17 jul as 15h28

tevez perdeu penalti 700x350 Por que a gente tem tanta bronca dos argentinos?

Minha vizinhança armazenou uma tonelada de fogos de artifício e usou-os estrepitosamente para celebrar no sábado (16).

Celebrar, claro, a derrota de Argentina na Copa América.

Parecia até dia de derrota do Corinthians (minha vizinhança, a maioria dela, torce o nariz para “gente diferenciada” como a torcida do Corinthians).

Fiquei aqui pensando por que é que o brasileiro tem tanto ódio dos argentinos a ponto de gastar tanta munição com isso.

Teve uma época em que eu tinha um patrão argentino, um psicanalista argentino, um carro argentino (não me lembro qual, só sei que era montado lá) e um monte de amigos argentinos.

Só me faltava, parece, uma fogosa amante argentina.

Tudo isso considerado, confesso que nunca tive a bronca que a maioria dos brasileiros tem. Mesmo no futebol. Na última Copa, quando ficou difícil acreditar para aquele timeco do Dunga, torci para que o belo, escorreito jogo argentino triunfasse sobre aquelas nulidades defensivas. Não deu, mas ao menos o time de Maradona – descontado aquele blecaute da partida contra a Alemanha – proporcionou instantes de sublime beleza.

00376658 Por que a gente tem tanta bronca dos argentinos?

Tenho de confessar que em 1990, entre a Itália e a Argentina, fui ruidosamente Latinoamerica (a razão era inconfessável, devo confessar). E Maradona, Cannigia, Goicocchea trataram de despachar os italianos na casa deles – assim como já tinham despachado antes nossa Seleçãozinha.

Argentina e Brasil têm muito em comum – a começar pelo estilo de atuar dentro das quadras linhas (dizem que também fora delas). Deve ser por isso que a gente busca tão ansiosamente reiterar uma diferença que na verdade não existe.

Vejam quantos argentinos passeiam por nossos gramados com a desenvoltura de quem está em casa. Só os mais recentes: Tevez e Mascherano, no Corinthians, D’Alessandro e Guiñazu, no Inter, Cuenca, no Fluminense, Montillo, no, peço perdão, Cruzeiro.

Vocês vão dizer: rivalidade. Tudo bem, existe, sim. Mas faz algum tempo que eles não nos maltratam em campo. Ao contrário, aprenderam com alguma resignação a perder. Se fosse assim, são os uruguaios que, desde 1950, a gente deveria odiar.

E não me venham dizer que eles são arrogantes, e nós, umas doçuras de pessoas. Basta ver como se comportam nossos locutores e comentaristas. Aliás, só diz que o argentino – em especial, o portenho, de Buenos Aires – é arrogante quem nunca conheceu um chileno.

Ok, os argentinos caíram fora da Copa América que eles anfitrionam. Podem soltar os fogos e liberar a bronca.

A propósito: bronca é do ABC do lunfardo, o dialeto dos malandros portenhos. Até isso a gente aprendeu deles.

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15 jul as 07h00

Assisti ontem à noite (14), no Theatro Municipal de São Paulo, as cerimônias de comemoração dos 222 anos da queda da Bastilha. O 14 Juillet, data nacional da França.

O Municipal está uma beleza, depois de quase três anos de reforma. Só a visita já valia a pena, fora a obrigatória flûte de champanhe para brindar a França comme il faut.

Fiquei imaginando, embevecido pelos murais, entalhes, espelhos, vidros e escadarias, a reação daquela São Paulo provinciana quando seus governantes decidiram bancar a imponente obra, em 1903, baseada na Opéra Garnier, de Paris, e em seu estilo art-nouveau.

Devia ter gente se orgulhando ao ver subir lentamente (a obra durou até 1911), ali no Morro do Chá, uma casa de espetáculos enfim à altura da metrópole em ascensão e de seus ilustres convidados líricos e teatrais.

Mas tenho certeza de que houve também muita gente fazendo muxoxo, os rabugentos de plantão, os fiscais do gasto público, numa crítica feroz à suposta inutilidade faustosa do palácio. Consigo ouvir daqui, um século depois, a lenga-lenga deles: “Por que não hospitais?”

Sim, hospitais... e uma bela casa de espetáculo, por que não?

Percorro o novo velho Municipal e percebo como a beleza arquitetônica faz bem à autoestima de uma comunidade.

Não concordo – repito, pela enésima vez – com quem acha que governar é só cortar gastos.  Vejo o Municipal centenário e torço para que se realizem hoje as promessas de espetáculo em outras áreas da cultura e do entretenimento da megalópolis.

Em 2011, eu me pergunto: futebol também não é espetáculo?

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14 jul as 07h00

Comecei a reparar, não faz muito tempo, aqui na garagem do Edifício Noblesse (que beleza de nome!), que os automóveis estão em fase de crescimento.

Quando comprei meu sedã da VW, cinco anos atrás, ainda se falava “sedã” e meu veículo não destoava do conjunto, em termos de estatura e envergadura (status nunca foi exatamente minha preocupação). Hoje, minha resistente viatura está reduzida a uma desprezível miniatura frente aos monumentos sobre rodas que vizinho a ela estacionam, com imponência robusta e faustosa.

Passei a prestar mais atenção no fenômeno e percebo que o espetáculo do crescimento também se repete, para minha perplexidade ingênua, nas entupidas artérias da metrópole. Não tenho nada contra quem acha uma maravilha adquirir, em deleitoso proveito de sua gorda conta bancária, engenhocas que lembram um trator de hidrelétrica, quando não um ônibus espacial.

Tudo bem, de verdade – é questão de gosto. Mas não seria razoável que o descomunal objeto descansasse os dias de semana no aconchego da garagem particular para, enfim, liberar seus instintos selvagens em ralis sertanejos e em picadas off road da Serra da Bocaina? Se tem tanta estrada de terra por aí à espera, nos sábados e nos domingos, da vertigem aventureira das SUVs, por que é que essas máquinas-gigantes têm de obstruir, nos dias de trabalho, as pistas trafegáveis de Moema e da Vila Olímpia?

Ninguém precisa ter feito psicanálise para saber que carro exprime aspiração e, sobretudo, autoimagem. O carro que você escolhe é o espelho do que você acha que é ou pretende ser. Até eu – que tento manter com o automóvel uma relação de distanciamento crítico – já senti o que isso quer dizer. Certa vez, prometi carona para um delicioso casal de amigos procedentes de Nova York que fazem da vida uma viagem e um prazer. Ela, Anya, russa de nascimento, crítica de gastronomia; ele, Barry, a mais inteligente versão que conheço de um hedonista. Pois os dois resolveram me testar: “Se a gente te conhece bem, Nirlando, o seu carro deve ser um... um...” Acertaram na mosca. Inclusive a cor do dito cujo. Ou alguém lhes segredou a informação ou eu sou a cara de um VW preto.

A observação que empreendo agora, minuciosa, sistemática, acerca dos referidos mostrengos de quatro rodas e, mais do que isso, acerca do comportamento de quem os conduz, me leva a uma conclusão: aquilo não é carro, aquilo é atitude. A bordo de uma daquelas anomalias superpoluentes, o carinha (ou a dona moça) se sente o mestre do universo. Lá de cima de sua cabine com o jeitão de cockpit, ele (ou ela) observa, em superior arrogância, o desfile das formiguinhas insignificantes como a minha.

Toda esta conversa aqui é para chegar ao real objeto de minha indignação: o assassinato perpetrado por um Porsche 911 Turbo ano 2009 num cruzamento do Itaim, em São Paulo, na madrugada do último sábado (9). A vítima foi a advogada Carolina Cintra Santos, de 28 anos, morta instantaneamente num carro mais modesto. O assassino, Marcelo Alves de Lima, trafegava com seu possante a 150 km/hora, em estado de inebriada glória. Matou a moça e, na cena do crime, queria saber do estado de seu mimoso carrinho. Pagou fiança e está em liberdade.

Uma noite dessas, assisti à chegada do atacante Adriano para assistir a um jogo do Corinthians no Pacaembu. Chegou o Imperador, com estardalhaço de guarda-costas, pilotando uma mastodôntica perua Porsche. Fiquei pensando, assim como quem não quer nada: boa coisa não vai sair daí.

ALLONS, ENFANTS

14 de julho, 222 anos da queda da Bastilha. Nessa Europa tíbia, vacilante, nada como o esplendor democrático, intelectual, cultural da França – sempre França, a França de todos nós que amamos a beleza e a liberdade.

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13 jul as 07h00

Meus simpáticvos vizinhos que me desculpem, mas até o final do dia de hoje, quarta-feira (13), pretendo, sem me importar nem um pouco com a brutal descarga de decibéis, compartilhar meu estridente repertório musical com todos os homens (e mulheres) de boa vontade, ouvir as seguintes músicas:

1 – Come as you are, do Nirvana.
2 – Heartland, do U2.
3 – You could have it so much better, do Franz Ferdinand.
4 – Bridge Burning, do novo álbum dos Foo Fighters.
5 – Wake up dead man, de novo U2.
6 – London calling, The Clash
7 – What time is love? do Echo and the Bunnymen
8 – Charisma, do Kiss
9 – Meet me in the bathroom, do The Strokes
10 – The Phone Call, do Pretenders
11 – Louie, Louie, de Iggy Pop
12 – Catholic Girls, de Frank Zappa
13 – Bela Lugosi is dead, de Bauhaus

E, last but not least, The Infinity Hotel e Hi!, do The Brides, a ex-banda dos meus queridos Julia Ghoulia e Corey Gorey.

Não se trata – vocês percebem – de uma lista do tipo “os melhores de todos os tempos”, são hits que fazem meu corpo chacoalhar e meu coração trepidar.

É a homenagem que faço a mim mesmo (e, quem sabe, aos meus compreensivos vizinhos) neste 13/07, que fiquei sabendo ser o Dia Internacional do Rock (não me perguntem por que 13 de julho).

Rock não é só música, rock é atitude, é alegria, é comportamento, é cultura. Tem gente que acha que rock degrada a juventude. Eu acho que rock torna o mundo menos degradante.

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12 jul as 07h00

Tenho de concordar com o Ricardo Kotscho (no Balaio do Kotscho, aqui neste R7) que estamos carentes de notícias encorajadoras. Ainda bem que acontecem coisas como o lançamento, ontem, segunda-feira(11), do livro Feliz de Outro Jeito, do Carmo Chagas, meu amigo, meu ex-editor na Veja e ótimo jornalista das antigas.

Eu disse livro, mas corrijo: é a mais candente, comovedora, incondicional declaração de amor que um homem pode fazer a uma mulher desde... bem, desde, digamos, Romeu e Julieta.

Léa, a mulher do Carmo, é a personagem da história que Carmo chama, no subtítulo, muito convenientemente, de “uma história de superação”. Um gravíssimo problema cardíaco a levou às portas da morte. Léa se salvou, mas teve os dois pés amputados. É uma lição de valentia que, em vez de fazer chorar, dá à gente o poderoso alento da esperança: a vida merece ser vivida.

Tenho o privilégio de ser amigo do casal. Tive o privilégio de escrever a orelha de Feliz de Outro Jeito. Escrevi:

“Conheci a Léa no dia em que ela se casou com o Carmo. Foi no final de 1968, na mesma Igreja de Santa Terezinha cujo sino costuma hoje me despertar memórias ancestrais.

Moro a duas quadras da igreja mas, naquela época, nós, os mineiros do Jornal da Tarde, éramos uns meninotes assustados com a Grande Metrópole, tudo nos parecia distante, inacessível, a gente vivia amontoado, em busca de um colo maternal postiço, no quadrilátero que ia do Copan à São Luís com Consolação – onde imperava o estandarte jornalístico da família Mesquita. Emocionalmente, para o punhado de mineirinhos desterrados, ir do Centrão a Higienópolis era como, e não exagero, viajar para o estrangeiro.

Conheci a Léa no dia do casamento e nela resplandecia a gargalhada franca e a alegria espontânea que – eu iria aprender daquele dia em diante – iam muito além do momento de noiva de fotografia. O Carmo também sorria, com uma exuberância que não fazia jus à caricatura que ele promovia de si mesmo, a do interioano recatado, ainda que perspicaz.

Voltei a encontrar os dois quando o Carmo me convidou para trabalhar com ele na revista Veja e trocar o Rio por São Paulo. Com um refinamento matreiro, tramou um jeito de me convencer a cruzar a ponte aérea. Em vez de me levar para a redação, me convidou à casa dele. Ali, não havia como não me encharcar da felicidade que emanava da Léa e dele, aquela paisagem de cumplicidade invejável e inteligente que ilumina os casais de verdade. Claro que aceitei.

Nesses 43 anos, a vida lhes plantou lindos frutos – filhas e netos sendo os mais deliciosos deles – e agudos desafios, como vocês lerão aqui. Solavancos que o amor suplantou, emoldurado pelo sorriso compartilhado, ora sereno, ora aberto, mas sempre lindo”.

O livro é da Textual Editora e, por R$ 30, você terá mais do quê se emocionar e do quê aprender do que em todos esses manuais bocós de autoajuda que recheiam as listas dos best-sellers.

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11 jul as 16h47

Governabilidade.

Esta é a palavra maldita da política brasileira.

Ela está por trás da compra de votos para a reeleição de Fernando Henrique e do mensalão do PT – episódios que têm, claro, escalas diferentes, o mesalão sendo mil vezes maior – e que joga luz em casos como a recente demissão do ministro dos Transportes, indicado pelo PR, um dos partidos da base de apoio ao governo Dilma.

Governabilidade não é um mal em si mesmo. Trata-se, num regime democrático, de estabelecer alianças de forma a governar sem tropeços e sem solavancos. Assegurar um governo de maioria.

As democracias modernas funcionam assim.

Na França, Sarkozy foi eleito pela UMP, ex- RPR – a Union por um Mouvement Populaire. Mas tem também o apoio do MoDem, ex-UDF – Mouvement Démocratique, do ex-presidente Giscard d1Estaing, mais o MPF, Mouvement pour La France, e mais independentes.

Na Inglaterra, David Cameron só se tornou primeiro-ministro porque o Partido Social-Democrata resolveu fazer uma aliança com o partido dele, o Conservador.

O Brasil prima pela fragmentação partidária, com algumas agremiações que não são senão siglas de aluguel. A governabilidade vira, na prática, um intrincado quebra-cabeça, que tende a levar a alianças espúrias. Guiadas apenas por apetites predadores e por interesses imediatistas, nada a ver com um autêntico sentido republicano.

Não digo que lutar por interesses políticos é ilegítimo. Um representante no Parlamento de, digamos, Mogi das Cruzes não pode deixar defender aquilo que irá eventualmente beneficias sua comunidade. Não consigo entender, por exemplo, porque os jornalões vigiam tantos as emendas parlamentares ao orçamento. Elas são legítimas, não configuram corrupção nenhuma, a princípio. Uma ponte, uma nova rodovia, por que não?

A busca da governabilidade é da equação democrática. O antídoto contra a maracutaia tem nome: transparência. Eu sou plenamente a favor da Copa no Brasil e não entro no coro fácil de que vai haver gastança de dinheiro público e que a corrupção será fatal.

O dinheiro gasto com a Copa vai entrar na conta do investimento. Vai melhorar o país. A Copa é uma vitrine, atrai turismo e eleva o Brasil, a sétima economia do mundo, ao patamar em que merece estar. Não gosto dessa mentalidade tacanha e constipadinha (supra-sumo do sadismo ultraliberal) que diz que governar é cortar despesas. Governar é saber gastar, com lisura.

Basta isso: transparência, controle das despesas. Afinal, para que existe a internet?

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08 jul as 06h00

Parafraseando um barbudo do século XIX, o perigosíssimo Karl Marx, eu convoco: barbudos de todo o mundo, uni-vos.

O Bradesco e a Justiça da Bahia estão contra nós.

É o caso de, aceitando a sugestão do Alê Youssef, porta-voz da juventude de cabeça mais arejada de São Paulo, convocar uma marcha, um protesto, uma passeata. Se até a maconha já teve a sua, ou as suas, por que não a barba?

O Bradesco não surpreende. Demitiu um funcionário porque ele portava no rosto o formoso adereço. Os códigos de conduta do Bradesco, a gente sabe, fariam a inveja dos mandamentos medievais do abade Savonarola. O qual, aliás, era cem por cento glabro.

A vítima foi à Justiça e, no andar de baixo, conseguiu uma indenização de 100 mil reais. Na segunda instância, perdeu. Os nobres juízes do Trabalho acham que barba é um desaforo à ilustríssima clientela de um banco. Demissão sumária, sem indenização e com justa causa.

Tudo bem, alguém pode dizer: está no direito do empregador impor um padrão estético e, digamos, protocolar, uma coisa dessas tem a ver apenas com os hábitos e costumes, não com o direito constitucional a se exprimir livremente.

Eu – cuja barba vem retraindo nos últimos anos a ponto de se transformar num mero apêndice do rosto – acho que é direito, sim. Poderia invocar um bando de barbudos em prol da minha causa, de Ulisses, o grego (não o Guimarães), a Lula.

com caetano Deixem minha barba em paz

Tem muito barbudo decente por aí. Tolstói cultivava seus pendores capilares, Hitler, não. Nelson Mandela envergava suas penugens faciais antes de ser preso. O goleiro Bruno é imberbe de tudo. Mandela, portanto, não poderia trabalhar no Bradesco. O goleiro Bruno, sim.

Exagero? Vocês não sabem como o preconceito contra a barba espreita, a cada esquina. Mesmo sabendo-se que faz tempo que ela deixou de ser o emblema revolucionário dos meninos enragés e descabelados dos anos 60. Por mais que a revista Veja promova, ora e vez, sua caçada ideológica contra “os barbudinhos” do Itaramaty, os pelos do rosto hoje em dia têm compromisso apenas com uma coisa: a vaidade. Por que não?

Reparem como os mauricinhos adotaram a barba de cinco dias. Caprichosamente aparada, minuciosamente desenhada. Não serão eles a abalar os valores da família brasileira – e do establishment conservador, aqui tão bem representado por um banco carola.

Arrisco dizer que a ojeriza aos pelos vai muito além de pretextos como “a higiene”, “o apuro” e “a elegância”. Tem um fundo autoritário aí. Impor um padrão estético, implantar a ditadura do gosto, é como invadir arbitrariamente mais uma vez a esfera do privado. De mais a mais, acho muito suspeito quando gerentes de banco prestam tanta atenção à aparência de seus subordinados.

A PROPÓSITO

Salman Rushdie, de quem falei aqui no post de ontem, tem uma barba que lhe emoldura harmoniosamente o rosto. Mas o que eu queria dizer é outra coisa: leitores céticos acham que ficcionei a história do jantar em Paraty.

paraty com rushdie Deixem minha barba em paz

Então, vai aqui a prova documental. Bom fim de semana.

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07 jul as 07h02

Dilma Roussseff, no seu discurso de posse: “Serei rígida na defesa do interesse público. Não haverá compromisso com o erro, o desvio e o malfeito. A corrupção será combatida permanentemente, e os órgãos de controle e investigação terão todo o meu respaldo para atuarem com firmeza e autonomia”.

Alguém aí precisa dizer à presidente que discursos de posse são da boca para fora – não é para levar a sério. Nem para quem o ouve, muito menos para quem o diz.

Se Dilma se obstinar em fazer o que prometeu – e o episódio da demissão do ministro e de todo o primeiro escalão do Ministério dos Transportes parece indicar isso – ela estará correndo o risco de inaugurar uma perigosa novidade na vida pública brasileira.

A novidade é: ela prefere trocar o pragmatismo por princípios. Sai o pretexto malemolente da tal “governabilidade”, pela qual os partidos aliados loteiam o butim do poder (como tem acontecido desde Pedro Álvares Cabral), entram o rigor ético e a transparência democrática.

Zagueirando a corrupção, Dilma pode seduzir a sociedade. Mas a política – quer dizer, a politicagem – logo, logo há de apresentar a conta.

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06 jul as 18h48

flip p 20100705 Paraty: a noite em que Salman Rushdie caiu no forró

Está começando hoje a Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty. Gosto da sinceridade dessa palavra – festa.  No início, nove anos atrás, as pessoas diziam – festival. São duas coisas razoavelmente diferentes. A Flip assumiu de vez seu lado espetáculo, com uma palheta de participantes, estrangeiros e brasileiros, sem nenhum pudor de fazer da literatura um show e um business. Quem sabe um dia a Flip não assuma sua ostensiva condição nem de festival, nem de festa - mas de feira?

É divertido ver a plateia de gliterrati – neologismo americano que junta glitter, de brilho, e literati, de adeptos das letras. Eles desfilam pelas ruas pedregosas seus cachecóis de lã e sua superior non chalance e pontificam sua erudição irrigada de acordo com o sabor local, ou seja, uma popular cachacinha. Os salões de Paraty se abrem para conversas inteligentíssimas, que às vezes podem desandar em, digamos, diarréia mental. De todo modo, para assegurar literalmente a nobreza do evento, lá estará, de novo, Dom Joãozinho de Orleans e Bragança, o grande anfitrião de Paraty, recepcionando la crême de la crême no palacete que tem no frontispício as armas do Império.

Já estive duas vezes naquela barafunda e numa dela fui brindado com um momento plebeu por alguém que, na literatura, é um príncipe. Pois é, sentei certa noite à mesa num jantar para dez pessoas no restaurante Banana da Terra. À cabeceira, a inglesa Liz Calder, cabeça e coração da Flip. Amy Irving estava lá. Tive o privilégio de me sentar ao lado de Salman Rushdie, o palestrante do dia.

O fato de Rushdie ter vivido por anos e anos à sombra da fatwa – a condenação à morte por um aiatolá fanático – faz você esperar um homem sombrio e esquivo. Aqueles olhos sorumbáticos também reforçam isso. Muito ao contrário: ele é divertido e tem um humor afiadíssimo, para o quê pode ter contribuído, é claro, a quantidade industrial de caipirinhas que ele tomou a título de aperitivo – umas cinco ou seis, contei, antes de desistir. Ele pedia o drinque com pose de connaisseur: “com cachaça e com açúcar”, arriscava ele, em português correto.

À frente de Rushdie, na mesa, estava uma inglesa linda e loira, de seus 30 e poucos anos, apresentadora de TV, que tinha vindo da Inglaterra especialmente para mediar a palestra do escritor. Percebendo que os olhos gerais confluíram para a atraente criatura, Rushdie me deu uma cutucada de lado. “Você é jornalista, não é?” perguntou. “Sou”, foi tudo o que a surpresa da pergunta me deixou dizer. “Mas jornalista de verdade?” “É, até hoje, acho que sim”. Foi aí que, apontando discretamente para a deusa loira, pediu: “Então, me faz um favor: espalha que eu estou tendo um caso com ela”.

Ao se despedir de nós, horas e caipirinhas depois, ele alegou que ia dormir. Caminhei em direção da grande tenda da praça principal, onde o forró comia solto. Deu para ver nosso herói Salman, animadíssimo, ensaiando alguns passos e tentando acompanhar uma música que, talvez ele não soubesse, é cheia de subentendidos no idioma nativo: “Passei a noite procurando tu/ procurando tu/ procurando tu...”

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05 jul as 07h00

Tenho a impressão de que Dominique Strauss-Kahn, o ex-diretor-geral do FMI, aprontou, sim, alguma com a camareira mentirosa, o que faz com que a história de sua prisão espetaculosa pela polícia de Nova York e a posterior libertação transformem-se num desses episódios exemplares em que ninguém tem razão – no qual, da suposta vítima ao suposto agressor, passando pela polícia, todos são culpados, ou no mínimo desastrados.

O papelão maior ficou, porém, para a imprensa. É importante frisar isso. Partiu para o linchamento, deliciada com o peixe graúdo que fisgou. A imprensa dos Estados Unidos, com notáveis exceções, é do tipo que adora chafurdar no lixo e se emporcalhar no esgoto. Vejam o caso do tabloide NY Post, do desavergonhado Rupert Murdoch. É o porta-voz das trevas, só fala com os baixos instintos daqueles americanos mais tacanhos e mais capiaus. Achincalhou DSK, chamando-o de Le Perv (o pervertido). O carinha é obcecado, mas foi julgado antes do julgamento.

Muito hipócrita, a imprensa made in USA virou fiscal das alcovas e gendarme dos orgasmos alheios. Os EUA são hoje um país cujo modelo de moralidade não está tão distante assim daquele dos talibãs a quem combate. A imprensa faz o jogo, não por convicção e, sim, por mero oportunismo.

A mídia – e aí digo, toda ela, inclusive a nossa – gosta de falar em nome de toda a nação. Tenho três décadas de jornalismo e nunca me senti uma única vez representado por, digamos, um escasso editorial de O Globo. A mídia finge falar em nome da opinião pública, mas só fala mesmo é em nome de sua opinião privada – e nunca uma palavra como esta, privada, ganhou tão sugestiva conotação.

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