Aproveito o dia delas para homenagear dona Clery (personagem real, nome de fantasia), minha bruxa de estimação.
Dona Clery já habita hoje alguma instância da eternidade, um dos patamares do céu ou, quem sabe, do inferno de Dante (quem sou eu para julgá-la). Mas nunca consigo esquecê-la em tão simbólico dia.
Eu era uma criança, pré-adolescente, 12, 13 anos de idade, e dona Clery foi minha professora de música num sisudo colégio de padres holandeses em Belo Horizonte.
Ela era a única mulher no corpo docente, o que diz muito do colégio – e também dela.
Velhota ranheta, aspergia como disfarce de seu péssimo humor e sua face medonha um perfume tão áspero que, mesmo a cautelosa distancia, minha bronquite explodia, em espasmos involuntários, mas incontroláveis.
Por isso, ou por alguma outra coisa, ela me odiava. Aliás, dona Clery odiava a todos nós, com bronquite ou sem bronquite. A única exceção era o Luis Carlos, que por causa dela todos nós passamos a odiar, pobre diabo, suave criatura.
Professora de música, eu disse. Á época, eu tinha alguma intimidade com claves, pautas e oitavas. Empunhava um pesado acordeón de madrepérola que meu pai trouxera de Itália e até que eu conseguia arrancar dali alguma melodia, a começar por vibrantes tarantelas assim como dolentes canções da tradição japonesa.
No entanto, dona Clery me achava uma besta quadrada. Acusava a todos nós de sermos irremediavelmente desafinados, de não termos competência alguma de produzir um acorde, um solfejo, que fosse.
Era de uma crueldade sádica, premeditada, reflexo talvez de uma solteirice estéril, histérica, sem amor.
Logo reconheci os limites de minha vocação de músico, mas, de alguma forma, consegui mais tarde superar os traumas do meu convívio com a megera. Pelo menos mantive o prazer de ouvir meus precários vinis naquela vitrolinha amiga.
Apesar da jararaca, continuei gostando de música.
Minha filha, Julia (nome real), é música. Atribui a mim, com notável exagero, o interesse dela por certos dinossauros do rock. O Kiss, tudo bem, tenho de admitir -- a quantidade de vez que atormentei aqueles infantis tímpanos com a música Carisma foi uma grandeza. Com ela, ouvi muitas vezes Echo and The Bunnymen, é verdade. E Tom Waits. E Nick Cave. Ela acha que temos gosto parecido.
Mas o talento musical da Julia é só da Julia.
Duas gerações resistindo bravamente à maldição de dona Clery. Não seria justo não lembrar da maldita no Halloween. Triste dona Clery. Não lhe quero mal. Só posso dizer que a maldade dela era tão primária, tão patética, que nem para figurante do elenco de bruxas do Harry Potter ela serviria.
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