11 fevereiro 2010

A região da rua Augusta, no centro de São Paulo, há uns sete anos, era uma área degradada, reduto de skinheads, assaltantes e drogados. Um movimento espontâneo foi levando para lá bares e casas noturnas. As ruas se encheram de jovens em busca de alegria e descontração. A violência e a insegurança diminuíram sensivelmente.
Quando o clima de festa se consolidou, apareceu o poder público. A prefeitura, que não fez absolutamente nada pela recuperação daquele espaço, começou a promover dezenas de blitze, multando e fechando as baladas. Que beleza.
Na praça Roosevelt, um único morador, incomodado com a “bagunça”, conseguiu retirar as mesinhas que enfeitavam as calçadas. Parabéns. Com a rua deserta, voltaram os nóias e ladrõezinhos violentos. O tal morador agora pode dormir em paz, enquanto pessoas são baleadas por lá, de madrugada.
Já a famosa região dos Jardins chegou a ter uma das vidas noturnas mais animadas da cidade. Abrigava mais de 30 boates só nas imediações da rua da Consolação. Era um espetáculo.
Nos últimos dez anos, paulatinamente, cada um desses espaços foi fechado. Mesmo os que tinham alvará. Todos os órgãos de fiscalização baixavam por lá de uma só vez. Um massacre. Não sobrou ninguém para animar a festa.
Os abastados moradores do pedaço comemoram essa vitória. Conquistada com a inestimável ajuda da prefeitura. A mesma cuja lei de zoneamento define como misto o uso daquela região. Lá não é uma zona estritamente residencial. Mas ficou sendo. E aí está o xis da questão.
Diferentemente de uma zona restrita a moradias, nessas áreas mistas, não só pode como é desejável que se abram pontos comerciais. É isso que dá vida, riqueza e dinâmica a uma metrópole. A diversidade.
Isso não é um problema só de Sampa. O jornal francês Le Monde recentemente apelidou Paris de “Capital Europeia do Tédio”. Pelo mesmo motivo, as leis que sufocam a vida noturna.
Semana passada, um grupo de empresários entregou ao prefeito de lá uma petição com 14 mil assinaturas. Eles querem uma regulamentação mais branda e horários de funcionamento flexíveis para bares e boates.
Em Amsterdam, na Holanda, botecos são multados se seus clientes beberem em pé na varanda. Só pode sentado! Um manifesto de moradores angustiados questiona o excesso de regras: “O que está acontecendo?! Quem pediu isso?!”. Boa pergunta.
Como já disse, se você não é um careta amargo e sombrio, deveria estar seriamente preocupado. E começar a combater essa fúria fiscalizatória.
O executivo e o legislativo municipal precisam discutir e entender qual a vocação de uma cidade como São Paulo. Estimular uma vida heterogênea, vibrante, moderna. Criar regras rígidas para o uso misto e estimular zonas boêmias, que fiquem no meio do caminho entre a casa e o trabalho.
Por algum motivo melancólico, a maioria das pessoas não sai à noite para se divertir. Ficam em casa, mofando. É um direito delas. Digamos que, para 70% da população, a cidade poderia apagar todas as luzes depois das dez da noite. Isso é de dar calafrios. Credo.
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