04 dez as 13h21

Começou com uma ligação do Raí no meu celular. Achei estranho: eu era amigo do Sócrates, mas nunca tinha falado com o Raí antes.

“Vamos jantar? Eu e meu irmão queremos conversar sobre um projeto aí...”

Fomos ao Carlota, em Higienópolis, e já de cara percebi que aquela longa temporada na França tinha produzido algum efeito no irmão mais feio do Magrão: ele pediu um espumante Chandon para acomnpanhar a comida.

(“Irmão mais feio do Magrão” foi uma das muitas molecagens que Washington Olivetto e eu botamos no livro É Preto no Branco, nossa versão muito livre da história do Corinthians da Coleção Camisa 13)

Raí estava empenhado em turbinar um antigo projeto do irmão: a narrativa, com tinturas de ficção, sobre a passagem dele pelo futebol italiano.

E não só pelo futebol. Sócrates era um cidadão do mundo, sensível à política, à literatura, às artes. Ligado em tudo, tinha muito a contar sobre sua curta aventura italiana, de apenas uma temporada, no Fiorentina.

Assim como Sócrates, eu tinha à época uma coluna na revista Carta Capital. Escrever, ele sabia – com estilo, com a mesma elegância que tinha exibido dentro de campo.

O que Raí queria era motivar Sócrates a escrever o livro. Se, com toda sinceridade, eu pudesse ajudar seria em servir de interlocutor de Sócrates, trocar idéias com ele, ouvir suas histórias de forma a que ele próprio pudesse organizá-las e encadeá-las.

Até editora o Magrão já tinha – na Itália. O livro sairia em italiano e, depois, seria vertido para português e para outras línguas.

Estive com o Raí outras vezes desde aquela noite, com o Sócrates uma ou duas vezes, não mais que isso. Sempre perguntei sobre o livro e o Magrão, “está saindo, está saindo...”

Não saiu. É triste. Tudo é muito triste.

Mas, se não há livro, há outros registros do craque que Sócrates foi, em todas as áreas.

Ele encantou o futebol com sua arte.

Ele fascinou os amigos com sua inteligência.

Ele deslumbrou o Brasil com sua sensibilidade cidadã, com sua militância em prol de um país melhor, mais decente, mais civilizado e mais justo.

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24 jul as 10h59

amy getty ok Amy Winehouse e o mundo que a gerou – e que a consumiu
Amy Winehouse parecia ter, dentro daquele corpinho frágil, quebradiço, uma negona americana, dessas que soltam o berreiro no gospel ou se esgoelam no melhor rhythm & blues.

Experimente ouvir de olhos fechados Mr. & Mrs. Jones, que está no álbum de maior sucesso dele, Back to Black (de 2006). E também Rehab. E tantas outras. Ninguém haveria de dizer que a voz vem de uma criatura tão esquálida, tão dramaticamente indefesa, tão desesperadamente carente – uma inglesinha criada num bairro periférico de Londres, de família de classe média baixa e limitadas perspectivas de vida.

Southgate, o bairro em que ela nasceu e que a explica bastante, a ela e à música dela, fica no norte de Londres, apesar deste South, Sul, aí do nome. Tem um setor agradável, arborizado, de casas afluentes, e um centro movimentado, de mistura étnica e atmosfera proletária.

O bairro tem sua peculiaridade no número de sinagogas (Winehouse era de origem judaica), de maçons, de indianos ricos e de pubs, e olha que estamos falando de Londres, a capital mundial dos pubs.

Andei pesquisando as fotos dela. Não há uma única em que ela apareça sorrindo de forma plena, espontânea. “A menina triste” (como a imprensa inglesa a chamou, nos necrológios prontos com enorme e previsível antecedência) não conseguiu suportar a luminosa explosão de seu próprio talento e o preciosismo radicalmente atormentado que, se serviu de alimento para sua feroz criatividade, também acabou por levá-la à autodestruição.

O bicho da depressão a comeu por dentro. E a exigência que ela – de aparência tão desleixada – tinha consigo mesma.

Amy Winehouse deixa obra pequena se comparada a outras estrelas pop que partiram cedo como ela, Jim Morrison, Kurt Cobain, Janis Joplin. Mas, na qualidade, faz parte do primeiro time.

Vermeer não chegou a pintar 40 quadros em toda a sua vida e os holandeses o colocam no mesmo nível de Rembrandt e de Van Gogh. James Dean fez três filmes, e está no panteão de Hollywood. Elizabeth Bishop desponta entre os três maiores poetas americanos do século 20 tendo escrito apenas 50 poemas.

Amy Winehouse nunca chegou a divulgar o tão prometido terceiro álbum.

A arte não se mede por centimetragem.

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17 jun as 14h13

Em meus momentos mais azedos, convenço-me – contrariando todas as minhas convicções – que a pena de morte justifica-se plenamente em dois casos.

A saber:

1 – para quem joga bituca de cigarro em mictório masculino, condenando os futuros usuários ao lamentável contato com um fétido entupimento;

2 – para caminhoneiros que viram carretas na Marginal, na Linha Vermelha e em rodovias (vale, acredito, o fuzilamento sumário, sem julgamento e sem defesa).

Acrescento agora uma terceira categoria de deliquentes extremados a quem só cabe o justiciamento, sem nenhum perdão: aquele que usa celular nos aviões mesmo quando a pobre da aeromoça insistentemente chama a atenção do parlapatão exibicionista.

101211172 Uma defesa da pena de morte

Digo exibicionista – e reitero: só um idiota ególatra há de imaginar que seus vizinhos de cadeira estejam interessadíssimos em suas conversinhas de negócio ou em suas intimidades bobocas (“chego aí em duas horas, benhê”), mesmo depois de acionados todos os sinais de advertência da aeronave.

Pessoalmente, até pouco tempo considerava um excesso de paranoia imaginar que um avião pudesse ser derrubado por um cretino no uso a bordo de seu telefoninho. Mas recente relatório da Federal Aviation Agency – a Anac dos Estados Unidos – confirma que as ondas dos telefones móveis podem interferir, sim, nas comunicações de um avião, configurando, portanto, um perigo real para a segurança do voo.

Esta semana, viajei nas proximidades de um desses seres antissociais a quem não bastava, em sua ansiedade de deslumbrado, uma gravata piscando uma infindável palheta de cores. O carinha falou da sala de espera à decolagem – tentando disfarçar, de cabeça baixa e aos sussurros, seu desrespeito não só às regras da Aeronáutica, mas também ao código básico de convivência social. Pela importância que o fulaninho dava à conversa, só podia ser o Papa ou então a Gisele Bündchen.

O voo em questão procedia de Brasília. Aquela terra que os humoristas do tipo cê-que-sabe sugerem resumir, na figura dos políticos, todas as mazelas e maracutaias do país. Mas tem hora que fico imaginando se não é toda a sociedade brasileira, ali representada pelo desprezível tagarela, se não somos todos nós, ou quase todos, que estamos sempre dispostos a uma trapaçazinha marota, desde que ninguém nos flagre, que ninguém venha nos puxar as orelhas.

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