28 set as 18h45

Gisele Bündchen de calcinha e sutiã. Alguém aí é contra?

O pior é que tem gente que é – e nem é o maridão da moça.

É um braço do governo, com status de Ministério, que resolveu implicar contra aquilo que não passa de uma brincadeira bem humorada de uma marca de lingerie.

O alvo da Secretaria de Políticas para Mulheres é a campanha “Hope ensina”. Uma aula de sedução. Nada do tipo “tirem as crianças da sala”. Totalmente inofensiva.

A Secretaria – de quem a gente não ouve falar nunca a não ser em episódios ridículos como este – diz que muita gente tem protestado contra o anúncio.

Muita gente quem? As Senhoras de Santana? O bispo de Guarulhos? A TFP? O capitão Bolsonaro? A bancada do DEM?

fto ft1 137091 Querem cobrir a lingerie da Gisele. Você concorda?

Por que esses agentes das trevas sempre se encobrem no anonimato? Quero ver os nomes. Quero saber quem são os dedos-duros.

Ofender-se à visão de uma Gisele no esplendor de sua forma é, tenho para mim, uma forma de psicopatia. Não tem nada a ver com moral, sexo ou decência.

Gisele, brasileira bem-sucedida, reconhecida internacionalmente, exemplo para toda mulher – logo ela.

Vai ser um vexame de dimensões mundiais se o Conar – O Conselho de Autoregulamentação da Puclidade – acatar o pito da Secretaria das Mulheres.

Mas, como todo órgão com poder de censura, do Conar pode-se esperar tudo. Em especial, o pior.

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30 ago as 17h26

Retomando o assunto que o Ricardo Kotscho tocou aqui neste R7: até onde o jornalista tem o direito de, além de apurar, julgar? Onde termina a função do repórter e onde começa a atribuição da Justiça? A imprensa pode ultrapassar os limites da lei para denunciar supostos  criminosos?

De tanto levar pancada da imprensa comprometida com outro$ intere$$es, o desembargador Fausto De Sanctis resolveu abrir esta discussão para o público, no seminário Poder Judiciário e Imprensa. O então juiz federal De Sanctis, como se sabe, foi quem botou duas vezes na cadeia o banqueiro Daniel Dantas (que o Supremo mandou soltar apesar de todas as provas contra ele reunidas na Operação Satiagraha).

(É bom dizer que o seminário já estava programado bem antes da Veja ter assumido sua faceta News of the World na última capa sobre o ex-ministro José Dirceu, que se não der cadeia é porque a Justiça pretende mais uma vez se alinhar ao lado de quem chantageia e impõe medo).

Nesta quinta, 1º de setembro, Paulo Henrique Amorim, da Record, vai debater com Caco Barcelos e com o desembargador federal Vladimir Passos de Freitas o tema: O Papel da imprensa investigativa – legitimidade.

(O seminário do desembargador De Sanctis acontece no auditório do Tribunal Federal Regional de São Paulo. É preciso se inscrever).

Da primeira rodada de debate, que aconteceu na sexta, 26, uma verdade aflorou, óbvia mas tão esquecida. Tanto imprensa quanto a Justiça (juizes, promotores e também a polícia) atuam na busca da apuração de crimes e malversações. Acontece que uma e outra têm timing diferente.

O jornalismo, pressionado pela velocidade da informação, pela concorrência, pela urgência do furo, quando não por puro e simples sensacionalismo, procurar desvendar logo os casos – em especial, os escândalos políticos, os crimes de colarinho branco, os enredos policiais de maior audiência. O jornalismo age pelo faro, pela intuição e pela ansiedade, muito mais do que pela racionalidade e pela apuração rigorosa e judiciosa.

Na correria, no atropelo, o jornalismo bota pressão no Judiciário mas também pode incorrer em erros clamorosos e em injustiças brutais.

O Judiciário tem de ouvir, comparar, ouvir de novo, juntar, raciocinar e, só então, dar seu veredicto.

Vejam o recente caso DSK: a prisão, em Nova York, do então diretor-geral do FMI, Dominique Strauss-Khan. Acusado pela polícia de estupro contra a camareira de um hotel, foi trucidado pela mídia americana. No calor da hora, a mídia condenou DSK. Dois meses depois, os mesmos promotores que tentava, incriminá-lo retiraram toda e qualquer acusação contra ele. Mas o estrago em sua reputação estava feito.

A imprensa se comportou com isenção? Buscou a verdade em nome do interesse público? Ou só do interesse momentâneo da própria imprensa?

Minha opinião é de que o risco da mídia cometer injustiça é menor do que o risco da mídia deixar de informar a opinião pública. Quando há boa fé, bem entendido. O direto à informação é um pilar de democracia. Contra os abusos existem mecanismos compensatórios, processos criminais (calúnia, difamação), inquéritos civis, direito de resposta.

Cabe à Justiça vigiar, com uma coragem que ela nem sempre exibe, para que as punições contra os excessos jornalísticos sejam acolhidas e sejam cumpridas.

Cabe à mídia ter um pouquinho de bom senso e tolerância para reconhecer que pode errar, sim – e errando, tem de se retratar.

Tenho a impressão, olhando o panorama atual tanto do jornalismo quanto da Justiça, que é pedir demais.

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12 ago as 19h22

Acabo de vir de uma conversa com um juiz federal que anda bastante irritado com o comentário da presidente Dilma sobre a prisão de funcionários do primeiro e segundo escalão do Ministério do Turismo, acusados de maracutaias e favorecimentos.

Dilma considerou “um acinte” (palavra dela) o fato da Polícia Federal ter algemado os suspeitos.

Acinte, diz o juiz, é colocar em risco a integridade física não só dos agentes policiais como também dos próprios presos – naquele momento sob a tutela do Estado. Se algo ocorre com eles, o Estado será responsabilizado.

Sou a última pessoa do mundo a defender a execração pública de pessoas que sequer foram processados e menos ainda condenadas. Considero – contra a opinião majoritária – que direitos humanos são, sim, para serem respeitados. E tenho até crise de asma quando ouço aquela lenga-lenga de que, aqui no Brasil, direitos humanos só existem para bandidos.

Mas algema é outra história. Ela não pressupõe um julgamento – o suspeito é culpado ou é inocente. É simples: trata-se de deixar claro que o sujeito ali está preso e que a autoridade policial deve executar, sem submeter o acusado a humilhações gratuitas, um pedido da Justiça.
O problema no Brasil é que ninguém se incomoda com o pobre algemado, mas todo mundo acaba tendo dó do rico em algemas.

200274145 001 ALGEMAR OU NÃO ALGEMAR? ENTRE NESTA DISCUSSÃO
Foi o próprio Supremo Tribunal Federal, aliás, quem tratou de reiterar, com insólita clareza, a natureza social da punição.

A Súmula Vinculante número 11 diz: “só é lícito o uso de algemas em caso de resistência e de fundado receio de perigo à integridade física própria ou alheia, por parte do preso ou de terceiros”.

Ameaça não só com punições administrativas. Pode chegar ao extremo de anular todo o processo.

Pela tal Súmula, o policial tem de escarafunchar a subjetividade do suspeito e avaliar se ele está ou não pensando em fazer alguma bobagem ou em cometer alguma violência.

Por isso é que digo que o STF aprofunda o apartheid: preso pobre tem cara de quem vai aprontar alguma, preso rico é daqueles que a gente pode até convidar para jantar em casa.

A decisão foi tomada em agosto de 2008. Em julho, um mês antes, a PF prendera alguns peixes graúdos dos altos negócios e das supernegociatas nativas. A Operação Satiagraha levou para a cadeia, ainda que por pouco tempo, o banqueiro Daniel Dantas e seus cúmplices.

À época, Dantas e caterva chegaram na PF algemados. Hoje em dia talvez fossem recebidos com tapete vermelho, flores e água de cheiro.

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08 jul as 06h00

Parafraseando um barbudo do século XIX, o perigosíssimo Karl Marx, eu convoco: barbudos de todo o mundo, uni-vos.

O Bradesco e a Justiça da Bahia estão contra nós.

É o caso de, aceitando a sugestão do Alê Youssef, porta-voz da juventude de cabeça mais arejada de São Paulo, convocar uma marcha, um protesto, uma passeata. Se até a maconha já teve a sua, ou as suas, por que não a barba?

O Bradesco não surpreende. Demitiu um funcionário porque ele portava no rosto o formoso adereço. Os códigos de conduta do Bradesco, a gente sabe, fariam a inveja dos mandamentos medievais do abade Savonarola. O qual, aliás, era cem por cento glabro.

A vítima foi à Justiça e, no andar de baixo, conseguiu uma indenização de 100 mil reais. Na segunda instância, perdeu. Os nobres juízes do Trabalho acham que barba é um desaforo à ilustríssima clientela de um banco. Demissão sumária, sem indenização e com justa causa.

Tudo bem, alguém pode dizer: está no direito do empregador impor um padrão estético e, digamos, protocolar, uma coisa dessas tem a ver apenas com os hábitos e costumes, não com o direito constitucional a se exprimir livremente.

Eu – cuja barba vem retraindo nos últimos anos a ponto de se transformar num mero apêndice do rosto – acho que é direito, sim. Poderia invocar um bando de barbudos em prol da minha causa, de Ulisses, o grego (não o Guimarães), a Lula.

com caetano Deixem minha barba em paz

Tem muito barbudo decente por aí. Tolstói cultivava seus pendores capilares, Hitler, não. Nelson Mandela envergava suas penugens faciais antes de ser preso. O goleiro Bruno é imberbe de tudo. Mandela, portanto, não poderia trabalhar no Bradesco. O goleiro Bruno, sim.

Exagero? Vocês não sabem como o preconceito contra a barba espreita, a cada esquina. Mesmo sabendo-se que faz tempo que ela deixou de ser o emblema revolucionário dos meninos enragés e descabelados dos anos 60. Por mais que a revista Veja promova, ora e vez, sua caçada ideológica contra “os barbudinhos” do Itaramaty, os pelos do rosto hoje em dia têm compromisso apenas com uma coisa: a vaidade. Por que não?

Reparem como os mauricinhos adotaram a barba de cinco dias. Caprichosamente aparada, minuciosamente desenhada. Não serão eles a abalar os valores da família brasileira – e do establishment conservador, aqui tão bem representado por um banco carola.

Arrisco dizer que a ojeriza aos pelos vai muito além de pretextos como “a higiene”, “o apuro” e “a elegância”. Tem um fundo autoritário aí. Impor um padrão estético, implantar a ditadura do gosto, é como invadir arbitrariamente mais uma vez a esfera do privado. De mais a mais, acho muito suspeito quando gerentes de banco prestam tanta atenção à aparência de seus subordinados.

A PROPÓSITO

Salman Rushdie, de quem falei aqui no post de ontem, tem uma barba que lhe emoldura harmoniosamente o rosto. Mas o que eu queria dizer é outra coisa: leitores céticos acham que ficcionei a história do jantar em Paraty.

paraty com rushdie Deixem minha barba em paz

Então, vai aqui a prova documental. Bom fim de semana.

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