Dengue: você também é responsável

 Dengue: você também é responsável

A culpa é sempre do governo. Brasileiro adora jogar todas as responsabilidades pelo fracasso deste País nas costas dos políticos corruptos e incompetentes, que são todos iguais. Mas no caso da epidemia de dengue, que nos ameaça novamente, lamento informar, mas a culpa é toda desse povinho ignorante que nunca faz a sua parte.

Se tem algo em que as várias esferas governamentais não têm se se omitido é no combate a esse doença que, todos sabemos, mata. Prefeituras, governos estaduais e federal, todos, em sua expressiva maioria, investiram em campanhas de conscientização e, principalmente, no envio de equipes de controle para as regiões onde o maldito mosquito aparece.

Agora mesmo, na desenvolvida cidade de Campinas, um surto preocupante se manifesta. E avança em direção à maior cidade do Brasil, transportada por pessoas esclarecidas e com condições de viajar pelas rodovias Anhanguera e Bandeirantes. A doença não está sendo transportada no corpo de gente miserável e analfabeta. Entenderam?

O fato é que, mesmo depois de anos de esclarecimento, a população insiste em não fazer a sua parte. Não é só nos quintais da periferia que os ovos da morte são cultivados. Nas piscinas mal cuidadas de bairros nobres e nos vasos abandonados em jardins com projetos paisagísticos também se desenvolve um descuido que pode ser mortal.

Não está havendo omissão das autoridades sanitárias. Secretarias e ministério da Saúde já investiram milhões nessa luta que se mantém inglória porque a população não faz a sua parte. E bastava esse mínimo esforço individual para que erradicássemos a dengue definitivamente.

Vamos tomar vergonha na cara, pessoal? Desta vez não dá para, literalmente, tirar o corpo fora. Nem colocar a culpa em petistas ou tucanos. E até para você que tem saudades do regime militar, fica o verso daquela canção famosa durante a ditadura: você também é responsável.

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Ser gordo e feliz não é questão de vida ou morte

Você é gordinho ou não tem um corpo magro e sarado? Então se mate. Acha que estou exagerando? Um monte de gente faz isso, pra valer. Acha um absurdo? Então pare de se calar diante do discurso dominante que dá sustentação à ditadura da beleza. Ou mais gente vai continuar morrendo - não só psicologicamente, mas de fato.

Recentemente, ficamos sabendo de mais um caso trágico que não deixa dúvidas: nossa sociedade é doentia. Nailani Buccholts, uma garota americana de 13 anos, morreu após tentar se enforcar, simplesmente porque não aguentava mais sofrer bullying por causa de sua aparência física. Veja a foto da menina. Ela era considerada feia e gorda. Por causa disso, era insultada diariamente por seu colegas.

51530.70724 Nailani Buchholtz Ser gordo e feliz não é questão de vida ou morte

Quem é mais doente: a menina deprimida que se matou ou aqueles que não viam beleza em Nailani? Eu não tenho dúvidas. E você? O mais cruel é que, provavelmente, entre os que ridicularizavam a garota infeliz, muitos deviam ter seus quilinhos a mais, espinhas no rosto e alguns problemas de autoestima - como todo e qualquer ser humano, contemporâneo ou das mais remotas eras.

Suicídio é ignorar que somos imperfeitos, inclusive esteticamente. Gisele Bündchen é esquelética demais pro meu gosto. E tem uma voz de gralha insuportável. Só pegava porque é muito famosa.  Particularmente, acho deprimente o atual modelo feminino de beleza. Por esse padrão, Marilyn Monroe e Greta Garbo hoje seriam tratadas como barangas.

Um gordo, gordo mesmo, pode ser uma pessoa bonita e feliz. Não estou fazendo demagogia. O que importa é ser saudável. Um cara pode pesar uma tonelada, mas se estiver com seu colesterol e metabolismo em bom estado, ele que se jogue na vida. Avante. Tem quem goste, tem pra todo mundo.

O que não faz sentido é ver milhões de homens e mulheres escravizados por uma indústria impiedosa e assassina. Sim. Assassina. Há pessoas que não aguentam se olhar no espelho ou, por pura cegueira, não conseguem se enxergar. Algumas se matam. Outras morrem por dentro. Isso sim não é bonito.

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Imprensa merecia apanhar por ser tão feia

bonita Imprensa merecia apanhar por ser tão feia

Adolescente de 15 anos apanha em escola por ser bonita. Foto: Reprodução/Rede Record

Diariamente, nas escolas deste País, nossos jovens se espancam uns aos outros, às vezes até a morte. São tantos casos trágicos, que se tornaram banais as notícias envolvendo violência entre adolescentes. Ninguém nem presta mais atenção.

Deve ser por isso, para tirar um pouco do musgo que se acumulou sobre esse tipo de ferida social, que nossa mídia resolveu dar um exuberante destaque para um caso em que, dizem, uma menina foi violentamente espancada por uma colega de ensino médio pelo simples fato de ser bonita.

Cada vez mais frequentes, as faltas do que fazer, de apuração e de senso de ridículo de nosso jornalismo prevaleceram. E o que deveria ser apenas uma das versões — não por acaso veiculada pelo pai da vítima — passou a ser tratada como única verdade. Um factoide típico, muito conveniente para que discursos empolados e pseudointelectuais prosperassem, junto com audiência e aquela sensação de que tudo está perdido.

Não que não esteja. Mas um pouco de seriedade e menos sensacionalismo levariam os envolvidos a desconfiar que não é possível que uma mocinha (nem tão bonita assim) seja vítima de uma agressão tão gratuita e recalcada, essa palavra tão em moda. Seria necessário que o incidente ocorresse numa comunidade escolar repleta de barangas, em que a única mais ajeitadinha fosse a pobre garota espancada sem dó.

O vídeo da agressão se espalhou rapidamente pelas redes sociais e portais de notícias. Chama atenção a amiga da agressora, que fica repetindo, ao fundo, com voz de megera da Disney: "Separa não! Deixa as duas! Cabô com a cara dela, Fê. Tem que apanhar mesmo. Uhuhuuu". Cito isso para deixar bem claro: essas meninas valentonas são as vilãs da historia, não cabe dúvida. Nada justifica um comportamentpo tão agressivo e tecnicamente sociopata,  pelo sadismo e desapego à vida humana demonstrados. As minas são do mal.

Investigando sem muito esforço, o pano de fundo da briga se descortina com extrema facilidade. A menina branquinha, coitadinha e saco de pancadas “não é nenhuma santa”, como declarou o próprio pai. Tudo indica que a graciosa apanhou por ser arrogante e “metidinha”, bicho ruim, como é comum nessa idade. Veja bem, reforço aqui: não estou justificando a agressão bárbara. O que me interessa é destacar o tratamento que foi dado ao incidente  — como já frisei lá em cima, tragicamente banal e cotidiano.

Podemos admitir que a suposta beleza da menina fosse um dos componentes da agressão, não o único, muito menos o principal. Sabemos que a beleza é motivo para bullying entre meninas. Nada que autorize a se dar como inquestionável que aquela surra selvagem tinha apenas essa motivação. Seria preciso que, ao menos, em algum momento, a boxeadora mirim dissesse algo como "vou quebrar sua cara porque você é bonita!”.

Enfim. Desconfio de um forte componente racial na cobertura dada ao fato. Branquinha, sabe como é. Grave mesmo é a que ponto chegou nossa imprensa. Coisa feia. Merecia levar umas porradas.

A pensão alimentícia não foi feita para destruir famílias

Prender um cidadão que não tem dinheiro para pagar pensão alimentícia é um dos atos mais infames da nossa sociedade. Além de inútil, é perverso, cruel e rigorosamente injusto. É inadmissível pensar que alguém se submeteria à barbárie de nossas masmorras por mera avareza ou mesquinharia. Se o cara chegou a essa situação é porque não tem condições objetivas de bancar suas obrigações com a antiga esposa (na verdade, com os filhos).

O caso do ex-participante de A Fazenda Marcos Oliver é só mais um que pode ter esse desfecho sórdido. Desempregado, acumulou uma dívida de R$ 55 mil, após ficar um período honrando a filha de 12 anos com uma ajuda mensal de R$ 1,5 mil. Há dois anos, pelo que entendi, parou de contribuir para o sustento da garota. Agora, o assunto chegou às vias de fato: se não quitar sua dívida, vai para a cadeia.

Eu não sou ingênuo a ponto de acreditar que todos os pais honram com suas obrigações alegremente. Tem muito safado por aí que simplesmente larga tudo nas costas da mãe ou ajuda com mixarias, mesmo podendo contribuir com mais. Esses merecem ser castigados com rigor. Mas não é desse tipo de picareta desnaturado que estamos falando — nem tampouco de mulheres oportunistas que transformam a maternidade numa fonte de renda pessoal. Para essas, só resta aos otários contratar excelentes advogados.

A lei das pensões alimentícias precisa ser revista para evitar distorções e dramas incorrigíveis. Fico imaginando o que um filho vai pensar da mãe ao ver que seu pai está atrás das grades por causa da intolerância dela. Ninguém sai bem de uma história dessas, em que só há vilões.

Nossos legisladores poderiam resolver isso com uma ou duas linhas a mais na lei: caberia à Justiça averiguar se o pai tem ou não condições efetivas de arcar com suas obrigações. Tem grana? Paga. Se ficar enrolando, aí sim, cana nele. Simples assim. Não tem? Sejamos sensatos, botar o cara na cadeia não faz brotar dinheiro no chão da cela, não resolve nada. Pelo contrário, só agrava a superlotação de nosso sistema carcerário, além de colocar uma pessoa eventualmente sem antecedentes em contato com o pior tipo de criminoso.

Mas bom senso não é uma característica do nosso ordenamento social. Temos um judiciário com força para prender um pai desempregado, enquanto assassinos e corruptos circulam livremente com seus habeas corpus. Do jeito que está, a lei das pensões alimentícias pode destruir famílias de forma irreversível. É isso que queremos para nossos filhos?

 

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Bandeirinha gostosa nos ensina uma lição

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Eu implico com o discurso feminista, principalmente por conta dos exageros e da falta de bom humor. Mas tem hora que temos que dar razão às chorumelas da mulherada. Que o diga o comportamento lamentável de um técnico de futebol em Santa Catarina, que decidiu partir para a grosseria com a bandeirinha Maira Americano Labes.

Celso Teixeira, treinador do Juventus, aproveitou que tinha sido expulso pelo árbitro da partida contra o Chapecoense e, no caminho do chuveiro, chamou a auxiliar de gostosa. Opa. Aí é pênalti! Que conste na súmula.

Algumas verdades não podem ser ditas durante o expediente. Nesse caso, nem depois. É cafajestagem, e ponto. Os dotes anatômicos de uma colega de trabalho não precisam de publicidade. No máximo, e com elegância, podem fazer parte daquele papo regado a chopinho com o pessoal da firma. Somos humanos, afinal.

O mundo futebolístico foi território exclusivamente masculino até recentemente. Mas as meninas não param de chegar. Elas já ocupam gramados, arquibancadas, cabines de imprensa e alambrados. A presença feminina exige um novo manual de etiqueta profissional. Tanto que nunca mais vimos entrevistas dentro de vestiários. Não ia prestar.

Mas fora do ambiente, digamos, corporativo, a festa está liberada. Isso só aumenta nossa responsabilidade enquanto cavalheiros. Não é por que algumas torcedoras partem para a baixaria que os marmanjos podem se sentir autorizados a agir da mesma forma. Elas que soltem palavrões à vontade e assediem craques feios e milionários o quanto quiserem. Jogo é jogo, tietagem é tietagem.

Que a atitude machista do treinador sirva de lição. O futebol precisa se espelhar no exemplo do golfe e das partidas de xadrez. Os estádios precisam de silêncio, respeito e sofisticação. Além de bandeirinhas gostosas, é claro.

 

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Valesca Popozuda para imortal da Academia!

O professor de filosofia Antônio Kubitschek causou legal ao fazer uma prova para seus alunos do ensino médio. Em uma das perguntas, chamava Valesca Popozuda de "grande pensadora contemporânea" e pedia uma interpretação de texto a partir da "obra" da funkeira. Alvo de um verdadeiro massacre nas redes sociais, o docente mandou um beijinho no ombro e, ao mesmo tempo, deu um tapa na cara da sociedade. Arrasou.

prova Valesca Popozuda para imortal da Academia!

Ele pode até não ter percebido a dimensão que tomaria seu ato aparentemente ignorante e ridículo. A comoção se deu a partir de um raciocínio tão legítimo quanto hipócrita, que pode ser resumido na expressão que eu mesmo já usei várias vezes: a que ponto chegamos!

Pois é. O recalque passou bem pertinho. No lugar de Machado de Assis e Guimarães Rosa, letras de funk. Onde antes ouvíamos Pixinguinha e Tom Jobim, dá-lhe Valesca! É o que temos pra hoje, mermão. Ou vai me dizer que alguém ainda presta atenção no que diz Caetano Veloso e Gilberto Gil?

Kubitschek alega que pretendia levantar o debate sobre o preconceito contra a mulher. Acho que passou longe disso, mas, de lambuja, humilhou a imprensa que fez romaria até a escola em Brasília, achando que iria encontrar um debilóide semi-analfabeto dando aulas para adolescentes subnutridos. Os alunos, recentemente, haviam convidado a mídia para cobrir uma exposição de fotografias feita por eles. Ninguém foi. Touché.

Mas a escola passou a ser notícia porque o incidente serve para alimentar a suposta indignação de gente que se acha muito culta - mas que provavelmente não abriu um único livro nos últimos cinco anos e não sabe de cor sequer uma letra de Noel Rosa. Tornamo-nos um país de gente sem nenhuma cultura, além daquela que temos pra hoje. Terra arrasada.

Não chegamos a esse grau de pobreza linguística, filosófica, política e econômica de um dia para o outro. Foi uma obra de décadas. Escavamos com as mãos cada palmo desse precipício em que jogamos nossos irmãos, filhos e netos. Já houve bom gosto e inteligência neste País. Acreditem: meninos, eu vi!

O alerta do professor, mesmo que irônico ou involuntário, não precisa ser repetido. Foi, na verdade, uma piada terrível que não terá nenhuma graça na próxima vez. Não que Graciliano Ramos ou Chico Buarque passem a ser assunto nas rodinhas da cantina da escola. O fato é que, daqui a alguns anos, veremos alguém da geração de Valesca Popozuda tomando posse na Academia Brasileira de Letras. Oras. Se até o Sarney pode, por que não?

Não queria estar na pele de um masoquista

Se você tiver estômago, dê uma olhada na galeria de fotos de pessoas que gostam de fazer do próprio corpo uma galeria de arte masoquista. É impressionante do que o ser humano é capaz para lidar com a infelicidade.

sado Não queria estar na pele de um masoquista

Veja mais fotos clicando na imagem

Obviamente, cada um faz consigo o que bem entender. Não temos rigorosamente nada a ver com isso, a não ser, no caso, por um detalhe: essas criaturas se automutilam para serem vistas. Na condição de plateia, podemos aplaudir ou vaiar. Difícil é ficar indiferente a tanta morbidez.

Desconfio que desde as cavernas alguns representantes de nossa espécie se submetem a esse martírio voluntário. Não é, portanto, nenhum sinal do fim dos tempos. Nem precisa ser psicólogo para arriscar alguma explicação para esse exibicionismo tecnicamente doentio. Esses caras gostam de sentir dor — e de chocar, evidentemente. Não me convidando para passar protetor solar neles, que façam bom proveito. Pior são aqueles que fazem coisas parecidas, mas com os outros, na marra.

Difícil é ser pai de alguém dessa turma. Ameaçar com castigos físicos, garanto, não vai funcionar. Capaz que gostem. Melhor deixar quieto e não alimentá-los com atenção. O segredo é olhar para essas chagas, essas aberrações, e fazer de conta que estamos visitando mais uma exposição ruim do Romero Britto. Da minha parte, só digo uma coisa: não queria estar na pele deles.

Enfim paramos para discutir como são feitos os partos neste País

08 53 49 24 file Enfim paramos para discutir como são feitos os partos neste País

De cara, levei um choque quando li a história da mãe que foi obrigada pela Justiça (e policiais) a fazer uma cesariana contra sua vontade. Aos poucos, minha indignação foi atenuada por diversos argumentos que vieram à tona com o debate sobre as responsabilidades e os limites que o Estado deve manter quando vidas estão em jogo.

Pessoalmente, sou daqueles que acha o corpo humano inviolável, tanto para torturadores quanto para médicos. Mas existiram leis que consideravam crime o suicídio — e até hoje a eutanásia, sem falar no aborto. Lei é lei — e juízes e policiais não estão na sociedade para questioná-la (ao menos durante o horário de expediente).

Do meu ponto de vista intelectual está tudo resolvido. Só não sei se teria a mesma convicção se eu estivesse no lugar do juiz que recebeu o pedido do hospital, que alegava "risco iminente de morte" da mãe e da criança. Os laudos médicos eram aparentemente indiscutíveis, e o tempo era mínimo para se tomar uma decisão.

O que merece destaque nesse caso é algo incomum em nosso País: não houve omissão em nenhuma das etapas que envolveram as instâncias públicas. Para o bem ou para o mal, a médica não lavou as mãos, o hospital deu suporte jurídico, o juiz agiu de pronto, o promotor público estava presente, a polícia cumpriu seu papel. Tudo isso para cuidar de uma anônima e humilde cidadã de Torres, distante quase 200 km da capital Porto Alegre.

Convenhamos, isso não é pouco. Na verdade, é raro. Tudo se complicou porque o sistema de saúde brasileiro, inclusive o privado, tem como prática velada a violência obstétrica em diversos níveis de negligência e crueldade. Parto normal no Brasil é um luxo, quase uma anormalidade. Somos campeões mundiais em cesáreas — um procedimento invasivo, doloroso, potencialmente traumático e que deveria ser reservado para casos excepcionais.

Evidente também que houve excessos nos procedimentos que levaram ao parto forçado. Tudo indica que os profissionais do hospital se exaltaram a ponto de fazerem discursos inadequados contra a parturiente, acusada de estar sendo irresponsável, egoísta e ignorante. Por mais razão que os médicos tivessem, um parto é algo sagrado, a ser feito de forma serena, sem arroubos. Algum perverso sentimento de vitória (ou vingança) tomou conta da equipe médica. Um gesto de responsabilidade ganhou contornos de arrogância, algo bem típico de nossos “doutores”.

Outro aspecto altamente positivo é o debate que se impôs. Se foi um ato de violência ou de responsabilidade, se roubaram o direito ao parto normal ou garantiram a vida da mãe e do bebe, isso nem eu nem você temos condições objetivas de julgar com precisão. O fato a ser comemorado, graças à repercussão, é de que finalmente o País parou para discutir como nascem nossas crianças. Violência obstétrica: você ainda vai falar muito sobre isso.

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Museu Pelé deveria estar em Cingapura

pele Museu Pelé deveria estar em Cingapura

Se Pelé fosse argentino eu até entenderia que fizessem um museu só para ele em seu país. Mas como Edson Arantes do Nascimento não desfruta da mesma idolatria que o hermano Diego Maradona, tendo a achar que o mausoléu que a prefeitura de Santos pretende inaugurar antes da Copa vai se mostrar um tremendo fiasco.

As obras do Museu Pelé se arrastam desde 2010, orçadas em R$ 46 milhões captados via renuncia fiscal. Dinheiro público, portanto, para abrigar 2500 objetos, incluídos o rádio de pilha do pai, uma bola de meia e uma caixa de engraxate. Desconheço se haverá alguma foto dele ao lado de Xuxa.

Não se discute o talento dele, superlativo e até agora insuperável. É o melhor de todos, e ponto. O que me parece evidente é a indiferença que o povo brasileiro demonstra com seu ”rei do futebol”. Provavelmente, os estrangeiros são os únicos que acreditam na popularidade de Pelé no Brasil.

Motivos para esse descaso não faltam. O craque nunca foi muito bom fora dos gramados. Em política, é um desastre completo, o famoso poeta quando de boca fechada (outra diferença brutal em comparação com seu colega argentino, politizado e polemista). Sua vida familiar é pouco edificante. E não consta que seja um filantropo benemérito, apesar dos milhões que soube acumular como jogador e empresário de si mesmo.

O mercado publicitário nativo é minha testemunha. Se eu estivesse enganado, o homem dos 1.283 gols teria sido garoto-propaganda de produtos mais nobres que vitaminas duvidosas e pílulas para disfunção erétil. Já no exterior, a aparição de seu rosto em comerciais é imbatível — daí sua fortuna que não para de crescer.

Não por acaso, quando uma potência nacional como a Petrobras contratou o jogador foi para que ele participasse de um evento na Bolsa de Valores... de Nova Iorque. De lá, o craque foi para a Nigéria levar as cores da nossa bandeira petrolífera.

Provavelmente, nosso País seja composto de ingratos e desmemoriados. Desconfio, inclusive, que Ayrton Senna só seja idolatrado até hoje porque passou a maior parte de sua carreira fora do Brasil. O fato é que não damos valor para as pratas da casa. Melhor seria se o Museu Pelé fosse instalado em Berlim, Nova Iorque, Pequim ou em Abuja — capital da Nigéria.

Mulheres unidas nunca estão vestidas?

esse Mulheres unidas nunca estão vestidas?

“Avisamos aos passageiros que o voo saindo da Idade Média ainda não decolou”. Se alguém chegasse ao Brasil hoje e quisesse saber como estão nossos valores morais quanto à sexualidade feminina, esse comunicado seria de muita serventia.

Causou furor a pesquisa sobre tolerância social à violência contra mulheres realizada com 3.810 pessoas pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Alguns resultados são realmente assustadores para aqueles que imaginavam viver no século XXI.

Uma das perguntas é de clareza ímpar: "Mulheres que usam roupas que mostram o corpo MERECEM ser atacadas?". Pois bem. Inacreditáveis 65% disseram que SIM, elas merecem. É aterrador constatar que um país conhecido pela mais franca sexualidade consiga ser tão hipócrita (e perverso) na hora de julgar suas mulheres. Esse índice seria impossível sem a efetiva colaboração das próprias interessadas. Não sabia que havia tanta baranga no Brasil.

Esse e outros resultados da pesquisa evidenciam que a barbárie está incrustada no imaginário do nosso povo. Daí para apedrejamentos em praça pública é um pulinho, não duvidem.

Fracassamos vergonhosamente. Era o caso de perguntar: Mulheres que sabem se comportar merecem ser ignoradas por assediadores? Enfim. Se tivéssemos uma direita decente neste País, alguém já teria levado ao Congresso a proposta de obrigatoriedade do uso de burcas. Mas não, preferem gastar o tempo nessas CPIs inúteis. Cambada de frouxos.

No entanto, ato contínuo, as redes sociais foram tomadas por um daqueles protestos espontâneos que conseguem piorar o que já está ruim. Meninas bem intencionadas começaram a postar no Facebook fotos em que aparecem discretamente nuas, com a legenda “Eu não mereço ser estuprada”. Vixi.

Lamento informar, mas combater a cultura do estupro mostrando corpos nus é tão eficiente quanto matar a sede dando um copo d'água. Como propaganda, lembra a fúria manifestada contra o deputado Marco Feliciano, que ao final teve seu eleitorado quintuplicado. Simplesmente, não funciona. Só reforça preconceitos.

A questão é um pouco mais complexa do que gostariam nossas militantes feministas e adjacências.  Lutar pela sexualidade hoje em dia não é tão simples e divertido quanto na era vitoriana ou durante a Guerra do Vietnã. Bons tempos em que queimar sutiãs ou derreter cintos de castidade eram suficientes para dar um recado.

Ignorar que está havendo uma banalização do corpo feminino não faz bem a ninguém. No meu entender, chega a ser problema de saúde pública o exibicionismo frenético e a mercantilização explícita do corpo feminino. Isso fora o comportamento fálico que faz mocinhas se comportarem como os trogloditas que elas tanto combatem.

Parafraseando o general Goubery do Couto e Silva, nesses 50 anos de golpe: segurem os seus instintos que seguramos os nossos! Nem brucutus, nem polianas. Nem castrados, nem castradoras. Não somos feitos só de bundas e bíceps. De certeza, só uma: cadeia para estupradores.

Mas, numa demonstração de boa vontade, deixo aqui minha sugestão de protesto para as mais entusiasmadas: milhares de mulheres vestidas de periguete e cachorra abraçando a Catedral da Sé ou a Candelária. Vai ser lindo.

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