25 fevereiro 2010

A nação brasileira atendeu aos apelos e foi cumprir sua missão cívica de votar no BBB. Num paredão histórico, mandaram a lésbica embora, ignoraram a drag queen e deram sobrevida ao troglodita.

Dourado. Isso lá é nome de macho? Ui. O lutador de vale-tudo realmente é briguento. Comporta-se como se estivesse num ringue. Distribui porradas verbais, fala uma pancada de bobagens, bate de frente com todo mundo.

É mal-humorado de doer e age como homofóbico. Logo ele, um gaúcho. Entrou como vilão, mas está se saindo muito bem. Virou um dos queridinhos do público. Parada dura.

Dourado Dourado é o alter ego da classe média machista

Marcelo Dourado é o alter ego do brasileiro comum. Ele fala o que uma multidão de reacionários e machistas pensa e não tem coragem de dizer. É a cara da classe média deste país. Cara feia, toda estourada.

Gente que adora enfiar o dedo no nariz de quem não gosta. Mas que quebraria o indicador do primeiro que se atrevesse a fazer o mesmo. Ainda mais se fosse “uma sapatão”. Onde já se viu? Ah, se for um homem, manda pro hospital! Homem é homem, mulher é mulher.

Nessa filosofia de boteco (mal frequentado), a truculência é sempre em legítima defesa. A vida é um jogo, não é mesmo? Vence quem luta com fúria e determinação. Não é comovente pensar assim?

Portanto, não seja um obstáculo para esse pessoal que apóia a franqueza do brutamontes do BBB. Eles sempre estão cobertos de berros de razão. E são maioria. Mesmo sozinhos, agem como se estivessem em bando.

Assistir ao Dourado é a purgação de todas as grosserias e preconceitos arraigados no senso comum. Ele é o herói da obviedade cavalar. Ele, sim, rigorosamente, é um brother, mano.

Veja mais:

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24 fevereiro 2010

Brasileiro adora celular. E as empresas de telefonia adoram os brasileiros.

Não é para menos. Segundo dados preliminares da Anatel, o Brasil terminou 2009 com 175,6 milhões de celulares. É quase um aparelho para cada cidadão deste país varonil!

celulares Tarifa de celular no Brasil é um roubo, e os políticos nem ligam!

Impressionante. Ainda mais se levarmos literalmente em conta que a tarifa média de celular no Brasil é a segunda mais cara do mundo. O custo da ligação local está em torno de R$ 0,45 o minuto.

Este valor só fica atrás do custo na África do Sul, onde os usuários pagam o equivalente a R$ 0,50 por minuto de conversação. Cobrar caro por ligações celulares deve ser algum critério para sediar a Copa do Mundo.

Só por curiosidade, saibam que na China, Indonésia e Estados Unidos, por exemplo, o custo do minuto de conversação é de R$0,06. O valor mais baixo registrado é de R$ 0,02. Na Índia.

Claro, ops, que nossa carga tributária é uma pancada.  As teles têm que recolher ICMS, PIS, COFINS, Fistel e Fust. Essa sopa de letras representa até 42% do custo final da tarifa. Elaiê.

Mesmo assim, é um roubo. Um absurdo. Quem se lembra do governo FHC jurando que a privatização da telefonia iria diminuir os custos das tarifas? Hum.

E quem ouviu o governo Lula jurando que as agências regulatórias seriam pressionadas a cumprir seu papel de fiscalizar a farra das empresas telefônicas? Humpf.

Pois então. Vamos aproveitar que esse ano é de eleição presidencial e ficar atentos ao que os candidatos têm a dizer sobre isso. Não que eles vão cumprir, se eleitos.

Mas o mínimo que podemos fazer é torrar a paciência desse pessoal. Só não recomendo ligar para eles. É muito caro.

Veja mais:

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22 fevereiro 2010

vancouver abre O que mais a Globo esconde?

Inúmeros colegas da imprensa já deram o recado: a audiência dos Jogos Olímpicos de Inverno foi surpreendente. Quem achava que a Record ia entrar numa fria se deu mal.

O povo não é bobo. É capaz de ligar seu televisor para conhecer e se encantar com novidades. O brasileiro é curioso e tem bom gosto. Não é o estúpido que alguns barões da mídia acham.

O que me interessa discutir aqui não são as estranhas regras do curling ou do skeleton, mas as entranhas de outro jogo. O de esconde-esconde. Não aquele da infância de todos nós. Mas a brincadeira que a Globo faz com seus telespectadores.

A Velha Senhora detinha os direitos de transmissão dos Jogos de Inverno há anos. Mas o escondeu de todos nós. Pagou para não exibir. Nem deixar que outros exibissem. Encastelada no Jardim Botânico, decidiu o que uma nação gostaria ou não de acompanhar. Talvez porque nos julgue estúpidos demais.

Mas tão estúpidos que a Globo resolveu simplesmente ignorar os Jogos de Vancouver. Não deram um segundo sequer sobre esse fenômeno que tomou conta das nossas telinhas. Esconderam de novo! Em resposta ao Estadão, que no último dia 19 publicou a pergunta óbvia (por que vocês não falaram dos Jogos de Inverno?), veio a arrogância.

Descreve o jornal: "a emissora alega que não falou sobre o evento porque não viu fato 'relevante' (um competidor morreu em uma prova), não possui os direitos de transmissão - que foram da Globo até 2006 e agora são da Record - e porque não possui ninguém de sua equipe lá cobrindo. Opa: e a turma do Sportv?", conclui a colunista Keila Gimenez.

Traduzindo: em 2006 foram realizados os Jogos de Inverno de Turim, na Itália. Lembra? Não, ninguém pode lembrar, só os executivos mestres globais.

A morte do atleta georgiano, no luge, foi tão irrelevante que a imprensa mundial noticiou. Sobre a turma do Sportv, eles são da Globo, estão lá, dividem a cobertura de inúmeros outros eventos, vivem usando microfone com o logotipo das duas emissoras, mas neste caso... e agências de notícias? Coitada, a Globo não deve assinar nenhuma delas.

Esse esconderijo platinado é bem amplo, nele cabe um montão de coisas. Nesse esconde-esconde, ficamos sem ver as Diretas Já. Esconderam mais de um milhão de pessoas no comício do Anhangabaú. O Lula só apareceu quando virou presidente da República. Aí não dava mais pra esconder.

Leonel Brizola e Luís Carlos Prestes não tiveram a mesma sorte. Sumiram.

Precisaram morrer para aparecer. Aí já era tarde. Só de uma coisa eu não reclamo. A Glória Maria pode continuar escondida.

A Globo, pensando bem, escondeu o quanto pode a história do Brasil. Quem estudar nosso país pelos arquivos do Jornal Nacional nem vai saber que houve uma ditadura militar.

Por isso, temos que torcer para que a concorrência aumente. Para que não haja líder absoluto, concentração de poder, esconderijos.

Aí, sim, a Velha Senhora vai ter que se esconder. De vergonha.

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18 fevereiro 2010

A demissão de Muricy Ramalho será benéfica para todo o futebol brasileiro. Agora só falta o Vanderlei Luxemburgo.

Que fique claro: são profissionais de talento, cada um no seu nível de arrogância. Mas nenhum deles vale o que ganha. Ninguém merece ganhar 450 mil, 500 mil reais por mês. Ninguém.

Muricy Nenhum técnico vale 500 mil reais

Se algum dirigente quer continuar financiando essa obscenidade, que o faça do próprio bolso. Os álibis para o desperdício acabaram. Chega de alimentar o ego e o oportunismo desse pessoal.

É doentia a forma como os técnicos deste país tratam o dinheiro dos clubes. Se ganhassem 20 mil, 30 mil reais, já seria um dinheirão. Mas eles falam de cifras estratosféricas, que começam na casa dos 150 mil. Acorda, gente! Estamos no Brasil!

Os times só bancam essa farra porque estão todos falidos e vivem de rolar dívidas e esperar anistia ou ajuda do governo. São dirigidos por gângsteres. Estelionatários. A conta não fecha.

O futebol brasileiro não tem saúde financeira para arcar com esses salários astronômicos. Não há retorno. É loucura. Em outra oportunidade, podemos falar do que ganham os atletas. Um absurdo de cada vez.

Nada melhor que o Muricy sair dessa forma humilhante. Essa história de tricampeão do Brasileiro, a carreira vitoriosa em todos os times por que passou, é lengalenga. Técnico fica sentado no banco, dando bronca e rabiscando prancheta.

Pior é o tipo que só aceita ganhar essas fortunas se o clube garantir um elenco milionário. Assim até eu. Fora os mercenários que ainda recebem comissões pela venda de atletas que os clubes formaram. Uma safadeza.

O Atlético Mineiro aceitou apostar na megalomania do Luxemburgo, mesmo após sua passagem vergonhosa pelo Santos. Trouxas.

Vamos torcer para que o Muricy vá para um bom time, logo. Seu mau-humor já faz parte do folclore. Só espero que abaixem a bola dele. Que receba um salário honesto. Alguém precisa fechar esse hospício.

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17 fevereiro 2010

Que brasileiro é o rei da hospitalidade, o mundo todo sabe. Os primeiros foram os índios com os portugueses. Deixaram entrar e deu no que deu.

Após séculos de treino, atingimos mais um grau negativo na escala do capachismo. O nível de servidão com as celebridades estrangeiras que vieram ao Brasil na última semana poderia ser caso de segurança nacional.

Devemos ser uma nação com carência afetiva. Tudo bem que é legal receber na nossa casa gente como Beyoncé, Mariah Carey, Madonna e, hum, vá lá, Paris Hilton. Mas não precisamos nos humilhar. Serve um cafezinho com bolo de fubá que está de bom tamanho.

Não é à toa que a gringaiada sai daqui falando bem do país. Lotamos nossos estádios para assistir aos shows que muitos deles só fazem em fim de carreira. O povão canta em coro suas letras em inglês, espanhol, sânscrito, o que for preciso.

É uma clara inversão: a plateia que faz de tudo para agradar. Só pode ser complexo de inferioridade.

Mas o que vimos neste carnaval é o fim da picada. A Madonna veio aqui em novembro de 2009 e levou US$ 7 milhões do Eike Batista (que jamais doaria esse dinheiro para o Corpo de Bombeiros, por exemplo).

montagem R7 Celebridades internacionais tratam brasileiros como súditos

Madonna, Beyoncé e Paris Hilton

Até chorou de emoção, a coitadinha. Leia aqui. Aí voltou.

Com uma recepção dessas, até eu voltaria. Pois ela desembarcou, a convite, para curtir os camarotes hipervips do sambódromo. Ela e a patota dela. Foi tratada como rainha. E nos tratou como súditos, é claro.

Carregou seus seguranças para todo lado, foi cortejada pela elite política, invadiu a avenida durante um desfile, fez a muvuca que bem entendeu. Até beijou na boca um amigo do Jesus. Só pode ter sido o Judas.

A culpa não é dela. Nem da Paris Hilton, a patricinha milionária cujo único talento é trocar de namorados. Andou pra lá e pra cá, se esbaldou, foi bajulada, comeu e bebeu de graça. Por quê? Ainda não entendi.

Lembram daquela modelo fuinha que catou um monte de ricaços brasileiros? Isso, Naomi Campbell! Essa foi a pioneira em se divertir assim, às nossas custas. Ela deve ter contado para as amigas como funciona o esquema. Agora fazem fila para entrar aqui.  Ou melhor, furam a fila.

Creio que está na hora de mudar esses papéis. Querem vir para cá? Sejam muito bem-vindas, as celebridades internacionais e seus milhares de dólares. Vamos tratá-las de forma especial, é nosso jeito. Somos um povo gentil e educado.

Mas espera lá, né? Respeito é bom, todo mundo gosta.  Limpem os sapatos antes de entrar. Usem os capachos do lado de fora.

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12 fevereiro 2010

É bom passar o carnaval em São Paulo. A cidade fica sem os paulistanos. E é a única forma de fugir das estradas entupidas e saguões de aeroportos lotados.

Os congestionamentos e filas, os estressados e endinheirados, os tipinhos mais grosseiros, são todos transportados para lugares até então paradisíacos. Não há destino – do sítio do sogro ao mais extorsivo resort – que escape da horda em fuga.

E são muitas as opções ficando por aqui. Promover uma festa de arromba em casa sem que os vizinhos possam reclamar. Praticar o ócio sagrado. Ficar vendo na TV o quanto descendemos dos macacos. Evoé.

Não consigo entrar no clima de histeria consentida dos sambas-enredo, axés, trios elétricos, tambores e danças tribais. Morro de tédio vendo aquele monte de gente explodindo de alegria.

Carnaval é um surto coletivo muito estranho. As pessoas ficam pulando e suando no meio da rua. Argh. Ou correndo em círculos num salão lotado. Afe.

Isso sempre me pareceu uma catarse mais apropriada a povos nórdicos ou de libido refreada por séculos de civilização. Nada a ver com um país como o nosso, que exala safadeza o ano todo e não precisa de efemérides para soltar a franga.

Carnaval foi feito pra mulherada. Elas ficam ainda mais nuas e podem se contorcer freneticamente ao som dos atabaques. É a dança do acasalamento em sua plenitude. Que bonito é.

O resto são homens babando e exercendo ao extremo a capacidade de ser ridículo. Ai, que falta faz o Clóvis Bornay. Aquele sim sabia do que se tratava.

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11 fevereiro 2010

Metropolis93 Querem transformar São Paulo numa cidade dormitório

A região da rua Augusta, no centro de São Paulo, há uns sete anos, era uma área degradada, reduto de skinheads, assaltantes e drogados. Um movimento espontâneo foi levando para lá bares e casas noturnas. As ruas se encheram de jovens em busca de alegria e descontração. A violência e a insegurança diminuíram sensivelmente.

Quando o clima de festa se consolidou, apareceu o poder público. A prefeitura, que não fez absolutamente nada pela recuperação daquele espaço, começou a promover dezenas de blitze, multando e fechando as baladas. Que beleza.

Na praça Roosevelt, um único morador, incomodado com a “bagunça”, conseguiu retirar as mesinhas que enfeitavam as calçadas. Parabéns. Com a rua deserta, voltaram os nóias e ladrõezinhos violentos. O tal morador agora pode dormir em paz, enquanto pessoas são baleadas por lá, de madrugada.

Já a famosa região dos Jardins chegou a ter uma das vidas noturnas mais animadas da cidade. Abrigava mais de 30 boates só nas imediações da rua da Consolação. Era um espetáculo.

Nos últimos dez anos, paulatinamente, cada um desses espaços foi fechado. Mesmo os que tinham alvará. Todos os órgãos de fiscalização baixavam por lá de uma só vez. Um massacre. Não sobrou ninguém para animar a festa.

Os abastados moradores do pedaço comemoram essa vitória. Conquistada com a inestimável ajuda da prefeitura. A mesma cuja lei de zoneamento define como misto o uso daquela região. Lá não é uma zona estritamente residencial. Mas ficou sendo. E aí está o xis da questão.

Diferentemente de uma zona restrita a moradias, nessas áreas mistas, não só pode como é desejável que se abram pontos comerciais. É isso que dá vida, riqueza e dinâmica a uma metrópole. A diversidade.

Isso não é um problema só de Sampa. O jornal francês Le Monde recentemente apelidou Paris de “Capital Europeia do Tédio”. Pelo mesmo motivo, as leis que sufocam a vida noturna.

Semana passada, um grupo de empresários entregou ao prefeito de lá uma petição com 14 mil assinaturas. Eles querem uma regulamentação mais branda e horários de funcionamento flexíveis para bares e boates.

Em Amsterdam, na Holanda, botecos são multados se seus clientes beberem em pé na varanda. Só pode sentado! Um manifesto de moradores angustiados questiona o excesso de regras: “O que está acontecendo?! Quem pediu isso?!”. Boa pergunta.

Como já disse, se você não é um careta amargo e sombrio, deveria estar seriamente preocupado. E começar a combater essa fúria fiscalizatória.

O executivo e o legislativo municipal precisam discutir e entender qual a vocação de uma cidade como São Paulo. Estimular uma vida heterogênea, vibrante, moderna. Criar regras rígidas para o uso misto e estimular zonas boêmias, que fiquem no meio do caminho entre a casa e o trabalho.

Por algum motivo melancólico, a maioria das pessoas não sai à noite para se divertir. Ficam em casa, mofando. É um direito delas. Digamos que, para 70% da população, a cidade poderia apagar todas as luzes depois das dez da noite. Isso é de dar calafrios. Credo.

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10 fevereiro 2010

Estão matando a noite de São Paulo. Não duvidem. E se você não é um careta, uma pessoa amarga e sombria, deveria estar seriamente preocupado. Nossa vida vai ficar bem besta.

A morte da vida noturna já está em andamento nos países considerados desenvolvidos. Os arianos branquelos estão praticando esse homicídio urbano há anos. E agora nossos políticos geniais resolveram copiá-los.

Poderíamos estar importando a eficiência do transporte público europeu, ou a distribuição de renda dos americanos. Mas não. Estamos clonando as leis higienistas e reacionárias deles.

É barato regular a vida dos cidadãos. Na verdade, é custo zero. Em vez de gerar empregos, construir metrô ou remunerar professores dignamente, a turma dos palacetes prefere publicar leis que encham o saco dos que querem ter uma vida menos ordinária.

Quanto custa fechar uma boate? Ou obrigar um bar a retirar suas mesinhas das calçadas? Ou impedir a abertura de uma lanchonete 24 horas? Quase nada. Basta pagar um salário de fome para fiscais e gastar papel para imprimir o Diário Oficial.

O governador José Serra vai ser lembrado mais pela lei antifumo do que por sua falta de investimentos em hospitais. Leitos custam caro.  O prefeito Kassab não resolveu o problema das enchentes, mas soube encher a paciência de quem curte a noite. Fácil.

Vai anotando: lei seca, lei do silêncio, regulamentação do uso de calçadas, burocracia para emissão de alvarás, lei cidade limpa, lei contra o cigarro. E multas, muitas multas. A fúria fiscalizatória já fez centenas de vítimas.

Aí vão dizer: mas são leis justas! Todos temos direito a dormir sem barulho, a circular pelas calçadas em paz, a ser poupado de uma boate na porta das nossas casas. Também acho!

Mas todos temos direito à diversão, à festa, ao encontro com os amigos, a uma churrascada no fim de semana. Ou não? Meu direito começa onde termina o do outro, certo? E o vice-versa?

O direito dos não-fumantes todo mundo conhece. E o direito dos fumantes? Aí não vale? O direito ao silêncio vale. E o direito à festa? Não existe. Só se for matinê.

São Paulo é uma cidade cosmopolita. Ano passado, tornou-se o principal destino turístico no Brasil. Por que alguém viria passar férias em Sampa? Para ver cratera de metrô e buraco de rua que não é.

O que faz dessa cidade algo além de um pesadelo caótico? É sua exuberante, magnífica e enlouquecida vida noturna. Sua gastronomia, as baladas, o carnaval boêmio que vira a madrugada. A vida correndo lá fora.

Não precisa descobrir a América. Toda cidade tem um Plano Diretor. E todo Plano Diretor prevê a existência das zonas mistas. Mista quer dizer que se mistura. Residências com comércio, por exemplo. Zonas estritamente residenciais? Aí só vale casinhas.

E numa região como a da Rua Augusta, de classe média? E os Jardins, dos bacanas? São áreas mistas. Mas o que aconteceu lá? Depois eu conto.

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4 fevereiro 2010

Experimentei esta semana fazer um pouco de crítica de TV. Moleza. Um dia ainda vivo disso. Basta manter um ar de superioridade, destilar um veneno básico e levar um troco pra casa.

Tem uma turma que só faz isso. Os especialistas. Alguns até se julgam especiais. Daria para escrever um post sobre cada um deles. Seria divertido. São todos muito engraçados.

Por questão de respeito, podemos começar pelo mais velho. Flávio Ricco, do Uol. Ele é tão vivido que trabalhou na Tupi e com o Ferreira Netto. Meninos, eu vi.

Hoje, por acaso, li que ele criticou a Globo pelo horário em que a emissora exibe a série 24 Horas. De acordo com nosso professor, muito tarde. Foi para o quadro negro, pegou giz branco, sublinhou em amarelo, fez estrelinha e só faltou dar ponto negativo a profissionais de programação que fazem isso há décadas.

Talvez por tamanha longevidade, ele assume este ar professoral, aquele de antanho. Fala sobre a televisão brasileira como se estivesse telefonando para Oxford. A cobrar, claro.

Sempre que pode, dá dicas ótimas para a alta direção das emissoras. Afinal, eles têm muito que aprender, não é mesmo?

Sabe tudo de grade de programação, dramaturgia, musicais, luz, figurino e evolução. E distribui sua sabedoria, sem mesquinharias. Até a TV Cultura tem solução, se depender dele.

E assim lá vai o Flávio Ricco. Todo pimpão. Dando bronca no Jack Bauer, dicas de figurino para a Carolina Ferraz, de interpretação para a Fernanda Montenegro, de administração para o João Saad. Falta ensinar Silvio Santos a vender carnê. Se bem que já deve ter feito isso.

Podem procurar na Wikipédia. A tríade fantástica que criou a moderna televisão brasileira é composta por Walter Clark, Boni e... hum... não, não é o Ricco... Fui dar uma olhadinha na Barsa. Oxi. Lá também não aparece o nome dele. Ué.

Bem. Toda família tem aquele tiozinho que distribui lições de vida. Fica todo mundo fazendo de conta que está ouvindo. Questão de respeito.

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3 fevereiro 2010

O Brasil acordou com um problemão. Não tem mais a quem odiar. Tessália foi expulsa de forma humilhante do BBB 10. Mataram a Odete Roitman no início da novela. E agora?

A vilã. A megera. A vadia. O talento da menina para fazer inimigos é espetacular. Um misto de leveza, sensualidade, arrogância e maquiavelismo realmente intrigante. Um personagem raro.

O brasileiro, pelo visto, prefere vilões óbvios. Não gosta de mocinhas doces que quebram as regras olhando no olho do telespectador. A turma prefere bandidos com cara de mau. Se não confunde, né?

O próximo movimento é o povão sentir alguma pena dessa moça. Ela foi duramente castigada. Está sendo esquartejada em praça pública. Jogaram pedra na Geni. Só nos restará o perdão.

Lembram do tórrido vídeo da Cicarelli com o namorado, nas praias de Cádiz? Ela foi dada como morta para a TV. Morreu mesmo, mas ainda recebe cachê. Brasileiro é bonzinho.

Mas tem surtos inquisitoriais de moralismo. Vejam a profusão de corpos nus cometendo adultérios na trama das oito. O pessoal está bravo. Porque uma mulher chifrada decidiu botar galhos no marido cafajeste. Isso não pode.

Também não é permitido se esconder debaixo do edredom para carícias colegiais. É indesculpável. A Sabrina e a Grazi também ficaram com homens comprometidos no BBB. Mas elas são fofas. E burrinhas. Então, pode.

A truculência é privilégio dos marmanjos. A sexualidade também é atributo masculino. Ficam charmosos, os safados. O Dado Dolabella, por exemplo. Um galã.

A Tessália deveria namorar o Igor Cotrim, da Fazenda. Este rapaz representou um vilão de comédia divertidíssimo. Inteligente, debochado, inquieto.

igor tessalia A Tessália deveria ter um caso com o Igor Cotrim

Eles fariam um par antológico. Como o Igor é bem casado, teríamos um começo eletrizante. Ele cuidaria dos diálogos sarcásticos. Ela planejaria cada uma das artimanhas. Trariam audiência. Mas seriam eliminados antes da decisão.

Façam uma pesquisa: a maioria dos que vencem realities shows é fuinha. Sem graça. Pastel. Tonto. É a vingança dos fracos e oprimidos.

Mas é só um jogo. Na vida real, o vilão se dá bem. Foge com o dinheiro roubado para o Caribe. Manda bananas para o povo brasileiro. Como nas novelas de hoje em dia.

Ai, que saudades da Odete Roitman, a vilã que pagou por todos os seus erros. No final. Que falta que ela faz.

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