05 jul as 07h00

Tenho a impressão de que Dominique Strauss-Kahn, o ex-diretor-geral do FMI, aprontou, sim, alguma com a camareira mentirosa, o que faz com que a história de sua prisão espetaculosa pela polícia de Nova York e a posterior libertação transformem-se num desses episódios exemplares em que ninguém tem razão – no qual, da suposta vítima ao suposto agressor, passando pela polícia, todos são culpados, ou no mínimo desastrados.

O papelão maior ficou, porém, para a imprensa. É importante frisar isso. Partiu para o linchamento, deliciada com o peixe graúdo que fisgou. A imprensa dos Estados Unidos, com notáveis exceções, é do tipo que adora chafurdar no lixo e se emporcalhar no esgoto. Vejam o caso do tabloide NY Post, do desavergonhado Rupert Murdoch. É o porta-voz das trevas, só fala com os baixos instintos daqueles americanos mais tacanhos e mais capiaus. Achincalhou DSK, chamando-o de Le Perv (o pervertido). O carinha é obcecado, mas foi julgado antes do julgamento.

Muito hipócrita, a imprensa made in USA virou fiscal das alcovas e gendarme dos orgasmos alheios. Os EUA são hoje um país cujo modelo de moralidade não está tão distante assim daquele dos talibãs a quem combate. A imprensa faz o jogo, não por convicção e, sim, por mero oportunismo.

A mídia – e aí digo, toda ela, inclusive a nossa – gosta de falar em nome de toda a nação. Tenho três décadas de jornalismo e nunca me senti uma única vez representado por, digamos, um escasso editorial de O Globo. A mídia finge falar em nome da opinião pública, mas só fala mesmo é em nome de sua opinião privada – e nunca uma palavra como esta, privada, ganhou tão sugestiva conotação.

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24 mai as 06h00

Os franceses não são do tipo de bisbilhotar a vida alheia. Ou pelo menos fingem que não são.

Eles têm lá suas revistas de fofoca mas guardam certo pudor de expor abertamente a intimidade as figuras públicas – inclusive os políticos.

François Mitterrand, presidente por 14 anos, vivia, sem nenhum constrangimento, aquele clássico matriz-e-filial. Duas casas, duas mulheres. Os jornalistas sabiam. Mas não se metiam na dupla jornada conjugal do moço.

Conto isso porque fico curioso em saber quais serão as verdadeiras repercussões do caso Dominique Strauss-Kahn. Na França, digo. Dominique Strauss-Kahn, ou DSK, como dizem os franceses, pareciam ser o candidato de oposição mais forte para enfrentar o atual presidente, Nicolas Sarkozy. Que, aliás, arranjou um poderoso trunfo eleitoral: a gravidez de sua mulher, a ex-modelo Carla Bruni.

As últimas pesquisas mostram queda de DSK depois do episódio do suposto ataque sexual a uma camareira, em Nova York. Afinal, até os franceses acham estupro coisa séria.

Mas se DSK sair dessa, com a imagem mais ou menos recomposta, é bem possível que acabe virando o jogo – e até ganhe as eleições. Seria um jeito bem francês de exercer o principal atributo deles: ser do contra.

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