31 out as 08h00

As tias de Brasília – aquelas lá, as poderosas – estão exultantes com o câncer contraído pelo Lula. Fingem que não, mas estão.

Afinal, parece que todo aquele vodu delas, as intrigas maliciadas, aquelas suas novenas fervorosas não foram em vão.

Uma delas chegou a aventar, feliz da vida, a ironia de Lula, o tribuno, o orador, o incurável falador, ser atacado exatamente no gogó.

Se o ex-presidente é mestre por convencer pela palavra, que ele, então, em castigo dos céus, pague pela língua (a tia deixou nas entrelinhas o arfar vingativo de donzela injuriada).

Corre por aí o mito de que o câncer tem causa psicossomática. Que a infelicidade, por exemplo, dá câncer.

O Dr. Drauzio Varela já disse mil vezes e toda a ciência moderna reitera insistentemente que isso é uma rematada besteira. Câncer é uma transformação maligna na célula que nada tem a ver com o estado de espírito da eventual vítima.

A versão rancorosa das tias de Brasília – as poderosas da mídia – faz lembrar a tese que o delirante Wilhelm Reich quis atribuir ao seu antigo mentor e professor, Sigmund Freud, quando o mestre da psicanálise caiu vítima de um câncer na garganta.

A tese de Reich, o lunático endiabrado, era mais ou menos essa: para fazer da psicanálise uma disciplina socialmente aceita, para retirar dela toda sua aspereza revolucionária, de desafio ao status quo, depurando, por exemplo, o que ela trazia de mais inquietante no quesito sexualidade, Freud teve de negociar, de acochambrar, de engolir muito sapo.

Consequência: câncer na garganta.

Juro que foi o que Reich disse – e escreveu.

Esqueceu-se de coisas simples, banais, como o fato de Freud ter fumado, a vida toda, 20 charutos mata-rato por dia. Câncer na garganta não seria de surpreender, ou seria?

No caso de Lula, novas teorias virão (escamoteando o ódio que muita gente mais, além das tias poderosas de Brasília, guarda daquele metalúrgico que ousou ser presidente do Brasil e virar uma eminência internacional).

Já que hoje é o Halloween, sou tentado, eu, cético de tudo, a crer que, sim, ali, no caso do Lula, está comprovado um caso típico de mau-olhado. Tem bruxaria aí, se tem!

Mas já ficou provado que mau-olhado o Lula tira de letra.

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15 jun as 15h07

Para quem fica um tempo sem ir a Brasília – como eu fiquei – a cidade pode surpreender. No bom sentido, quero dizer. Existe outra Brasília que não aquela apresentada, de forma debochada e caricata, por certos pseudo-humoristas nada gentiles da TV.

A impressão é de que capital federal deixou de ser monotemática. O coração do poder hoje fala menos de política – ou pelo menos não fala de política.  É como se Brasília tivesse se desidratado da testosterona que costuma caracterizar o cenário das disputas políticas. Já será o efeito do Matriarcado Dilma?

Você percorre os melhores restaurantes e a conversa, à mesa vizinha, raramente diz respeito a alguma medida provisória ou alguma comissão de inquérito. As pessoas parecem normais, discutindo assuntos normais, familiares. Quanta diferença daqueles tempos em que o Florentino e o Piantella se revezam, às noites, para sucursais tardias dos plenários parlamentares, aquela promiscuidade de deputados, senadores, empreiteiros, lobistas e outras criaturas das sombras.

O Piantella, em especial, ficou famoso por sediar, após o expediente parlamentar, o Estado-Maior da oposição, capitaneado por dr. Ulysses Guimarães e por sua invariável Poire – o fermentado de pera do norte da França. O Piantella funcionou, nos anos da ditadura e na era da redemocratização, como uma espécie de botequim ideológico dos não-conservadores. Se o ex-deputado Luis Eduardo Magalhães e o então ministro Pelé também iam lá quase religiosamente, é porque o Piantella tinha outras mimosas atrações noturnas além das inflamadas tentativas de endireitar a República, quando não de salvar o mundo.

Passei por um ninho de novos restaurantes, num lugar exageradamente chamado de Fashion Park, lá no caminho para o aeroporto. Me falaram muito bem do Alice mas quem me seduziu foi o Taypá, de cozinha peruana. O ceviche é muito bom, assim como o tiradito. Mesas com senhoras desacompanhadas, do tipo que poderiam ser hoje ministras de Estado – e não aquelas raparigas que, em florido buquê, vagavam outrora pelos restaurantes do poder.

Sinto desapontar meu amigo James Holston, que escreveu um livro devastador contra o projeto de Brasília (A Cidade Modernista ganhou em 2010 uma edição atualizada da Companhia das Letras) – segundo ele, uma utopia que não deu certo, como de resto quase todas as utopias. Mas a realidade que resultou daquelas linhas traçadas por Lúcio Costa não me parece tão atroz assim. Brasília é opulenta, civilizada e não há quem resista aquela cena do sol se deitando pachorrentamente sobre o horizonte que não parece ter fim.

A PROPÓSITO

Juscelino Kubitschek e seu time (Oscar Niemeyer, Israel Pinheiro, Bernardo Sayão e uma multidão de candangos) erigiram a monumental nova capital em quatro anos. Quem disse que o Corinthians não constrói seu estádio em três?

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