10 fevereiro 2010

Estão matando a noite de São Paulo. Não duvidem. E se você não é um careta, uma pessoa amarga e sombria, deveria estar seriamente preocupado. Nossa vida vai ficar bem besta.

A morte da vida noturna já está em andamento nos países considerados desenvolvidos. Os arianos branquelos estão praticando esse homicídio urbano há anos. E agora nossos políticos geniais resolveram copiá-los.

Poderíamos estar importando a eficiência do transporte público europeu, ou a distribuição de renda dos americanos. Mas não. Estamos clonando as leis higienistas e reacionárias deles.

É barato regular a vida dos cidadãos. Na verdade, é custo zero. Em vez de gerar empregos, construir metrô ou remunerar professores dignamente, a turma dos palacetes prefere publicar leis que encham o saco dos que querem ter uma vida menos ordinária.

Quanto custa fechar uma boate? Ou obrigar um bar a retirar suas mesinhas das calçadas? Ou impedir a abertura de uma lanchonete 24 horas? Quase nada. Basta pagar um salário de fome para fiscais e gastar papel para imprimir o Diário Oficial.

O governador José Serra vai ser lembrado mais pela lei antifumo do que por sua falta de investimentos em hospitais. Leitos custam caro.  O prefeito Kassab não resolveu o problema das enchentes, mas soube encher a paciência de quem curte a noite. Fácil.

Vai anotando: lei seca, lei do silêncio, regulamentação do uso de calçadas, burocracia para emissão de alvarás, lei cidade limpa, lei contra o cigarro. E multas, muitas multas. A fúria fiscalizatória já fez centenas de vítimas.

Aí vão dizer: mas são leis justas! Todos temos direito a dormir sem barulho, a circular pelas calçadas em paz, a ser poupado de uma boate na porta das nossas casas. Também acho!

Mas todos temos direito à diversão, à festa, ao encontro com os amigos, a uma churrascada no fim de semana. Ou não? Meu direito começa onde termina o do outro, certo? E o vice-versa?

O direito dos não-fumantes todo mundo conhece. E o direito dos fumantes? Aí não vale? O direito ao silêncio vale. E o direito à festa? Não existe. Só se for matinê.

São Paulo é uma cidade cosmopolita. Ano passado, tornou-se o principal destino turístico no Brasil. Por que alguém viria passar férias em Sampa? Para ver cratera de metrô e buraco de rua que não é.

O que faz dessa cidade algo além de um pesadelo caótico? É sua exuberante, magnífica e enlouquecida vida noturna. Sua gastronomia, as baladas, o carnaval boêmio que vira a madrugada. A vida correndo lá fora.

Não precisa descobrir a América. Toda cidade tem um Plano Diretor. E todo Plano Diretor prevê a existência das zonas mistas. Mista quer dizer que se mistura. Residências com comércio, por exemplo. Zonas estritamente residenciais? Aí só vale casinhas.

E numa região como a da Rua Augusta, de classe média? E os Jardins, dos bacanas? São áreas mistas. Mas o que aconteceu lá? Depois eu conto.

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