10 jan as 17h43

É maluquice o que a Polícia Militar de São Paulo está fazendo, a pretexto de higienizar o centro da capital da nefasta presença dos traficantes e viciados em crack e similares.

Já se sabe que a PM tomou iniciativa sem avisar as instâncias superiores, transformando, assim, o que é um grave problema social numa questão meramente repressiva.

Lembrou os piores tempos da ditadura.

Nem o governador Alckmin nem o prefeito Kassab foram avisados de ação de tal envergadura e de tamanha visibilidade.

Aliás, a impressão que fica – vide Cracolândia, vide invasão da USP – é que o comandante da PM manda mais em São Paulo do que o omisso governador do Estado.

É preciso, sim, acabar com a chaga urbana que é a Cracolândia. Mas que junto com a polícia – aliás, antes dela – as autoridades mandem os assistentes sociais e os experts em saúde pública.

Pancadaria, balas de borracha, bombas de gás não resolvem; só aguçam ainda mais o problema.

Os viciados em crack e similares, meio que desalojados de seus redutos, vagam hoje por São Paulo como aquelas hordas infectadas pela peste do filme O Sétimo Selo, de Bergman. Ou reproduzindo sinistramente a alegoria medieval da Nau dos Descontentes.

Além do mais a PM agiu de má fé. Sabia que o governo federal preparava um programa de amplo espectro para combater o mal do crack e do tráfico. Não só em São Paulo – em todo o país. O Estadão de hoje traz essa informação, cristalinamente documentada.

A PM se antecipou, desastradamente, com a óbvia intenção de bajular o governador a quem deve obediência, de olho nos supostos dividendos políticos de um ano eleitoral.

Até nisso o resultado é um desastre. A ação só aumenta a insegurança da população.

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30 nov as 14h32

copa pacaembu poster O Pacaembu é que vai consumir nosso dinheiro

O Museu do Futebol sediou nessa segunda-feira (28) um seminário da Revista Brasileiros sobre São Paulo na Copa do Mundo de 2014.

Para quem gosta de futebol, uma visita ao Pacaembu – onde fica o museu – nunca vai deixar de tocar a fímbria mais profunda da alma.

Com suas colunatas de estilo déco tardio, o Pacaembu é uma beleza, um dos poucos monumentos realmente fotogênicos de São Paulo.

De mais a mais, tem história – e, portanto, valor simbólico para a cidadania.

Foi lá, por exemplo, que aconteceu o grande comício pós-democratização em 1945, com a presença de Luis Carlos Prestes, ainda investido da aura de “Cavaleiro da Esperança”.

Aos seus pés, na Praça Charles Miller, improvisou-se em 1984 o primeiro comício pelas Diretas Já – que a TV Globo, sempre ela, cobriu como se fosse uma festa de aniversário da cidade.

Pois bem, esse belo estádio está condenado à aposentadoria. Apesar de sua beleza, apesar de sua conveniência urbanística, apesar de sua mística.

Hoje, serve basicamente aos jogos do Corinthians. Aliás, o Pacaembu tem a cara do Corinthians. Não seria nada demais se a Prefeitura de SP tivesse passado o estádio em regime de comodato, como foi sugerido, para o alvinegro do Parque São Jorge (assim como a Prefeitura do Rio passou o Engenhão para o Botafogo).

O Corinthians teria reformado o Pacaembu e desistido da ideia de construir seu ermo, custoso estádio em Itaquera.

Mas o provincianismo clubístico prevaleceu. Cartolas dos outros times chiaram, li até editorial no Estadão (assinado por notório torcedor do clube da Vila Sônia) dignando-se a protestar, em furibundos termos.

(São Paulo, em matéria de futebol, é cem vezes mais provinciana do que o Rio. Não por acaso digo que a maior torcida do Brasil não é a do Flamengo, nem a do Corinthians. É a torcida que torce contra o Corinthians. Mais uma vez, às vésperas da última rodada do Brasileiro, percebo como estou certo).

Voltando ao Pacaembu: o prefeito são-paulino Gilberto Kassab não teve coragem de bancar a transferência para o Corinthians.

A partir de 2014, o que vai acontecer com o Pacaembu? Nenhuma partida de futebol, nenhum show de música (as velhinhas da preconceituosa Associação dos Moradores do Pacaembu sentem arrepios ao ouvirem falar em rock’n’roll, em MPB e em “gente diferenciada”).

Quem vai pagar as contas da manutenção do estádio? Os tíquetes do Museu do Futebol?

Ou seremos nós, os contribuintes?

É um paradoxo: suspeitam tanto de que a Arena do Timão será bancada pelo dinheiro público (o que não é verdade, o Corinthians vai pegar empréstimo bancário e será obrigado a saldar a dívida) e, no entanto, a mesquinharia e a burrice de tantos vão obrigar os cofres municipais a pagar as contas do Pacaembu depois de 2014.

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15 nov as 16h58

A polícia de Nova York tratou com aquele seu jeitinho delicado de recepcionar turistas e de amansar terrorristas os manifestantes do movimento Occupy Wall Street.

Podia ter pedido emprestado o know da PM de São Paulo, aquela que barbarizou no campus da USP, se já não tivesse a expertise de Guantánamo e de Abi Ghraib.

Nesta manhã de terça, 15, desceu o cassete na garotada que estava acampada desde 17 de setembro no Zuccotti Park, na ponta sul de Manhattan.

(Em Oakland, em várias outras cidades que replicaram o Occupy Wall Street, o pau também comeu, até com mais violência)

O prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, alegou que a ocupação representava um perigo à saúde pública.

Quero ver o que dirão os jornalões gringos.

Quando os egípcios decidiram ocupar a Praça Tahrir, no Cairo, aí era a manifestação era legítima – um importante protesto em prol da democracia nos países árabes.

(Mubarak também poderia ter alegado que, naquele improvisado acampamento, a saúde pública estava em risco)

A Primavera Árabe foi saudada nos EUA com todos os fogos de artifício.

Quando se tratam de manifestantes que protestam em casa contra os abusos do poder da plutocracia, aí, claro, eles não passam de infectos baderneiros que insistem em desafiar a ordem pública.

Se tirassem a hipocrisia da política americana – tanto a interna quanto a externa – não sobraria nada.

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08 nov as 19h26

É triste, é uma ópera bufa, o episódio da ocupação (e da posterior desocupação) da Reitoria da USP.

Os estudantes não deixaram claro o que é afinal querem.

A PM de Geraldo Alckmin, de sua parte, provocou a ira da moçada por uma coisinha de pouca monta e mais uma vez cobriu-se de ridículo no “cumprimento da ordem”.

Já houve tempo em que a sociedade e os universitários convergiam numa pauta comum de reivindicações. Contra os abusos policiais, por exemplo (e não só na tenebrosa era da ditadura).

A sociedade, a mídia tendem agora a considerar os radicais da USP uns maconheiros mimados, filhinhos de pai, anarquistas de butique. Não é bem assim, mas é a imagem que ficou para a já habitualmente  desinformada opinião pública.

protesto m 20111108 No episódio da invasão da USP, todos estão errados

A polícia, por sua vez, devia se preocupar com causas mais relevantes. Não se trata de defender o privilégio de meia dúzia, aliás de três pivetes, de queimar seu baseadinho. Mas também não é preciso caracterizar o fato como formidável ameaça à segurança pública.

O campus de uma universidade, nos países civilizados, é, sim, um espaço diferente de uma praça pública. Polícia lá só pedindo licença, com cautela, sem arma de fogo. De outra forma, é agir como no tempo da ditadura.

A PM de São Paulo só atua no asfalto e quando não chove. Não frequenta a periferia, os lugares de vasta criminalidade e de alto risco. É uma ação de marketing, essa da USP: ao agir em local de tanta visibilidade e de notória repercussão, a PM finge trabalhar quando de fato não trabalha.

E estou ansioso esperando para ver as armas de destruição de massa que a PM diz ter encontrado na Reitoria ocupada. Meia dúzia de busca-pés, desconfio. Ou então aquela velha e conhecida “plantação”.

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04 nov as 09h00

Primeira consequência da doença de Lula: coube à presidente Dilma, não a Lula, como traçado no script inicial, a difícil missão de pendurar o guiso no pescoço da tinhosa Marta Suplicy.

Alguém com autoridade tinha de convencer Marta a desistir de concorrer à Prefeitura de São Paulo em 2012.

Lula se apresentou. Teve involuntariamente de se recolher. Dilma, antes de viajar para a reunião-comício-velório do G20 em Cannes, França, deu o recado a Marta.

Sem a ex-prefeita, o PT vai mesmo de Fernando Haddad, o ministro da Educação.

Fernando Haddad é uma cara nova. Mais uma, na eleição de São Paulo. Por isso é que digo que o jogo está zero a zero. Entre tantas novidades, o eleitor é que vai decidir que é a novidades que o atrai mais.

Fora Haddad, está no páreo Gabriel Chalita, pelo PMDB, talvez mais conhecido pelos seus livros de auto-ajuda do que qualquer ajuda que tenha dado à política.

Com bom tempo de TV, pode vir a ser um candidato viável.

O PC do B deve vir de Netinho de Paula, o cantor. O PSB tem o fominha Paulo Skaf já se preparando na linha de largada. Soninha Francine vai, pelo PPS, fazer o que sempre se espera dela e do PPS: funcionar como uma espécie de fachada a serviço do PSDB de José Serra. O novato PSD de Gilberto Kassab tem o ex-banqueiro Henrique Meirelles como carta na manga. O próprio PSDB, se depender do governador Alckmin, entra na disputa com o baby face Bruno Covas, a bordo de sua impecável linhagem.

E por aí vai. A tendência é que a eleição em São Paulo apresente uma inacreditável fragmentação de candidaturas, todas aquelas acreditando, ao que parece, que o tempo dos figurões ficou para trás.

Nesse caso, as alianças, as coligações teriam de esperar o segundo turno.

A menos que José Serra decida se apresentar de novo, atropelando a tudo e a todos com a manjada promessa de que ficará até o final do mandato – promessa que ele, naturalmente, não irá cumprir.

José Serra é tão insistente que nem o fiel espelho dele agüenta quando cotidianamente perguntado se há no mundo alguém mais bonito, mais bacana, mais inteligente, mais preparado do que José Serra.

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19 ago as 17h15

Os cervejeiros de responsa têm amanhã (20), em São Paulo, seu dia de sonho.

As melhores marcas artesanais do mundo estarão nos stands da 1ª. Beer Experience, a partir das 10h da manhã, no Centro de Convenções Frei Caneca (rua Frei Caneca, 569, quinto andar).

Nunca esse nome – caneca – foi tão apropriado. À disposição dos sedentos, 180 rótulos procedentes da Bélgica, da República Tcheca, da Alemanha, dos Estados Unidos, do Reino Unido, só para citar os campeões mundiais das cervejas com paladar.

97863713 R$ 40 – e toda a cerveja que você conseguir tomar

Ah, tem as brasileiras também, mas as cervejas artesanais, de verdade, elaboradas seguindo a ancestral fórmula da Reinheitsgebot: água, malte, lúpulo e levedura – e não essa coisa pálida e aguada que se serve aí nos botequins com o maroto nome de cerveja.

Vai ter de tudo: as stouts, escuras, saborosas; as brut, que são feitas pelo mesmo método do champanhe; as lambic, de fermentação espontânea; as exstremas, que podem atingir a gradação alcoólica da cachaça e do conhaque.

É só neste sábado.

E como dizem os anúncios de TV: se beber, não dirija.

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03 ago as 15h42

Agora eu sou heterossexual por decreto. Não precisava, gente, mas ainda assim agradeço a comovente homenagem da Câmara Municipal de São Paulo – que acaba de aprovar projeto que cria o Dia do Orgulho Hétero.

À falta de melhores ideias, o vereador Carlos Apolinário, do combativo DEM, insistiu na coisa e acabou ganhando por cansaço.

Eu, que acreditava que todo dia fosse nossos, dos héteros, fico sabendo que doravante será apenas um: todo terceiro domingo do mês de dezembro.

Acho sugestiva a data. O notável vereador Apolinário faz questão de marcar a nítida distinção entre nós, machos espadas, e os folguedos natalinos que se seguem depois da nossa data, aquela profusão de renas, veadinhos e a presença de Papai Noel, sempre cercado por seus ternos anõezinhos.

kassab Saia justa para o Kassab

Apolinário diz que isso não tem nada de represália ao Dia de Orgulho Gay. “Meu cabelereiro é gay”, informou o parlamentar. Gay e, a julgar pelo resultado daqueles cabelos negros como a asa da graúna, profissional de duvidosa competência.

Quem deu a maioria ao projeto de Carlos Apolinário foram os vereadores governistas, do PSDB, do DEM, do PPS e similares (não entendi a assinatura do meu amigo Tião Farias naquele pacote de mediocridade).

Quer dizer, são os aliados de Gilberto Kassab que estão criando um problema para ele, já que para entrar no calendário oficial de São Paulo o projeto precisa ser sancionado pelo prefeito.

Kassab fica na maior saia justa.

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29 jun as 17h01

Tem muita gente torcendo para que a Copa de 2014 seja um gol contra do Brasil. Dá para respirar no ar a ansiedade neurótica dos fracassomaníacos. O desejo doentio de reiterar nosso – cito Nelson Rodrigues – complexo de vira-latas.

Uma coisa é a gente exigir moderação nas despesas, honestidade nos gastos públicos, transparência nas prestações de contas. É fundamental que assim seja. Outra coisa é desqualificar de cara nossa capacidade de promover um evento de megavisibilidade internacional. Eu acredito que, seja como for, o Brasil pode fazer bem feito.

Os profetas do pessimismo têm certeza de que a corrupção endêmica dos políticos e dos cartolas do futebol vai redundar em catástrofe. Será – dizem – o império dos atrasos, da improvisação, da correria; tudo para escamotear a roubalheira.

A sociedade brasileira já tem controles suficientes para que isso não aconteça. Sugiro que os resmungões pensem nisso. Que Copa não é gasto, é investimento.

Tem também os que reclamam por razões esdrúxulas, periféricas. Entre estes os que murmuram contra o Itaquerão – escalado pela FIFA para sediar a abertura da Copa. Murmuram por mera dor de cotovelo: afinal, é o estádio do Corinthians. Reclamam hoje os mesmos que reclamaram quando o Corinthians muito legitimamente sugeriu à Prefeitura de São Paulo a transferência, em regime de comodato, do Pacaembu. Até editoriais nos jornalões foram escritos, veementes no ódio. Nas entrelinhas do fel, a mera paixão clubística.

Assisti na Record News uma noite dessa o debate na Câmara de Vereadores sobre a dotação do futuro estádio do Corinthians. O brutamontes de nome Aurélio Miguel investia seus argumentos de ex-judoca contra quem é a favor. Por que? Pela contundente razão de que Aurélio Miguel é torcedor do São Paulo.  A isso é que se chama espírito público.

Um superestádio na periferia menos assistada da cidade não é um luxo, não é obra supérflua. É uma necessidade social, um investimento no bem-estar dos excluídos.

A discussão lembra Brasília. Diziam que criar uma capital federal no meio do nada, lá no cerrrado, seria uma inutilidade e, claro, um convite à corrupção. Os arautos do apocalipse investiram com um furor descabelado.

A História tratou de ir revelando pouco a pouco os interesses que estavam por trás do susposto rigor moralista. O Globo, por exemplo, espumou de raiva. Queria porque queria que a nova Capital, quer dizer, os prédios oficiais e os palácios fossem transferidos do centro do Rio para a Barra da Tijuca e Jacarepaguá. Coincidentemente onde o Dr. Roberto Marinho, dono da Globo, detinha enormes propriedades fundiárias (o atual Projac vem daí). Mais uma prova de impoluto civismo.

A UDN, o principal partido da oposição, capitaneada pelo sinistro Carlos Lacerda, espalhou que Brasília fez do presidente Juscelino Kubitschek a sétima maior fortuna do mundo. Lacerda morreu milionário. JK morreu pobre.

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