31 out as 16h00

Aproveito o dia delas para homenagear dona Clery (personagem real, nome de fantasia), minha bruxa de estimação.

Dona Clery já habita hoje alguma instância da eternidade, um dos patamares do céu ou, quem sabe, do inferno de Dante (quem sou eu para julgá-la). Mas nunca consigo esquecê-la em tão simbólico dia.

Eu era uma criança, pré-adolescente, 12, 13 anos de idade, e dona Clery foi minha professora de música num sisudo colégio de padres holandeses em Belo Horizonte.

Ela era a única mulher no corpo docente, o que diz muito do colégio – e também dela.

Velhota ranheta, aspergia como disfarce de seu péssimo humor e sua face medonha um perfume tão áspero que, mesmo a cautelosa distancia, minha bronquite explodia, em espasmos involuntários, mas incontroláveis.

Por isso, ou por alguma outra coisa, ela me odiava. Aliás, dona Clery odiava a todos nós, com bronquite ou sem bronquite. A única exceção era o Luis Carlos, que por causa dela todos nós passamos a odiar, pobre diabo, suave criatura.

Professora de música, eu disse. Á época, eu tinha alguma intimidade com claves, pautas e oitavas. Empunhava um pesado acordeón de madrepérola que meu pai trouxera de Itália e até que eu conseguia arrancar dali alguma melodia, a começar por vibrantes tarantelas assim como dolentes canções da tradição japonesa.

No entanto, dona Clery me achava uma besta quadrada. Acusava a todos nós de sermos irremediavelmente desafinados, de não termos competência alguma de produzir um acorde, um solfejo, que fosse.

Era de uma crueldade sádica, premeditada, reflexo talvez de uma solteirice estéril, histérica, sem amor.

Logo reconheci os limites de minha vocação de músico, mas, de alguma forma, consegui mais tarde superar os traumas do meu convívio com a megera. Pelo menos mantive o prazer de ouvir meus precários vinis naquela vitrolinha amiga.

Apesar da jararaca, continuei gostando de música.

Minha filha, Julia (nome real), é música. Atribui a mim, com notável exagero, o interesse dela por certos dinossauros do rock. O Kiss, tudo bem, tenho de admitir -- a quantidade de vez que atormentei aqueles infantis tímpanos com a música Carisma foi uma grandeza. Com ela, ouvi muitas vezes Echo and The Bunnymen, é verdade. E Tom Waits. E Nick Cave. Ela acha que temos gosto parecido.

Mas o talento musical da Julia é só da Julia.

Duas gerações resistindo bravamente à maldição de dona Clery. Não seria justo não lembrar da maldita no Halloween. Triste dona Clery. Não lhe quero mal. Só posso dizer que a maldade dela era tão primária, tão patética, que nem para figurante do elenco de bruxas do Harry Potter ela serviria.

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16 ago as 10h24

elvis presley blog Elvis, Glauber: numerologia macabra
Quando Amy Winehouse morreu, dia 23 de julho, muita gente lembrou uma coincidência: ídolos pops que morrem aos 27 anos.

Jim Morrison, Jimmy Hendrix, Janis Joplin, Kurt Cobain, Brian Jones e a própria Amy.

Eis que descubro outra sinistra numerologia: gênios que foram embora aos 42 anos.

Glauber Rocha, o tresloucado do Cinema Novo, morreu aos 42, em agosto de 1981, exatamente vinte anos atrás.

Morreu de infecção generalizada. Adoeceu em Sintra, Portugal, para onde tinha se retirado em autoexílio, mas os amigos trataram de trazê-lo para o Rio. Sobreviveu por apenas duas semanas.

O médico Pedro Henrique guarda segredo, mas há informações de que Glauber tinha o vírus HIV.

Elvis Plesley tentou até os 42 anos sacudir seus quadris dentro de uma carcaça de glutão incontrolável e em palcos kitsch que não faziam mais justiça ao revolucionário que foi, no R & B, no rock e na cultura pop.

Elvis morreu em Memphis, Tennessee, no dia 16 de agosto de 1977 – há 34 anos. Tem fã que ainda o vê andando aí pelo mundo.

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27 jul as 18h49

Acabei de sair de uma entrevista com Thaís Gulin, a new face da MPB. Anotem aí o nome porque ela vai longe.

Se vocês acreditam, como Vinicius de Moraes, que São Paulo é o túmulo do samba, imagina então o que ele diria de Curitiba. Mausoléu do samba? Catacumba do samba?

Thaís Gulin não aceita a provocação. A música entrou na vida dela de um jeito tão natural que nem dá para dizer – é Thaís quem afirma – que o samba é daqui ou dali, de tal lugar ou de outro (os baianos dizem que o samba começou lá, os cariocas, vocês sabem, nem discutem).

thais Música que Chico fez para Thaís Gulin é autobiográfica

De todo modo, a avó materna dela era da Vila Isabel.

Ela acaba de lançar o CD ôÔÔôôÔôÔ (me desculpa, Thaís se esqueci algum O ou exagerei na conta). Ele compôs antes de um desfile da Mangueira. É uma exaltação ao samba e ao Rio.

Tem também música feita para ela (e cantada em dueto) por seu parceiro Chico Buarque. Chama-se Se eu soubesse. É escandalosamente autobiográfica. Vale a pena ouvir (baixar).


Thaís Gulin e Chico Buarque - Se Eu Soubesse por perolasblogs no Videolog.tv.

Se Chico Buarque é o neto de Noel Rosa, Thaís Gulin é a bisneta do Poeta da Vila.

Fiz com ela uma entrevista para a revista Brasileiros. Quando sair mando o link.

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27 jul as 18h00

Quero sair desse triste assunto que é a morte de Amy Winehouse (aquele sentimento compartilhado, doído: “que pena, ela ainda tinha tanto a nos dar, do seu talento”) e usar este meu espaço aqui para contar vantagem.

Deixo Amy e viajo para os braços de Brigitte Bardot, de Jeanne Fonda, de Edith Piaf (igualmente infeliz), de Carla Bruni, de Juliette Gréco, de Jacques Brel (o mais francês dos belgas), de Yves Montand (o mais francês dos italianos), de Charles Aznavour, de Serge Reggiani, de Serge Gainsbourg, de Georges Moustaki (o mais francês dos gregos).

Desculpem, mas o blogueiro aqui subscrito acaba de ser nomeado, pelo Ministério da Cultura da França, Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras.

Recebi ontem a carta do ministro Frédéric Mitterand (encaminhada junto com um simpaticíssimo bilhete do cônsul-geral de São Paulo, Sylvain Itté) me avisando da incrível, honrosa distinção.

Aprendi com minha mãe mineira as virtudes da humildade e da discrição, porém isto é o tipo da coisa que leva a gente às nuvens. Não só pela honraria – mas pelo fato de vir da França e ser uma espécie de contrapartida da minha paixão por aquele país, por aquela gente, por sua gastronomia, por seus vinhos, por aquela paisagem múltipla, pela sua história de liberdade, pelo seu cultivo à inteligência, por seu espírito de tolerância.

Não sou daqueles que vão à França atrás de grifes de luxo. Amo a França profunda, provinciana mas nunca tacanha, arrogante às vezes mas nunca medíocre.

A França é o lugar que eu gostaria de ter nascido se não tivesse sido – com muito orgulho – em Minas Gerais.

A propósito: acho que foi este R7 – onde comecei dois meses atrás – que deu sorte.

AGORA QUEM NOMEIA É VOCÊ

Desconfio que, antes de mim, outros brasileiros, aí sim, verdadeiramente credenciados, tenham recebido dos franceses homenagem em grau ainda maior do que a minha.

Chico Buarque, por exemplo – tenho certeza. Jorge Amado – também. E Oscar Niemeyer – nem falar. Baden Powell, que morou lá por anos. Paulo Coelho – por que não?

Se vocês pudessem indicar um escritor, ator (ou atriz), intelectual, artistas plástico que mereça receber uma medalha da França (ou de algum outro país estrangeiro), quem seria?

Escreva para este blog.

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