09 ago as 07h43

A perspectiva muito atual de que o mundo acabe em déficit me faz recordar a história de um amigo que tem aí – segundo outro amigo – “uns 3 bilhões”. Em euros, bem entendido.

Ele é do mercado financeiro e sócio, ainda que minoritário, de uma mina de ouro líquido.

Quando a crise detonou, em 2008, nos Estados Unidos e na Europa, com reflexos aqui, ele estava tão atolado nos tais derivativos que resolveu pegar o avião e esfriar a cabeça distante das notícias, lá na Capadócia, interior da Turquia.

Voltou duas semanas depois, menos desalentado. “É grave a crise”, analisava ele, “mas a gente vai dar um jeito”.

No balanço instável das bolsas, oscilou também o humor do moço, de tal forma que semanas depois já sumia de novo a criatura, agora em desespero agudo, sem rumo fixo.

Quando o revi, depois da virada de 2008 para 2009, auscultei o pulso da débâcle financeira: “E aí, Armando (digamos que ele se chame Armando), e aí? Mais animado?”

“Que nada”, me disse. “Tive de vender o avião”.

Condoeu-me a lembrança do garboso pássaro de aço que o servia, um magnífico Gulfstream desses cheios de letras e de números. “Que chato”, lamentei.

“É, agora fiquei só com um” – concluiu o moço.

Com a crise pipocando novamente por aí, como um zumbi insepulto, é no Armando que penso, aflito, e no destino de seu jatinho até aqui sobrevivente.

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17 jun as 14h13

Em meus momentos mais azedos, convenço-me – contrariando todas as minhas convicções – que a pena de morte justifica-se plenamente em dois casos.

A saber:

1 – para quem joga bituca de cigarro em mictório masculino, condenando os futuros usuários ao lamentável contato com um fétido entupimento;

2 – para caminhoneiros que viram carretas na Marginal, na Linha Vermelha e em rodovias (vale, acredito, o fuzilamento sumário, sem julgamento e sem defesa).

Acrescento agora uma terceira categoria de deliquentes extremados a quem só cabe o justiciamento, sem nenhum perdão: aquele que usa celular nos aviões mesmo quando a pobre da aeromoça insistentemente chama a atenção do parlapatão exibicionista.

101211172 Uma defesa da pena de morte

Digo exibicionista – e reitero: só um idiota ególatra há de imaginar que seus vizinhos de cadeira estejam interessadíssimos em suas conversinhas de negócio ou em suas intimidades bobocas (“chego aí em duas horas, benhê”), mesmo depois de acionados todos os sinais de advertência da aeronave.

Pessoalmente, até pouco tempo considerava um excesso de paranoia imaginar que um avião pudesse ser derrubado por um cretino no uso a bordo de seu telefoninho. Mas recente relatório da Federal Aviation Agency – a Anac dos Estados Unidos – confirma que as ondas dos telefones móveis podem interferir, sim, nas comunicações de um avião, configurando, portanto, um perigo real para a segurança do voo.

Esta semana, viajei nas proximidades de um desses seres antissociais a quem não bastava, em sua ansiedade de deslumbrado, uma gravata piscando uma infindável palheta de cores. O carinha falou da sala de espera à decolagem – tentando disfarçar, de cabeça baixa e aos sussurros, seu desrespeito não só às regras da Aeronáutica, mas também ao código básico de convivência social. Pela importância que o fulaninho dava à conversa, só podia ser o Papa ou então a Gisele Bündchen.

O voo em questão procedia de Brasília. Aquela terra que os humoristas do tipo cê-que-sabe sugerem resumir, na figura dos políticos, todas as mazelas e maracutaias do país. Mas tem hora que fico imaginando se não é toda a sociedade brasileira, ali representada pelo desprezível tagarela, se não somos todos nós, ou quase todos, que estamos sempre dispostos a uma trapaçazinha marota, desde que ninguém nos flagre, que ninguém venha nos puxar as orelhas.

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02 jun as 13h29

O governo vai privatizar os aeroportos, me disse Guido Mantega, na noite de 15 de novembro, enquanto ele festejava a vitória de Dilma Roussef no Hotel Nahum, em Brasília.

Ele, Mantega, nem tinha reconfirmado no Ministério da Fazenda, mas assegurava que, do jeito que as coisas andavam no setor aeroportuário, era a solução possível. Só faltava definir como: concessão, privatização cem por cento, se abriria para empresas estrangeiras, o papel da Infraero, etc.

A promessa andou. No ritmo Brasil. De 15 de novembro para cá são mais de seis meses. Dilma acaba de anunciar que vai abrir para a iniciativa privada a reforma e a gestão de Cumbica, de Viracopos e do aeroporto de Brasília.

30052011AC3234 O trem corre atrás do avião

Guido Mantega

É mais, ou tão importante do que os estádios – de saber se o Itaquerão sai ou não, se o Maracanã estará pronto para a abertura – para dar um mínimo de viabilidade à Copa no Brasil.

Outra coisa: o Brasil tem know-how no assunto. Várias empresas brasileiras estão aí pelo mundo.

A Odebrecht constriu o Terminal Sul do aeroporto de Miami em 2007 e cuida hoje da expansão: 1 milhão de metros quadrados de novos terminais e integração com o metrô via Air Link. Lembrando suas origens baianas, vai até botar dois painéis de Carybé no novo terminal. Carybé, como vocês sabem, é o mais baiano dos estrangeiros.

A Camargo Corrêa administra, via a empresa A-Port, nove aeroportos na América Latina e no Caribe.

A Andrade Gutierrez, em joint-venture com empresa canadense e outra americana, opera o aeroporto de Quito, no Equador, e constrói um novo aeroporto que vai custar 590 milhões de dólares (1 bi de reais).

O anúncio que Dilma fez esta semana tem a ver com a “agenda positiva” que Lula lhe soprou ao ouvido. Um jeito de mostrar que o governo não está paralisado pela crise Palocci – as suspeitas de enriquecimento súbito e ilícito do ministro-chefe da Casa Civil.

vista geral do aeroporto de viracopos foto luiz granzotto O trem corre atrás do avião

Aeroporto de Viracopos

Um detalhe que chama atenção é a inclusão de Viracopos no pacote. Viracopos era até a inauguração de Cumbica, o aeroporto internacional de São Paulo. Ficou às moscas, decadente, tecnologicamente anacrônico. É um absurdo. A região de Campinas tem tudo de bom, a começar pelas excelentes condições atmosféricas. É um pólo econômico extremamente dinâmico. Viracopos ajudaria a descongestionar Cumbica. Desde que...

Desde que... Bem, está na cara que Dilma sinaliza que o projeto do trem-bala ligando Campinas, São Paulo e Rio veio mesmo para ficar. Não é só miragem. O trem-bala é a cláusula até aqui oculta da remodernização de Viracopos.

É bom lembrar que o Senado já aprovou medida provisória: 20 bilhões de reais de financiamento ao trem-bala via BNDES. Ainda vai ter muita crítica. Mas é melhor voltar a pensar em opções ferroviárias ágeis e contemporâneas do que aumentar a malha de rodovias, não é mesmo?

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