4 dezembro 2009
Uma maneira de medir o grau de civilidade e progresso de um povo é ver como ele trata seus rios. Os parisienses namoram, tomam vinho e fazem piquenique às margens do Sena. É uma festa.
O Danúbio corta dez países europeus, e em todas as grandes cidades por onde passa está incorporado à vida de seus habitantes. Em Berlim, bares e ciclistas se espraiam por toda a extensão do Spree. De primeira, esse mundo.
Os ingleses despoluíram o Tâmisa e hoje têm até peixinho lá. E Seul, olha só como era (o rio estava embaixo da avenida!) e como ficou, que beleza.
No Brasil, os rios das metrópoles são emparedados, poluídos, desgraçados. Não há uma única cidade importante em que seus moradores possam ao menos caminhar ao lado desses esgotos a céu aberto.
O rio Tietê é caso mais grave. É motivo de vergonha para todos os paulistanos. Há anos, em toda campanha eleitoral, uma enchente de promessas inundam os palanques. Podiam se afogar nelas, os mentirosos.
Todos têm um grande projeto para o Tietê. O Geraldo Alckmin ficava todo pimpão quando descrevia “o maior jardim do mundo” e o plantio de 100 mil árvores e 2 milhões de mudas nos 50 km de extensão das margens do rio. Teve gente que acreditou.
A marginal, para quem não sabe, é obra de Maluf. Lembra dele? O gênio que enfiou o Minhocão no meio da cidade, sem pedir licença? Num campeonato de aberrações urbanísticas, ele ocupa todos os lugares do pódio.
Mas aí chegou o Serra. E o que aquela mente brilhante fez? O minhocão dele. Invejoso, bolou um jeito de piorar o que já era horrível. E condenar de vez o Tietê a ser um rio morto e emparedado.
Qualquer um de nós sabe que aquilo não tem jeito. Colocar mais duas pistas com três faixas cada é apenas e somente uma saída fácil, onerosa e burra. É uma obra indefensável, que só adia e disfarça. É boa pra os tecnicistas. E para os automóveis que entopem nossas ruas e avenidas.
Fosse ele um estadista, um político daqueles que queremos ver governando nosso país, ele comunicaria à nação: “Vamos devolver o rio Tietê para a cidade!”. Nem que fosse num projeto de 10, 20, 50 anos. Mas que começasse agora. E que arrancasse essa estupidez de cimento de uma vez por todas. E que não fosse uma mentira.
Que cavem um túnel para que os carros passem por baixo das marginais! Que afastem as vias a um quilometro de distância! Que construam 47 rodoanéis!
Qualquer delírio, qualquer sonho, qualquer utopia estava de bom tamanho.
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