11 ago as 19h40

O combustível que está ateando fogo à Inglaterra é a insatisfação dos sem-consumo.

A Inglaterra não é uma nação de miseráveis insatisfeitos. A cesta básica está garantida para todos. É, sim, uma nação de carências guetificadas numa era em que a propaganda cria os mesmos desejos em todos, miragens globalizadas.

Ok, mas queimar, destruir e até matar por causa de um iPad ou de um celular 4G?

Pelo bem e pelo mal, a Inglaterra surpreende.

O governo Tony Blair até que buscou reforço na imagem de um Reino Unido de costas para a tradição e de frente para a modernidade. Criou até o conceito de “Economia Criativa”, privilegiando, com grana oficial, o investimento em áreas que pareciam não combionar nem um pouco com uma monarquia cheia de ritos e frescuras.

Tirou empresas de games de Los Angeles, trouxe criadores de HQ da França, abriu museus sem cheiro de mofo (a Tate Modern foi a primeira a exibir, na fachada, um painel de 40 metros de altura dos nossos osgemeos), acreditou que turismo, moda, gastronomia passariam a movimentar – em vez das montadoras de automóveis – o núcleo virtuoso e dinâmico da economia.

Blair depois se deixou levar por aquela conversa delirante de George Bush, afundou a Inglaterra no atoleiro do Iraque e do Afeganistão e acabou por sair de cena. Mas a intuição dele estava correta.

Os acontecimentos incendiários de agora, de uma violência inédita e aparente gratuita, mostram que a Inglaterra é bacaninha na fachada mas não conseguiu repartir com os excluídos o que eles mais almejavam.

Não o bolo da renda nacional – e, sim, fazer com que todos os cidadãos do Reino, imigrantes incluídos, compartilhem a sensação de pertencer a uma nação próspera, moderna, civilizada e justa.

Assim fica difícil, né não?

AGORA, UMA BOA NOTICIA

Bruce Springsteen, governador da Califórnia? A ala mais liberal do Partido Democrata começa a se mexer para isso poder acontecer, na eleição de 2014.

O compositor de Born in the USA, que está em turnê de verão, ficou de pensar.

Se até o brucutu austríaco Arnold Schwarzenegger chegou lá, ter Bruce Springsteen como governador seria um luxo.

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11 jul as 16h47

Governabilidade.

Esta é a palavra maldita da política brasileira.

Ela está por trás da compra de votos para a reeleição de Fernando Henrique e do mensalão do PT – episódios que têm, claro, escalas diferentes, o mesalão sendo mil vezes maior – e que joga luz em casos como a recente demissão do ministro dos Transportes, indicado pelo PR, um dos partidos da base de apoio ao governo Dilma.

Governabilidade não é um mal em si mesmo. Trata-se, num regime democrático, de estabelecer alianças de forma a governar sem tropeços e sem solavancos. Assegurar um governo de maioria.

As democracias modernas funcionam assim.

Na França, Sarkozy foi eleito pela UMP, ex- RPR – a Union por um Mouvement Populaire. Mas tem também o apoio do MoDem, ex-UDF – Mouvement Démocratique, do ex-presidente Giscard d1Estaing, mais o MPF, Mouvement pour La France, e mais independentes.

Na Inglaterra, David Cameron só se tornou primeiro-ministro porque o Partido Social-Democrata resolveu fazer uma aliança com o partido dele, o Conservador.

O Brasil prima pela fragmentação partidária, com algumas agremiações que não são senão siglas de aluguel. A governabilidade vira, na prática, um intrincado quebra-cabeça, que tende a levar a alianças espúrias. Guiadas apenas por apetites predadores e por interesses imediatistas, nada a ver com um autêntico sentido republicano.

Não digo que lutar por interesses políticos é ilegítimo. Um representante no Parlamento de, digamos, Mogi das Cruzes não pode deixar defender aquilo que irá eventualmente beneficias sua comunidade. Não consigo entender, por exemplo, porque os jornalões vigiam tantos as emendas parlamentares ao orçamento. Elas são legítimas, não configuram corrupção nenhuma, a princípio. Uma ponte, uma nova rodovia, por que não?

A busca da governabilidade é da equação democrática. O antídoto contra a maracutaia tem nome: transparência. Eu sou plenamente a favor da Copa no Brasil e não entro no coro fácil de que vai haver gastança de dinheiro público e que a corrupção será fatal.

O dinheiro gasto com a Copa vai entrar na conta do investimento. Vai melhorar o país. A Copa é uma vitrine, atrai turismo e eleva o Brasil, a sétima economia do mundo, ao patamar em que merece estar. Não gosto dessa mentalidade tacanha e constipadinha (supra-sumo do sadismo ultraliberal) que diz que governar é cortar despesas. Governar é saber gastar, com lisura.

Basta isso: transparência, controle das despesas. Afinal, para que existe a internet?

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07 jul as 07h02

Dilma Roussseff, no seu discurso de posse: “Serei rígida na defesa do interesse público. Não haverá compromisso com o erro, o desvio e o malfeito. A corrupção será combatida permanentemente, e os órgãos de controle e investigação terão todo o meu respaldo para atuarem com firmeza e autonomia”.

Alguém aí precisa dizer à presidente que discursos de posse são da boca para fora – não é para levar a sério. Nem para quem o ouve, muito menos para quem o diz.

Se Dilma se obstinar em fazer o que prometeu – e o episódio da demissão do ministro e de todo o primeiro escalão do Ministério dos Transportes parece indicar isso – ela estará correndo o risco de inaugurar uma perigosa novidade na vida pública brasileira.

A novidade é: ela prefere trocar o pragmatismo por princípios. Sai o pretexto malemolente da tal “governabilidade”, pela qual os partidos aliados loteiam o butim do poder (como tem acontecido desde Pedro Álvares Cabral), entram o rigor ético e a transparência democrática.

Zagueirando a corrupção, Dilma pode seduzir a sociedade. Mas a política – quer dizer, a politicagem – logo, logo há de apresentar a conta.

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