O ex-tudo José Serra (ex-prefeito, ex-secretário, ex-governador, ex-deputado, ex-senador, ex-ministro) estava presente na semana passada à pré-estreia em São Paulo do documentário Tancredo, do cineasta Silvio Tendler.
Sentou-se à esquerda do senador Aécio Neves, o qual por sua vez tinha o governador Geraldo Alckmin à sua direita.
Serra tem destaque entre os que deram depoimento. Seria importante que ele, além de falar no filme, tenha podido ouvir – e refletir.
Se o filme tem um clímax dramático, mais do que a própria morte de Tancredo haveria de ser a surda disputa travada, nos bastidores da oposição ao regime militar, entre o governador de Minas e o Sr. Diretas, Ulysses Guimarães.
Uma elegante esgrima entre cavalheiros. Assim como Tancredo, Ulysses procedia da universidade de sutilezas chamada PSD. Tido como celeiro do conservadorismo, o berço partidário de Ulysses e de Tancredo nunca deixou de ter, quando necessário, a urgência da ruptura. O regime militar que o diga.
Ulysses seria o candidato natural se a emenda das diretas passasse no Parlamento. Não passou. Na eleição indireta, pelo Colégio Eleitoral, cedeu a precedência a Tancredo. Sabia que o mineiro era um político capaz de somar mais do que ele próprio. Noblesse oblige, não é, José Serra?
Os dois, Ulysses e Tancredo, fizeram da política um tributo à inteligência e uma arte de sagacidade. Sabiam dizer verdades duras em amáveis conversas ao pé do ouvido, reservados, discretos, avessos ao exibicionismo gratuito dos holofotes, mas capazes de, ao subir ao palanque da liberdade, incendiar o coração de toda a gente.
Tancredo, o documentário, é uma aula de História, a melhor e mais oportuna que poderia sacudir a atual safra dos desiludidos da política. O retrato de uma geração, nem tão distante assim da nossa, que fez da vida pública, no delicado momento em que a democracia se prenunciava mas a ditadura se aferrava, uma lição de destemor, de dignidade e, no particular caso de Ulysses, de desprendimento.
PS: um detalhe que passa meio despercebido em Tancredo, o filme, é a ausência de qualquer menção ao ex-governador da Bahia e ex-senador Antonio Carlos Magalhães. À época, no esplendor de seu poder autocrático e de sua arrogância insolente, ACM houve por bem pular fora da trincheira da ditadura, renegou a candidatura oficial de Paulo Maluf e foi ajudar a fundar a Frente Liberal, que apoiaria Tancredo no Colégio Eleitoral. Veja concedeu a ele a entrevista das páginas amarelas naquela semana de alta temperatura política. O cara não era pouca coisa, não. Passados 27 anos, percebe-se, pelo silêncio da posteridade, que a figura de ACM se escafedeu na poeira da estrada. Talvez na Bahia alguém ainda se lembre dele.
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