5 janeiro 2010
Por que um pai e uma mãe decidem expor publicamente, em uma emissora de TV, para milhões de pessoas, o que deveria ser a privacidade de uma dor irreparável? Por que os pais da garota Yumi aceitaram participar do circo mórbido da mídia?
Nem é o caso de insistir no quanto os veículos de comunicação são capazes de ultrapassar os limites da dignidade humana. Por audiência, são capazes de exibir qualquer tragédia à exaustão. Esse canibalismo todos conhecemos.
Mas esse espetáculo muitas vezes repugnante não se faz sem voluntários. Por algum motivo insondável, existem pessoas que desfilam espontaneamente nessa passarela de horrores.
Que o repórter Tino Marcos fez seu trabalho não se discute. Perguntou, concordaram, ok. Disseram na abertura da entrevista que são amigos há anos.
Não é coisa que se peça, entrar de luto no horário nobre. Se fosse amigo mesmo, teria deixado os dois em paz. Seria esperar demais de um jornalista?
Mas ele é pago pra isso, não usou câmera oculta, não manipulou ninguém. Os pais da Yumi foram parar no Jornal Nacional porque quiseram.
Para que? Alguém me ajude a entender. Se ao menos fossem verter lágrimas para saciar os melodramáticos. Se tivessem alguma súplica a fazer, pedissem solidariedade, orações, prantos. Mas não. Contentaram-se com um discurso piegas e surpreendentemente frio.
Quando até mesmo o luto se torna um espetáculo inútil é porque a sociedade está seriamente doente. Uma avalanche, uma epidemia se aproxima. Essa miséria ainda vai desabar sobre nós.
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