02 nov as 06h44

O ex-tudo José Serra (ex-prefeito, ex-secretário, ex-governador, ex-deputado, ex-senador, ex-ministro) estava presente na semana passada à pré-estreia em São Paulo do documentário Tancredo, do cineasta Silvio Tendler.

Sentou-se à esquerda do senador Aécio Neves, o qual por sua vez tinha o governador Geraldo Alckmin à sua direita.

Serra tem destaque entre os que deram depoimento. Seria importante que ele, além de falar no filme, tenha podido ouvir – e refletir.

Se o filme tem um clímax dramático, mais do que a própria morte de Tancredo haveria de ser a surda disputa travada, nos bastidores da oposição ao regime militar, entre o governador de Minas e o Sr. Diretas, Ulysses Guimarães.

Uma elegante esgrima entre cavalheiros. Assim como Tancredo, Ulysses procedia da universidade de sutilezas chamada PSD. Tido como celeiro do conservadorismo, o berço partidário de Ulysses e de Tancredo nunca deixou de ter, quando necessário, a urgência da ruptura. O regime militar que o diga.

Ulysses seria o candidato natural se a emenda das diretas passasse no Parlamento. Não passou. Na eleição indireta, pelo Colégio Eleitoral, cedeu a precedência a Tancredo. Sabia que o mineiro era um político capaz de somar mais do que ele próprio. Noblesse oblige, não é, José Serra?

Os dois, Ulysses e Tancredo, fizeram da política um tributo à inteligência e uma arte de sagacidade. Sabiam dizer verdades duras em amáveis conversas ao pé do ouvido, reservados, discretos, avessos ao exibicionismo gratuito dos holofotes, mas capazes de, ao subir ao palanque da liberdade, incendiar o coração de toda a gente.

Tancredo, o documentário, é uma aula de História, a melhor e mais oportuna que poderia sacudir a atual safra dos desiludidos da política. O retrato de uma geração, nem tão distante assim da nossa, que fez da vida pública, no delicado momento em que a democracia se prenunciava mas a ditadura se aferrava, uma lição de destemor, de dignidade e, no particular caso de Ulysses, de desprendimento.

PS: um detalhe que passa meio despercebido em Tancredo, o filme, é a ausência de qualquer menção ao ex-governador da Bahia e ex-senador Antonio Carlos Magalhães. À época, no esplendor de seu poder autocrático e de sua arrogância insolente, ACM houve por bem pular fora da trincheira da ditadura, renegou a candidatura oficial de Paulo Maluf e foi ajudar a fundar a Frente Liberal, que apoiaria Tancredo no Colégio Eleitoral. Veja concedeu a ele a entrevista das páginas amarelas naquela semana de alta temperatura política. O cara não era pouca coisa, não. Passados 27 anos, percebe-se, pelo silêncio da posteridade, que a figura de ACM se escafedeu na poeira da estrada. Talvez na Bahia alguém ainda se lembre dele.

Veja mais:

+ R7 BANDA LARGA: provedor grátis!
+ Curta o R7 no Facebook

+ Siga o R7 no Twitter

+ Veja os destaques do dia

+ Todos os blogs do R7

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • del.icio.us
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes
07 jun as 06h00

fhc blog nirlando  Descriminalizar não é legalizar

Quebrando o Tabu, o documentário de Fernando Grostein de Andrade do qual o ex-presidente FHC é o fio condutor, botou na roda um tema tão espinhoso e tão polêmico que o PSDB, partido de Fernando Henrique, em vez de aderir à discussão, preferiu sair blasfemando por aí Vade retro, vade retro!

Perde o PSDB uma ótima ocasião de não ficar calado.

Está na hora da sociedade brasileira encarar o problema que espreita em todas as esquinas: a droga. Maconha, cocaína, crack, seja lá o que for – vamos continuar a velha política de apenas reprimir (e permitir que a droga se oculte nos subterrâneos do tráfico e da polícia) ou é hora de transformar droga e usuário em objeto de saúde pública?

É isso que o documentário se pergunta, numa visita guiada por Fernando Henrique a 18 lugares da América Latina, Europa e Estados Unidos, tipo plantação de coca na Colômbia, produção de marijuana nos EUA, as famosas coffee shops de Amsterdam, as favelas do Rio.

Corajosamente, FHC correu o risco de ser mal entendido, e aí está o próprio PSDB candidatando-se, por confusão ou por hipocrisia, a ser o primeiro a não entender nada.

O documentário não faz apologia da droga. Droga faz mal – insistem em dizer Fernando Henrique e tantos outros. Ninguém pretende intoxicar a atmosfera das cidades brasileiras com uma opaca neblina de substâncias até agora ilícitas.  Descriminalizar a droga (todas elas, reitera FHC) é tirar o drogado ou usuário eventual da esfera da Justiça e da polícia. Em vez de ir para a cadeia, que ele vá para o hospital. O governo é responsável, mas a sociedade também – não pode, como costuma fazer, simplesmente lavar as mãos. Em Portugal, que adotou esta política, o consumo de maconha caiu 30%.

FHC sabe que se meteu num vespeiro. Já sofreu na pele a confusão – naquele caso, má fé. Quando foi candidato a prefeito de São Paulo, em 1985, veio à tona uma entrevista daquelas abre-coração de Playboy, pouco antes, na qual dizia que provara maconha uma vez e achara “horrível”. Foi o suficiente para que o adversário Jânio Quadros passasse a chamá-lo de “o candidato maconheiro”.

Legalizar a droga é diferente. Não é o que Fernando Henrique anda pregando. Legalizar é tirar do seu uso qualquer sanção. Quer dizer, pode ser consumida a céu aberto, comercializada, distribuída, repartida, anunciada. Exatamente como acontece com o álcool. Em matéria de droga legalizada, já estamos bem servidos no Brasil.

Veja mais:
+ Siga o R7 no Twitter
+ Veja os destaques do dia
+ Todos os blogs do R7

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • del.icio.us
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes