16 jun as 18h55

O prédio de escritórios que sedia a Projeto, empresa de consultoria do ex-ministro Palocci agora faladíssima, chama-se Çiragan (em turco, com til em cima do G e se pronuncia Xirarrán).

Originalmente dá nome ao suntuoso palácio inaugurado em 1867, à beira do Bósforo, em Istambul, onde, em meio a tapetes, almofadas, eunucos e odaliscas, imperararam os sultões otomanos.

Como um foi destronado, outro reinou por apenas três meses e o próprio palácio certa vez pegou fogo, ficou com fama de lugar agourento.

O sultão do jornalismo da Rede Globo, Ali Kamel, foi visto esperando, horas a fio, no lobby do hotel Meliá de Brasília, na noite de terça-feira (14).

Até o momento em que a testemunha indiscreta se retirou, o senador Álvaro Dias ainda não tinha aparecido, sobraçando algum daqueles dossiês secretos anti-PT que a Globo e o Globo tanto apreciam.

O financeiro da FIFA divulga que a entidade tem em caixa, hoje, o correspondente a R$1,5 bilhão. Em dólares, 900 milhões. Está explicado porque Joseph Blatter, apesar da maré de acusações que a FIFA enfrenta, foi reeleito tão facilmente para seu quarto mandato.

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SULTÕES, MAGNATAS

E O JUSTICEIRO

O prédio de escritórios que sedia a Projeto, agora famosa empresa de consultoria do ex-ministro Palocci, chama-se Çiragan (em turco, com til em cima do G e se pronuncia Xirarrán)

Originalmente dá nome ao suntuoso palácio inaugurado em 1867, onde, em meio a tapetes, almofadas, eunucos e odaliscas, imperararam os sultões otomanos.

Como um foi destronado, outro reinou por apenas três meses e o próprio palácio certa vez pegou fogo, ficou com fama de lugar agourento.

O sultão do jornalismo da Rede Globo, Ali Kamel, foi visto esperando, horas a fio, no lobby do hotel Meliá de Brasília, na noite de terça-feira.

Até o momento em que a testemunha indiscreta se retirou, o senador Álvaro Dias ainda não tinha aparecido, sobraçando algum daqueles dossiês secretos anti-PT que a Globo e o Globo tanto apreciam.

Esta é para tirar o sono dos magnata das altas maracutaias e de certos marajás dos tribunais superiores: o hoje desembargador Fausto De Sanctis, aquele da Operação Satiagraha, fez chegar aos amigos sua intenção de escrever um livro. De Sanctis, embora seja chegado às letras (ou talvez por isso mesmo), não pertence a nenhuma Academia. Contudo, já publicou um livro de ficção, Xeque-Mate (de 2010). Na sua carreira de implacável justiceiro, De Sanctis não confunde realidade com ficção, mas na literatura é o que ele mais gosta de fazer. Quer dizer, mesmo que o próximo livro seja uma ficção (ninguém sabe ao certo o conteúdo dele), os pilantras da vida real que se cuidem.

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15 jun as 15h07

Para quem fica um tempo sem ir a Brasília – como eu fiquei – a cidade pode surpreender. No bom sentido, quero dizer. Existe outra Brasília que não aquela apresentada, de forma debochada e caricata, por certos pseudo-humoristas nada gentiles da TV.

A impressão é de que capital federal deixou de ser monotemática. O coração do poder hoje fala menos de política – ou pelo menos não fala de política.  É como se Brasília tivesse se desidratado da testosterona que costuma caracterizar o cenário das disputas políticas. Já será o efeito do Matriarcado Dilma?

Você percorre os melhores restaurantes e a conversa, à mesa vizinha, raramente diz respeito a alguma medida provisória ou alguma comissão de inquérito. As pessoas parecem normais, discutindo assuntos normais, familiares. Quanta diferença daqueles tempos em que o Florentino e o Piantella se revezam, às noites, para sucursais tardias dos plenários parlamentares, aquela promiscuidade de deputados, senadores, empreiteiros, lobistas e outras criaturas das sombras.

O Piantella, em especial, ficou famoso por sediar, após o expediente parlamentar, o Estado-Maior da oposição, capitaneado por dr. Ulysses Guimarães e por sua invariável Poire – o fermentado de pera do norte da França. O Piantella funcionou, nos anos da ditadura e na era da redemocratização, como uma espécie de botequim ideológico dos não-conservadores. Se o ex-deputado Luis Eduardo Magalhães e o então ministro Pelé também iam lá quase religiosamente, é porque o Piantella tinha outras mimosas atrações noturnas além das inflamadas tentativas de endireitar a República, quando não de salvar o mundo.

Passei por um ninho de novos restaurantes, num lugar exageradamente chamado de Fashion Park, lá no caminho para o aeroporto. Me falaram muito bem do Alice mas quem me seduziu foi o Taypá, de cozinha peruana. O ceviche é muito bom, assim como o tiradito. Mesas com senhoras desacompanhadas, do tipo que poderiam ser hoje ministras de Estado – e não aquelas raparigas que, em florido buquê, vagavam outrora pelos restaurantes do poder.

Sinto desapontar meu amigo James Holston, que escreveu um livro devastador contra o projeto de Brasília (A Cidade Modernista ganhou em 2010 uma edição atualizada da Companhia das Letras) – segundo ele, uma utopia que não deu certo, como de resto quase todas as utopias. Mas a realidade que resultou daquelas linhas traçadas por Lúcio Costa não me parece tão atroz assim. Brasília é opulenta, civilizada e não há quem resista aquela cena do sol se deitando pachorrentamente sobre o horizonte que não parece ter fim.

A PROPÓSITO

Juscelino Kubitschek e seu time (Oscar Niemeyer, Israel Pinheiro, Bernardo Sayão e uma multidão de candangos) erigiram a monumental nova capital em quatro anos. Quem disse que o Corinthians não constrói seu estádio em três?

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14 jun as 06h00

Pertenço à rara espécie daqueles que gostam de pagar as contas em dia. Deve ser vício de origem. Mineiro guarda dinheiro debaixo do colchão para não pagar juros bancários e não atrasar no pagamento das dívidas. Aliás, nem dívida mineiro costuma ter. Mineiro não é empreendedor. Mineiro não gosta de correr risco. Mineiro é pão, pão, queijo, queijo – pão de queijo.

Acontece que o mineirim aqui assinado, premido pelas exigências da vida civil, possui dois ou três cartões de crédito. Um deles me informa, com solenidade, que “desde 1988” sou um fiel – e, acrescento, pontualíssimo – cliente do American Express.

Recentemente, mercê talvez da pontualidade obsessiva ou do tempo de casa, fui agraciado com um Platinum Card do Amex. Não sou dessas coisas, mas tenho de confessar que senti os inebriantes efeitos do upgrade. Virei um cliente muito especial – festejei com meus botões.

A verdade é que, não sendo eu um consumidor de apetite leonino, mantenho com meu Platinum uma relação sujeita a sazonalidades. Na verdade, meio que reservei, noblesse oblige, o imponente cartão prateado para minhas eventuais – cada vez mais eventuais – viagens ao exterior. Pagar o jantar no Benoît de Paris com meu Platinum é como se se alçasse automaticamente ao patamar de um magnata de Wall Street.

Estive recentemente na Europa e a conta do Amex me trouxe uma surpresa estrepitosa. Meu débito extrapolava todas as piores previsões e os mais razoáveis cálculos. Chequei online e verifiquei, em meio a um cipoal de juros, multas e taxas de cobrança, uma robusta conta não paga. Uma não, duas.

Como é possível, se sempre pago meu cartão em débito bancário automático? Como pode? Iniciei, assim, uma insana peregrinação pelos anônimos labirintos do telemarketing. Aparentemente, meu rutilante cartão não me conferia, nessa situação, nenhuma prerrogativa especial.  Fui à luta.

Tenho de reconhecer que, afora rápidas recaídas naquela linguagem do telemarketês, as criaturas que me atenderam, uma, duas, quinze vezes, primaram pela gentileza, embora tivessem dificuldade em me esclarecer o que de fato acontecia. Finalmente, alguém me despachou, num compreensível rasgo de impaciência: “Se é débito automático, que tal checar com o seu banco?”

O Itaú – que absorveu o Unibanco fingindo que era uma fusão – me informou que tal tipo de informação eu teria de obter pessoalmente com meu gerente, sujeito aliás simpaticíssimo de quem, porém, por falta de uma convivência mais frequente, me faltava o nome.

Fui à minha agência, já resignado com a via crucis, e pude enfim descobrir que, de abril para cá, o débito automático deixara de ser automático e sequer podia ser reconhecido, pelo meu banco, como débito. Ou seja, eu que me virasse para pagá-lo. Estava explicado porque a conta engordara tão fulminantemente: eram três contas, e não apenas uma.

Digamos que cabe a mim um pecado venial nessa barafunda toda: quando se contrata num banco o débito automático, você se ilude com a ideia de que pode se esquecer daqui, que o seu banco estará ali zelando sabiamente para que a dívida seja saldada. Nada disso: a verdade é que a responsabilidade de checar minuciosamente sua conta continua sendo sua, apenas sua. Você que se dane.

O Itaú mão pagou o débito que tinha contratado pagar. Uma, duas vezes – três, se eu não tivesse sido despertado pelo pesadelo da dívida estratosférica. Naturalmente, lava as mãos.  O American Express, ignorando olimpicamente meu currículo exemplar, me sobrecarregou de punições pecuniárias pelo fato de ter atrasado pagamentos que eu nunca atrasara.

Não termina aí, sinto dizer, a saga. Porque me restava a última etapa da odisseia. Liguei para o Amex e lá uma amigável voz me muniu de um quilométrico código de barras com o qual eu poderia voltar a ser um cidadão financeiramente confiável. Claro que tive antes de, “por medida de segurança”, me submeter a um rigoroso questionário oral em que não só tive de enunciar todos os algarismos de minha vida civil como tive de vasculhar a memória para mencionar dois ou três locais onde fizera compras com meu notável cartão. “Mas, meu anjo (já me sentia íntimo daquelas operadoras anônimas), sei que fiz compras em Milão, em Paris... Como é que vou me lembrar do nome alemão daquela farmácia do aeroporto de Zurique?”

O tal código de barras se materializou, enfim, e fui ao Itaú, onde novos sorrisos femininos, estampando simpatia, me informaram que a conta só podia ser paga no Bradesco. Fui ao Bradesco e outro gentil funcionário me desapontou: aquele código de barras não batia. Nova tentativa junto ao Amex: não, o código é esse mesmo.

Passada uma semana de incursões inúteis pelos canais competentes (?), de muitas horas perdidas em guichês e ao telefone, eis que uma alma piedosa me aconselha imprimir o boleto e ir à boca do caixa (já que a quantia superava o limite de qualquer operação no caixa eletrônico). “Mas tem de ter Adobe no seu computador”, advertiu. Felizmente, eu tinha. E, agora, tinha em mãos o fundamental papel para zerar a monumental conta que a realidade teimava em não me deixar pagar.

Esperei, impaciente, pela segunda-feira (ontem). Acho que até sonhei com a coisa – um daqueles sonhos cansativos, feitos de repetições que não se completam. Corri para pagar. No Bradesco, claro. Espero na fila. Meia hora. Chega a hora. O caixa faz um muxoxo: “Não pode, valor muito alto”.  Eu me desespero: “Mas como é que eu faço para pagar?”. Ele, inflexível: “Posso checar com o gerente, mas só na sua agencia bancária”. Eu ainda tento: “Mas você consegue acessar minha conta aqui. Tenho saldo suficiente, olha aí”. O rapazote de gravatinha fina, feliz em me contrariar: “Não é o saldo, é o sistema”.

Sou cabeça dura. Por mais que o Bradesco não quisesse receber meu débito, eu insisti em pagar. Peguei o carro, atravessei São Paulo de norte a sul e me dirigi à longínqua agência onde cometi o desafio de abrir uma conta, quinze anos atrás, quando eu trabalhava ali por perto.

Me desculpem, leitores, esta narrativa tão cansativa, tão tediosa, mas três horas depois, a poucos minutos de me ver às voltas com novas taxas, novos juros, novas punições, aleluia! – consegui pagar minha conta do Amex Platinum Card. Tive de esperar pela assinatura do meu gerente. Que está de licença médica. Então, do assistente dele. Que estava na rua, a trabalho. Esperei, esperei, mas minha tenacidade venceu. Aviso desde já que, no mês que vem, eu volto para cometer esse desatino de pagar o que devo.

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13 jun as 06h30

Foi o banqueiro José Safra quem pagou a conta do banquete de 500 talheres em homenagem aos 80 anos de Fernando Henrique Cardoso, na noite de sexta, 10, na luxuosa Sala São Paulo.

Não é a primeira vez que Safra se mostra tão generoso com o ex-presidente. FHC vive hoje no apartamento onde Safra morava, à rua Rio de Janeiro, naquela Higienópolis de punhos de renda – e que Safra lhe vendeu em 2002 por um preço para lá de camarada.

José Safra está em terceiro lugar entre os bilionários brasileiros da lista da Forbes. Tem, de acordo com a revista, um patrimônio de US$ 11,4 bilhões, uns R$ 18,5 bilhões.

Dá para pagar um jantar amigo.

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13 jun as 06h00

Este era o título do artigo do aqui assinado, publicado no Jornal do Brasil anos atrás. Foi um Deus nos acuda. A tietagem do João – capitaneada pelo pálido Nelson Motta – só faltou promover passeata de bar em bar em Ipanema em sinal de desagravo ao gênio. Que acaba de completar 80 anos.

Claro que eu não me referia ao músico, cuja batida original fundou a bossa-nova e revolucionou a música brasileira, mas ao cidadão João Gilberto – um cara que se julga acima de qualquer convenção do pacto social.

João Gilberto (os íntimos, como o Nelsinho, dizem “o João”) é mal-educado, excêntrico, não paga aluguel, não cumpre compromissos, é impontual e já deixou de comparecer a seus próprios shows. Dizem também que é péssimo pai.

Sempre me pergunto se alguém para ser gênio tem de ser uma criatura insuportável.

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13 jun as 05h59

Diz o Ruy Castro, biógrafo da bossa nova, que aquela batida tão especial foi descoberta, aperfeiçoada, reiterada, exacerbada, obsessivamente esmerada, quando João Gilberto morava em Diamantina, Minas Gerais.

A irmã dele, Dadainha, e o cunhado, Péricles, tinham se mudado para lá e João, solitário em Salvador, preferiu ser solitário em Diamantina.

Fechou-se num quarto na casa da irmã e trancava-se horas a fio no banheiro, de pijama e violão, para reinventar a música. O pessoal da terra o chamava de “esquisitão”. A esquisitice deu certo.

Em Minas, João Gilberto conheceu a poesia de Carlos Drummond de Andrade e disse à irmã: quero faz isso na música.

E, assim como Drummond, foi ser gauche na vida.

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13 jun as 05h58

O Municipal de São Paulo – reaberto ontem ao público depois de três anos de reforma – faz 100 anos em setembro.  Sonho de modernidade de uma cidade que ainda era muito provinciana (segundo o crítico Antonio Candido, naquela virada de século a língua que se falava em São Paulo era uma mistura de italiano com nhengatu, versão arrevezada do tupi-guarani), começou a se construído em 1903. O Rio, ex-capital da Corte e então capital da República, resolveu correr atrás e também iniciou seu Theatro Municipal em 1905. Terminou antes do que o de São Paulo, em 1909.

Num caso e no outro, não se tratam só de monumentais casas de espetáculos. Inspiradas no exuberante art-nouveau da Opéra Garnier, de Paris, simbolizavam a aspiração da elite nativa de se sentir (e se vestir) francamente européia.

Sinto dizer, porém, que nem Rio nem São Paulo saíram na frente na competição de luxo operístico. Na trilha da opulência do ciclo da borracha, Manaus construiu o Teatro Amazonas em 1896. E o Teatro da Paz, em Belém, é ainda mais antigo: foi concluído em 1874.

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10 jun as 06h00

istambul A melhor cidade do mundo

Istambul é uma cidade tão surpreendentemente encantadora que os leitores do Financial Times a elegeram, numa votação pela internet, como sua cidade favorita em todo o mundo. Só então vieram, na sequência, Londres e Nova York. Leitores do FT são gente cosmopolita e endinheirada, que supostamente sabe (e conhece) o que diz. Eu modestamente assinaria embaixo.

Istambul, ex-Constantinopla, ex-Bizancio, é o tipo cidade-encruzilhada, onde culturas, raças e credos se mesclam febrilmente e onde, portanto, a tolerância impera. São cidades que fazem da diferença seu encanto e seu carisma.
Cidades como Veneza, como Genova, como San Francisco, nos EUA, como Barcelona, como Tanger, no Marrocos, como a própria Nova York. Cidades que não por acaso atraem os aventureiros, os desterrados, os sem-raízes.
Istambul é a melhor síntese de tudo isso.

Europeia, mas com um pé na Ásia, ela mistura tradição com modernidade, tem uma cena musical radical e fervilhante, é festiva, brilha ao sol refletido no remanso do Bósforo. Meus amigos Anya von Bremzen e Barry Yourgrau, ela russa há 20 anos em NY, ele novaiorquino de Queens, experts em gastrononomia, vinhos e na arte de viver, fizeram do Istambul sua segunda casa, um loft debruçado sobre o estreito, lá do alto de uma de suas inspiradoras colinas. Eu os invejo do fundo do meu coração.

A Turquia, aliás, está bombando também na economia. Tem 39 bilionários na última lista da Forbes (o Brasil tem 30). É uma exceção nessa Europa paralisada, vacilante, e que, no entanto, ainda se recusa a receber, por preconceito étnico e religioso, a Turquia nos amplos braços de sua Comunidade Econômica. A Turquia é, desde os anos 20, um país exemplarmente laico. Religião e Estado não se misturam de jeito nenhum. O presidente é muçulmano, o primeiro-ministro é muçulmano, mas o governo se deixa levar muito menos por pressões religiosas do que, digamos, o governo dos Estados Unidos e do que eleições presidenciais no Brasil.

É uma grande cidade, Istambul, o que significa que, assim como São Paulo, outra grande cidade, o trânsito é diabólico. Mas o único momento em que ela recai na barbárie é naquele terreno visceralmente bárbaro que é o futebol. Se vocês acham que Grenal ou Corinthians vs São Paulo ou Atlético vs Cruzeiro é um pavor, precisavam ver o que é um Fenerbache vs. Besiktas. Uma carnificina.

Tanto que em Istambul, preventivamente, só a torcida do time mandante assiste à partida. Aí o que acontece é que os fanáticos do outro time ficam à distância esperando a partida acabar a fim de, digamos assim, confraternizar com a torcida adversária. O pau quebra, a polícia intervem, nuvens de gás transformam o tráfego num pandemônio. Menos mal que – diferentemente do que acontece com os vizinhos – a válvula de escape dos turcos seja hoje o futebol.

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09 jun as 12h20

Estamos em plena era do matriarcado – e aí está o Ministério Dilma para mostrar que as mulheres podem ser mais confiáveis e mais eficientes do que os homens. Eis que, por coincidência, me cai a ficha, graças à Dilma e às páginas eletrônicas de um livro, de que está mais do que na hora dos Estados Unidos também deixarem essa postura machista de Marlboro Country, de xerife do mundo, como se tudo o mais fosse um vasto faroeste e nós aqui, da América Latina ao Oriente Médio, fôssemos sioux e cheyenes a serem exterminados pela cavalaria ianque.

Está faltando à política americana um toque de doçura feminina. E não me venham falar de Hillary Clinton, a ministra de Relações Exteriores, porque douçura feminina não é exatamente a especialidade dela. Bem, o livro que estou lendo no meu iPad é biografia de Stanley Ann Dunham. Apesar desse Stanley aí, era uma mulher. A Singular Woman, diz o título da biografia que acaba de ser lançada. Uma mulher de fato singular.

singular woman ok Obama, seja mais sua mãe

Nascida no Meio-Oeste, no Estado de Kansas, aquele esteio do que os Estados Unidos têm de mais capiau, de mais truculento e de mais atrasado (exceto o jazz, que brilhou em Kansas City), Ms. Dunham rodou com a família de Estado em Estado, estudou em escolas liberais, impregnadas do espírito irrequieto que começava a florescer nos anos 60, casou-se grávida com um brilhante economista do Quênia, então estagiando no Havaí, e deu à luz em 1961, aos 18 anos, a um filho cujo nome esqueceu a herança branca para reiterar a descendência africana (e islamita).

Vocês adivinharam: o filho se chama Barack Houssein Obama.

Obama, em suas memórias, falou muito do pai (tanto que a autobiografia se chama Sonhos Vindos do Meu Pai) e pouco de sua mãe. Não dá para entender o por quê. Ela foi (morreu jovem, em 1995) uma figuraça, de cultura extensa, uma humanista, antropóloga tão interessada em olhar, com interesse e ternura, outras culturas que chegou a se mudar para a Indonésia, onde passou a estudar expressões do artesanato local (Indonésia, é bom lembrar, é um país muçulmano).

Meio hippie, essa Ann – vocês vão dizer. Isso mesmo: inteiramente hippie. Mas ofereceu ao filho um exemplo de paixão pela vida e pela humanidade que, agora se sabe, ajudou-o a chegar aonde chegou. O antropólogo consegue ver o mundo pelas múltiplas facetas que nele proliferam. Sabe que as pessoas comem de forma diferente, falam de forma diferente, trabalham de forma diferente, pensam a vida de forma diferente, amam de forma diferente, sonham de forma diferente. E que isso deve ser preservado, não abafado em nome de uma cultura supostamente superior. A antropologia é um magnífico exercício da tolerância.

Tão apegado aos valores másculos de Obama Sr., Obama Jr., ao meditar sobre o Iraque, o Afeganistão, devia se lembrar cotidianamente que teve outro exemplo em casa. Devia ser mais a mãe dele.

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08 jun as 07h23

gilberto braga okokokoko Depois de Merval, Gilberto Braga?

Vai parecer overdose de Rede Globo, mas um influente conspirador de fardões – capaz de tramar a eleição para a Academia Brasileira de Letras mesmo de quem não tenha a menor afinidade com as ditas letras – começa a vislumbrar no horizonte a candidatura de Gilberto Braga, autor da novela Insensato Coração. Só falta combinar com ele. Gilberto anda meio sem tempo para sair por aí cabalando votos.

O novelista, bem ou mal, tem uma obra vasta e consistente, ainda que não exatamente convencional pelos padrões da Academia. Padrões? A bem da verdade, se a Academia tinha algum, deve tê-los enterrado recentemente junto com alguns intelectuais de verdade. Eu disse: de verdade, e não de vaidade.

Contar com a fluência do recém-eleito Merval Pereira nos próximos chás das 5h não chega a ser um desaforo no cenáculo onde já brilhou um graduado membro da Junta Militar, o general Lyra Tavares, alçado às culminâncias daquele eminente Parnaso graças a meia dúzia de trovinhas assinadas com a alcunha de “Adelita”.

O lítero-conspirador dos bastidores confidencia que Merval Pereira, após a vitória, abriu aos amigos seu belo apartamento decorado com gravuras de Miró e pinturas de Leonilson. Champanhe e uísque brindaram o feito. Compareceram os irmãos Marinho (João Roberto e Roberto Irineu), patrões do novo imortal, o senador Aécio Neves, o Dr. Paulo Niemeyer, o ex-prefeito Israel Klabin, entre outros ilustres convivas. Justificando sua insólita eleição, Merval lembrou que leu todos os clássicos.

Quem também já entrou no radar da Academia é Marco Aurélio de Mello, ministro do Supremo Tribunal. Não será surpresa se Marco Aurélio vier logo, logo a derrotar na ABL, algum escritor de verdade.

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DEPOIS DE MERVAL, GILBERTO BRAGA?

Vai parecer overdose de Rede Globo, mas um influente conspirador de fardões – capaz de tramar a eleição para a Academia Brasileira de Letras mesmo de quem não tenha a menor afinidade com as ditas letras – começa a vislumbrar no horizonte a candidatura de Gilberto Braga, o atual autor da novela Insensato Coração.

Só falta combinar com ele. Gilberto anda meio sem tempo para sair por aí cabalando votos.

O novelista, bem ou mal, tem uma obra vasta e consistente, ainda que não exatamente convencional pelos padrões da Academia.

Padrões? A bem da verdade, se a Academia tinha algum, deve tê-los enterrado recentemente junto com alguns intelectuais de verdade. Eu disse: de verdade, e não de vaidade.

Contar com a fluência do recém-eleito Merval Pereira nos próximos chás da 5 não chega a ser um desaforo no cenáculo onde já brilhou um graduado membro da Junta Militar, o general Lyra Tavares, alçado as culminâncias daquele eminente Parnaso graças a meia dúzia de trovinhas assinadas com a alcuna de “Adelita”.

O lítero-conspirador dos bastidores confidencia que Merval Pereira, após a vitória, abriu aos amigos seu belo apartamento decorado com gravuras de Miró e pinturas de Leonilson. Champanhe e uísque brindaram o feito. Compareceram os irmãos Marinho (João Roberto e Roberto Irineu), patrões do novo imortal, o senador Aécio Neves, o Dr. Paulo Niemeyer, o ex-prefeito Israel Klabin, entre outros ilustres convivas.

Justificando sua insólita eleição, Merval lembrou que leu todos os clássicos.

Quem também já entrou no radar da Academia é Marco Aurélio de Mello, ministro do Supremo Tribunal. Não será surpresa se Marco Aurélio vier logo, logo a derrotar na ABL algum escritor de verdade.

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