27 jun as 06h49

Um fantasma assombrou a campanha presidencial de Fernando Henrique, em 1994 – a primeira que ele ganharia, embalado pelo sucesso do Plano Real e pelo arco-íris de alianças tecidas à sua volta, de Paulo Maluf ao ex-PCB, passando pelo supercoronel nordestino Antonio Carlos Magalhães.

Um possível escândalo tirava o sono do staff da campanha – segredo que circulava livremente nas esferas bem informadas por Brasília, entre políticos e jornalistas, mas que a mídia amiga do candidato, quer dizer, toda a grande imprensa, tratava de ocultar debaixo do tapete. Fernando Henrique seria o pai do filho mais novo da jornalista Miriam Dutra, repórter da TV Globo na Capital Federal. Em 1994, Tomás tinha de dois para três anos (ele é do dia 25 de setembro).

O desgaste provocado na campanha de Lula, na eleição anterior, a de 1989, por outra Miriam – que a campanha de Collor aproveitou com tinturas dramáticas, outro affair que terminou no nascimento de uma filha reconhecida, aliás, por Lula –, escaldou a turma do PSDB, que tratou de blindar o diz que diz do melhor jeito possível.

Invocou-se o compadrio incondicional do chefe de Miriam Dutra, o então diretor de Jornalismo da Rede Globo, Alberico Souza Cruz, e a repórter acabou sendo exilada para Portugal, como correspondente da emissora. Não é que Portugal seja um lugar pródigo em notícias, mas, mais do que isso, o que aconteceu com Miriam é que nenhuma de suas matérias foi ao ar no longo período da campanha presidencial. Era para ser esquecida, a moça – e de fato foi.

Miriam Dutra chegou a ser queixar com amigos e amigas, alegando que jamais faria contra FHC o escândalo que a sua xará armara contra Lula. E amigos e amigas – e até um e outro jornalista bisbilhoteiro/a – aprenderam a respeitar seu discreto silêncio.

Mas o pavor continuava assolando as hostes de FHC. Sabe-se, por exemplo, que José Serra apareceu certa noite, bem tarde da noite, como é, aliás, de seu estilo, para uma conversinha amiga e aproveitou-se para, num momento de descuido de Miriam Dutra, ir lá dar uma checada na geladeira – para se assegurar que nada lhe estava faltando. Ao perceber a indelicadeza, Miriam despachou Serra no primeiro táxi disponível lá no vizinho Cassino do Estoril.

As cabeças-pensantes da campanha – no mais alto patamar estavam os chamados “três ursos”, o então robusto Nizan Guanaes e os igualmente roliços Sergio Motta e Geraldo Walter, ambos já falecidos – temiam também pela eventualidade de que o vazamento indevido do rumor pudesse chegar até Ruth Cardoso, mulher de FHC, e, assim, criar um constrangimento doméstico de razoáveis proporções.

O que se sabe hoje é que não foi FHC o portador da incômoda notícia, mas que Ruth reagiu como se poderia esperar dela: uma indiferença cheia de dignidade que, dizem os mais íntimos, escondia o fato de que ela, sagaz como era, já sabia de tudo.

De todo modo, a campanha de 94 escoou sem baixarias – um exemplar contraponto à medonha atitude dos marqueteiros de Fernando Collor, do próprio candidato e da imprensa disposta a tudo contra a candidatura Lula.

A acachapante informação, agora divulgada, de que o exame de DNA desmente a paternidade de Fernando Henrique não tem o dom de apagar as angústias e dores que o episódio causou na época a muita gente – e que continuou causando até hoje. A triste vítima é o garoto.

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07 jun as 06h00

fhc blog nirlando  Descriminalizar não é legalizar

Quebrando o Tabu, o documentário de Fernando Grostein de Andrade do qual o ex-presidente FHC é o fio condutor, botou na roda um tema tão espinhoso e tão polêmico que o PSDB, partido de Fernando Henrique, em vez de aderir à discussão, preferiu sair blasfemando por aí Vade retro, vade retro!

Perde o PSDB uma ótima ocasião de não ficar calado.

Está na hora da sociedade brasileira encarar o problema que espreita em todas as esquinas: a droga. Maconha, cocaína, crack, seja lá o que for – vamos continuar a velha política de apenas reprimir (e permitir que a droga se oculte nos subterrâneos do tráfico e da polícia) ou é hora de transformar droga e usuário em objeto de saúde pública?

É isso que o documentário se pergunta, numa visita guiada por Fernando Henrique a 18 lugares da América Latina, Europa e Estados Unidos, tipo plantação de coca na Colômbia, produção de marijuana nos EUA, as famosas coffee shops de Amsterdam, as favelas do Rio.

Corajosamente, FHC correu o risco de ser mal entendido, e aí está o próprio PSDB candidatando-se, por confusão ou por hipocrisia, a ser o primeiro a não entender nada.

O documentário não faz apologia da droga. Droga faz mal – insistem em dizer Fernando Henrique e tantos outros. Ninguém pretende intoxicar a atmosfera das cidades brasileiras com uma opaca neblina de substâncias até agora ilícitas.  Descriminalizar a droga (todas elas, reitera FHC) é tirar o drogado ou usuário eventual da esfera da Justiça e da polícia. Em vez de ir para a cadeia, que ele vá para o hospital. O governo é responsável, mas a sociedade também – não pode, como costuma fazer, simplesmente lavar as mãos. Em Portugal, que adotou esta política, o consumo de maconha caiu 30%.

FHC sabe que se meteu num vespeiro. Já sofreu na pele a confusão – naquele caso, má fé. Quando foi candidato a prefeito de São Paulo, em 1985, veio à tona uma entrevista daquelas abre-coração de Playboy, pouco antes, na qual dizia que provara maconha uma vez e achara “horrível”. Foi o suficiente para que o adversário Jânio Quadros passasse a chamá-lo de “o candidato maconheiro”.

Legalizar a droga é diferente. Não é o que Fernando Henrique anda pregando. Legalizar é tirar do seu uso qualquer sanção. Quer dizer, pode ser consumida a céu aberto, comercializada, distribuída, repartida, anunciada. Exatamente como acontece com o álcool. Em matéria de droga legalizada, já estamos bem servidos no Brasil.

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