23 nov as 17h06

Minha mais radical experiência no quesito aquisição de produtos ilícitos, até agora, tinha sido a de comprar livros de ficção em Cuba.

Entrei numa livraria com uma lista de autores que me tinham recomendado, mas logo percebi, no desolador cenário das prateleiras vazias, que não teria o menor sucesso.

Para minha surpresa, o solícito vendedor me disse: a loja não tem, mas eu consigo.

Mal tinha botado o pé fora do lugar e eis que percebo o rapazote me acenando do outro lado da rua. Me pegou pelo braço e me conduziu a um beco escuro de La Habana vieja. Trazia um pacote na mão. Olhava para os lados, ansioso, como se estivesse vendendo cocaína no corredor da Casa Branca, em Washington.

Trazia, na maioria, livros pornográficos – não exatamente o que me movia. Explicou, o garoto, que o negócio era legal, livros têm tiragem pequena em Cuba e ele os comprava para revender a turistas como eu. Com capitalista margem de lucro, diga-se. Vinte dólares por aqueles toscos farrapos de papel.

Experiência semelhança tenho vivido nas últimas semanas aqui em São Paulo, Brasil. A droga ilícita que tento adquirir, nos desvãos do mercado negro, é o queijo Minas.

É verdade, acreditem: as autoridades sanitárias do Estado de São Paulo consideram o queijo Minas – refiro-me ao verdadeiro, feito de forma artesanal, com leite cru, recém-saído da vaca, e não a essa coisa insossa, sem sabor, que tem tentando me vender sob o nefando nome de “frescal” – um terrível perigo para a saúde.

Deixo de lado a suposição – ainda que legítima – de que a decisão paulista é ciúme mesquinho, se não a sinistra tentativa de estabelecer uma reserva de mercado a favor de uma gororoba local, manufaturada pela grande indústria de laticínio, incapaz de reproduzir o requinte artesanal e a qualidade deliciosa do queijo do Serro, do queijo da Canastra e de tantos outros DOCs das Gerais.

Deixa para lá.

De todo modo, sou obrigado hoje a me comportar como aqueles drogados da Cracolândia, trocando sussurros com outros viciados para saber onde é que se esconde nosso dealer, o qual se disfarça da vigilância policial como se administrasse um speakeasy da época da Lei Seca.

Os consumidores da droga, insaciáveis, avisam: “Hoje, o seu Pedro (nome de fantasia) está em tal lugar”. E lá vamos nós, sinistros fora-da-lei, atrás do queijinho nosso de cada dia.

É ridículo, mas não é exagero meu.

Comentei minha revolta com um amigo, diretor da agência de turismo da França em São Paulo, e ele me municiou de ampla literatura sobre a batalha que o queijo francês teve de enfrentar para se impor diante da legislação restritiva – e burra, e mal intencionada – da Comunidade Européia.

O camembert, o reblochon, o roquefort, o port salut, o cabécou ganharam a parada contra os rígidos alemães e os holandeses. O queijo Minas há agora de vencer os paulistas e os idiotas.

Até documentário sobre o assunto já veio à luz, graças à combativa câmera de meu amigo Helvécio Ratton. O filme passeia pelo terroir do queijo Minas e ouve o desabafo dos supostos criminosos com o rosto emoldurado de inocência.

Diz um desses produtores mineirins: “Se é assim, deviam fazer que nem o cigarro. Basta escrever no rótulo que este produto é nocivo à saúde, muito nocivo mêêêêssss”.

O sarcasmo dele é daqueles que vem em gargalhadas sufocadas lá das entranhas de sua justificada perplexidade.

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27 set as 10h57

carla bruni post nirlandobeirão Linda, talentosa, estrangeira: a França se vinga de Carla

Carla Bruni é a bola da vez no circuito francês das intrigas e das maledicências.

A primeira-dama, que está entrando no nono mês de gravidez, ganhou uma biografia não autorizada que acaba de ser lançada.

Tive o livro em mãos e está na cara que visa o escândalo.

Vai coincidir com a entrada dela no hospital, a qualquer momento (Carla tem 43 anos, fez tratamento contra infertilidade e não quis saber se terá filho, filha ou gêmeos).

A biografia, assinada pela escritora Besma Lahouri, apresenta a atual Sra. Sarkozy como uma criatura calculista, gélida e maquiavélica.

Acusa-a de ser também uma sedutora contumaz, “uma Don Juan de saias”, que enfeitiça os homens, dá-lhes logo um belo pontapé no traseiro, mas insiste em manter seus ex por perto, a seus pés.

Esta descrição corresponde, aliás, ao que Eric Clapton, um dos que caíram pela bela Carla, escreveu há alguns anos na sua autobiografia.

Clapton conta que se encontrou certa vez, na vila da família de Carla, na Toscana, com três ou quatro ex-namorados da modelo, todos prontos para, a um piscar de olhos dela, voltarem para seus braços como dóceis cãezinhos.

“Ela é assim”, tentaram consolar o inconsolável Clapton. A reunião familiar tinha sido convocada por Carla. Todo mundo apareceu, menos ela.

Àquela altura, ela andava nos quintos da África agarradinha ao seu novo amor, Mick Jagger.

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18 ago as 20h15

loucura É ridículo procurar ser feliz?

Leio – e recomendo – A Era da Loucura, que tem como subtítulo Como o mundo moderno tornou a felicidade uma meta (quase) impossível (Editora Alaúde, 232 páginas, R$40).

Não é atraente?

Prefiro a versão mais literal do título (em vez de loucura, absurdo – A Era do Absurdo), mas não compromete.

O autor é o inglês Michael Foley, craque em misturar filosofia pop com pitadas de misticismo, literatura e psicologia.

Pelo título, alguém pode achar que é:

1 – um retrato dos Estados Unidos sob George Bush;

2 – um tratado sobre o trabalho na redação da revista Veja;

3 – um dia dentro do Jornal Nacional, da TV Globo.

Genericamente, cabem todos os três itens. Mas o tema vai além: mostra como a felicidade acabou virando um produto raro, menosprezado, descartável dentro da estrutura das grandes corporações que comandam o mundo moderno.

Eu me lembro de ter lido um dia desses na Folha um colunista ranzinza dizer que é ridículo a busca da felicidade. A julgar pelo humor do carinha, o ensaio é autobiográfico.

Foley leva a felicidade a sério. Cita de Freud à ONU – que, em sua última Assembleia Geral, passou a considerar a felicidade não um desejo inhdividual e, sim, mas uma ferramenta coletiva para melhorar o bem-estar das nações.

Enquanto os economistas, a mídia e as autoridades ficam tão preocupados em avaliar o PIB – Produto Interno Bruto – de um país, a ONU sugere alguma coisa como um índice FIL – Felicidade Interna Líquida.

Faz o maior sentido.

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