21 mar as 16h56

110511FP2231 José Serra tem um problema sério com papel

Será que Freud explica? O ex-tudo (ex-deputado, ex-ministro, ex-prefeito, ex-governador) e eterno candidato a tudo diz que “é apenas um papelzinho” o documento por ele assinado, na campanha de 2004, prometendo não deixar a Prefeitura de São Paulo para se candidatar ao Governo – coisa que acabou fazendo, dois anos depois, deixando o mandato no meio e entregando à cidade de SP esse presentão chamado Gilberto Kassab.

Serra, em 2004, jurou que cumpriria o mandato até o fim. Como o que ele habitualmente diz não merece maior crédito, tratou de assinar, durante entrevista à Folha, o documento que hoje renega. Disse que registraria o papel em cartório. Claro que não fez nada disso.

A questão do “papelzinho” volta à tona porque ninguém acredita que, mais uma vez, Serra vá cumprir o mandato de prefeito – na agora complicada hipótese de vencer a eleição de novembro. Ele próprio insinua que o sonho presidencial está apenas “adormecido”. Todo mundo sabe que Serra vai tentar atropelar de novo seus companheiros de PSDB e, não importa onde esteja, insistir em ser de novo candidato à Presidência. Ele não se emenda. É capaz de assinar agora outro “papelzinho” e esquecer olimpicamente o que prometeu.

O problema freudiano de Serra com papéis atingiu o auge durante a campanha presidencial de 2010, vocês se lembram. Uma bolinha de papel quicou na sua luzidia cabeça durante périplo eleitoral na Baixada Fluminense. Serra e comitiva continuaram caminhando. De repente, recebeu uma chamada no celular e encerrou dramaticamente a caminhada, internando-se num hospital do Rio. Ali, um médico camarada, Jacob Kligerman, sem pudor de botar em risco sua credibilidade, alardeou que o candidato se submeteria a uma tomografia por suspeita de traumatismo craniano.

A candidatura de Serra revelou ali uma de suas facetas: a farsa. O Jornal Nacional, alinhado com o PSDB, sugeriu um atentado. Virou piada mundial o episódio da bolinha do papel. O compositor Tantinho da Mangueira compôs o partido alto Bolinha de Papel, em parceria com Sergio Procópio.

Diz a letra: “Deixa de ser enganador/Pois bolinha de papel/ Não fere, nem causa dor./A bola de papel/Quando bate a gente nem sente/Agora vem esse cara querendo enganar a gente. Ele quer enganar a gente, cumpade/ Na bolinha de guerra/ Deixa de ser enganador/ Olha só o cumpade Serra. Deixa de ser enganador/Pois a bolinha de papel/ Não fere, nem causa dor”.

Agora, mais uma vez, Serra quer presentear o eleitor com o papel de bobo.

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15 dez as 18h21

A bolha furou e a Folha de S. Paulo, a propósito do livro A Privataria Tucana, fez – fingindo ser uma reportagem – uma desajeitada defesa de José Serra na edição de hoje, quinta, 16.

Sem assinatura, contrariado o Manual. Indica que se trata de obra coletiva. Ou, quem sabe, trabalho solitário – da instancia superior.

Imagino o constrangimento das pessoas de bem que trabalham lá – e também que trabalham nos veículos onde a censura ao livro do Amaury Ribeiro Jr. continua imperando.

Cadê os Catões de plantão? O Janio de Freitas? O Elio Gaspari? A irritação deles é seletiva?

Repito: a imprensa brasileira, essa que vocês sabem qual é, não tem mais autoridade moral de fazer uma só denúncia contra ninguém. Nem contra o Fernandinho Beira-Mar.

O livro do Amaury retira outra tampa no esgoto da corrupção no Brasil: a gente está sempre acusando os corruptos, mas nunca menciona os corruptores.

A Privataria Tucana os nomeia, com nome e sobrenome.

São nomes imponentes, influente$ -- enfim, membros da curriola.

A omertà, a lei mafiosa do silêncio, os protege.

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12 dez as 08h00

serra ok A imprensa blinda Serra. O eleitor, não

Até o momento em que rabisco essas mal traçadas linhas, reina estrepitoso silêncio em torno do livro-bomba de Amaury Ribeiro Jr., nosso companheiro aqui da Record, com novas, sensacionais, documentadíssimas revelações sobre aquele que foi – agora não há nenhuma dúvida – a maior falcatrua com dinheiro público na história recente do Brasil.

Os únicos a quebrar a omertà, a lei mafiosa do silêncio, são a Record e a Record News, que não têm rabo preso com ninguém e noticiaram com o devido destaque, da mesma forma como noticiam os escândalos no governo federal. O livro trata do episódio da privatização das teles no governo Fernando Henrique Cardoso. O mensalão fica parecendo coisa de amadores.

Amaury Ribeiro Jr. é um repórter investigativo de fino faro. Já ganhou o Prêmio Esso de Reportagem, uma espécie de Oscar do jornalismo brasileiro. É um profissional sério e respeitável.

A Privataria Tucana (Geração Editorial) traz 323 páginas de pura nitroglicerina. Entre os protagonistas da trama, avulta a figura do ex-ministro José Serra. Junto com Serra, um pequeno círculo de familiares: a filha, o genro, o marido de uma prima do Serra.

privataria tucana A imprensa blinda Serra. O eleitor, nãoAs acusações são pesadas e volumo$a$. Dão conta de movimentações superiores a 2,5 bilhões de dólares, via paraísos fiscais. Propinas, tráfico de influências, fraude em concorrências, espionagem – está tudo documentado.

No eixo das malversações, o conhecido Ricardo Sérgio de Oliveira, caixa das campanhas eleitorais do PSDB.

Em entrevista à Carta Capital – que também teve a coragem de romper a blindagem feita pela grande imprensa em torno de Serra – Ribeiro Jr. destampa um episódio digamos assim fratricida, que exprime bem os métodos políticos de José Serra.

Ameaçado pelo crescimento de Aécio Neves junto às bases do PSDB, o insistente candidato decidiu botar um núcleo de arapongas espionando a vida particular do governador mineiro.

Serra pretendia usar o dossiê numa possível contenda dentro do partido. Quem comandava a operação clandestina era o ex-delegado da Polícia Federal, depois lotado no gabinete do ministro da Saúde, Marcelo Itagiba. (Itagiba, eleito deputado federal pelo PSDB do Rio, em 2006, foi cassado pelo voto em 2010).

Vocês sabem, Aécio desistiu, Serra concorreu e perdeu. Durante a campanha, fez enorme alarde a respeito de um suposto “dossiê” que envolveria sua filha. O dossiê era, na verdade, o livro do Amaury.

Tática preventiva, mas manjada: acusar para não ser acusado, fazer escarcéu para despistar o foco da questão. A imprensa amiga aliou-se prontamente ao candidato anti-Lula.

Amaury, para não ser ver usado no arsenal da sangrenta campanha presidencial, decidiu adiar a publicação do livro – que agora está nas livrarias.

Sobra inclusive para o PT – outro momento fratricida dos muitos a que o PT já se acostumou.

Narra a disputa entre duas facções durante a campanha da Dilma: aquela comandada pelo hoje ministro Fernando Pimentel e a ala aloprada do PT de São Paulo, representada pelo hoje presidente do partido, Ruy Falcão.

Foi a turma de São Paulo quem andou vazando informações à imprensa para detonar os rivais – a velha guerra de ocupação de espaços. Mesmo ao custo de detonar a própria candidatura Dilma.

(Um dos veículos acionados por Falcão foi, acreditem, a revista Veja). O livro é um mergulho no triste Brasil do lodaçal do poder.

Insisto: é curioso o silêncio da grande imprensa. Tão pressurosa em divulgar as mais mirabolantes acusações – por exemplo, aquela história de mala de dinheiro na garagem do Ministério do Esporte, depois desmentida – ela agora trata de proteger o eterno queridinho.

O eleitor, no entanto, está ligado. Pesquisa da Datafolha divulgada ontem, domingo, 11, informa que a rejeição a José Serra pulou para 35% – no caso de ele vir a ser candidato a prefeito de São Paulo no ano que vem.

Serra é, disparado, o mais rejeitado de todos os possíveis postulantes.

Mas ele é tão insistente que vai acabar atropelando seus próprios companheiros de partido e se candidatando a um mandato que, claro, se eleito, não iria cumprir até o fim – mesmo prometendo fazê-lo, com certidão passada em cartório e tudo (como já fez certa vez).

Pelo menos o Serra terá o voto da Soninha.

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13 out as 08h22

Recém-convertido ao catolicismo, beato de carteirinha desde a última eleição presidencial, com aquela expressão pouco convincente de que quem trocou os sabás noturnos pelas lides da sacristia, o ex José Serra reapareceu à luz do dia, com suas olheiras abissais, na procissão do Círio de Nazaré, em Belém do Pará.

O sempre fiel Estadão seguiu os passos do inusitado peregrino, registrando a devota presença do ex José Serra naquela imponente manifestação de fé, ao mesmo tempo em que, assim, do nada, o jornalista lamentava que o senador Aécio Neves estivesse aquela altura “descansando na fazenda de seus avós, em Cláudio, Minas Gerais”.

A súbita aparição de Aécio no texto não faria o menor sentido se a intriga não tivesse sido destilada – ainda que sem as devidas aspas – pelo próprio Serra, que mira no senador mineiro o mais sério adversário na luta pela candidatura de oposição contra Dilma Roussef em 2014 – ou contra Lula, quem sabe.

O ex Serra acha que, por direito divino, é ele o candidato de oposição, não importam as circunstâncias. E, bem ao seu estilo, vai metendo o cotovelo em quem quer que se lhe apareça pela frente, ainda que seja, como é Aécio, seu companheiro de partido.

O atual governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, sabe bem do quê Serra é capaz.

Acontece que, no episódio Círio de Nazaré, Serra pisou na bola e se esborrachou no chão, junto com o jornal que tentou promover sua penosa ressurreição.

Por coincidência, na coluna que escreve às segundas-feiras na concorrente Folha de São Paulo, Aécio Neves falou do mesmo tema no qual o Estadão, no mesmo dia, tentou encher a bola do ex Serra: o Círio de Nazaré.

Aécio contou que esteve lá, com o avô, Tancredo Neves, em 1984, quando toda aquela intensa devoção religiosa se mesclou com o entusiasmo cívico da campanha da redremocratização, encarnada pela candidatura presidencial de Tancredo.

Aécio contou de sua emoção em mergulhar, junto com o avô, naquela maré humana imbuída de fé e de esperança.

Repito: aconteceu em 1984. Ou seja, até nisso o renitente José Serra está atrasado. Vinte e sete anos atrasado.

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30 mai as 15h57

Não estranhem se José Serra, candidato derrotado à Presidência, passar a frequentar as páginas de Stephenie Meyer – aquela que povoa livros como Crepúsculo e Eclipse com simpáticos vampirinhos, dilacerados lobisomens e outros personagens espectrais.

O PSDB fez dele um morto-vivo. Na Convenção Nacional de sábado, em Brasília, as facções de Aécio Neves e de Geraldo Alkimin ficaram com o poder e despacharam Serra para a obscuridade de um Conselho Político que ninguém ainda sabe bem o que vem a ser. De todo modo, lá nesse Conselho Serra será o presidente.

PSDB001 Remake de <i>Crepúsculo</i>

A foto do encerramento da Convenção que saiu na Folha de S. Paulo é reveladora: mostra um Aécio triunfante, entre um Serra morto de constrangimento e um FHC visivelmente preocupado em não deixar Serra magoado.

Serra se dá bem com a escuridão. Dorme tarde, opera de madrugada e sofre com a luz do dia. Se o PSDB não se cravou a estaca no peito, tampouco lhe deu o direito de trabalhar em plena claridade.

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