
Minha vizinhança armazenou uma tonelada de fogos de artifício e usou-os estrepitosamente para celebrar no sábado (16).
Celebrar, claro, a derrota de Argentina na Copa América.
Parecia até dia de derrota do Corinthians (minha vizinhança, a maioria dela, torce o nariz para “gente diferenciada” como a torcida do Corinthians).
Fiquei aqui pensando por que é que o brasileiro tem tanto ódio dos argentinos a ponto de gastar tanta munição com isso.
Teve uma época em que eu tinha um patrão argentino, um psicanalista argentino, um carro argentino (não me lembro qual, só sei que era montado lá) e um monte de amigos argentinos.
Só me faltava, parece, uma fogosa amante argentina.
Tudo isso considerado, confesso que nunca tive a bronca que a maioria dos brasileiros tem. Mesmo no futebol. Na última Copa, quando ficou difícil acreditar para aquele timeco do Dunga, torci para que o belo, escorreito jogo argentino triunfasse sobre aquelas nulidades defensivas. Não deu, mas ao menos o time de Maradona – descontado aquele blecaute da partida contra a Alemanha – proporcionou instantes de sublime beleza.

Tenho de confessar que em 1990, entre a Itália e a Argentina, fui ruidosamente Latinoamerica (a razão era inconfessável, devo confessar). E Maradona, Cannigia, Goicocchea trataram de despachar os italianos na casa deles – assim como já tinham despachado antes nossa Seleçãozinha.
Argentina e Brasil têm muito em comum – a começar pelo estilo de atuar dentro das quadras linhas (dizem que também fora delas). Deve ser por isso que a gente busca tão ansiosamente reiterar uma diferença que na verdade não existe.
Vejam quantos argentinos passeiam por nossos gramados com a desenvoltura de quem está em casa. Só os mais recentes: Tevez e Mascherano, no Corinthians, D’Alessandro e Guiñazu, no Inter, Cuenca, no Fluminense, Montillo, no, peço perdão, Cruzeiro.
Vocês vão dizer: rivalidade. Tudo bem, existe, sim. Mas faz algum tempo que eles não nos maltratam em campo. Ao contrário, aprenderam com alguma resignação a perder. Se fosse assim, são os uruguaios que, desde 1950, a gente deveria odiar.
E não me venham dizer que eles são arrogantes, e nós, umas doçuras de pessoas. Basta ver como se comportam nossos locutores e comentaristas. Aliás, só diz que o argentino – em especial, o portenho, de Buenos Aires – é arrogante quem nunca conheceu um chileno.
Ok, os argentinos caíram fora da Copa América que eles anfitrionam. Podem soltar os fogos e liberar a bronca.
A propósito: bronca é do ABC do lunfardo, o dialeto dos malandros portenhos. Até isso a gente aprendeu deles.
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