17 nov as 06h41

Já tive barba cerrada de jagunço da novela das seis. Hoje me resta um desenho de penugens debaixo do queixo. Mas sei bem o que o Lula deve estar sentindo ao sacrificar o adereço facial que lhe acompanhou a trajetória e lhe constituiu a mística.

Lá está ele, na foto que o R7 publicou antes de todo mundo, sorridente, contudo, entregando seus pêlos aos doces cuidados de dona Marisa. Lula sorri, mas eu sei quanto aquilo dói.

Não é nem pela sombra de uma doença cruel, que ele começa a combater com bravura. Mas é que, revirando do avesso o dr. Freud, às vezes uma barba é mais que uma barba.

É vestimenta, pode ser disfarce. É uma moldura, pressupondo vaidade. Ou, ao contrário, é uma declaração de rebeldia, pretextando indiferença às convenções.

Muito do vigor combativo do Lula do passado se exprimia simbolicamente nos fios revoltos de sua barba. Ao se aproximar do poder, Lula pacificou-os, numa arquitetura facial que reiterava o candidato à concórdia e à condialidade, como se fosse um político da República Velha.

Presidente, Lula viu o grisalho amansar ainda mais sua persona pública. No exterior, passaram a tratá-lo como estadista. Em vez de atrapalhar, a barba ajudou.

Ao se olhar hoje no espelho, Lula há de estranhar. É difícil reencontrar-se com uma criatura que de repente é você, e também não é.

Repito: não é fácil abandonar a companheira de tantas lutas. Mas a batalha de agora consola o sacrifício.

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04 nov as 09h00

Primeira consequência da doença de Lula: coube à presidente Dilma, não a Lula, como traçado no script inicial, a difícil missão de pendurar o guiso no pescoço da tinhosa Marta Suplicy.

Alguém com autoridade tinha de convencer Marta a desistir de concorrer à Prefeitura de São Paulo em 2012.

Lula se apresentou. Teve involuntariamente de se recolher. Dilma, antes de viajar para a reunião-comício-velório do G20 em Cannes, França, deu o recado a Marta.

Sem a ex-prefeita, o PT vai mesmo de Fernando Haddad, o ministro da Educação.

Fernando Haddad é uma cara nova. Mais uma, na eleição de São Paulo. Por isso é que digo que o jogo está zero a zero. Entre tantas novidades, o eleitor é que vai decidir que é a novidades que o atrai mais.

Fora Haddad, está no páreo Gabriel Chalita, pelo PMDB, talvez mais conhecido pelos seus livros de auto-ajuda do que qualquer ajuda que tenha dado à política.

Com bom tempo de TV, pode vir a ser um candidato viável.

O PC do B deve vir de Netinho de Paula, o cantor. O PSB tem o fominha Paulo Skaf já se preparando na linha de largada. Soninha Francine vai, pelo PPS, fazer o que sempre se espera dela e do PPS: funcionar como uma espécie de fachada a serviço do PSDB de José Serra. O novato PSD de Gilberto Kassab tem o ex-banqueiro Henrique Meirelles como carta na manga. O próprio PSDB, se depender do governador Alckmin, entra na disputa com o baby face Bruno Covas, a bordo de sua impecável linhagem.

E por aí vai. A tendência é que a eleição em São Paulo apresente uma inacreditável fragmentação de candidaturas, todas aquelas acreditando, ao que parece, que o tempo dos figurões ficou para trás.

Nesse caso, as alianças, as coligações teriam de esperar o segundo turno.

A menos que José Serra decida se apresentar de novo, atropelando a tudo e a todos com a manjada promessa de que ficará até o final do mandato – promessa que ele, naturalmente, não irá cumprir.

José Serra é tão insistente que nem o fiel espelho dele agüenta quando cotidianamente perguntado se há no mundo alguém mais bonito, mais bacana, mais inteligente, mais preparado do que José Serra.

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31 out as 08h00

As tias de Brasília – aquelas lá, as poderosas – estão exultantes com o câncer contraído pelo Lula. Fingem que não, mas estão.

Afinal, parece que todo aquele vodu delas, as intrigas maliciadas, aquelas suas novenas fervorosas não foram em vão.

Uma delas chegou a aventar, feliz da vida, a ironia de Lula, o tribuno, o orador, o incurável falador, ser atacado exatamente no gogó.

Se o ex-presidente é mestre por convencer pela palavra, que ele, então, em castigo dos céus, pague pela língua (a tia deixou nas entrelinhas o arfar vingativo de donzela injuriada).

Corre por aí o mito de que o câncer tem causa psicossomática. Que a infelicidade, por exemplo, dá câncer.

O Dr. Drauzio Varela já disse mil vezes e toda a ciência moderna reitera insistentemente que isso é uma rematada besteira. Câncer é uma transformação maligna na célula que nada tem a ver com o estado de espírito da eventual vítima.

A versão rancorosa das tias de Brasília – as poderosas da mídia – faz lembrar a tese que o delirante Wilhelm Reich quis atribuir ao seu antigo mentor e professor, Sigmund Freud, quando o mestre da psicanálise caiu vítima de um câncer na garganta.

A tese de Reich, o lunático endiabrado, era mais ou menos essa: para fazer da psicanálise uma disciplina socialmente aceita, para retirar dela toda sua aspereza revolucionária, de desafio ao status quo, depurando, por exemplo, o que ela trazia de mais inquietante no quesito sexualidade, Freud teve de negociar, de acochambrar, de engolir muito sapo.

Consequência: câncer na garganta.

Juro que foi o que Reich disse – e escreveu.

Esqueceu-se de coisas simples, banais, como o fato de Freud ter fumado, a vida toda, 20 charutos mata-rato por dia. Câncer na garganta não seria de surpreender, ou seria?

No caso de Lula, novas teorias virão (escamoteando o ódio que muita gente mais, além das tias poderosas de Brasília, guarda daquele metalúrgico que ousou ser presidente do Brasil e virar uma eminência internacional).

Já que hoje é o Halloween, sou tentado, eu, cético de tudo, a crer que, sim, ali, no caso do Lula, está comprovado um caso típico de mau-olhado. Tem bruxaria aí, se tem!

Mas já ficou provado que mau-olhado o Lula tira de letra.

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