07 dez as 14h24

De cada três casamentos no Brasil um deles termina em separação.

Isso levando em conta os casamentos registrados em cartório. No caso de uniões informais, sem vínculo legal, o índice de separações tende a ser ainda maior.

Os dados são do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – e se referem ao ano de 2010.

Nunca houve tantos divórcios: 243.224.

Aumento de 37% em relação a 2009.

Será que tantos casamentos entraram em crise de um ano para outro? Na verdade, o que houve foi uma radical desburocratização do rito de separação.

Pela emenda constitucional aprovada em 2010, chamada “emenda do divórcio direto”, não se exige mais dos casais aquele período prévio da “separação judicial” antes da formalização do divórcio.

Outra facilidade: desde 2007, separações consensuais de casais sem filhos dispensam passagem pelo Judiciário. O casal simplesmente vai a um cartório e declara o fim da união.

Por outro lado, o IBGE apurou que as uniões registradas em cartório aumentaram 5% em 2010.

Quer dizer: se separações aumentam, tem mais e mais gente fazendo juras de “até que a morte nos separe”.

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01 nov as 09h30

O trânsito no Brasil faz um Iraque de vítimas por ano. Está lá, na estatística do Ministério da (triste ironia!) Saúde: 40 mil mortes. Nas cidades, nas estradas.

Aumento de 8% em relação a 2010.

O ministro Alexandre Padilha atribui, primeiro, ao aumento de motos nas ruas. Faz sentido. Depois, culpa a embriaguez dos motoristas. Aí, já faço algumas ressalvas.

Sim, é verdade que a gente tem lido e visto episódios em que mentecaptos a bordo de carrões reluzentes saem por aí atropelando e matando indefesos cidadãos que circulavam desavisadamente pelas ruas.

Ora e vez, a gente fica sabendo. E se horroriza.

Existe, claro, um razoável número de idiotas arrogantes que precisam se exibir, nas artérias locupletadas das metrópoles, a bordo de veículos gigantescamente proporcionais a seu ego. Aquilo não é carro – é atitude.

Naturalmente, como são assistidos por notáveis causídicos, os criminosos do trânsito, os bebuns mais abonados ficam a merecer as bênçãos da impunidade.

Agora, por outro lado chega de culpar apenas os motoristas. As ruas são sinistras, esburacadas, mal conservadas, a pavimentação das estradas é, em geral, uma piada, a sinalização, ridícula, e aí estão as autoridades do trânsito lavando à Pilatos as suas mãozinhas sujas de sangue.

Não há uma alma piedosa, travestida em guarda, que ajude a circulação dos veículos, oriente os motoristas, distribua informações generosas. Não, eles estão lá para distribuir punições, desacatar o cidadão, cravar multas – nada além disso.

A Lei Seca foi tida como o definitivo desafio às sinistras e fatais estatísticas. Ela é benéfica, mas faz parte da lei canônica de certo tipo de governante para quem governar só consiste em punir.

(Especialmente em época de eleição essa atitude marota costuma ser muito valorizada, em São Paulo, mais do que em qualquer lugar).

Punir, quando necessário. Mas governar é ir além, é buscar soluções, é pensar grande.

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13 set as 06h00

Hoje é o dia nacional da cachaça, portanto acredito que ninguém deva estar trabalhando em Minas Gerais, em Pirassununga e em Piracicaba.

Se está, não devia.

Cachaça é coisa seríssima. Depois que os estrangeiros (alguns deles, pelo menos) começaram a entender a diferença entre rum e cachaça, nossa bebida nacional virou produto de exportação e ganhou um nicho no paladar dos conhecedores do primeiro mundo.

Quando vi o chef inglês Jamie Oliver, no seu show de TV, destilando competentemente uma caipirinha de limão (com uma criativa pitada de gengibre), entendi: chegamos lá.

Por dever de origem, já escrevi muito sobre cachaça. Mais na condição de observador do que de expert.

Aliás, cachaça é como mulher e seleção brasileira. Cada um de nós acha que sabe mais do que o outro.

Confira mais aqui.

Como estarei hoje fora do Brasil, tome uma, de preferêncncia daquelas de Salinas, por mim.

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28 jul as 12h08

Anders Breivik, o celerado que fuzilou e detonou pelo menos 76 pessoas na Noruega, agiu sozinho – é o que tudo leva a crer – mas não está sozinho. Longe disso.

O manifesto de mais de mil páginas que ele vinha obsessivamente escrevendo – 2083, uma declaração de independência européia – não difere muito do que pensa, diz e escreve gente muito próxima de mim e de você. De motoristas de taxi a empoados articulistas de revista.

Veja bem: nos desprezíveis momentos que Breivik se refere ao Brasil – sim, ele se ocupa de nós – ele diz que não temos vocação para Primeiro Mundo porque somos um país de subraças e que a miscigenação explica a desigualdade social e “as altas taxas de corrupção” do Brasil.

É uma baboseira fascistóide que, no entanto, a gente lê com apavorante frequência em imponentes editoriais de jornalões ou em blogs tresloucados de revistas influentes. A ideia da superioridade moral e intelectual do Ocidente. O ódio a quem é diferente de nós: esquerdistas, gays, negros, ateus, índios e, puxando a fila, islamitas. A intolerância radical. A convicção de que há raças “melhores” e raças “piores” (quantas vezes a gente não ouviu/leu que nordestinos são inferiores; e os políticos nordestinos, então, nem dizer).

breiviknovo 450 Tem terrorista norueguês pertinho de nós
Breivik, não por acaso, ataca o multiculturalismo e propugna uma cruzada contra quem é e quem pensa diferente de nós.

É bom lembrar que quem pensava igual era Timothy McVeith, aquele miliciano de ultradireita que botou uma bomba num prédio público em Oklahoma City, matando 168 pessoas (dezenas de crianças) e ferindo outras 680, no maior atentado que os Estados Unidos sofreram antes do 11 de setembro.

Jornalistas que admiro, como o Elio Gaspari e o Fernando de Barros e Silva, acentuam os vínculos ideológicos do facínora de Oslo com a xenofobia anti-imigratória que sacode a Europa e que excita tantos grupelhos de extrema-direita pelo continente afora.

Mas seria bom, veja bem, que a gente começasse a monitorar os Breivik que vicejam, salivando de ódio doentio, à nossa volta. Eles são capazes de tudo.

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17 jul as 15h28

tevez perdeu penalti 700x350 Por que a gente tem tanta bronca dos argentinos?

Minha vizinhança armazenou uma tonelada de fogos de artifício e usou-os estrepitosamente para celebrar no sábado (16).

Celebrar, claro, a derrota de Argentina na Copa América.

Parecia até dia de derrota do Corinthians (minha vizinhança, a maioria dela, torce o nariz para “gente diferenciada” como a torcida do Corinthians).

Fiquei aqui pensando por que é que o brasileiro tem tanto ódio dos argentinos a ponto de gastar tanta munição com isso.

Teve uma época em que eu tinha um patrão argentino, um psicanalista argentino, um carro argentino (não me lembro qual, só sei que era montado lá) e um monte de amigos argentinos.

Só me faltava, parece, uma fogosa amante argentina.

Tudo isso considerado, confesso que nunca tive a bronca que a maioria dos brasileiros tem. Mesmo no futebol. Na última Copa, quando ficou difícil acreditar para aquele timeco do Dunga, torci para que o belo, escorreito jogo argentino triunfasse sobre aquelas nulidades defensivas. Não deu, mas ao menos o time de Maradona – descontado aquele blecaute da partida contra a Alemanha – proporcionou instantes de sublime beleza.

00376658 Por que a gente tem tanta bronca dos argentinos?

Tenho de confessar que em 1990, entre a Itália e a Argentina, fui ruidosamente Latinoamerica (a razão era inconfessável, devo confessar). E Maradona, Cannigia, Goicocchea trataram de despachar os italianos na casa deles – assim como já tinham despachado antes nossa Seleçãozinha.

Argentina e Brasil têm muito em comum – a começar pelo estilo de atuar dentro das quadras linhas (dizem que também fora delas). Deve ser por isso que a gente busca tão ansiosamente reiterar uma diferença que na verdade não existe.

Vejam quantos argentinos passeiam por nossos gramados com a desenvoltura de quem está em casa. Só os mais recentes: Tevez e Mascherano, no Corinthians, D’Alessandro e Guiñazu, no Inter, Cuenca, no Fluminense, Montillo, no, peço perdão, Cruzeiro.

Vocês vão dizer: rivalidade. Tudo bem, existe, sim. Mas faz algum tempo que eles não nos maltratam em campo. Ao contrário, aprenderam com alguma resignação a perder. Se fosse assim, são os uruguaios que, desde 1950, a gente deveria odiar.

E não me venham dizer que eles são arrogantes, e nós, umas doçuras de pessoas. Basta ver como se comportam nossos locutores e comentaristas. Aliás, só diz que o argentino – em especial, o portenho, de Buenos Aires – é arrogante quem nunca conheceu um chileno.

Ok, os argentinos caíram fora da Copa América que eles anfitrionam. Podem soltar os fogos e liberar a bronca.

A propósito: bronca é do ABC do lunfardo, o dialeto dos malandros portenhos. Até isso a gente aprendeu deles.

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11 jul as 16h47

Governabilidade.

Esta é a palavra maldita da política brasileira.

Ela está por trás da compra de votos para a reeleição de Fernando Henrique e do mensalão do PT – episódios que têm, claro, escalas diferentes, o mesalão sendo mil vezes maior – e que joga luz em casos como a recente demissão do ministro dos Transportes, indicado pelo PR, um dos partidos da base de apoio ao governo Dilma.

Governabilidade não é um mal em si mesmo. Trata-se, num regime democrático, de estabelecer alianças de forma a governar sem tropeços e sem solavancos. Assegurar um governo de maioria.

As democracias modernas funcionam assim.

Na França, Sarkozy foi eleito pela UMP, ex- RPR – a Union por um Mouvement Populaire. Mas tem também o apoio do MoDem, ex-UDF – Mouvement Démocratique, do ex-presidente Giscard d1Estaing, mais o MPF, Mouvement pour La France, e mais independentes.

Na Inglaterra, David Cameron só se tornou primeiro-ministro porque o Partido Social-Democrata resolveu fazer uma aliança com o partido dele, o Conservador.

O Brasil prima pela fragmentação partidária, com algumas agremiações que não são senão siglas de aluguel. A governabilidade vira, na prática, um intrincado quebra-cabeça, que tende a levar a alianças espúrias. Guiadas apenas por apetites predadores e por interesses imediatistas, nada a ver com um autêntico sentido republicano.

Não digo que lutar por interesses políticos é ilegítimo. Um representante no Parlamento de, digamos, Mogi das Cruzes não pode deixar defender aquilo que irá eventualmente beneficias sua comunidade. Não consigo entender, por exemplo, porque os jornalões vigiam tantos as emendas parlamentares ao orçamento. Elas são legítimas, não configuram corrupção nenhuma, a princípio. Uma ponte, uma nova rodovia, por que não?

A busca da governabilidade é da equação democrática. O antídoto contra a maracutaia tem nome: transparência. Eu sou plenamente a favor da Copa no Brasil e não entro no coro fácil de que vai haver gastança de dinheiro público e que a corrupção será fatal.

O dinheiro gasto com a Copa vai entrar na conta do investimento. Vai melhorar o país. A Copa é uma vitrine, atrai turismo e eleva o Brasil, a sétima economia do mundo, ao patamar em que merece estar. Não gosto dessa mentalidade tacanha e constipadinha (supra-sumo do sadismo ultraliberal) que diz que governar é cortar despesas. Governar é saber gastar, com lisura.

Basta isso: transparência, controle das despesas. Afinal, para que existe a internet?

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01 jul as 14h53

Informação que talvez vocês já conheçam – mas que, conhecendo, nós brasileiros preferimos esquecer:

O Brasil recebe por ano cerca de 5,1 milhões de turistas estrangeiros (dado de 2010).

A Mona Lisa, que está no Museu do Louvre, recebe mais de seis milhões. Sem falar da Torre Eiffel, também em Paris: 7,8 milhões de turistas estrangeiros por ano.

(Não por acaso, o turismo responde a 10% do PIB francês e está sob a supervisão do Ministério da Economia).

Quer dizer, do ponto de vista do turismo, o Brasil inteiro não vale uma Mona Lisa, não se compara a uma Torre Eiffel.

É triste, mas é verdade. Quando digo Brasil, digo: o Rio de Janeiro, o turismo de negócios e convenções de São Paulo, a exuberância tropical das praias do Nordeste, as cidades históricas de Minas e de Goiás, o Pantanal, a Amazônia, a Serra Gaúcha e mais um quilométrico etc. Junta tudo isso e não dá, como peça de sedução, o ícone renascentista de Leonardo da Vinci.

Daqui a pouco a gente vai perder até para o Peru, de Macchu Picchu, do altiplano, de Lima e da cozinha estrelada dos chefs locais.

Eu acabo de sair de uma entrevista com os representantes da Comissão Europeia de Turismo no Brasil (confira aqui). Começa por isso: uma comissão europeia. Com 35 países (para vocês terem uma ideia, o novo presidente, Luiz Fernando Destro, representa a República Tcheca).

A Europa faz promoção em bloco. Uma das cobiçadas atrações, este ano, é um cruzeiro pelo Danúbio, promovido pela AmaWaterways – especializada em cruzeiros em rios. A viagem começa em Budapeste, na Hungria, passa pela Eslováquia e pela Áustria e termina na Alemanha.

Agora, imagina só o Brasil, Argentina e Chile promovendo em conjunto o turismo no Mercosul. Por que não? Seria de bom senso, até pela distância dos grandes mercados exportadores de turistas. Mas é impensável uma ação coletiva, sobretudo, em épocas com esta, de disputas futebolísticas.

A América Latina não se fala. E o Brasil não fala com a América Latina. Somos nós, hoje em dia, que repetimos aquilo que a gente reclamava nos argentinos: de se sentir europeu, nunca latino-americano.

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28 jun as 15h20

Os brasileiros entre 15 e 29 anos acreditam, em sua enorme maioria (87,5%), que de hoje a 2014 a sua vida vai melhorar muito – assim como todo o país.

Esse otimismo jovial fica mais impressionante ainda se comprada com o chamado Índice de Felicidade Futura apurada naqueles outros países que, assim como o Brasil, andam surfando no cenário da economia mundial.

Enquanto o Brasil lidera entre 147 nações, a África do Sul vem em 46º, a China, em 92º, a Rússia, em 119º e a Índia, em 126º.

A pesquisa foi encomendada ao Gallup pela Fundação Getúlio Vargas do Rio e esta é a versão atualizada dela.

Mas por que diabo a garotada brasileira mantém essa incurável fé no futuro? Dá para imaginar que o fator Lula influenciou: a incorporação à classe média de um contingente de pobres do tamanho da população da Espanha ampliou estrepitosamente os horizontes de ascensão social.

De todo modo, essa sensação inebriante de que a vida só vai melhorar pode ser insuflada por razões as mais aleatórias. Por exemplo, o país que vem depois do Brasil no rol dos entusiasmados é a Jamaica, país do reaggae, do rasta e da ganja (a maconha local). Entre os dez mais, estão, compreensivelmente, a Dinamarca (6º) e a Noruega (7º) mas também o Catar (8º) e a Colômbia (10º).

A primeira versão dessa pesquisa foi concluída em 2008 e o Brasil já liderava. Vamos só ver se o otimismo dura até a gente enfrentar a Argentina na Copa América.

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