Tenho a impressão de que Dominique Strauss-Kahn, o ex-diretor-geral do FMI, aprontou, sim, alguma com a camareira mentirosa, o que faz com que a história de sua prisão espetaculosa pela polícia de Nova York e a posterior libertação transformem-se num desses episódios exemplares em que ninguém tem razão – no qual, da suposta vítima ao suposto agressor, passando pela polícia, todos são culpados, ou no mínimo desastrados.
O papelão maior ficou, porém, para a imprensa. É importante frisar isso. Partiu para o linchamento, deliciada com o peixe graúdo que fisgou. A imprensa dos Estados Unidos, com notáveis exceções, é do tipo que adora chafurdar no lixo e se emporcalhar no esgoto. Vejam o caso do tabloide NY Post, do desavergonhado Rupert Murdoch. É o porta-voz das trevas, só fala com os baixos instintos daqueles americanos mais tacanhos e mais capiaus. Achincalhou DSK, chamando-o de Le Perv (o pervertido). O carinha é obcecado, mas foi julgado antes do julgamento.
Muito hipócrita, a imprensa made in USA virou fiscal das alcovas e gendarme dos orgasmos alheios. Os EUA são hoje um país cujo modelo de moralidade não está tão distante assim daquele dos talibãs a quem combate. A imprensa faz o jogo, não por convicção e, sim, por mero oportunismo.
A mídia – e aí digo, toda ela, inclusive a nossa – gosta de falar em nome de toda a nação. Tenho três décadas de jornalismo e nunca me senti uma única vez representado por, digamos, um escasso editorial de O Globo. A mídia finge falar em nome da opinião pública, mas só fala mesmo é em nome de sua opinião privada – e nunca uma palavra como esta, privada, ganhou tão sugestiva conotação.
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