mais baixo juizeco aos marajás do Supremo Tribunal, repete esse triste e histórico papel.

Sem falar do narcisismo exibicionista com que juízes e procuradores se banham hoje à luz dos holofotes midiáticos.

Eles estão se esbaldando com os 15 minutos de fama. Perderam a compostura. Um brinde à futilidade dessa gente.

http://r7.com/ARbU

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