2 fevereiro 2010

Perdi meu tempo vendo alguns minutos do reality show do SBT, Solitários. É degradante. Passou do No Limite.

O que mais me intriga nessas porcarias nem é que tenha gente disposta a dar audiência para algo de tão mau gosto. Nem o absoluto amadorismo da produção. As apresentadoras, cruz credo. Quanta cafonice.

Rigorosamente patológicos são os motivos que levam supostos seres humanos a participar de um troço desses. Uma das moças disse que entendeu o sentido da vida após ficar trancafiada num cubículo, sendo massacrada. Vida besta, a dela, hein?

Não consigo entender. A taxa de desemprego vem caindo, não há o que justifique tamanho desespero. Mais digno morrer de fome do que de vergonha.

Mas esse programa representa só o cúmulo de uma tendência da TV, no mundo. De uma videocassetada para cenas de humilhação explícitas é menos que um toque no controle remoto.

Uma rede de TV da Grã-Bretanha, a Fulcrum, busca doentes terminais que topem ser embalsamados em frente às câmeras. Que nem os faraós e sacerdotes do antigo Egito. Juro. Doença terminal é ter uma ideia dessas!

Até um programa bucólico como o A Fazenda escorrega em cenas de constrangimento público. Testes de resistência física e psicológica cada vez mais se aproximam daqueles treinamentos da Tropa de Elite.

Parece que isso agrada às emissoras, ao público e, principalmente, aos que se inscrevem nessas gincanas sadomasoquistas. Ninguém mais quer estudar, ter um trabalho decente, tomar banho em paz?

Então, tá. Já que o Estado decide por nós que devemos usar cintos de segurança, dirigir sóbrios e não fumar em recintos fechados, passemos ao que interessa.

Ninguém pode ser humilhado, seviciado, constrangido ou explorado em público. Nem por livre e espontânea vontade. Isso é lei. Está na Constituição. Nem precisa inventar.

Quer fazer isso em casa, com a patroa ou o maridão? No cafofo do seu lar? Tudo bem. Divirtam-se. Mas de jeito nenhum isso pode ser feito para deleite ou despeito de milhões de pessoas, seja na TV aberta, no cabo, na internet ou na telinha do celular.

Chega de propagar essas aberrações. Pânico na TV, Sonia Abrão, CQC, Datena, Faustão, BBB, A Fazenda, o que for. Virem-se. Divirtam e entretenham o público com atrações que não sejam escatológicas e bestiais.

A dignidade humana não está à venda. Muito menos por 50 mil reais, como no SBT. Ou por um milhão e meio, uma capa de Playboy, uma entrevista para a Luciana Gimenez.

Gosta de se divertir com a desgraça alheia? Se case e fique olhando para o infeliz ou a cretina que aceitou viver ao seu lado.

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1 fevereiro 2010

A Lei Rouanet criou o modelo de financiamento cultural mais injusto do planeta. As grandes empresas deixam de pagar impostos em troca de patrocinar espetáculos inacessíveis à maioria da população.

Muitos bancos construíram teatros e centros culturais elitistas, fizeram pose de bacana e literalmente se lixaram para a plateia. É revoltante.

Ano passado, 80% dos recursos aplicados foram para a região Sudeste, com 60% para Rio de Janeiro e São Paulo. Do total de investimentos, 50% foram destinados a apenas 3% dos autores de projetos. Concentração total. Patotinha.

O governo agora enviou um novo projeto para o Congresso. Quer acabar com a mamata da renúncia fiscal sem contrapartida. Nada daquela obscenidade de dar R$ 8 milhões para o Cirque du Soleil cobrar ingressos “populares” de R$ 350.

cirquedusoleilalegria Mudança na Lei Rouanet pode irritar a patotinha

Outra grande mudança é o fortalecimento do Fundo Nacional de Cultura. A ideia é distribuir R$ 8 milhões diretamente aos produtores culturais, sem intermediários. Uia.

Se alguma empresa quiser investir em cultura, que pague algum preço por isso. Não existirá mais renúncia de 100%. Vão ser 80%, 60% ou 40%. E nada de estampar marcas ou logotipos.

Tudo muito lindo. Mas se preparem que a chiadeira vai ser grande. Vão dizer que isso é dirigismo cultural, que o governo vai apadrinhar seus queridinhos, blábláblá.

Vai melhorar, dá para garantir. É só ficar de olho nas comissões que seriam formadas para definir o destino do dinheiro.

Eu sugiro que todos acompanhem a tramitação desse projeto. Não dá para ficar assistindo à briga de camarote. Na verdade, nem da arquibancada. Se marcar touca, vamos continuar todos do lado de fora.

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