14 nov as 12h48

Mario Monti, o novo premier da Itália, é um economista sem filiação partidária mas com background doutrinário.

Ele é um liberal da escola keynesiana. Não acha que as questões econômicas devam ser meramente deixadas ao léu, ao sabor do Deus Mercado.

Aqui, a galera do PSDB incrustrado na mídia haveria de acusá-lo de “intervencionista”. Quando não de, argh,  “estatizante”.

Mas nada os assombaria mais do que saber que Mario Monti é um declarado discípulo do americano James Tobin, Prêmio Nobel de Economia de 1981, com quem estudou em Yale.

Tobin, que morreu em 2002, ficou muito conhecido por aquiu (e foi muito odiado) quando o então presidente Lula esposou uma de suas mais polêmicas teorias: a chamada “Taxa Tobin”.

Vocês talvez se lembrem: a “Taxa Tobin” seria uma espécie de CPMF mundial para todas as transações financeiras, um modesto tributo de 0,1% a ser cobrado dos especuladores em prol da ONU e dos países pobres do Terceiro Mundo.

Quando Lula, eleito presidente do Brasil, começou a defender essa tese nos foros internacionais, os ranzinzas daqui aventaram a suspeita de que Lula ou era louco ou um rematado idiota.

No exterior, como sempre, Lula foi levado a sério.

A “exuberância irracional” dos mercados (apud Joseph Stiglitz) quase quebrou os Estados Unidos em 2008 e está quebrando a Europa agora (os economistas da direita darwiniana acham que o que quebra os países é gastar dinheiro em assistência social).

Mario Monti vive hoje na Itália o desafio de, a bordo de sua respeitabilidade, domesticar as poderosas forças da especulação. O capital mostrou ao hipercapitalista Silvio Berlusconi que o capital não tem pátria, não tem coração, não tem condescendência, não tem sequer ideologia.

Será um governo para valer, o de Mario Monti? Um mandato-tampão até as próximas eleições gerais? Uma solução de emergência, anticrise, provisória?

A ver.

Berlusconi, o priápico, já está à espreita, nos bastidores. Nunca foi tão verdadeiro, como no caso de Berlusconi, dizer que o poder é afrodisíaco.

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13 nov as 14h00

post nirlandobeirão1 Vá pra casa, Silvio. A era do bunga bunga acabou
A capa do The Economist desta semana é um primor: Berlusconi arrumando a gravata no meio de um tremendo bacanal greco-romano. That’s all, folks. È finita, ragazzi. Acabou a festa, rapaziada.

De 1995 para cá, a Itália tem sido uma espécie de trenzinho erótico desgovernado pilotado por um playboy frenético orgulhosíssimo, aos 75 anos, de exibir publicamente seu apetite sexual.

Silvio Berlusconi é a imagem escarrada de uma Itália que se deixou levar pela ilusão hiperliberal da abundância sem limite, da desregulamentação radical da economia, do Estado zero, da orgia do vale tudo – que começou no salve-se quem puder e desaguou no locupletemo-nos todos.

Infelizmente, não é verdade que, na Itália dos gênios renascentistas, Silvio Berlusconi era um alienígena, um corpo estranho. Berlusconi, bufão, showman, solerte homem da comunicação, simulacro do Duce Mussolini, soube exprimir uma Itália debochada, arrivista, retocada de botox, arrogante, indiferente, desapaixonada, cínica, gananciosa, fútil.

Políticos não nascem por geração espontânea. Nem aqui nem lá.

Esta Itália do bunga-bunga leva agora um choque de realidade. Tomara que acorde diferente. Com a cara da Itália que já foi, civilizada, culta, com compostura.

Silvio Berlusconi é a dádiva dos caricaturistas. A Itália, por duas décadas, também virou um país de caricatura. O país teria relevado os pecadilhos sexuais, o populismo antidemocrático, as malversações financeiras (tráfico de influência, corrupção ativa, lavagem de dinheiro, conluio com os mafiosos), se a catástrofe européia não lhe tivesse vindo bater dramaticamente à sua porta.

Existe uma ironia na crise: os especuladores cuja gula os governos ultraliberais protegeram e aguçaram tratam hoje de lançar a pá de cal sobre os governos ultraliberais que tanto os ajudaram e os incentivaram.

É ingrato, o capital especulativo. Não tem pátria, não tem coração – gratidão, nem pensar.

O que derrubou Berlusconi não foi a marroquina de 17 anos, call girl a serviço da libido do sultão milanês; não foi o amoralismo decrépito do tiozinho priápico; não foi seu palavrório indecoroso. Não é que a Itália tenha subitamente readquirido um senso de decência republicana, nada disso.

A crise de agora – com a renúncia de Berlusconi – é resultado de um ataque especulativo do mercado. Repete-se o script da Grécia, de Portugal, quem sabe da Espanha: os títulos públicos, que servem para financiar as dívidas de um país, viram pó e ameaçam arrastar para o abismo grandes bancos, os principais compradores desses papéis.

Para salvar o capitalismo, faz-se de tudo. Inclusive jogar ao mar, se preciso for, os heróis do capitalismo.

Quando Berlusconi assumiu o poder pela primeira vez, em 1994, a Itália era a sexta economia do mundo. Hoje é a oitava.

Dois paises a ultrapassaram. A China, claro. O outro? Ah, bem, como dizer? Para desespero dos comentaristas econômicos da Rede Globo, mestres do vodu e do mau-olhado, o outro é o Brasil.

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30 jun as 07h05

Florinda by Warhol1 300x300 Rosto de Florinda vale mais de US$ 500 mil

Florinda Bulcão. Ou Florinda Bolkan – como ela passou a se chamar ao trocar o Brasil pela Itália, e pelo mundo, em 1965. O retrato da estrela italocearense, pintado em 1981 por Andy Warhol, foi leiloado ontem, quarta-feira (29), na Christie’s da King Street, em Londres, por um preço que subiu à estratosfera: £361.25 (US$ 576.555).

É um óleo de 1 m por 1 m.

A Florinda, de Warhol, foi um dos hits do leilão de arte do pós-guerra e contemporânea e bateu Picasso, Lucian Freud e outros Warhols.

Revê-la na tela do rei do pop americano é um jeito de resgatar do esquecimento uma diva brasileira que o Brasil, no entanto, persiste em ignorar. Florinda, que foi dirigida por Visconti, De Sica e Elio Petri, entre muitos outros, numa quilométrica filmografia que lhe valeu três prêmios Donatello, o Oscar da Itália, tem hoje 70 anos e mora em Bracciano, a 50 km de Roma. Ali, ela cria cavalos de salto.

Tem uma relação afetuosa com sua terra (ela é de Uruburetana, sertão cearense), mas a recíproca nem sempre é verdadeira. Andou recentemente tendo dores de cabeça com a burocracia local por causa de uma ONG pela qual ela tenta socorrer crianças carentes.

Diz que não tem a menor intenção de voltar, mas escreveu no ano de 2000 um poema de amor ao Ceará em forma de filme em Eu não conhecia Tururu. “Uma comédia antropológica”, define ela.

Se você ficou curioso, pode desistir. É o tipo de filme que o circuito cinematográfico dos blockbusters ignora solenemente.

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