Será que Freud explica? O ex-tudo (ex-deputado, ex-ministro, ex-prefeito, ex-governador) e eterno candidato a tudo diz que “é apenas um papelzinho” o documento por ele assinado, na campanha de 2004, prometendo não deixar a Prefeitura de São Paulo para se candidatar ao Governo – coisa que acabou fazendo, dois anos depois, deixando o mandato no meio e entregando à cidade de SP esse presentão chamado Gilberto Kassab.
Serra, em 2004, jurou que cumpriria o mandato até o fim. Como o que ele habitualmente diz não merece maior crédito, tratou de assinar, durante entrevista à Folha, o documento que hoje renega. Disse que registraria o papel em cartório. Claro que não fez nada disso.
A questão do “papelzinho” volta à tona porque ninguém acredita que, mais uma vez, Serra vá cumprir o mandato de prefeito – na agora complicada hipótese de vencer a eleição de novembro. Ele próprio insinua que o sonho presidencial está apenas “adormecido”. Todo mundo sabe que Serra vai tentar atropelar de novo seus companheiros de PSDB e, não importa onde esteja, insistir em ser de novo candidato à Presidência. Ele não se emenda. É capaz de assinar agora outro “papelzinho” e esquecer olimpicamente o que prometeu.
O problema freudiano de Serra com papéis atingiu o auge durante a campanha presidencial de 2010, vocês se lembram. Uma bolinha de papel quicou na sua luzidia cabeça durante périplo eleitoral na Baixada Fluminense. Serra e comitiva continuaram caminhando. De repente, recebeu uma chamada no celular e encerrou dramaticamente a caminhada, internando-se num hospital do Rio. Ali, um médico camarada, Jacob Kligerman, sem pudor de botar em risco sua credibilidade, alardeou que o candidato se submeteria a uma tomografia por suspeita de traumatismo craniano.
A candidatura de Serra revelou ali uma de suas facetas: a farsa. O Jornal Nacional, alinhado com o PSDB, sugeriu um atentado. Virou piada mundial o episódio da bolinha do papel. O compositor Tantinho da Mangueira compôs o partido alto Bolinha de Papel, em parceria com Sergio Procópio.
Diz a letra: “Deixa de ser enganador/Pois bolinha de papel/ Não fere, nem causa dor./A bola de papel/Quando bate a gente nem sente/Agora vem esse cara querendo enganar a gente. Ele quer enganar a gente, cumpade/ Na bolinha de guerra/ Deixa de ser enganador/ Olha só o cumpade Serra. Deixa de ser enganador/Pois a bolinha de papel/ Não fere, nem causa dor”.
Agora, mais uma vez, Serra quer presentear o eleitor com o papel de bobo.
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